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Conto: Reconciliação

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em Reconciliação

Uma semana antes do Natal

 

 

Por que era tão doloroso caminhar pelas ruas iluminadas de Londres nesta época do ano?

 

O Natal estava próximo e a beleza das decorações natalinas era por si só um convite a ser feliz, parecia que a alegria pairava no ar como algo palpável, no rosto dos caminhantes apressados e carregados de pacotes pelas calçadas apinhadas, nos grandes magazines exibindo suas vitrines criativas, nas casas decoradas com luzinhas coloridas, nas músicas natalinas tocadas em toda parte, pelas ruas, nas lojas, evocando nostálgicas memórias de natais passados.

 

- Charles e eu não entendemos e não nos conformamos com a separação de vocês. Parecia que estava tudo bem e de repente se separam, sem mais nem menos.

 

O comentário, já esperado, de sua irmã mais velha Jane, não pegou Lizzy de surpresa, afinal estranho seria se ela nada dissesse. Desde que eram meninas, as duas irmãs trocavam confidências e davam palpites na vida uma da outra, como só as irmãs muito amigas se acham no direito de fazer.

 

- Não... não estava tudo bem como parecia... era só aparência... há algum tempo que nosso relacionamento estava esfriando. – Retrucou Lizzy enquanto tomavam um chá quente no intervalo das compras natalinas. – Jane, foi melhor assim. Acredite em mim, seria muito pior se já estivéssemos casados, então, sim, a separação seria mais dolorosa.

 

- Não me conformo. Pareciam tão apaixonados... Parecia que tudo estava sempre bem entre vocês.

 

- As aparências enganam, minha irmã. De uns meses para cá, William estava cada vez mais distante, sempre ocupado com seus negócios, era raro o fim de semana que não estava viajando. O trabalho sempre em primeiro plano, quase não restava tempo para mim. Eu estava sempre sozinha... me sentia sempre preterida.

 

- Será que você não está sendo muito exigente com ele... Ele é um homem de negócios ocupado, com muitas responsabilidades e você sempre soube disto.

 

- Não fui exigente, acho até que fui muito compreensiva com a falta de tempo que William dispunha para mim e este foi o meu erro.

 

- Bem, quem sabe ainda não reatam depois que refletirem melhor na besteira que estão fazendo.

 

- Acredito que não haverá volta Jane. Quando expus meus motivos, ele ouviu e ficou calado, apenas concordou que eu estava certa, a única desculpa que deu foi a de que não podia largar suas responsabilidades apenas para me fazer companhia. William me fez sentir como uma menina mimada que faz exigências absurdas e você sabe, melhor do que ninguém, que não sou uma garota mimada e que a única coisa que estava pedindo para ele era um pouco de atenção, algo razoável que toda namorada merece. Enfim, foi assim que terminamos...

 

Os olhos de Lizzy marejaram e ela discretamente procurou secá-los com um lenço papel tentando se recompor.

 

Era triste romper um relacionamento, principalmente quando ainda havia amor, quando este sentimento parecia não diminuir com a passagem do tempo. E nesta época do ano parecia que a solidão era maior. Era duro ver a felicidade estampada no rosto das pessoas e se sentir tão infeliz.

 

Lizzy procurava não pensar em sua dor e se ocupar com seu trabalho, mas havia momentos em que a tristeza era tão insuportável que chegava a pensar que cometera um grande erro, que teria sido melhor continuar o namoro apesar de estar insatisfeita com ele, continuar recebendo as migalhas de atenção que William lhe dava.

 

- Jane, mudando de assunto, decidi que este ano não vou para Longbourn passar o Natal com a nossa família.

 

- E mais esta! E onde irá passar o Natal?

 

- Tenho muito trabalho para entregar no início de janeiro e decidi que vou passar o Natal e o feriado de final de ano aqui em Londres em meu apartamento, trabalhando.

 

- Sozinha aqui em seu apartamento!? Deprimida do jeito que está? Não vou permitir uma coisa destas.

 

- Jane, tenho muito trabalho a fazer e estarei ocupada. Não se preocupe, vou ficar bem.

 

Jane olhava desconfiada para Lizzy, não convencida dos argumentos da irmã quando perguntou:

 

- E o pessoal lá em casa já está sabendo desta tua decisão?

 

- Não, ainda não comuniquei a eles, mas acredito que mamãe não irá se importar muito, nem vai perceber minha ausência. Ela está tão entusiasmada com a vinda de Lydia, George e do bebê deles de Newcastle, ela não fala de outra coisa.

