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Silent Night

Ligado . Publicado em Silent Night

 
O telefone tocou. Ele pensou em deixar cair na secretária eletrônica, mas mudou de idéia. Depositou o copo de uísque na mesa ao lado e levantou-se vagarosamente da confortável poltrona para atender. Deixou tocar quatro vezes antes de tirar o aparelho do gancho.
 
- Alô? – atendeu com má vontade.
 
- William? Seu bom humor é contagiante! – respondeu uma conhecida voz feminina do outro lado da linha.
 
- Georgiana. – ele limitou-se a dizer.
 
- Eu disse para vir passar o natal conosco! Por que você insiste em ficar trancado nesse apartamento sozinho enquanto todo mundo se diverte?
 
- Você sabe o quanto detesto essas comemorações.
 
- Francamente, meu irmão, ficar sozinho na noite de natal é coisa de velhos amargurados e sem família. É deprimente.
 
- Parece que me encaixo bem na descrição.
 
- Você tem trinta e oito anos. Já está passando da idade de casar, mas acho que ainda dá para o gasto. – brincou a irmã – Ah, e muito obrigada pela parte que me toca.
 
- Querida, você tem a sua própria família agora. Vá se divertir com eles. Não se preocupe comigo.
 
- Mas as crianças estão perguntando pelo tio Will. Elas querem que ele venha cear com a gente. Anna inclusive pediu para dizer que ela mesma cortou os pães-de-mel em formato de bonequinhos.
 
- Tenho certeza de que quando Peter entrar na sala vestido de Papai Noel com o saco de presentes Harry e Anna se esquecerão de mim imediatamente. E diga a Anna que eu vou quando ela mesma fizer os pães-de-mel.
 
- William, você é impossível!
 
- Eu sei. Agora pare de perder tempo comigo e vá servir a ceia. Não se esqueça de tirar fotos do meu vice-presidente executivo vestido de Papai Noel. Essa é uma cena que precisa ser registrada. Imagino o que o pessoal da empresa diria se visse.
 
- Você poderia vir assistir à cena pessoalmente...
 
- Desista, Georgie.
 
- Está bem. Você venceu. Mas no ano que vem você não me escapará!
 
Despediram-se desejando “feliz natal” um ao outro e desligaram.
 
William adorava a irmã, o cunhado e os sobrinhos, mas passar a véspera de natal imerso naquela atmosfera de felicidade familiar era demais para ele.
 
Seus pais haviam morrido em um acidente de avião no dia 23 de dezembro quase trinta anos antes. Estavam voltando de Nova York para passar o natal com os filhos em casa. Georgiana era ainda um bebê na época, por isso não tinha recordações deles. Mas William se lembrava. E odiava as festas de final de ano desde então.
 
Depois de recolocar o telefone no lugar, ele voltou para a sua poltrona e bebeu de um só gole o que restara do uísque no copo. Olhou para o relógio de pulso. Ainda eram nove horas. Aquela noite seria longa e ele sabia que não teria sono tão cedo.
 
Precisava se distrair de qualquer maneira. Ligou a televisão. Péssima idéia. Enquanto os noticiários mostravam os shoppings abarrotados com as compras de última hora, os documentários apresentavam informações sobre as diferentes comemorações ao redor do mundo e os canais de filme reprisavam “O Milagre da Rua 34” e “A Felicidade Não se Compra”. Desligou rapidamente.
 
Já não ouvia mais o coro. Deviam estar cantando em outra rua. Respirou aliviado. Entretanto, apenas alguns minutos daquele silêncio mostraram-se tão ruins ou piores do que as tradicionais canções.
 
Decidiu sair um pouco. Sim, um passeio o ajudaria a espairecer.
 
Assim que colocou os pés para fora do edifício deparou-se com as guirlandas penduradas nos postes. Tinha se esquecido daquilo.
 
”Será que não existe um local sequer onde se possa ter um pouco de paz?” pensou irritado.
 
Sabia que não. Fugia de seus pensamentos. Não importava para onde fosse, não estaria em paz, não naquela noite. O silêncio ensurdecedor estava dentro dele.
 
Decidiu ignorar a decoração e prosseguir com seu passeio. Enquanto caminhava, podia sentir as lufadas do vento gélido de dezembro contra o rosto. Esfregou as mãos enluvadas e enfiou-as nos bolsos do sobretudo.
 
