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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo V

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo V - Ensinamentos oportunos.

 

Era manhã de quarta-feira. A senhora Olívia examinava um quadro, que retratava a primavera, em sua sala de visitas. Nesta manhã a senhora desejava reorganizar os móveis, integrando os móveis mais antigos aos de aquisição mais recente. Seu desejo maior era de mudança, reorganização. Na verdade a senhora tencionava esquecer a discussão passada entre ela e o senhor Bennet e direcionar a atenção das filhas para outros aspectos, evitando que percebessem a pouca comunicação entre eles.

 

Após as desarrumações e acertos quanto à posição de um dos sofás e das cadeiras, as cinco filhas adentraram o ambiente pendendo seus corpos sobre os assentos.

 

--- Mamãe! – dizia Katherine dispondo de pouco ar nos pulmões, por quase sentar-se no chão, dado o costume de pender seu corpo sobre a cadeira sem se certificar do local onde ela se encontrava. --- Quase desabo no chão por conta dessas mudanças que a senhora promoveu!

 

O riso tomou conta do ambiente fazendo com que a senhora respondesse imediatamente:

 

--- Ora, Kitty. Uma dama deve sempre observar o ambiente onde se encontra. Caso contrário, como saberá a melhor localização para ser admirada por um cavalheiro? – Continuou em um tom mais sério, porém expressando o espírito juvenil que ainda preservava apesar das adversidades: --- Foram apenas algumas mudanças para trazer alegria a esta sala!

 

--- Ora, mamãe! – interferiu Eliza. --- Kitty tem apenas quatorze anos. Não pode estar intencionada a namoros.

 

---- Não seja tola, Lizzy! – retorquiu a senhora Bennet fazendo uso de uma reclamação bem humorada, referindo-se a filha pelo apelido que o marido tanto gostava. --- Desde novas as moças devem ser bem educadas. E, nessa educação, devemos apreciar não só as boas maneiras; devemos incluir o uso correto dos atributos naturais que nos foram dados!

 

As moças escutavam o discurso da senhora com atenção. Mary especialmente acompanhava os movimentos sobressaltados da senhora, entendendo que proporcionaria, a ela e a suas irmãs, ensinamentos sobre caráter e personalidade das moças. Contudo, ao atentar para o fim do discurso da senhora, a expressão alarmada que se fixava gradualmente em sua face não pode mais ser escondida.

 

--- Sugere que aprisionemos os cavalheiros com nossos encantos, senhora Bennet? – arguiu Eliza apresentando um sorriso visivelmente debochado.

 

--- Que tipo de mãe entende que sou, Eliza? – indagou a senhora supostamente ofendida. Mas logo recuperou a expressão anterior. --- Não estou propondo que usem de artifícios para conquistar admiradores. Tais artifícios são dignos de mulheres oferecidas. Ou, em casos especiais, são necessários para as mulheres desprovidas de beleza. Como deve ser o caso de certa amiga sua, Lizzy; porque não vejo como a Charlotte conseguir um bom casamento tendo nascido feia.

 

--- Mamãe! – Eliza e Jane a repreenderam em virtude dessa afirmação maliciosa.

 

--- Ao menos nós, Bennets, somos as mais belas da região. – interferiu Katherine, rindo excessivamente da declaração da senhora, fazendo com que lágrimas marejassem seus olhos.

 

--- Só falta a Mary desejar ser atingida por um instante de vaidade para caminharmos todas juntas e ouvirmos os comentários mais satisfatórios: “Que família bonita o senhor Bennet possui!”; “A senhora foi presenteada com lindas filhas, senhora Bennet!” – exclamava Lydia rodeando as irmãs e imitando vozes de conhecidos que a família possuía em Meryton.

