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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo II

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo II – Principal distração.

 

A senhora acordou com excessiva disposição naquela manhã. Sentia desejo de passear com suas filhas até a região de Meryton. Pensava que caminhar algumas milhas não lhe faria mal e acalmaria seus nervos. Aproveitaria para provar e escolher vestidos na única modista existente em Hertfordshire. Seria um presente adequado para envaidecer-se pelo aniversário de suas filhas mais novas, cuja data era tão próxima que a obrigava a comemorar de uma só vez.

 

--- Meninas! Arrumem-se todas! Vistam algo confortável, pois vamos passear em Meryton.

 

--- Não sei como se pode chamar de vestimenta confortável algo que contenha um espartilho. – gritou Lydia reclamando dos apertos que a criada lhe dava enquanto a vestia.

 

A senhora dirigiu-se a seu marido durante o café da manhã, pedindo que enviasse a carruagem no fim da manhã, pois voltaria trazendo presentes para suas filhas.

 

--- Diga-me que não gastará muito! Não estamos em condições de adornar a beleza das meninas como seus impulsos pouco controláveis desejam.

 

--- Ora! Gastarei apenas o suficiente para alegrá-las nesta data, senhor! Comprarei adornos para Eliza e Jane também, pois acredito que o jovem Hunsford se declarará em breve! Minha Jane poderá casar-se tão nova. Pelo que sei o rapaz tem uma renda anual pequena, mas assumirá os negócios do pai e poderá levar nossas outras meninas a casamentos vantajosos.

 

--- Creio que nossa Jane não deve cometer atos dos quais provavelmente se arrependerá mais tarde, senhora. Um jovem tolo e aparentemente tímido...!

 

As seis mulheres caminhavam animadamente por Meryton. Ao avistar a loja da modista a euforia da senhora Bennet contagiou suas filhas de tal modo que comprar um vestido tornou-se mais importante que respirar.

 

Enquanto a senhora aprovava os tecidos para a vestimenta das meninas, conversava animadamente com outra senhora conhecida por sua habilidade de assimilar acontecimentos da vida alheia.

 

--- O senhor Hunsford parece encantado por uma jovem senhorita, cujo nome não me foi revelado. Mas, ao que tudo indica, sua inclinação é forte e lhe inspira poesia.

 

--- Que interessante, senhora Long! Pena que não fazemos ideia de quem seja tal jovem. Talvez eu deva convidar o senhor Hunsford para jantar em Longbourn e estreitar relações.

 

O marido da senhora já imaginava que teria que esforçar-se ainda mais para cobrir os gastos daquele passeio organizado por ela. Por isso foi pessoalmente vistoriar os animais da propriedade da família, pois sabia que dos passeios de sua esposa jantares também eram consequência.

 

Ao chegar a sua casa, trazendo mais embrulhos do que o previsto, a senhora reclamava de fatiga. Todas as meninas estavam tão apertadas na carruagem, a ponto de Lydia e Katherine deslocarem-se até a casa, imóveis, sentadas nos colos de suas irmãs mais velhas.

 

--- Senhor Bennet! – exclamou a senhora com um entusiasmo inabalável. – Teremos um jantar em poucos dias aqui em Longbourn!

 

--- Estou surpreso, senhora! Sua habilidade de relacionar-se socialmente é admirável. – respondeu o marido com divertimento e falsa surpresa.

 

--- Não deveria admirar-se, senhor. Temos relações com muitas famílias! Desta vez estreitaremos nossas relações com os Hunsford. Quem sabe não teremos uma filha casada em breve! Quero que tudo esteja impecável, pois tenho a sensação que essas reuniões se repetirão. Teremos os Philips, os Long, os Lucas e os Hunsford.

 

De fato a senhora estava com a razão. Mas não totalmente. As reuniões se repetiram com certa frequencia e Jane recebeu as atenções do jovem Hunsford lisonjeada, mas não pareceu encorajá-lo. O jovem escreveu-lhe uma carta contendo versos de amor e de admiração por sua beleza, gerando um entusiasmo sobrecomum para a senhora. Todavia o jovem não se declarou oficialmente e voltou à residência da família, em Londres, sem apresentar maiores explicações.

 

A senhora jamais esqueceu aquele acontecimento por todos os anos que se seguiram. Seus nervos foram ligeiramente afetados pelo resultado supostamente ilógico de seu investimento. Decidiu esperar que o tempo passasse e trouxesse um jovem belo e rico a Hertfordshire; este não escaparia de suas garras de mãe casamenteira.