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Consolo e distrações de uma senhora - Capítulo VII

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo VII – Patriarca Omisso.

 

Estava o senhor Bennet em seu escritório divagando sobre a idade e o comportamento dos membros de sua família, ao mesmo tempo em que havia sobre sua mesa o livro de registros de rendas e despesas de Longbourn.

 

Definitivamente o senhor Augusto deveria ter tornado a propriedade mais produtiva, todavia, não lhe restava alternativa em virtude de seu habitual comportamento passivo. Não que fosse um administrador incoerente ou ineficaz, mas indubitavelmente era um administrador comedido e de pequena perspectiva. Contentava-se parcialmente com o fato de suas finanças serem suficientes para um farto sustento da família, ainda que sem acesso ao luxo.

 

Seus pensamentos foram interrompidos pela senhora Bennet, que estava vestida para o sermão de domingo.

 

A família dirigiu-se bem cedo à missa. A distância entre Longbourn e a Paróquia de Hertfordshire poderia ser percorrida a pé, mas a senhora Olívia preferiu que a carruagem fizesse duas viagens para conduzir a todos confortavelmente.

 

No momento em que o senhor Bennet realizava sua doação à Paróquia, sua esposa fitava-o atentamente.

 

--- Algum problema, senhor Bennet? – questionou a senhora Bennet depois de terminada a missa, ao perceber que a expressão dele não o favorecia.

 

--- Não algo que eu precise incomodá-la, senhora Bennet.

 

--- Estamos diante de algum infortúnio? Trata-se de alguma questão financeira? – insistiu a senhora. --- Pergunto isso porque me pareceu desconfortável enquanto fazia a oferta.

 

--- Quem, nesta região, pode dizer que nunca sofreu inconvenientes financeiros? Mas não se trata disso, senhora Bennet – e acrescentou fazendo uso de ironia comedida, que deixaria qualquer pároco constrangido: --- A Paróquia não precisa preocupar-se conosco. Somos pobres, mas ainda não somos miseráveis.

 

A senhora Philips, irmã da senhora Bennet, tendo ouvido a resposta do senhor Augusto à sua irmã, reuniu-se com esta propondo conversa e diversão em sua casa. Alegou que faria bem aos nervos da senhora Bennet.

 

Tudo foi combinado entre as senhoras: os Bennets passariam a manhã em Meryton, na casa dos Philips. E assim ocorreu. Lá permaneceram até as onze horas da manhã, quando as meninas mais novas, auxiliadas pelo senhor Bennet, inacreditavelmente, reclamaram voltar para Longbourn.

 

--- Oh, irmã! Deixe-as ir com seu marido. Fique um pouco mais comigo. Há tanto tempo que não conversamos mais; tão raramente me faz uma visita. – exigiu a senhora Philips.

 

--- Oh, sim! – respondeu Olívia Bennet. E voltando-se para a filha mais velha, disse-lhe: --- Jane, ficará responsável por minhas funções no cuidado da casa hoje e sei o fará perfeitamente.

 

O senhor Bennet não se mostrou satisfeito com aquele arranjo, entretanto não se opôs. Certamente lhe seria benefício trancar-se em seu escritório, depois da refeição, para sossegar sua mente.

 

A tarde da senhora Bennet transcorreu com animação, em companhia das senhoras Philips e Long, que fora excepcionalmente convidada pela senhora Philips para o lanche da tarde. As senhoras possuíam naturezas distintas, mas o mesmo traço especulativo e um tanto malicioso; entendiam-se muito bem.

 

O senhor Bennet dormia sentado em sua cadeira favorita, em seu escritório, quando foi acordado por Eliza, que trazia uma expressão preocupada fixada em sua face.

 

--- Papai, a mamãe está demorando muito mais que o habitual. Dispensou a carruagem! Confesso que estou preocupada.

 

--- Creio que não haja razões para preocupar-se, minha Lizzy. A senhora Bennet nunca se comportou de modo muito sensato, mas também não nos deu razões para crer que seja capaz de comportar-se de forma insana ou comprometedora.

 

--- Não lhe ocorre a ideia de que pode ter ocorrido um infortúnio ou algum acidente? Nem ao menos um criado com um bilhete nos foi enviado, senhor!

