Artigos

Imprimir

Consolo e distrações de uma senhora -Capítulo VIII

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Consolo e distrações de uma senhora

Capítulo VIII – Os acertos da Intimidade.

 

Após um mês sem dirigir-lhe a palavra sem que fosse por razão de aparências, ou expressar qualquer aproximação que fosse perceptível aos olhos da senhora Bennet, o senhor Bennet comunicou-lhe que viajaria dentro de dois dias, para resolver empecilhos negociais, e que estaria de volta em uma semana; o que coincidentemente datava cinco dias antes das bodas de vinte e um anos de casamento.

 

A senhora Bennet lembrava-se de seu dever social de oferecer um jantar em comemoração ao aniversário de casamento para os amigos mais íntimos. Havia difundido a notícia. Mas foi acometida pela improvável ideia de que o marido, apesar de seus modos comportados, envergonhasse a família perante os convidados por estar comemorando vinte e um anos de algo fracassado e até mesmo digno de pena.

 

Em virtude do rumo dos acontecimentos, a senhora Olívia Bennet invadiu o quarto do marido na noite posterior ao seu retorno ao lar, implorando-lhe que respondesse a uma pergunta que há muito tempo a incomodava.

 

O senhor Bennet, que intencionava dizer-lhe imediatamente que não havia nada a conversar, calou-se, surpreso com a atitude da esposa que entrou pela porta de conexão dos quartos sem aviso. Sentou-se na cama fitando-a por inteira.

 

A senhora tinha os cabelos soltos e penteados. Estava apenas com uma camisola verde, como quem tinha se deitado recentemente e se levantado em seguida, por motivo de preocupação, esquecendo de cobrir-se.

 

Fitou-a admirado e constrangido. Sua esposa ainda guardava resquícios da beleza que o encantara na juventude. Não teve coragem de pedir que se retirasse sem ouvi-la, apesar da dor que o atingia ao lembrar-se da última conversa que teve com ela. Era fato que há muito não dispunha de seus “direitos como marido”, bem como, também era fato que há muito não cumpria seus “deveres” para com ela.

 

Prontamente a senhora sentou-se na extremidade da cama e o olhou de forma penetrante, desejando uma resposta surda do marido, antes mesmo de questionar-lhe. Inflamou-se de coragem e arguiu:

 

--- Por que se casou comigo, senhor Bennet?

 

O senhor Bennet ficou realmente surpreso com a pergunta. Sorriu de leve como na fatídica conversa anterior. Nas duas situações mais constrangedoras entre ele e a senhora é que ela revelava, ao contrário das expectativas, sua inteligência.

 

--- Pela mesma razão que a senhora decidiu aceitar minha proposta. Porque estava apaixonado. – Completou com um sorriso mais evidente. –- E inebriado por sua beleza.

 

A senhora Bennet, apesar de entender um elogio à vaidade, que a entusiasmava expressou um sorriso que não disfarçava certa dor que sentia. Afirmou em seguida:

 

--- E há muito tempo deixou de gostar de mim. Achei que minha vivacidade passou a incomodá-lo há muitos anos. Tenho a sensação de que a paixão que o senhor sentia por mim deu lugar ao sentimento de repulsa que tem por mim agora.

 

O senhor, incrédulo, logo resolveu esclarecer seus sentimentos para a esposa.

 

--- Não posso crer que entenda que sinto repulsa, Olívia. Nunca senti algo sequer parecido pela senhora. Estou aborrecido e magoado, mas conservo bons sentimentos pela senhora, que se arriscou casando-se comigo tão jovem e inexperiente e, que nos deu cinco filhas, pelas quais também nutro bons sentimentos; embora não possa deixar de constatar que sejam um tanto mais tolas as três mais novas. Não posso negar-lhe, Olívia, que a paixão que sentíamos sucumbiu há muito tempo, mas lhe conservo carinho como esposa.

 

---- Não consigo compreender, Augusto. – dizia a senhora com tristeza. – Sei que não estamos mais alimentados pela paixão que nos uniu há vinte e um anos atrás, mas sinceramente não consigo compreendê-lo. O senhor permanece distante e jura não ter outra mulher em sua vida, mas raras vezes me procura... – a voz da senhora decrescia em volume. – Desde o nascimento de Lydia. – completou corando, incrédula consigo mesma por ter tido a coragem de fazer referência a algo tão íntimo sobre a vida conjugal.

 

O senhor Bennet refletia tensão e surpresa diante daquelas palavras. Em um ato impulsivo levantou-se, deixando a mostra seus trajes de dormir que revelavam o belo porte de homem, um tanto maltratado por seus pesados quarenta e oito anos de idade. Pegou uma cadeira, colocando-a de frente para a senhora Bennet, e sentou-se lhe segurando as mãos. Olhou-a fixamente nos olhos e lhe disse com toda calma que conseguia reunir:

 

--- Olívia, confesso que me surpreende intensamente ao abordar este assunto. -- calou-se, retomando fôlego. – Muito antes de Katherine ou Lydia nascerem a chama que nos uniu já não mais expressava força e vigor. Fui tomado pela árdua tarefa de administrar nossas finanças que pareciam esvair-se anos após anos; e a senhora pareceu-me estar, a cada momento, mais distante, pensando apenas nas filhas e em frivolidades. Para que não perdêssemos totalmente a afeição, passei a observá-la com divertimento e rir de nossa própria sorte.

