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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo IV

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo IV – Postura ousada e imperativa.

 

A senhora não teve forças para inquirir o marido antes do jantar; então resolveu fazê-lo quando fossem se recolher para dormir. Certificando-se que suas meninas já dormiam, foi até ele.

 

O senhor Augusto Bennet, sentado em sua cadeira favorita, olhava com incredulidade a postura firme com a qual a senhora Olívia adentrou seu escritório naquela noite.

 

--- Algum problema a afligi, Olívia? – questionou o marido, com a sobrancelha esquerda arqueada.

 

--- Há algumas questões que gostaria de discutir com o senhor. – afirmou a senhora, quase deslizando sua postura.

 

Diante do silêncio que se seguiu, o senhor Augusto resolveu encorajá-la, pois a curiosidade o acometeu diante daquela aparição pouco convencional da esposa. Disse-lhe:

 

--- Vamos, Olívia! Adentramos o século XIX há algum tempo; não se encabule tanto em tentar travar um diálogo com seu marido. Não sou tão conservador quanto pareço. – disse divertido, esperando que a esposa fosse falar-lhe sobre algum assunto sem tanta importância, mas que com certeza ela julgava de alto mérito.

 

Esse foi o estopim para que a senhora tivesse certeza do que queria perguntar-lhe e mais ainda da resposta que ouviria, devido à última afirmação do marido. Despejou em seguida, com olhos vívidos:

 

--- O senhor tem uma amante, Augusto Bennet?

 

O senhor Bennet não pode deixar de exprimir, em sua face, o choque que tais palavras provocaram. E sua esposa continuava a olhá-lo fixa e altivamente.

 

A espera pela resposta estava desarmando a senhora Bennet, que tomou fôlego e refez o questionamento. Tamanho foi o espanto do marido diante da ousadia da senhora, que se levantou da cadeira e fitou a esposa descrente. Entretanto suas feições deram lugar a um sorriso leve e divertido.

 

--- Por que me faz esta pergunta, Olívia?

 

--- Por que não me responde de uma vez, ao invés de troçar de mim?

 

---- Não estou sendo irônico, Olívia. Nem desejo brincar com a senhora a respeito de tal assunto. O que a fez perguntar-me isso?

 

--- Então me diga de uma vez, senhor, por que parece o tempo todo rejeitar-me diante de nossas filhas? Por que fica tanto tempo longe e parece não se importar comigo quando volta? Despreza-me apenas porque não pude dar-lhe o tão desejado filho homem? Não me diga que a razão de suas viagens é o divertimento com uma amante? Espera que ela lhe dê o filho que não consegui lhe dar?

 

O senhor Bennet entendeu inicialmente que sua esposa estava envolvida em uma crise de insegurança devido a suas ausências, associadas aos comentários genéricos da sociedade de que os homens casados cometem traições com naturalidade. Todavia ao observar a expressão severa de sua esposa, constatou que ela estava questionando sua moral. E isso o irritou consideravelmente.

 

--- A senhora tenha compostura, senhora Bennet! Não me tome como um homem qualquer e destituído de moral. Disse-lhe que não sou tão conservador quanto pensa, mas não que a senhora tem o direito de adentrar minha intimidade e questionar minha moral.  – dizendo isto, respondeu à esposa com veemência e olhos inflamados. --- Sou seu marido, se recorda?

 

A senhora, diante daquela reação, estremeceu. Sabia que não seria fácil ter tal diálogo com o marido. Novamente tomou fôlego para responder ao marido, dando dois passos em direção a ele; e em baixo tom, olhando em seus olhos, olhos nos quais um dia se perdera, disse-lhe:

 

--- Pois, às vezes, penso que é o senhor que não se recorda disto.

 

O senhor Bennet sentira-se profundamente ofendido com a acusação que lhe fez a esposa. E suas feições demonstravam a indignação que lhe invadia.

 

O impedindo de expulsar toda ira que tencionava proferir, a esposa desferiu as palavras finais que o fizera atingir o ápice da ira.

 

--- Parece-me, senhor Bennet, que mantém outra família, dividindo-se entre nós e ela, preferindo a outra como mulher e os supostos filhos que devem ter. Vai negar, senhor? Todos negam!

 

Sem mais forças, a senhora deixou seu corpo pender, sentando-se bruscamente na cadeira, de frente para o marido.

 

--- Acaso perdeu todo o respeito por mim, Olívia? – o nome dela saiu de sua boca como quem gostaria de lhe dar severas palmadas. – Vejo que pouco merece o respeito que lhe tenho. Mas vou responder a pergunta que me fez sem lhe dar a devida sanção, a qual a senhora certamente merece por seu atrevimento, desrespeito e imperiosidade.

 

Continuou o senhor Bennet altivo e visivelmente abalado: --- Não, Olívia! Não tenho uma amante. Não tenho outra família e jamais tiraria um centavo sequer do que é nosso para prover uma relação extraconjugal com qualquer mulher que seja.

 

A senhora olhava-o com os olhos arregalados e a altivez de sua postura dava lugar a uma expressão de dor.

--- A senhora não merece, mas empenho minha palavra como homem que sou e lhe afirmo que nunca tive relação alguma com outra mulher depois que contraímos compromisso. Não tenho interesse em contar-lhe mentira alguma.

 

Pouco a pouco as lágrimas molharam a face da senhora, que só teve forças para um breve pedido de desculpas ao marido, retirando-se do escritório. Ninguém presenciou o acontecimento.

 

A senhora Olívia adoeceu dos nervos, ou pensava ter adoecido dos nervos, depois do diálogo conturbado que tiveram e, por três dias, não saiu do quarto.

 

Em nenhum momento o senhor Bennet dignou-se a visitá-la para verificar seu estado de saúde. Contentava-se apenas com as informações trazidas pelas filhas; o que trouxe ainda mais dor para a senhora. Apenas suas filhas distraiam e consolavam a senhora.