 

Mary tentava não sentir-se ferida diante dos comentários das irmãs mais novas. Sabia que não era feia e não deveria ser referida como tal. Entretanto também sabia que jamais atingiria a beleza de suas irmãs e nunca pode dizer que já recebeu um olhar interessado de um cavalheiro em seus dezesseis anos de vida. Esta filha da senhora Olívia não almejava o tipo de vida proposto pela mãe. Deseja uma relação de comunicação e companheirismo; aspectos relevantes que a beleza não poderia garantir.

 

--- Oh, sim! Tenho esperanças que Mary se casará, mesmo que seja com alguém de temperamento semelhante ao dela. – Posicionando-se na direção da filha desferiu um conselho. --- Mary possui inteligência! E se souber explorar suas capacidades com entusiasmo e afinco, certamente um bom rapaz se interessará pela pessoa que é. Casar-se-ão e, eu serei uma mãe orgulhosa e gratificada.

 

Jane, desviando seus olhos da mãe, sorriu para Mary compadecida e impotente para proporcionar conforto afetivo naquele momento. Logo seus olhos fitaram a senhora novamente. A senhora Olívia prosseguiu com seus ensinamentos.

 

--- Como estava lhes dizendo... Uma mulher que possui a benção dos atributos naturais deve procurar ser notada pelos melhores cavalheiros em uma reunião social.

 

A senhora voltou suas atenções para Jane:

--- Observem a Jane! Não pode ser tão bela sem razão. Neste instante imaginem Jane de pé ao lado da janela, em um jantar em Longbourn. Visualizem a luz da lua refletindo esse rosto puro e angelical! Evidentemente após uns apertos nas bochechas para ressaltar-lhe a cor. – a senhora piscou para a filha enquanto proferiu esta última frase. --- Por fim, imaginem que encanto estaria adornada com boas fitas! Um convite recatado aos cavalheiros mais bem afortunados e elegantes, sem dúvidas!

 

Jane ruborizava violentamente ao ouvir tais palavras. Sentia o elogio caloroso da senhora ao mesmo tempo em que também se sentia exposta como uma peça a ser leiloada. Muito pior: entendia que o valor mínimo para a aquisição do objeto seria estipulado pela senhora Bennet.

 

Eliza deixou de criticar a postura da senhora para apenas visualizar graça no espetáculo que ela fazia ao explanar seus ensinamentos; afinal, a senhora tinha razão quanto à beleza e recato de sua irmã. Duvidava que para Jane fosse necessário fazer uso de qualquer artifício.

 

Mary já não mais podia ouvir tais coisas.  Flagrou-se, por um momento, pensando o quanto esses conselhos lhe seriam úteis, devido às críticas que recebeu naquela sala. Mas, recuperando-se, voltou a sua postura habitual.

 

Lydia e Katherine admiraram os conselhos da senhora. Decididamente os desenvolveria assim que fossem a jantares e, futuramente, quando lhes fossem permitido, aos bailes que ocorriam com pouca frequência em Hertfordshire.

 

--- Diga-nos, senhora Bennet: fez uso destes conselhos para conquistar o papai? – Lydia, extasiada, indagou com malícia, provocando o riso de Katherine, a surpresa de Mary e a repreensão de Jane.

 

--- Ora, minha querida, já tive meu quinhão de beleza, do qual já não gozo mais.

 

O riso foi impossível de ser contido naquele cômodo da casa. Seis mulheres, um só divertimento.

 

--- Pelo que vejo algumas coisas não mudam nesta casa! – exclamou Eliza, divertidamente.

 

--- Ao menos não mudou meu piano de lugar. – disse Mary sentando-se ao instrumento.

 

--- Dedicação, Mary! Precisa melhorar muito para revelar seu talento. Em breve nos dará orgulho tocando para nossos vizinhos. Toque algo alegre, Mary! Não destas músicas tristonhas que costuma tocar! – interveio a senhora Bennet.

 

Sem resignação, Mary começou a dedilhar sobre o piano e as quatro irmãs iniciaram uma dança em um pequeno espaço na sala.