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CONTO: O Boêmio

Escrito por Luciana Araújo Ligado . Publicado em O Boêmio

O BOÊMIO

 

 

BRASIL, RIO DE JANEIRO, 1886.

 

Numa rua estreita de um bairro boêmio da cidade do Rio de Janeiro, um jovem rapaz bebia vinho direto da garrafa e cantava acompanhado de dois amigos.

  

O jovem alto, belo porte, trazia sobre um dos ombros o paletó de suas caras vestes oriundas da costura parisiense e sobre o outro seus sapatos pendurados pelos cadarços. Andava serpenteando de mãos dadas com os companheiros, soltando-as apenas para cumprimentar conhecidos que caminhavam rumo ao trabalho naquele início de manhã.

 

Chegando a hospedaria na qual residia há apenas um mês, o jovem beijou a face de uma senhora que se apresentava como proprietária do local e, esta lhe retribuía afetuosamente pondo pão e café sobre a mesa da cozinha fracamente mobiliada.

 

--- Conte-me como foi sua noite, meu querido. Não me diga que passou a noite a bajular a cantora. – falou a senhora.

 

--- Oh! Surpreenderia se eu dissesse que não? - retorquiu o jovem bebendo o café.

 

--- Seria uma feliz surpresa, querido.

 

--- Sabe o quanto gosto de deixá-la feliz, senhora. – respondeu o jovem, provocando-lhe o riso. --- Mas sinto não poder surpreendê-la.

 

--- Senhor Wickham! Quando dará novo rumo a sua vida? Desde que chegou aqui não o vejo fazer outra coisa que não seja presentear aquela mulher com o intuito de fazer dela mais uma de suas conquistas. Atrizes, cantoras, musas do teatro, todas dividindo contigo os lençóis... E quando deixam de ser novidade são abandonadas...

 

--- Acha justo que qualquer musa não me tenha em sua vida? – arguiu o senhor Wickham com ironia. --- Pois saiba que jamais sucumbirei aos encantos dessas mulheres. Apenas desejo desfrutá-los; todos! E quanto aos investimentos financeiros... elas compensam e retribuem sem moderação.

 

A senhora Younge não pode resistir às palavras debochadas do jovem e pôs-se a rir do modo vaidoso que lhe era inerente. Para ela não havia melhor companhia que a presunção matinal do rapaz.

 

O senhor Wickham contava 25 anos e vivia da mesada que lhe deixou o padrinho. Seus gastos eram sempre superiores a sua renda e, frequentemente tinha os estudos interrompidos pela inclinação por formosas mulheres e atividades ilícitas. Sua fama de conquistador garantia-lhe convites para as rodas de amigos dos jovens da alta sociedade carioca, ávidos por saber de suas recentes conquistas.

*

Recentemente o senhor Wickham havia despertado as atenções de uma jovem e experiente cantora paulista em turnê pelo Rio de Janeiro.

 

Em conversa com um jovem poeta, boêmio, que desembarcou na cidade a convite de amigos estimados, o senhor Wickham exaltava seu objetivo de possuir a jovem cantora.

 

--- George! – exclamou o poeta. --- Cuidado com o que desejas, caro amigo. As mulheres exercem um fascínio sobre nós e se não tivermos cuidado acabaremos desgraçados por elas como escravos em um navio negreiro.

 

--- Eu não valho a advertência, meu amigo. Sou eu quem exerceu tal fascínio até então. Das belas mulheres extraio o néctar, meu caro Antonio! Em troca dou-lhes a inesquecível lembrança de um dia terem desfrutado do lume dos meus braços.

 

--- Que posso eu dizer, amigo, se sou constantemente enfeitiçado pela alma e beleza feminina?

 

--- Que de melhor pode nos oferecer uma bela dama além dos prazeres da alcova? E hoje, tenho certeza, que a estrela mais difícil de alcançar se renderá a mim. E com ela virá a estabilidade financeira que almejo.

*

No teatro São Francisco de Paulo, situado em rua de mesmo nome, naquela noite cortejada pela expressiva luz das estrelas, a jovem e desejada cantora foi anunciada.

 

--- É ela! A senhora Lydia B.! – exclamou um dos companheiros do senhor Wickham, o senhor Dias.

 

--- Qual a razão de ocultar o sobrenome? – arguiu o poeta, senhor Alves.

 

--- Não se sabe ao certo. Dizem as más línguas que a jovem provém de respeitável família e dela se afastou para fazer uso de seus talentos no palco. – respondeu o jovem senhor Dias.