 

A senhora o olhava penalizada, apesar de toda angústia e rejeição que sofrera. Pensava que se pudesse fazer algo para sustentar seu casamento, o faria sem dúvida. O senhor Bennet continuou seu discurso, com feições de seriedade:

 

--- A cada situação em que a procurava, sentia que a senhora se comportava ainda mais fria e distante do que as esposas costumavam se colocar em virtude de seus ensinamentos sobre as relações carnais; e lembrava-me de que no início de nosso casamento a senhora se fazia um tanto mais presente comigo. A partir de então passei a procurá-la em momentos esporádicos, convencendo a mim mesmo que deveria conter os impulsos físicos o máximo possível.

 

Foi interrompido pelas palavras da esposa, entrecortando seu discurso num tom mais alto e que, por vezes, em outra situação, teria feito o senhor Bennet rir:

 

--- Ora, senhor Bennet! Não lhe neguei em momento algum os seus “direitos” no leito conjugal. – continuou a senhora como se procurasse as expressões mais adequadas a proferir naquele momento. – E jamais impediria que exercesse seus “deveres” de marido em circunstâncias que não fossem por razão de doença ou fatiga.

 

Os olhos sobressaltados do senhor expuseram mais uma vez sua surpresa. Nunca antes poderia imaginar um diálogo tão profundo e coerente com sua esposa, muito menos que a experiência tinha conferido ousadia à vivacidade que lhe era inerente.

 

Ele então retomou a palavra decidindo ser o mais explícito que suas maneiras permitissem:

 

--- Quando me casei com a senhora, deve ter percebido que eu não era, e nem sou, o tipo de homem que se preocupava apenas com o prazer próprio. – esta afirmação fez a senhora corar instantaneamente. – Ao percebê-la mais distante pude convencer-me de que estavam sendo frustradas as tentativas de deixá-la menos tensa, como sei que um dia já esteve. Não quis e nem poderia forçá-la a estar comigo. Por isso foram raras as minhas visitas a partir de então.

 

--- Eu estava preocupada com a casa, com nossas filhas, com seus adornos e principalmente em prepará-las para que fizessem um casamento vantajoso; para que não fossem privadas de conforto e segurança de um lar. – silenciou por instante. – Confesso, senhor Bennet, que estava sentindo-me rejeitada pelo senhor e passei a ser ainda menos expressiva em nosso leito porque não gostaria de fazer algo inadequado ou aborrecê-lo ainda mais.

 

--- Então posso entender que estar comigo não a desagrada? – perguntou com uma expressão tão grave e sisuda que assustou a senhora Bennet.

 

--- Não, senhor Bennet. Apenas me sinto pouco a vontade, devido ao rumo conturbado que tomou o nosso casamento.

 

--- Acho que precisamos cuidar mais de nós, senhora. – falou ele, minutos depois, com um sorriso levemente divertido, com ares de quem acabou de fazer uma profunda reflexão.

 

--- Peço desculpas por esta invasão, Augusto. E mais ainda pela conversa que o obriguei a ter esta noite. – disse-lhe levantando-se da cama enquanto o observava levar a cadeira ao local a que pertencia.

 

O cansaço e a tormenta de emoções que vivenciaram nos últimos tempos se faziam evidentes, mas a senhora ainda teve forças e coragem para fazer-lhe uma última pergunta:

 

--- Podemos ainda realizar nosso jantar de aniversário de casamento? Completaremos vinte e um anos de casamento em três dias e a sociedade exige o jantar.

 

O senhor respondeu-lhe saudosamente:

 

---- Ainda há razões para comemorar, minha cara senhora Bennet. – e a senhora não pode deixar de sorrir com a afirmação do marido.

 

Ao se movimentar em direção à porta de conexão entre os quartos, ouviu o senhor Bennet chamá-la em voz baixa; e parou instantaneamente ao entender que agora era o marido que desejava fazer-lhe um questionamento.

 

--- A senhora se importa de estar comigo esta noite? – perguntou o senhor de uma só vez e sem parecer impor nenhuma obrigação.

 

Aproximando-se do marido a senhora questionou: --- Trata-se do cumprimento de meus deveres de esposa, senhor Bennet?

 

--- Não! – respondeu com firmeza, para surpresa da senhora Bennet. – Trata-se de uma opção, Olívia.

 

--- Se é mesmo assim, do exato modo que o senhor propõe – disse a esposa afastando-se e surpreendentemente deitando-se na cama do marido em seguida – eu escolho não sair deste quarto esta noite.

 

O senhor Bennet, divertido com a ousadia e vivacidade da senhora, caminhou em direção a cama, trazendo-a junto a si.