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Conto de fim de ano: Um Presente Especial

Escrito por Dayse Ligado . Publicado em Um Presente Especial

 

O frio intenso anunciava que o final do ano seria bem rigoroso. A nevasca que caiu de repente paralisou inúmeras cidades européias.
Elizabeth ouvia preocupada esta notícia. William havia viajado para a Alemanha à negócios que exigiram sua presença em outro país, justamente na semana do Natal.

- William você precisa mesmo ir? – ela falou suplicante

- Sim Lizzie, preciso. Surgiu um problema na sucursal em Berlim, e não existe possibilidade de esperar que as festas de fim de ano passem.

- Mas outra pessoa não pode resolver?

- Infelizmente não. Não pense que estou satisfeito em ir, mas só eu posso resolver esta questão. Não se preocupe, espero resolver isso no máximo em dois dias, voltarei com tempo suficiente para o Natal.

 
Agora, lembrando dessa conversa, Lizzie sentia um aperto no coração, as notícias do clima deixavam-na preocupada, pela segurança de William e se ele conseguiria voltar a tempo.

Envolvida nestes pensamentos, ela mal conseguia dormir à noite. Em seus sonhos aquele par de olhos azuis penetrantes estavam sempre presentes. Suas mãos procuravam em vão sentir a presença daquele homem que a hipnotizara para sempre. Casados há sete anos, unidos por um amor profundo e sincero, que o tempo era incapaz de enfraquecer. Este amor produzira dois lindos frutos, William de 6 anos e Robert de 4 anos.

As crianças sentiram muito a ausência do pai, e perguntavam todos os dias incessantemente, apesar de estarem habituados as suas viagens, mas parecia que compartilhavam inconscientemente da angústia de Lizzie. Algumas semanas antes de viajar, William havia programado com os filhos a montagem da árvore de Natal, levou-os a diversas lojas para escolherem os enfeites e a bela estrela que adornaria o topo da árvore.

Apesar de saber o quanto William adorava aquele momento com os filhos, Lizzie não pode adiar mais e junto dos filhos montou a imensa árvore na sala de estar.
 
_ Mamãe o papai não vem enfeitar a árvore? _ perguntou o pequeno Robert.

_ Não querido, o papai esta trabalhando muito e pediu que enfeitássemos a árvore, assim quando ele chegar, vai se alegrar em ver que não esquecemos do quanto ele gosta de árvores de Natal?

_ Então, vamos deixá-la a mais linda árvore do mundo! _ exclamou saltitante William, correndo para as caixas onde os enfeites estavam, sendo seguido por Robert.

Com muita paciência, Lizzie ensinou aos filhos a pendurar os enfeites, esta tarefa levou praticamente toda uma tarde. Lizzie emocionava-se, ao ver os olhos brilhantes dos filhos a cada bola colorida, sino, laço, estrela, que com alegria colocavam na árvore. Quando terminaram e os piscas-piscas foram ligados, William e Robert bateram palmas e saltitaram felizes.
 
_ Agora, que tal fazerem um pedido ao Papai Noel? _ deu-lhes folhas de papel e lápis de cor para que eles desenhassem, deixando-os por alguns momentos sozinhos, para verificar o andamento do jantar.

Ao retornar, haviam terminado e o desenho estava pendurado na árvore, a governanta os levou para o banho, Lizzie aproximou-se da árvore, surpreendendo-se com o desenho, em ambos estava o desenho de sua família, o pedido de seus filhos ao Papai Noel, fora muito simples, queriam somente sua família reunida.
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Dois dias passaram-se e devido a nevasca intensa, várias vezes ao dia as comunicações ficavam interrompidas. Ao amanhecer, Lizzie acordou com o telefone tocando. Ainda sonolenta atendeu:
 
- Alô! _ falou quase num sussurro.

- Lizzie! Lizzie! _ William gritava do outro lado da linha.

- William é você, onde você está? O que aconteceu? _ perguntou, sentando-se sobressaltada.

- Estou bem! Mas ainda em Berlim. Resolvi tudo ontem, mas os aeroportos não estão operando. Todos os vôos foram cancelados até esta nevasca dar uma trégua.

- Não Will, hoje é véspera de Natal. _ falou entristecida.
 
- Meu Amor, acalme-se! Vou achar uma maneira de chegar a tempo. De trem, de carro, mas irei.

-William, são mais de 1000 km, como você vai chegar a tempo?

- Não sei, mas farei tudo para passar o Natal com vocês. Eu te amo!

- Eu também de amo. Tenha cuidado!