 

--- Posso assegurar-lhes que na Bahia há belíssimas moças que converteriam homens respeitáveis em bêbados profanos. Entretanto esta jovem é singular! Parece desejar os olhares lascivos ao mesmo tempo em que demonstra inocência! – assegurou o senhor Alves.

 

--- Um delicioso convite! – exclamou o senhor Wickham. – E o aceitarei em instantes. Parece uma pedra bruta que deseja ser lapidada por mim. É minha pepita de ouro.

 

--- Parece-me uma armadilha das mais encantadoras.

 

Ao fim do espetáculo, por cinco minutos incessantes, a senhora Lydia B. foi aplaudida de pé. Não foram poucas as flores e muito menos os presentes e convites recebidos. Somente um convite ela desejou aceitar naquela ocasião. Não se tratava de convite íntimo e, para ela, irrecusável.

 

--- Senhor Wickham! Obrigada pelas belíssimas flores! – agradeceu a cantora.

 

--- Não faz jus a sua beleza, nem ao expressivo timbre de sua voz, senhora B..

 

--- Sempre galante George. Trouxe-me a um belo restaurante; garantiu-me alguns mimos...

 

--- Desejo me aproximar um pouco mais. Sua presença me enfeitiça por inteiro. Podemos iniciar nossa aproximação agora; a senhora poderia iniciar confessando o segredo de seu sobrenome.

 

--- Vejo que deseja despir-me os segredos, senhor Wickham. Mas isto é algo que não posso e nem desejo saciar...

 

Naquele encontro nenhum encanto superou a luxúria.

 

Os encontros entre o presunçoso jovem e a entusiasmada cantora repetiram-se por duas semanas, despertando a curiosidade de seus companheiros. 

*

O senhor Wickham comportava-se como pássaro bravo e indomável, com vestes elegantes e modos pacatos. Entretanto foi pouco capaz para entender que diante daquela cantora torvava-se um pássaro domado e aprisionado, pouco disposto a enfrentar a extensão de seus sentimentos.

 

--- George Wickham, confesse que esta cantora dominou-lhe a tal ponto que nem mais deseja libertar-se. – exigiu o senhor Dias, ao lado dos amigos em uma reunião em sua suntuosa residência.

 

--- Não, meu amigo! – respondeu assustado. --- Sou o mestre dos meus sentimentos! Sei que estão todos curiosos sobre as razões de eu continuar encontrando-me com a senhora B.. Mas devo dizer-lhes, meus caros amigos, que esta senhora supera qualquer outra em encantos. – completou o discurso voltando o corpo para os demais presentes.

 

Os companheiros expressaram admiração e surpresa diante da declaração do senhor Wickham.

 

--- Acaso não vês, meu amigo? Estás enlaçado! Sucumbiste! – exclamou o jovem Dias.

 

--- Enganou-se por completo. Logo cansarei dela e estarei de volta às conquistas. – respondeu o senhor Wickham, aos risos.

 

--- Eu o desafio, George. – propôs o poeta Antonio Alves. – Estás preso num laço de fita.

 

Depois de muitos protestos, acusações e desafios, regados a vinho e divagações o jovem Alves foi acometido por sua inspiração e redigiu alguns versos que atribuiu à vida do companheiro Wickham.

 

“Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores...

Prendi meus afetos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

Num laço de fita.”

*

A jovem cantora havia se entusiasmado pelas maneiras cativas do senhor Wickham. A elegância do jovem não era em nada superior a dos homens que a desejavam, mas sua corte sem dúvida era a mais efetiva e habilidosa.

 

A senhora B., como era conhecida em todo o país, não ocultava sua personalidade inclinada à admiração do superficial, nem seu interesse incessante pela admiração do sexo oposto. Entretanto a aparência inocente que possuía camuflava a experiência de vida com a qual contava.

 

Certa ocasião chegou-lhe aos ouvidos, por fonte confiável – ouviu conversa entre uma senhora dona de hospedaria e um amigo do senhor Wickham – que era intenção do jovem senhor com o qual dividia os momentos da alcova terminar o relacionamento no fim do próximo encontro.

 

Indiscutivelmente a cantora já havia percebido o caráter do senhor Wickham. Atentou para seu interesse em atividades ilícitas lucrativas, em frequentar a alta sociedade, desfrutar constantemente da vida boêmia e, principalmente, das conquistas amorosas. Não sabia o senhor Wickham o que uma jovem e experiente cantora era capaz para conquistar-lhe o afeto. 

