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CONTO: Confissões indiscretas de um clérigo

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em Confissões indiscretas de um clérigo

CONFISSÕES INDISCRETAS DE UM CLÉRIGO

 

Quando Lady Catherine De Bourgh solicitou-me uma esposa para que eu me apropriasse da reitoria de Rosings Park, por um momento duvidei que encontrasse esposa à altura da solicitação que me foi feita. Não que eu seja um homem de poucos atrativos. Não realmente. Minha beleza pode não assemelhar-se à beleza característica dos aristocratas, mas meu carisma e minha habilidade com a língua e a leitura reforçam minha boa aparência. E tenho o privilégio de ser ainda um homem bem relacionado, apadrinhado por Lady Catherine. Mas uma esposa que cumprisse com as magníficas exigências de Lady Catherine é difícil de encontrar, pois as senhoras criam suas filhas com pouca modéstia e com apego asseverado a bens materiais e presentes. A castidade tornou-se uma virtude a ser defendida de modo voraz, em virtude disto.

 

Lembrando-me de que sou eu o herdeiro da única propriedade de meu primo, o senhor Bennet, achei por certo desposar uma de suas filhas, já que mais tarde, após sua morte, terei o direito de expulsá-las todas de Longbourn, inclusive a senhora Bennet. Entretanto minha escolhida, prima Elizabeth Bennet, resolveu rejeitar minha proposta, entendendo seu comportamento como digno das damas elegantes da alta sociedade. Hoje, atrevo-me a dizer, que prima Elizabeth arrependeu-se intensamente ao perceber as vantagens que deixou de usufruir ao me rejeitar, exceto por seduzir um senhor da alta sociedade e tornar-se a senhora Darcy de Pemberley, comportando-se de modo indigno ao interromper um compromisso realizado pela minha adorada Lady Catherine e sua irmã, a senhora Anne Darcy, que convencionaram o casamento de seus filhos, a senhorita Anne De Bourgh e o senhor Fitzwilliam Darcy, desde o momento em que nasceram.

 

Como Deus é habilidoso em suas escolhas, reservou-me o direito de conhecer Charlotte Lucas. Sinto-me aliviado por ter desposado minha querida Charlotte, agora minha Charlotte Collins. Minha esposa, apesar de possuir um resquício de relações com a família Bennet, que é causadora de tantos escândalos e arranjos para silenciá-los, reúne todas as qualidades que a esposa de um clérigo em minha posição deve ter. Sua modéstia, carisma e economia fazem dela uma esposa digna de um senhor em minha privilegiada posição e, a isso, acrescente-se o fato de que sabe venerar Lady Catherine com seu modo pacato e pouco efusivo.

 

Acordei mais cedo que o de costume esta manhã com o objetivo de reparar algumas imperfeições no crescimento das rosas de meu jardim, quando avistei minha estimada Charlotte dormindo tranquila a meu lado. Logo me lembrei de adicionar ao sermão deste domingo conselhos sobre o comportamento adequado de uma senhora durante o casamento. Creio que meu casamento é adequado e, principalmente está ao agrado de minha protetora.

 

Charlotte é uma esposa atenciosa e encorajadora. Faz o possível para não demonstrar o quanto sente minha ausência enquanto cuido das mais diversas obrigações que a reitoria impõe. E ainda me incentiva a cuidar do jardim, pois sabe que é uma atividade que me agrada. Como boa esposa que é, silenciosa e discreta, dificilmente apresenta empecilhos para que eu faça uso de meus direitos como marido. Temos um casamento realmente adequado; o que não explica os sonhos intensos e indiscretos que têm me acometido.

   

       Durante o café da manhã em minha propriedade essa manhã Charlotte contou-me que teve acesso ao quarto de dormir de Lady Catherine no dia anterior. Adentrou o ambiente acompanhado da governanta de Rosings Park para observar a disposição das novas prateleiras do armário da dona da casa, como esta havia aconselhado minha esposa a fazer. Tamanha minha curiosidade e contentamento pela oportunidade inigualável que teve a senhora Collins que exigi que me descrevesse todo o ambiente. E ela o fez, para meu deleite pessoal. 

  

          Dois dias depois fomos convidados para jantar em Rosings. Não pude deixar de agradecer, nos mais variados momentos, a consideração que nos teve Lady Catherine ao deixar que Charlotte contemplasse pessoalmente a beleza de suas prateleiras, adentrando um ambiente tão íntimo. Senti-me perfeitamente contemplado com tamanho gesto condescendente, uma vez que a senhora mostrava-se constantemente aborrecida com a conduta lesiva e indigna de Elizabeth, que seduziu e casou-se com o senhor Darcy, deixando a senhorita Anne De Bourgh sem seu noivo por nascimento. Meus agradecimentos deixaram Lady De Bourg insistentemente envaidecida. E creio que foi neste jantar que ganhei a simpatia da senhorita Anne em absoluto, pois pude observar que estava atenta ao meu diálogo com sua mãe e expressava feições de riso juntamente com sua governanta; o que para a senhorita Anne só poderia ser um grande esforço, dada sua saúde debilitada. E na última vez que agradeci, antes de eu e Charlotte nos despedirmos, notei que seu riso foi sonoro e muito mais expressivo; por fim acrescentei que definitivamente a senhorita Anne nasceu para ser duquesa.