 

--- Acalme-se, minha menina. – disse o senhor Bennet demonstrando tranqüilidade, fazendo com que Eliza, ainda apreensiva, se demonstrasse esperançosa de que sua mãe apenas teria ignorado o passar do tempo por estar em companhia da senhora Philips.

 

Acrescentou o senhor Augusto:

--- Peça a Jane para tentar conter a euforia de suas irmãs. Desejo descanso.

 

Já se iniciava a noite e a chuva, que se fazia intensa naquele momento, ameaçava apresentar-se impiedosamente. O senhor Bennet não mais aparentava um semblante tranquilo; pouco conseguia dissimular a preocupação que sentia em virtude da demora da esposa.

 

--- Vai sair, papai? – perguntou Jane ao ouvi-lo pedir à criada que trouxesse um agasalho para a senhora Olívia.

 

--- Acredito que a senhora Bennet esqueceu-se de seus compromissos familiares. – respondeu tentando esboçar um sorriso divertido, mas a preocupação o impedia. --- Vou pessoalmente lembrá-la de onde está situada sua residência.

 

A senhora Bennet saíra da casa da irmã antes do fim da tarde. Propôs-se a caminhar acompanhada pela senhora Long, até suas respectivas casas.  A senhora Long adentrou sua propriedade, deixando a senhora Bennet a pouca distância de Longbourn.

 

--- Meu Deus! Que chuva forte é esta? Aconteceu sem apresentar qualquer indício! Se está castigando-me pela forma como o senhor Bennet se comportou durante o sermão do pároco hoje, peço que desconsidere o comportamento dele!

 

A senhora refugiou-se em um pequeno estábulo que encontrou no caminho. Nele havia apenas um cavalo, que, segundo ela, estava intimidando-a propositalmente. Estava tão perto de casa e mesmo assim incomunicável, pois nenhum criado de sua propriedade viria a um estábulo distante em meio àquela chuva intensa.

 

--- Oh, meu Deus! Esse animal deseja enfraquecer-me ainda mais os nervos... – disse afastando-se do animal o quanto a chuva lhe permitia. --- Onde está o senhor Bennet quando mais preciso?... Onde?! ... Como ainda me pergunto!

 

O cavalo relinchou, assustando a senhora Bennet que, sem perceber, saltou em direção à chuva, molhando todo o corpo por alguns instantes. O cansaço e o frio fizeram-na adormecer encostada aos membros inferiores do animal, com o qual parecia entender-se sem maior timidez.

 

O senhor Bennet avistou aquela cena à distância, em virtude dos breves e baixos relinchos que o animal emitiu ao ouvir o som provocado pelo deslocamento da carruagem. Sentiu piedade da senhora de imediato, mas não pode deixar de pensar o quanto aquela cena era digna de riso.

 

Fazendo um esforço considerável, ajudou a senhora a levantar-se, acomodando-a na carruagem, sem que tivesse qualquer auxílio da mesma, pois foi dominada pelo sono e pelo cansaço.

 

Voltou-se para o animal e disse-lhe:

--- Obrigado pelo favor que me fez hoje, nobre animal! Será recompensado com um dia de descanso amanhã. Imagino o quanto sabe a respeito da família Bennet a partir desta tarde. – obteve um gruindo como resposta e não pode evitar que um riso alto lhe saísse dos lábios.

 

Ao chegar a casa, acomodou a senhora Bennet. Suas filhas permaneceram todo o tempo ao lado da senhora. Todavia, antes disso, inquiriram o senhor Bennet sobre os acontecimentos, mas a versão da senhora foi a mais digna da atenção das moças.

 

Quando sucumbiu ao sono novamente, depois de ter as roupas trocadas, cabelos parcialmente secos, se alimentado com canja e chá quente trazidos pela criada, todos se retiraram rumo a seus quartos de dormir.

 

O cansaço não permitiu que a senhora testemunhasse a presença do senhor Bennet em seu quarto, deitado a seu lado, aquecendo-a com o corpo, durante toda a noite.

 

Antes dos criados se levantarem, o senhor Bennet já estava de pé, organizando os lençóis na parte em que dormiu, com o objetivo de não ser percebido.