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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo VI

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo VI – O passado propõe uma visita.

 

O senhor Bennet, naquela manhã, teve seus pensamentos interrompidos pela criada que adentrara seu escritório trazendo consigo uma bandeja contendo cartas. Tratavam-se, em regra, de cartas de negócios e, raramente, havia alguma que lhe trouxesse conteúdo pessoal.

 

Surpreendeu-se ao verificar que a criada trouxera uma carta endereçada à senhora Olívia entre as suas.

 

--- Surpreendente. A senhora Bennet, que não escreve a qualquer pessoa e reclama por não receber cartas, terá suas expectativas alcançadas sem qualquer esforço. – disse o senhor Bennet, virando o envelope entre seus dedos.

 

A senhora Bennet franziu as sobrancelhas ao ouvir do marido que uma carta lhe foi endereçada. O ânimo marcou-lhe a face quando leu o remetente: “Senhora Newton”. Leu para si mesma o conteúdo da carta e comunicou aos presentes:

 

--- Minha amiga Harriet Newton estará em Hertfordshire em alguns dias e espera que possamos recebê-la em Longbourn na tarde de quarta-feira para nos revermos!

 

--- Interessante. – foi tudo que o senhor Bennet respondeu antes de retirar-se da sala.

 

--- Hill! Hill! – a senhora gritava o nome da criada, explorando o máximo potencial de suas cordas vocais e pulmões. --- Preciso de sua ajuda para preparar este encontro. A senhora Harriet, apesar de não gozar de riqueza na juventude, teve um dote significativo e casou-se com um senhor de boas posses.

 

A senhora Bennet e a senhora Newton foram amigas dedicadas durante a juventude. A forma animada e próxima com que se tratavam causava descontentamento entre suas colegas da Escola Preparatória para Moças. Tiveram um pequeno desentendimento antes do casamento da senhora Olívia Bennet e, como ambas tornaram-se mulheres casadas, foram obrigadas a viver em locais distintos.

 

--- Oh, Hill! Quero que a senhora Harriet veja como o senhor Bennet e eu temos belas filhas e vivemos com algum conforto, apesar de não termos riqueza.

 

Na quarta-feira da tão esperada visita a senhora Bennet influenciou as filhas a vestirem-se com trajes bonitos e enfeitarem-se com as mais belas fitas e adornos. Os cabelos das moças estavam impecáveis.

 

A senhora pensava que quanto melhor fosse sua imagem mais a amiga se sentiria feliz, certificando-se de que a senhora Olívia procedeu corretamente ao casar-se com o senhor Bennet.

 

No início da tarde a senhora Harriet Newton adentrara a sala de visitas dos Bennets acompanhada por seu marido e seus três filhos; dois rapazes de quinze e treze anos e uma moça de dezoito anos.

 

A senhora Bennet expressava sorrisos e atenções excessivas para a amiga; sua felicidade era contagiante. Já a senhora Newton não pareceu tão animada quanto ela, o que não passou despercebido aos olhos de Eliza e Mary.

 

O senhor Bennet cumpriu seus deveres sociais com o máximo de esforços que se permitia. Recebeu o senhor Newton amavelmente, mas sem a afetação que a senhora Olívia exprimia devido ao estado de contentamento em que se encontrava. Promoveu um passeio pelo jardim da propriedade e uma conversa em seu escritório enquanto as senhoras e os filhos ainda conversavam na sala de visitas.

 

--- Minha querida Harriet. Senhora Newton! Há tanto tempo que nos vimos. Constituiu uma família tão apresentável. Fiquei imensamente feliz ao receber sua carta.

 

--- Olívia! Não somos mais aquelas meninas tão próximas e amigas. A distância nos separou consideravelmente, desde que resolveu tornar-se a senhora Bennet.