 

- Mamãe pode não se importar, mas papai vai ficar bastante aborrecido. Você acha justo estragar o Natal dele? E de todas nós, pois sentiremos tua falta.

 

- Está bem, você está certa Jane, não tenho a intenção de estragar o Natal de ninguém. Irei, então, mas apenas para o almoço em família no dia de Natal, mas volto no final da tarde, não irei ficar lá.

 

- Menos mal, mas ainda não acho uma boa idéia você ficar sozinha nesta época.

 

- Eu preciso mesmo trabalhar, meu prazo para entrega é na primeira semana de janeiro.

 

 

Véspera de Natal

Lizzy se preparou para passar o Natal mais triste e solitário de sua vida.

 

Alugou alguns filmes para assistir e fugir da programação natalina das TVs, que este ano certamente a iria deprimir. Comprou um livro que há muito queria ler e abasteceu sua cozinha com os alimentos que iria consumir nos feriados.

 

Um único pensamento a perseguia embora a contragosto:

 

Onde estaria William? Com quem passaria o Natal?

 

Deveria ter ido a Pemberley, como era seu costume, passar o Natal em companhia de Georgiana e dos parentes, tios e primos. Lady Catherine devia estar exultando de felicidade ao saber que o sobrinho querido havia terminado o namoro com “aquela alpinista social”, como costumava denominar Lizzy. Afinal, agora o caminho estava aberto para ela por em prática o tão sonhado projeto de casar o sobrinho com sua única filha Anne.

 

Que tudo desse certo e que todos fossem bem felizes! Pensava Lizzy sem conseguir evitar que uma onda de ciúmes e amargura varresse todo o seu ser.

 

Lizzy estava neste estado de espírito depressivo quando o telefone tocou. Certamente, devia ser algum amigo para lhe desejar um feliz Natal ou alguém de casa ligando para saber a que horas ela chegaria amanhã a Longbourn para o almoço em família.

 

O indicador de chamadas revelou o número do telefone da última pessoa sobre a face da Terra de quem esperava uma ligação: William.

 

O coração de Lizzy começou a bater furiosamente. Ela não podia esconder de si própria o quanto ele ainda a afetava. Por que negar a si própria de que ainda o amava?

 

- Lizzy, será que podemos conversar? – Ela não conseguiu evitar a emoção ao ouvir a voz profunda e aveludada de William, que foi direto ao motivo do telefonema, sem preâmbulos como era do seu feitio.

 

- Acho que não temos mais nada a dizer um ao outro. Tudo foi dito no nosso último encontro. – Lizzy  respondeu sem conseguir disfarçar o tremor em sua voz.

 

- Você pode ter dito tudo o que queria naquela ocasião, mas se está lembrada, eu apenas ouvi e não falei quase nada.

 

- Não falou porque não quis.

 

- Achei melhor refletir sobre tudo que você me disse e foi o que fiz nestas duas semanas que estamos separados.

 

- E encontrou tempo em sua agenda sempre tão ocupada para pensar neste assunto?  - Lizzy não conseguiu evitar o tom irônico à pergunta.

 

- Sim. – Era típico de William estas respostas monossilábicas que tinham o poder de irritá-la e desarmá-la. - Então, Lizzy, será que posso ir agora para conversarmos com calma.

 

- Mas esta conversa precisa acontecer hoje à noite? É véspera de Natal, não podemos deixar para outra ocasião?

 

- Você está recebendo convidados?

 

- Não... estou sozinha.

 

- Então, qual o problema? Acho que deveríamos ter conversado antes, mas precisei viajar a negócios e só voltei da Alemanha, hoje à tarde.

 

- Ah! Sempre os negócios... – Suspirou Lizzy, sem conseguir suprimir o comentário irônico.

 

- Posso passar aí para conversarmos?

 

Após alguns segundos de hesitação, Lizzy respondeu:

 

- Tudo bem, venha.

 

Ela preferia que William não viesse, para ela a conversa que haviam tido há duas semanas havia sido definitiva e dolorosa demais para ser repetida. Nada mais havia a ser dito, pelo menos da parte dela, mas pelo visto o mesmo não havia acontecido com William, portanto ele tinha o direito de expor seus argumentos.

 

Era melhor, eles terminarem o relacionamento que durara mais de um ano, com todas as diferenças acertadas, como duas pessoas civilizadas.