 

Minha vida estava perfeita, exceto pelos sonhos que estavam perturbando-me constantemente. Mais uma vez acordei perturbado antes mesmo do nascer esplendoroso do sol. Acredito que não há sol mais belo que o sol de Rosings. Observei Charlotte, temendo que tivesse ouvido qualquer palavra que eu possivelmente disse enquanto dormia, mas minha modesta esposa dormia tranquilamente. Logo me deitei novamente, tendo no pensamento o adorável convite para jantar em Rosings neste dia.

 

À noite Rosings parecia estar vazia. Não havia empregados em lugar algum. Tomado por preocupação, pensando sobre a reação de minha protetora quando constatasse o sumiço repentino dos empregados de sua propriedade e da reitoria, procurei minha estimada Charlotte e, para minha surpresa, ela também havia sumido. Sabia que temos um convite para jantar em Rosings esta noite. Como pode sumir? Não a encontrei em lugar algum de nossa humilde e privilegiada residência. Nessas circunstâncias decidi ir até a residência de Lady Catherine sozinho, a pé.

 

Bati à porta de Rosings por três vezes. Seus habitantes também haviam desaparecido misteriosamente. Para minha surpresa a porta estava destrancada. Fiquei horrorizado ao constatar que a segurança de Lady Catherine e de sua filha Anne estava comprometida pelo descuido de seus empregados com a vigília da casa e a falta de zelo por sua integridade. Adentrei o ambiente assombrado pela escuridão. Sim, por um momento pensei estar em uma história de terror em que eu seria o cavalheiro com a árdua e majestosa missão de salvar as duas damas desta respeitável família do ataque fatal e promíscuo de criaturas míticas.

 

Com esse pensamento subi rapidamente as escadas e constatei que todas as portas dos cômodos estavam abertas, e pude observar a beleza, o luxo e a ostentação moderada de cada um. Admirei-me ao encontrar por fim, um caminho de velas cujas luzes conduziam a um único quarto que tinha a porta fechada. Temi por um instante que aquilo fosse uma armadilha, mas minha missão era impossível de não ser cumprida. Não haveria criatura maligna que resistisse à figura de um Clérigo bem afeiçoado e dotado de conhecimentos como eu.

 

No momento em que abri a porta daquele cômodo fracamente iluminado meu sonho se transformou. Olhei atentamente cada detalhe, esquecendo de qualquer suspense que antes acometeu minha mente. Foi então que vi a magnitude de uma senhora em seus trajes de dormir. Oh, sim! Tentei fechar os olhos, mas não consegui sequer desviá-los da imagem sedutora e convidativa de Lady Catherine recostada no pilar da cabeceira de sua cama, trazendo em sua face, um pouco corada, um sorriso encantador. Tentei, mais uma vez em vão, me repreender por observá-la naqueles trajes. Foi então que percebi que sua leve expressão tornou-se dura e inflexível.

 

--- Senhor Collins! – exclamou minha protetora com certo ímpeto, que por vezes já vi estampado em sua face quando se sentia contrariada.

 

 --- Lady Catherine... – tentei me desculpar. --- Só adentrei esse cômodo na tentativa de protegê-la! Não vi nenhum dos empregados em sua propriedade... Então... Perdão milady! Perdão. Agora que vejo que não há problema algum na casa posso me retirar tranquilo de sua segurança. – Fiz incontáveis reverências e apressei-me para sair do quarto.

 

 --- Nem mais um passo. – disse Lady De Bourgh de forma convicta. --- Estão todos bem e dormindo a esta hora, senhor Collins. Esperei muito por sua presença e não aceitarei que saia deste cômodo.

 

Minha surpresa não poderia ser demonstrada naquele momento. Lady Catherine parecia convidar-me intimamente. E todo meu interior respondeu de forma inesperada. Comecei a ver beleza em minha estimada protetora. Suas grandes rugas soaram para mim como excitantes marcas de sua rica experiência de vida, seu ímpeto constante pareceu-me uma chama ascendente e desejável. Lembrei-me das razões que haviam me trazido até ali e me repreendi, como Clérigo e como bom homem que sou. Lembrei-me da senhora Collins e me perguntei onde estaria naquele momento.

 

 --- Esperava por mim, Lady Catherine? – perguntei ainda surpreso com a atitude da senhora.

 

 --- Não seja tolo, senhor Collins. Combinamos nosso encontro para o momento em que sua esposa estivesse em visita aos pais. Este é o momento. Não faça mais perguntas. Venha até a mim.