 

--- Oh, Harriet! – Instantaneamente a senhora Bennet falou em tom mais baixo, possibilitando a audição exclusiva da senhora Newton: --- Lembro-me dos conselhos que me deu naquela época. Não poderia esquecê-los. Sempre entendeu imprudente meu compromisso com o senhor Bennet, mas devo assegurá-la de que não me arrependi por tê-lo feito. Podemos não ter o luxo que desejei quando menina, entretanto temos conforto aqui. – A senhora a partir de então aumentou o tom de sua voz, permitindo ser ouvida por todos na sala: ---Veja quantas filhas belas nós temos! São meus tesouros.

 

--- Querida senhora Bennet, o passado está onde deve ficar. Creio que deve preocupar-se com o futuro neste momento. Porque é fato a ausência de um herdeiro para Longbourn. – a senhora Newton proferiu as palavras calmamente, tendo em sua face uma expressão amável.

 

A afirmação da senhora Newton incomodou profundamente a senhora Olívia, todavia esta demonstrava apenas a satisfação de ter a companhia de sua amiga naquele momento. Serviu uma refeição digna de muitos elogios para suas visitas, mantendo-se sorrindo por todo o tempo.

 

A senhora Bennet sugeriu que passeassem pelo jardim com o objetivo de que os jovens se sentissem inclinados a conversar. A filha da senhora Newton, dotada de postura altiva assim como a mãe, inclinou-se a conversar com Jane constantemente. Os dois rapazes, muito mais comunicativos, brincaram comedidamente com Lydia e Katherine.

 

Eliza observava o comportamento de todos, concluindo que o senhor Newton era um cavalheiro amável e atencioso, entretanto sua esposa parecia interpretar uma personagem alegre, mesmo quando parecia estar desconfortável.

 

A senhora Bennet retirou-se do jardim para instruir os criados no momento em que o senhor Newton caminhava acompanhado por seus filhos e as filhas mais novas da família Bennet, permitindo ao senhor Bennet e à senhora Newton um momento a sós, em um local mais afastado no jardim.

 

Sentaram-se em um banco, obedecendo a distância significativa que as convenções sociais exigiam, todavia a intimidade entre eles era perceptível, apesar de não constituir objeto de preocupação para seus respectivos esposos.

 

A senhora Newton introduziu uma questão íntima ao diálogo. O senhor Bennet não expressou surpresa diante de tal iniciativa ousada; seus modos expressavam naturalidade e crítica camuflada pela diversão.

 

--- Hertfordshire é um lugar muito tranqüilo para residir, senhor Bennet. Imagino que sem alternativa para divertir-se deve ser obrigado a divertir-se à custa de minha amiga. – um sorriso indecifrável se fixou na face da senhora Newton.

 

--- Como não divertir-se com as situações constrangedoras de um lar? Ou nos encontros sociais. – respondeu genericamente o senhor Augusto.

 

--- Não creio que deseja ignorar os questionamentos que lhe faço. – a senhora Newton fitou os olhos do senhor Bennet pretendendo observar sua reação em virtude das palavras que proferiu em seguida. ---- Devo acreditar que não foi acertada a decisão de casar-se motivado pela beleza de Olívia, quando poderia ter escolhido entre jovens igualmente belas e melhor afortunadas que poderiam proporcionar-lhe um casamento feliz.

 

O senhor Bennet aparentava divertir-se de forma mordaz ao ouvir as palavras proferidas pela senhora Harriet; não pode deixar de sentir-se surpreendido, exprimindo sarcasmo moderado em sua resposta.

 

--- Senhora! Lembro-me exatamente de suas palavras quando demonstrei interesse em tornar Olívia minha esposa. Creio que minha tranquilidade foi abalada com o passar do tempo, assim como sua inteligência ávida previu. Mas possuo uma propriedade que permite sustento e algum conforto, e seis mulheres incansáveis que me fazem companhia.

 

--- Não subestime minha inteligência, senhor Bennet! Pode afirmar que é feliz quando a principal motivação que o levou a casar-se com Olívia não mais sobrevive?