 

Lizzy trocou o pijama confortável e o penhoar quente por uma calça jeans e um suéter, prendeu os longos cabelos em um rabo de cavalo e aguardou William que não tardou a chegar.

 

- Quando liguei estava com medo de que você tivesse ido passar o Natal com sua família. – Comentou William ao entrar na pequena sala do apartamento de Lizzy.

 

- Vou só amanhã para o almoço, estou muito ocupada, tenho um trabalho que preciso entregar no início de janeiro.

 

William costumava ser de poucas palavras, mas seu silêncio nunca chegara a incomodar Lizzy, mas nesta ocasião em especial, o silêncio estava pesando, e ela incentivou-o a falar, pois queria terminar logo aquela conversa dolorosa.

 

- Bem, William, você me disse ao telefone que queria conversar comigo. Estou às ordens.

 

- Bem... quero conversar com você sobre nós dois. Pensei muito nestas duas semanas sobre tudo o que me falou em nossa última conversa. Reconheço que você está certa, tenho dado pouca atenção a você. Tenho estado muito ocupado com os negócios, preocupado com a crise econômica, mas em nenhum momento pensei que você terminaria nosso namoro por causa disto. Confesso que fui pego completamente de surpresa, fique sem ação e dei a impressão a você que concordava com o fim de nosso namoro, mas não concordo.

 

Houve uma longa pausa após este discurso, um dos mais longos feitos até aquele dia por William. Ao olhar para ele, aguardando que ele continuasse a falar, Lizzy achou que seus olhos azuis estivessem úmidos, mas devia ser apenas uma falsa impressão.

 

William Darcy chorando?

 

Impossível!!!

 

- Lizzy, você sabe que eu te amo e não quero viver separado de você, por favor, volte para mim.

 

- William, eu também te amo, mas não quero continuar a ter o tipo de relacionamento que estávamos tendo. Você sempre totalmente absorvido pelo trabalho, recebendo telefonemas de negócios a qualquer hora, viajando constantemente. Quando estava comigo não sentia que você estava inteiro comigo, sua cabeça parecia estar sempre nos problemas de seu trabalho, muitas vezes percebi que você não prestava atenção ao que eu lhe dizia. Se durante o namoro você estava se comportando assim, imagino como não será quando estivermos casados.

 

- Peço desculpas, sei que tenho negligenciado você, mas vou procurar me emendar, prometo.

 

- Tenho dúvidas se será bom para nós reatarmos... Estas promessas feitas em momentos de desespero não costumam durar muito.

 

- Você não acredita que posso mudar?

 

- Para ser bastante sincera, não acredito.

 

- Por quê?

 

- Porque para você o seu trabalho estará sempre em primeiro lugar. E você é do tipo mandão, quer estar sempre no comando, acha que só você sabe tomar as decisões certas, resolver tudo a seu modo, não deixa seus auxiliares decidirem nada, por isto não lhe sobra tempo, está sempre sobrecarregado de trabalho.

 

- Tenho medo de delegar tarefas e acabar tendo que responder pelos erros de outrem.

 

- Entendo muito pouco de administração de empresas, mas acho que você poderia deixar para seus auxiliares diretos muitas de suas tarefas, afinal eles são muito bem pagos para isto.

 

Houve um longo silêncio incômodo.

 

- Você tem razão Lizzy, reconheço que tenho a tendência de centralizar tudo em minhas mãos, vou ter que aprender a delegar para poder ter tempo para viver minha vida particular. Obrigada por me dizer isto, uma verdade que ninguém, até hoje, teve a coragem de me dizer.

 

- Lógico, seus funcionários não diriam isto com medo de serem demitidos sumariamente.

 

- Jamais demitiria alguém por me dizer isto, embora seja sempre muito difícil ouvir verdades como esta. Mas não vim aqui para falar sobre meu trabalho. Vim para conversarmos e resolvermos a questão sobre nós dois.

 

- William, a decisão que tomei há duas semanas é definitiva.

 

- Definitiva?! Você já está com outra pessoa?

 

- Não, claro que não. Não sou como você, que com um simples estalar de dedos, tem uma fila de pretendentes que aceitariam namorar, noivar e casar com você.

 

William deu um riso sem graça respondendo em seguida:

 

- Não é bem assim. E você sabe muito bem que não me interesso por nenhuma delas. A única pessoa que importa para mim é você, Lizzy. Eu não sei viver sem você.