*

No mês seguinte o senhor Wickham mantinha uma expressão introspectiva, com ares de pensativo. Foi questionado por seus companheiros.

 

--- Gostaria que nos explicasse, George, o que aconteceu entre sua pessoa e a bela Lydia B.. Quase não pude crer que ela o ignorou e preferiu jantar com outro homem. Inicialmente pensei que já havia terminado com ela, mas, em virtude de sua reação, entendi que havia algo inacabado. – ponderou o jovem Dias.

 

--- Eu teria terminado naquela noite, meu amigo. Mas ela recusou-se a me receber. Meu orgulho ferido não me permitiu ignorá-la em retorno. Insisti por uma semana, até que ela me recebeu.

 

--- E enfim a colocou no devido lugar? – arguiu o amigo.

 

--- Fiz isso em seguida. – disse o jovem Wickham aos risos, brindando com o vinho mais caro do bar. --- Mas quanto mais tento desligar-me dos “talentos” daquela senhora, mais me sinto disposto a não sair daquele quarto. – admitiu bêbado. --- Creio que suas artes são mais abrasivas que as artes das cortesãs; e, que seu sorriso, aparentemente inocente, me hipnotiza em fração de segundos.

  

--- Brindemos à prisão da alcova! – exclamou o poeta Antonio Alves, desferindo versos em seguida.

 

“Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual pássaro bravo, que ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

Num laço de fita.”

*

Três meses de relacionamento amoroso. Para o senhor Wickham a cantora já não significava tanto um investimento financeiro e lascivo. De fato havia sucumbido diante dos encantos pessoais da jovem Lydia B..

 

Naquela manha de março de 1867 o senhor das conquistas decidiu: faria daquela cantora sua esposa. Não haveria situação mais confortável para ele. Administraria as ricas apresentações da cantora, viveria no conforto de suas hospedagens e não precisaria separar-se dela todas as manhãs.

 

Para suas intenções não havia melhor momento, já que à noite a turnê de sua pepita de ouro pelo Rio de Janeiro chegaria ao fim. Suas próximas apresentações estão agendadas na Bahia, terra natal do amigo poeta, e para onde, pretendeu dirigir-se com ela.

 

Se tal decisão fosse percebida por seus companheiros o espanto que lhes causaria seria parcial, pois, apesar de casamento ser entendido por eles como meio de manutenção da vida desregrada do senhor Wickham, eram incrédulos quanto à possibilidade da submissão amorosa por parte do amigo.

 

O pedido foi feito demonstrando a mais profunda inclinação do senhor Wickham. A resposta?

 

Era noite. O jovem levantou-se da cama vestindo-se rapidamente, enquanto a cantora mantinha um sorriso. Retirou um anel de valor significativo e apresentou fazendo-lhe o pedido.

 

--- George Wickham! – a cantora exclamou sua surpresa.

 

--- Basta dizer que aceita para acalmar meu coração. – disse sentado ao seu lado.

 

--- Querido Wickham! – respondeu a senhora Lydia B. aos risos. --- Acaso não sabe que esta é nossa despedida? Ou pensou em partir comigo?

 

O senhor Wickham adquiriu uma expressão menos confiante em virtude da reação inesperada que presenciou.

 

--- Entendo que sinta por mim algo especial que a leve a casar-se comigo. E então partiremos mundo a fora, desfrutando dos mais perfeitos momentos.

 

Em contrapartida a senhora B. foi tomada por uma incomum seriedade.

 

--- Querido, o anel é lindo! E o pedido é memorável. Mas creio que não foi capaz de entender o que houve aqui.

 

--- Está a ofender minha inteligência! – retrucou bravo, afastando-se dela.

 

--- Pois se lembre que o senhor foi quem ofendeu a minha! – respondeu altiva, de pé, com o corpo coberto pelo lençol de seda branca. --- Acaso pensa que não sei como se refere a mim em suas reuniões de amigos? Pepita de ouro! Bela alusão, senhor Wickham! E quanto aos meus encantos? Disse-lhes que minhas artes superam as artes das cortesãs.

 

--- Mas estas são palavras de um universo masculino! Quem ousou lhe dizer tais coisas?

 

--- Pouco importa, Wickham! Espero que minhas palavras estejam sempre ao alcance de sua memória. Não sou mais uma de suas conquistas, Wickham. Ao contrário. Fui eu quem escolheu você. E posso assegurá-lo que o fiz consciente de seu caráter.

 

--- A humilhação a qual me submeteu foi bem sucedida, senhora. – assegurou manifestando seu rancor. --- O erro foi todo meu por ter investido nesta relação. Como pude eu pensar em casar-me com uma mulher sem honra como a senhora?

