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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo I

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Consolo e distrações de uma senhora.

 

 

 

Capítulo I - A Constituição da família.

 

Sentada em seu vasto e pouco florido jardim, resguardada à sombra e à temperatura confortável daquela tarde de sábado de outono, uma senhora de longos cabelos castanhos e aparência cansada observava suas crianças brincarem entre si.

 

A senhora tencionava acompanhar as crianças em suas brincadeiras, mas todo o esforço que fez durante a semana deixou-a fatigada; o que a obrigava a confiar os cuidados das três crianças menores às duas mais velhas. Eram todas meninas de aparência bem cuidada. Apenas a aparência da senhora destoava. Parecia revelar o desgaste e os danos causados por uma vida um tanto desgostosa.

 

Observava atentamente a disposição da filha mais velha para cuidar das mais novas. Sorria com orgulho ao constatar que a beleza de seus dezesseis anos revelava-se progressivamente.

 

A senhora amava aquela filha como se fosse o prêmio que tivesse recebido por casar-se tão nova. Via nela o reflexo da beleza que possuía em sua juventude: a pele alva, o mesmo cabelo castanho claro e ondulado, os olhos cor de mel, fixados em um rosto corado e aparentemente ingênuo. E então se lamentava por sua própria beleza já perdida.

 

Afastando a tristeza que acometia seus pensamentos, passou a observar sua segunda filha. “Esta em nada se assemelha a mim.” – pensava esboçando um leve sorriso no rosto. “É a cópia de meu marido adornada com a feminilidade de seus quase quinze anos.” – completava para si mesma.

 

Os olhos escuros e penetrantes da segunda filha justificavam a precipitação que a fez casar-se aos 19 anos, logo depois de terminada a formação elementar em uma escola para moças. Era evidente que a vivacidade e inteligência de sua filha demonstravam perfeitamente as características de seu marido, assim como seus cabelos negros com cachos esporádicos e a pele levemente bronzeada.

 

As lembranças da juventude afloravam lágrimas e os olhos marejados da senhora capturaram a atenção da terceira filha, que se aproximava com cautela.

 

--- Está triste, mamãe? – arguiu a terceira filha com visível preocupação.

 

--- Oh, minha querida! Estou muito bem. – respondeu a senhora tentando não chamar a atenção das outras; o que era dificultoso devido a seus modos sobressaltados. – Apenas estou a me lembrar das razões da existência de nossa família. – completou a resposta, enxugando as lágrimas.

 

--- Não chore, mamãe! – disse a filha abraçando a senhora.

 

A terceira filha não bebera da mesma fonte de beleza das demais. A senhora, quando a olhava entre as outras crianças, sentia um aperto no peito, pois pensava que sua filha sofria por ser tão retraída e solitária. Apesar dos esforços que a menina fazia para compartilhar interesses com crianças de sua idade, fazia escassos progressos de comunicação.

 

--- Não vou mais chorar, minha querida, se me prometer que voltará a brincar com suas irmãs e se divertirá bastante!

 

A filha prometeu; como sempre comedida e submissa às instruções de comportamento que lhes davam os mais velhos. Em seus treze anos de idade, de tanto que temia não ser aceita para adentrar o tão esperado universo dos adultos, tornara-se tão comedida que quando tentava expor suas reflexões, seu pai visualizava tolice na exposição de suas ideias.

 

A senhora sentia-se triste com tais referências do marido, que também as dirigia as outras filhas mais novas.  Mas lembrando-se do que disse a filha e, querendo despreocupá-la, voltou a observar as brincadeiras animadas que suas meninas desenvolviam.

 

A quarta filha apresentava vivacidade evidenciada em seus onze anos de idade. Encantava a senhora a energia que a menina possuía para pular, sorrir, cantar e correr atrás dos bichinhos que apareciam no jardim em pleno outono.

 

A senhora referia-se a esta filha como consolo e alegria nos momentos de solidão; quando o marido a deixava em virtude das raras caçadas que fazia ao redor da propriedade da família, na região de Hertfordshire, Inglaterra, ou das viagens de negócios que lhe garantia o sustento.

 

A menina tencionava seguir o modelo da mãe, o que já era comum na lembrança das semelhanças físicas de sua juventude. Tinha a pele clara, olhos vívidos de um tom cor de mel mais forte que o dos olhos da menina mais velha. E possuía uma inocência aparente.

 

Ao ver sua filha mais nova correndo e sorrindo de forma desenfreada, assustou-se, virando-se na direção da filha mais velha em exclamação:

 

--- Segure-a, Jane! Não a deixe cair próximo a poça de lama! – seu grito incomodou os ouvidos da segunda filha, que não entendia como sua mãe podia agir de forma tão escandalosa.

 

Virando-se para a segunda filha, ordenou a senhora:

--- Ajude- a, Elizabeth. Não deixe minha pequena sujar-se de forma tão grotesca.

 

Jane correu e segurou a irmã mais nova a tantos metros de distância da poça mencionada que não pode deixar de rir da exasperação da mãe. Em seguida a terceira filha observou, em baixo tom, para as outras, seu entendimento sobre o estado da mãe; o que causou uma exclamação arredia por parte da filha mais nova.

 

--- Acho que mamãe age assim porque está triste, por sentir falta do papai. As esposas necessitam da presença constante do marido como apoio para que reine a felicidade em um lar. – afirmou a terceira filha com convicção.

 

--- Oh, Mary! Então é por falta do papai que mamãe reclama tanto de seus nervos! – afirmou em alto tom de voz a filha mais nova. E virando-se para a quarta filha, disse-lhe, provocando o riso de todas as irmãs: --- Se nos casarmos algum dia, Katherine, podemos exigir de nossos maridos que não viajem!

 

A senhora adentrou o círculo das meninas pegando a mais nova no colo e lhe dando um beijo caloroso na testa.

 

--- Minha Lydia! – dizia a senhora. --- Nem parece que tem apenas dez anos.

 

Lydia era, sem sombra de dúvidas, a filha mais adorada da senhora. Sua vivacidade era ainda superior a de Katherine. Tinha ares de liderança e uma expressão de menina inquieta e extrovertida, mas era afigurada como um anjo.

 

A senhora entendeu que já estava tarde. E, para evitar que qualquer de suas filhas adoecesse, fez com que entrassem e pediu que um dos criados trouxesse a refeição das meninas até a sala de jantar.

 

Essa era a rotina de férias da senhora enquanto esperava seu marido voltar de viagem. Suas filhas eram seu consolo diante das escassas notícias que recebia dele. As viagens, embora pouco frequentes, duravam de uma semana a quinze dias, raras vezes menos que isso, pois o marido deseja resolver todas as suas questões por meio de um único deslocamento. E quando estava em casa, o marido reclamava paz ao ambiente, ia à caçadas que duravam um dia inteiro ou, como muitas vezes ocorria, trancava-se em seu pequeno escritório.