 

- Não é o que parece, ao menos ultimamente.

 

- Os problemas no trabalho sempre são tantos que me deixei absorver por eles. Por favor, me desculpe e me dê a oportunidade de provar que vou mudar.

 

Havia um mar de dúvidas nos olhos de Lizzy.

 

- Prometo, meu amor! Por favor! – O tom de desespero na voz de William não escapou a Lizzy.

 

- Que garantia vou ter de que esta promessa não cairá no vazio daqui a algum tempo?

- A única garantia que posso lhe dar é minha palavra. Não é suficiente? Não acredita nela?

 

- Não sei...

 

William levantou-se do sofá tomou as mãos de Lizzy e a levantou, puxando-a para si, num abraço onde havia uma mistura de paixão e desespero.

 

- Lizzy me dê esta noite o único presente de Natal que desejo: ter você de volta para mim.

 

William não deixou de notar a dúvida que persistia no olhar de Lizzy.

 

- Meu amor, por favor, me dê uma chance para provar a você que vou mudar. Sem ela como você saberá que estou disposto a mudar?

 

Lizzy sentia um conflito imenso dentro de si. Seu lado realista não acreditava na promessa de William. Por outro, seu coração, que já havia sentido nestas duas semanas a dor da separação, queria acreditar desesperadamente que esta mudança poderia ocorrer. Afinal ele sempre fora sincero para com ela.

 

- Está bem, William. Vou lhe dar uma última oportunidade, mas se nada ou pouco mudar em três meses, vamos nos separar definitivamente.

 

- Está bem. Trato feito. Você não irá se arrepender. – Um sorriso substituiu o semblante carregado rejuvenescendo o belo rosto masculino.

 

Um longo beijo selou a promessa de William.

 

Aquela noite que prometia ser a mais triste para Lizzy transformou-se numa noite mágica como devem ser todas as noites de Natal.

 

 

 Réveillon do ano seguinte

 

 

A areia e a calçada de Copacabana estavam tomadas de gente, tanta que era impossível se distinguir o tradicional traçado feito de macadame branco e preto, marca registrada da famosa praia.

 

Lizzy observava sozinha do terraço de sua suíte do hotel Copacabana Palace a movimentação da multidão na praia em frente, mas não demorou a sentir ao seu lado a presença do marido.

 

- Que festa maravilhosa! Nunca vi um réveillon igual, tão animado e alegre. – Ela comentou enquanto sentia o braço de William ao redor de seus ombros trazendo-a mais perto de si.

 

- Não é à toa que o réveillon do Rio é famoso no mundo inteiro.

 

- É o local perfeito para passar o ano, este cenário maravilhoso e este calor... Se estivéssemos em Londres estaríamos trancados dentro de casa por causa do frio.

 

- Se quiser podemos descer e caminhar um pouco em meio à multidão. – disse William depositando um beijo carinhoso na testa da esposa.

 

Eles haviam se casado em junho daquele ano em Pemberley, depois que Lizzy teve certeza de que William cumprira a promessa feita na noite do Natal passado.

 

- Não, meu amor, prefiro observar tudo daqui. Não quero dividi-lo com ninguém. – Comentou Lizzy num tom malicioso.

 

- Você não me divide com ninguém. Sabe que sou só seu.

 

- As brasileiras são muito bonitas e tenho medo de que você se encante por alguma delas. Não posso correr o risco de perdê-lo. – Retrucou Lizzy com um riso brincalhão nos lábios.

 

- Você tem razão, elas realmente são muito bonitas, mas pode ficar tranquila só tenho olhos para você, você é a única mulher que importa para mim.

 

Lizzy não tinha mais do que se queixar. William continuava sendo um ocupado homem de negócios, mas fiel a promessa que fizera a ela, nunca mais a deixara com o sentimento de estar em segundo plano na vida dele. Sempre que possível, em muitas de suas viagens a trabalho, levava-a consigo e aproveitavam para fazer turismo quando ele estava disponível, como agora que haviam aproveitado a vinda de William a negócios ao Brasil para passarem o réveillon no Rio de Janeiro.

 

O belo espetáculo de luz e cores dos fogos de artifício sobre o mar não tardou, anunciando um novo ano. William e Lizzy trocaram um longo beijo para saudar o ano novo e se recolheram naquele mundo de paixão e felicidade que apenas os amantes conhecem.

 

 

FIM