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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo III

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo III O lado íntimo da senhora.

 

Certa vez, anos mais tarde, a senhora derramava lágrimas semelhantes às derramadas naquela tarde de outono, sentada em um banco de seu jardim, enquanto observava suas meninas conversando e não mais correndo e brincando como quando eram todas crianças. Desta vez quem se aproximou para enxugar-lhe as lágrimas foi Eliza.

 

--- Mamãe. – dizia ela com a firmeza refletida em sua voz. – Não acha que já derramou muitas lágrimas sem que fossem realmente necessárias?

 

A senhora nada respondeu. Mas sua expressão era de assombro pelas palavras proferidas.

 

--- Vamos, mamãe! Converta suas lágrimas em algo que a deixe contente. – e mais uma vez, diante do silêncio quase impossível de se crer, Eliza continuou a falar: --- Ora, senhora Olívia Bennet! Que houve com sua vivacidade e carisma? Não sou mais aquela menina de quinze anos, mamãe. Já tenho dezoito e, vejo como sua tristeza vem lhe consumindo. Por que não conversa com ele?

 

--- Estou admirada com sua ousadia, Eliza! Esses assuntos são muito íntimos para uma mulher conversar com seu marido, ainda mais com sua filha. Lembra-se das regras comportamentais com que foi educada?

 

--- Lembro-me de tudo, mamãe. – Elizabeth não poderia esquecer-se dos momentos em que o senhor Augusto Bennet retornava de suas viagens de negócios, abraçando as filhas com carinho e lançando apenas um olhar à esposa. Via que os nervos de sua mãe deterioravam-se com isto e a senhora fingia observar atentamente os aspectos mais frívolos e banais para desviar a atenção dos olhos do marido, diante da evidente rejeição.

 

À senhora dedicava o marido pequenas ironias por sua postura um tanto escandalosa e reclamações sobre as tolas filhas que acreditava ter.

 

Na semana seguinte, a senhora Olívia inflamou-se com suposta coragem e frágil segurança, e resolveu inquirir o marido antes do jantar, cujos preparativos comandava atenciosamente.

 

Jane, que escutara o diálogo entre sua mãe e irmã, resolveu silenciosamente ajudá-la a vestir-se para o jantar. Pensava que a mãe ainda dispunha de beleza e encantos em seus pesados quase vinte e cinco anos de casamento.

 

--- Ah, Jane! Se eu pudesse vê-las todas casadas e felizes, dispondo de conforto e elegância! – disse a Jane virando as costas para o espelho.

 

--- Não se preocupe conosco, mamãe. No devido momento estaremos felizes e encaminhadas. Agora se mantenha preocupada com sua própria felicidade. – respondeu Jane com sua doçura habitual.