- Terei! _ falou desligando o telefone.
Lizzie ficou apreensiva. Nada poderia fazer para ajudá-lo. Procurou segurar suas emoções para não transmitir as crianças.

Durante todo o dia, os filhos perguntavam pelo pai, e ela dizia que ele demoraria um pouco, mas chegaria para passar o Natal com eles.

Recebeu uma ligação de Jane, para confirmar a ida deles para sua casa:

- Lizzie, está tudo bem? Tenho tentado falar com você, mas as linhas telefônicas estão péssimas por causa do tempo.
- Olá Jane, está tudo bem sim.

- Que desânimo é este minha irmã?

- William ainda está em Berlim, e não sei como vai voltar, os aeroportos estão interditados e os vôos cancelados.

- Calma Lizzie, sei que é angustiante, mas ele saberá achar um meio de voltar.

- Sim eu sei, mas fico preocupada. Se viesse de avião logo estaria aqui.
 
- Olhe, eu liguei para confirmar a presença de vocês aqui. Charles pode buscá-la com as crianças e assim que William entrar novamente em contato você o avisa para vir direto para cá.

- Jane, não vai dar. Não conseguirei ir para sua casa, enquanto William não chegar. Será melhor passarmos à noite aqui mesmo. E ele chegando, nós iremos amanhã.

- Lizzie, vai ficar sozinha com as crianças ai?

- Vou! Nada me fará sair daqui enquanto ele não chegar.
- Eu não concordo com você, mas se mudar de idéia, ligue-me.

- Está tudo bem, Jane. Já mandei preparem uma ceia aqui. Ficaremos bem aguardando por William.

- Então caso você não mude de idéia, aguardamos vocês amanhã.

- Claro! Obrigada Jane, fique tranqüila, como já disse ficaremos bem!
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William dirigiu-se para a estação de trem, que ligava praticamente toda Europa. Tomaria um trem para Paris e de lá pegaria na estação Gare Du Nord outro para Londres, passando pelo Euro túnel que liga as duas capitais.
 
A estação estava lotada. Depois de vários trens bala saindo em velocidade reduzida, pois a nevasca também impedia que eles operassem na velocidade habitual, finalmente conseguiu embarcar.

Enquanto o trem fazia seu percurso, William observava os outros passageiros que também estavam ansiosos para chegarem ao seu destino. Um menino que perguntava insistentemente à mãe quando chegariam, um homem que folheava um jornal para passar o tempo, uma mulher que lia um livro... Todos com certeza deveriam ter alguém aguardando por eles ansiosamente.

Abriu sua pasta e dentro de sua carteira olhou com ternura as fotos de Lizzie e dos meninos. Que sentimento estranho!- pensou. Agora por estar longe, e a ansiedade de chegar faziam que a saudade apertasse ainda mais o seu coração.
 
Anoitecia, pela janela de seu quarto Lizzie contemplava o céu. Embora a densa névoa encobrisse as estrelas, ela sabia que estavam lá e numa prece silenciosa pedia que William chegasse a tempo mesmo que tudo insistisse em dizer que não.

O relógio batia, 23:00 horas. De vez enquanto um dos filhos acordava, para saber se o pai havia chegado. Num esforço em conter a angústia, ela lhes falava que ainda chegaria.

- Mas mamãe, já está tarde! _ falou William.

- Eu sei meu querido! Mas tenha calma, acredite seu pai logo chegará.
 
Depois de muitos questionamentos, conseguiu que eles finalmente deitassem. Quando já ia saindo do quarto, Robert pediu:

-Mamãe conte-nos de novo como vocês se conheceram. _ Lizzie deu meia volta e começou a contar.

_ ... e então, mamãe ficou tão hipnotizada por aqueles lindos olhos azuis ... _ Lizzie estava tão entretida com as crianças, que nenhum deles notou alguém parado à porta.

_ E o papai ficou tão apaixonado por uma linda morena, de olhos castanhos que não conseguiu mais ficar tanto tempo longe dela...

- Will!! Você finalmente chegou! _ falou abraçando-o.
- Eu disse que chegaria, não disse.

- Papai, papai! _ os meninos saíram correndo ao seu encontro.

Depois de muitos abraços, colocaram os meninos para dormir.

Abraçados no aconchego do lar, selaram com um beijo intenso a saudade que parecia não terminar.

- Eu disse que chegaria a tempo _ William falou sussurrando ao ouvido de Lizzie.

- Eu sei, meu amor mas fiquei preocupada por não saber se você estaria em segurança. Mas fui atendida em minhas preces. Você ter conseguido chegar a tempo foi um presente muito especial.

- Feliz Natal, minha pérola!

- Feliz Natal para você também meu amor!

FIM