 

--- Quando se convive com seis mulheres tolas e se faz disso um exercício mental constante, a felicidade não é necessária, cara senhora. Os momentos de divertimento em família superam qualquer pretensão pouco favorável.

 

O senhor Bennet entendeu serem suficientes aquelas palavras para silenciar as intenções da senhora Newton. Entretanto a altivez desta senhora adquiriu maior proporção, permitindo-a uma arguição ainda mais direta:

 

--- Não se arrependeu por preterir a mim, senhor Bennet? Creio que o retrato dos meus filhos demonstra a conveniência de um casamento prudente e frutífero.

 

--- Veja como foi afortunada a sua escolha racional. A minha escolha foi emocional.

 

A senhora Newton não pode disfarçar toda a irritação que a consumia em virtude das palavras do senhor Bennet. Quando jovem, o humor espirituoso daquele cavalheiro, sua beleza natural e tranquilidade aparente, a impressionaram profundamente. Despertou-lhe a paixão que a levou à tentativa de persuadir sua amiga para que não aceitasse o pedido de casamento do senhor Augusto.  Contudo, neste momento, sentiu que o dano causado a seu coração não era compensado pelo sentimento que ainda nutria por aquele senhor.

 

Levantando-se abruptamente, munida de um olhar que expressava a ofensa recebida, desferiu:

--- Pergunto-lhe o que resta a um cavalheiro tolo que se casou inspirado pela beleza da juventude de uma jovem quando esta beleza não existe mais?

 

O senhor Bennet respondeu-lhe, levantando-se do banco, com ares de sabedoria e conformidade:

--- A família, senhora Newton. A minha família.

 

Separaram-se. Não mais sequer olharam-se durante os momentos seguintes da visita.

 

Quando a senhora Bennet retornou ao jardim, acompanhada da criada, que trazia consigo refrescos, o senhor Bennet já havia retornado ao escritório acompanhado pelo senhor Newton.

 

--- Querida Harriet, sua visita alegrou-me de modo que não posso descrever. E acredito que ao senhor Bennet também, pois eram amigos antes mesmo de firmarmos compromisso.

 

--- Creio que sim. – disse a senhora Newton, secamente. --- Neste momento preocupe-se menos com o seu marido e mais com os aspectos que são de responsabilidade de uma mulher feliz e cheia de obrigações. Lembra-se dos conselhos que lhe dei sobre isso em nossa juventude?

 

--- Ora, Harriet! Recordo-me sempre de seus conselhos! – ambas as senhoras riram como se a memória do passado lhes tivesse proporcionado satisfação e cumplicidade.

 

--- Veja como está sua família! Cinco moças. A mais velha já contando dezenove anos, as demais dezoito, dezesseis, quatorze e treze anos... Todas moças! Que pode mais ambicionar uma mãe zelosa do que a felicidade e conforto de suas filhas?

 

--- A senhora me compreende, senhora Newton! Por isso sempre fomos tão próximas.

 

A visita chegou ao fim e o cansaço dominava a família Bennet, exceto a senhora, que durante o jantar retratava cada detalhe, entre erros, acertos e críticas ao comportamento da família dos visitantes.

 

O senhor Bennet restringiu-se a observar a inteligência do senhor Newton. Em seguida, quando pretendia dirigir-se ao seu quarto, foi questionado pela senhora Bennet.

 

--- Diga-me, senhor Bennet: concorda que a senhora Newton conserva a mesma postura da juventude para conosco? Exceto pelos ares altivos que o casamento e a fortuna do marido lhe conferiram.

 

--- Irremediavelmente a mesma, senhora Bennet. - respondeu o senhor Augusto com um leve sorriso divertido nos lábios. Acrescentou dirigindo-se ao seu quarto: --- Acredito que a senhora saiba como é adequado conservar amigos tão verdadeiros a distâncias significativas.

 

As mulheres entreolharam-se sem compreender a real intenção do senhor Bennet ao proferir tais palavras.