 

--- Adeus, Wickham! – respondeu-lhe secamente. Completou aos risos: --- Você é um amante memorável. – dizendo isto fechou a porta do quarto.

*

Um mês se passou desde o fatídico episódio. O jovem George Wickham, ainda abatido, aos poucos retomava sua vida boêmia, sem que lhe faltasse o consolo expressivo de mulheres que foram deixadas para trás durante a permanência da cantora no Rio de Janeiro. Todavia, somente meses depois, após a leitura de carta enviada por seu amigo e poeta Antonio Alves, que seu comportamento assemelhou-se ao que era antes de conhecer a senhora B..

 

Na carta havia a íntegra dos versos elaborados pelo amigo dedicados ao relacionamento avassalador que manteve com a cantora. E foi em virtude da fracassada tentativa de retificar a estrofe final que o jovem senhor Wickham procedeu a mais uma de suas conquistas.

 

Naquela noite de maio do ano de 1868, o senhor Wickham dividia a alcova com uma jovem de beleza superior a qualquer outra com que já havia se relacionado. A jovem deitada em seu peito expressando seu contentamento por ter sido a escolhida para repousar nos braços de um homem tão desejado, abraçava-o intensamente.

 

--- Tão silencioso hoje, meu Wickham! Sobre o que reflete nesse momento?

 

--- Sobre a destreza que alguns possuem ao captar os mais profundos sentimentos dos outros e transformá-los em versos de um poema.

 

--- Espero eu fazer parte dos versos que retratam sua vida. – disse-lhe a jovem beijando-o carinhosamente.

 

--- E fará, minha querida. – mentiu. --- Minha vida escreverá novos versos.

 

O silêncio se fez entre os dois. A jovem sucumbiu ao sono enquanto o senhor Wickham pensava em como seria sua manhã: a chegada à hospedaria, o beijo e os diálogos com a proprietária, a senhora Younge, e o sono matinal. Tomado pelo sono, findou a noite murmurando os últimos versos do poema de sua vida amorosa.

 

“Pois bem! Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova... formosa pepita!

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c’roa...

Teu laço de fita.”

 

 

 

  • Fim do Conto.

 

Garotas da comunidade!

 

Como poucas conhecem algo sobre mim e principalmente como eu escrevo, peço desculpas por não escrever um conto inicial sobre os casais principais da obra Orgulho e Preconceito. É óbvio que em breve tentarei escrever sobre Lizzy e Darcy; caso contrário a senhora Sandrine me passará um sermão daqueles...

 

Devem perceber que minha paixão é atentar para as personagens marginais das obras, mostrar referências, lados e/ou espaços que pouco são observados pelos leitores. Ou até viabilizar pequenas reformas em seus comportamentos. Mas amo as personagens principais.  E desta vez escolhi transformar completamente a relação entre o senhor Wickham e a Lydia Bennet. Não me referi a Lydia por seu sobrenome porque resolvi proteger a personagem no conto. E também porque não quis imaginar Jane Austen revirando-se em seu túmulo.

 

Tenho que fazer um pedido de desculpas para o brilhante poeta baiano, do período romântico, Antonio de Castro Alves. Utilizei seu poema “O laço de fita” para embasar meu conto, atribuindo sua redação à vida de Wickham e a uma suposta relação amigável que tiveram, segundo o conto. Na verdade deve ser uma honra para Wickham ser assim homenageado...

 

Para quem tiver interesse, o poema na íntegra:

 

 

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...

Prendi meus afetos , formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

Num laço de fita.

 

Na selva sombria de tuas madeixas,

Nos negros cabelos da moça bonita,

Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se

O laço de fita.

 

Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual pássaro bravo, que os ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

Num laço de fita.

 

E agora enleada na tênue cadeia

Debalde minh'alma se embate, se irrita...

O braço, que rompe cadeias de ferro,

Não quebra teus elos,

Ó laço de fita!

 

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,

Os astros se libram na plaga infinita.

Os anjos repousam nas penas brilhantes...

Mas tu... tens por asas

Um laço de fita.

 

Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.

Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...

Beijava-te apenas...

Teu laço de fita.

 

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos

N'alcova onde a vela ciosa... crepita,

Talvez da cadeia liberte as tranças

Mas eu ... fico preso

No laço de fita.

 

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova ... formosa pepita!

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c'roa...

Teu laço de fita.

 

(Antonio de Castro Alves - São Paulo, 1868)