 

           Hesitei por alguns instantes, pensando o que tal atitude significava aos olhos de Deus, da Igreja e da moralidade. Mas jamais poderia recusar ou rejeitar minha protetora. Admirei mais uma vez seu corpo vasto e marcado pelo tempo, como se tivesse observando a mais venerável forma de expressão da beleza humana. Em instantes caminhei até ela e fui sufocado por beijos experientes e intensos. Sua postura ordenava o meu comportamento e cada imposição era mais que uma obrigação para mim.

 

            Tamanho o meu espanto ao me dar conta de que havia sonhado tudo isto. Girei meu corpo, suado e temeroso para o lado de minha Charlotte que se assustou com meu próprio susto noturno. Este sonho que me acometeu hoje foi o mais intenso que já tive em toda minha estimada vida.

 

 --- Que houve senhor Collins? – arguiu minha esposa com expressa preocupação.

 

 --- Apenas um sonho assustador. Mas não consigo lembrar-me sobre o que era. Ouviu algo? Eu disse algo que possa indicar algo sobre meu sonho? – tentei parecer displicente ao fazer-lhe o questionamento.

 

--- Disse algo sobre proteger a propriedade. Não pude entender qualquer outra palavra que tenha dito, senhor Collins.

 

--- Oh, sim! Tenho sonhado com ideias para o sermão de domingo. A propriedade é o tema da próxima missa.

 

--- Há dias que não dorme direito, senhor Collins. Hoje à noite lhe trarei um chá. - e assim terminou minha conversa matinal com a senhora Collins.

 

À noite nos preparamos para mais um jantar em companhia de Lady Catherine e da senhorita Anne De Bourgh. Agora tudo é real. Apreciamos cada prato com entusiasmo. Pude fazer uso, sem restrições, dos elogios elaborados perfeitamente dignos da senhorita Anne, que mais uma vez expressou um pequeno sorriso diante de minha estimada presença.

 

Quando nos retiramos para a sala em que era servido o saboroso café de Rosings, não pude evitar olhar fixamente Lady Catherine, recordando-me do sonho que tive. Dei-lhe uma piscadela quase imperceptível. O fiz quase que sem ciência do que fazia; desejando entender se da parte de minha venerada protetora havia qualquer inclinação quanto a mim.

 

--- Que há, senhor Collins? – arguiu Lady Catherine visivelmente incomodada. --- Sente-se bem? Estava olhando em minha direção como se estivesse distraído. E posso jurar que seus olhos piscaram há poucos instantes! Está entediado em minha casa, senhor Collins? – Lady Catherine pareceu-me incrédula e ofendida.

 

 --- Oh, Lady Catherine. Peço humildemente que perdoe minha pequena distração! Imploro de modo veemente. Asseguro que esta pequena e imperdoável distração que tive não se deve a qualquer sintoma de tédio em vossa encantadora e instrutiva companhia. Ocorre que me sinto fraco hoje.

 

 Para minha salvação momentânea, a senhora Collins assegurou à Lady Catherine que eu não conseguia dormir adequadamente há uma semana. Sonhos desconfortantes estavam tirando-me o sono.

 

--- Noites mal dormidas prejudicam a saúde, senhor Collins. Aconselho constantemente à Anne que durma cedo e confortavelmente. – disse Lady Catherine

 

--- Esta noite lhe trarei um chá calmante para que possa dormir sossegado. – afirmou Charlotte com entusiasmo. Acredito que já se sinta mais confortável ao conversar com minha protetora.

 

--- Oh, sim! Faça-o, senhora Collins. Dê-lhe um chá suave. Pedirei à governanta que traga uma erva calmante que tenho guardada. Sentir-se-á muito melhor e terá sonhos agradáveis, senhor Collins.

 

 --- Agradeço imensamente a atenção, milady! Seus conselhos são sempre pontuais e sadios. E sua modéstia ao fornecê-los é inigualável.

 

             Esta noite dormi incontestavelmente melhor. Mas sonhei novamente com Lady Catherine. Não o um sonho tal qual o da noite anterior. Simplesmente um sonho. Nada mais. Ao acordar olhei minha estimada senhora Collins sossegada ao meu lado e agradeci a Deus a sorte que ela teve ao ser desposada por mim. Tinha as melhores relações e companhias da sociedade de Husford, frequentava constantemente Rosings e estava parcialmente afastada de companhias desagradáveis como a de minha prima Elizabeth. Destino melhor não lhe seria possível.

 

             Charlotte, sem dúvidas, comportava-se como uma boa esposa. Mais um sucesso que obtive seguindo as recomendações da venerável Lady Catherine De Bourgh. E nesta manhã, em que acordei mais tranquilo e sossegado, minha estimada Charlotte Collins encorajou-me mais uma vez a cuidar de minhas rosas favoritas no jardim, alegando atenciosamente que isto me faria muito bem. Minha esposa e sua modéstia me são um tanto prazerosas. E mais uma vez ela passou o dia sem reclamar da inteira manhã que estive longe de sua companhia, pensando apenas em meu benefício.