Andou por horas. Não percebia o tempo passar. Não via aonde seus pés o levavam. Não pensava.
 
O exercício mostrara-se proveitoso. Ele havia atingido o seu objetivo: conseguira anestesiar-se totalmente por horas e nem sequer precisara de comprimidos para aquilo!
 
Voltou a si quando deu um encontrão em uma moça que passava apressada.
 
- Olhe por onde anda! – reclamou a mulher – Quase me fez derramar a sopa!
 
Então ele percebeu que ela carregava uma panela cujo conteúdo exalava um cheiro bastante apetitoso. Ouviu seu estômago roncar e lembrou-se de que não havia jantado.
 
- Eu não tenho culpa se existem pessoas malucas como você por aí que andam carregando panelas de sopa quente pela rua sem prestar atenção! – respondeu ele irritado.
 
- Vamos logo, Lizzy. Ainda temos muito trabalho pela frente. – disse uma segunda moça às costas da primeira. Ela tinha os cabelos loiros, diferente da outra, que era morena, e carregava um embrulho que ele não soube identificar. Mais adiante, ele viu um carro parado de onde saiu um rapaz que parecia estar com elas.
 
A moça de cabelos castanhos ondulados olhou feio para William e continuou seu caminho, seguida pela loira, enquanto o rapaz esperava encostado ao carro.
 
Ele pretendia fazer o mesmo, seguir com a sua caminhada sem rumo, mas ficou curioso e parou por um momento para ver aonde elas iam. Viu-as virando em uma esquina por onde ele passara pouco antes. Olhou de soslaio para o rapaz do carro. Ele estava distraído com seus fones de ouvido. Não pensou duas vezes e foi atrás das moças.
 
Ao dobrar a esquina ele se deparou com um beco. O local era iluminado apenas pela fraca luz que vinha das janelas do prédio ao lado. A neve se acumulava sobre o amontoado de lixeiras e sacos de lixo. Sob a fraca claridade, ele pôde distinguir ao fundo um grupo de indigentes. Aproximando-se mais ele viu as duas moças com quem cruzara minutos antes. Enquanto a loira distribuía tigelas e colheres de plástico, a morena servia a sopa.
 
William ficou parado na entrada do beco apenas observando as duas filantropas, até que a morena percebeu-o ali. Ele pensou em ir embora, mas ela já o havia visto. A moça entregou a panela à companheira, que continuou servindo a sopa, e aproximou-se dele.
 
- Posso ajudá-lo? – perguntou ela sem esconder a hostilidade na voz.
 
- Eu estava apenas...
 
- O quê? Nunca viu gente pobre?
 
- Eu não... Eu não... – ele não conseguia formular uma frase coerente. Estava embaraçado por ter sido pego naquela situação.
 
- Bom, eu tenho novidades para você: existem pessoas por aí que não tem o que comer em plena noite de natal. Triste, não é? Agora, por que você não vai para casa aproveitar a ceia farta que a sua esposa deve estar preparando e deixa que eu e minha irmã continuemos o nosso trabalho?
 
- Eu não tenho esposa.
 
- Que lástima! Vou rezar por você mais tarde. – respondeu a moça com sarcasmo carregado e William reparou que mesmo irritada ela era bastante atraente – Se não se importa, preciso ajudar gente com problemas maiores no momento. – E virou-se deixando-o ali sem ação.
 
Ele precisou de apenas um minuto para se recuperar e foi embora. O que estivera pensando? Por que tinha se embrenhado em um beco imundo atrás de uma estranha? Talvez Charles estivesse certo. Talvez ele precisasse mesmo de análise.
 
Passou rapidamente pelo rapaz com os fones. Aquele passeio já tinha ido longe demais. Queria voltar para casa o quanto antes. Tomaria seus comprimidos e dormiria até a manhã seguinte.
 
Passando por um relógio de rua, viu que faltavam apenas cinco minutos para a meia-noite. Apressou o passo. Já era tarde e ele estava acostumado a dormir cedo. Quem sabe nem precisaria dos comprimidos?
 
Havia se afastado muito de casa sem perceber enquanto caminhava. Pensou em pegar um ônibus para voltar, mas àquela hora precisaria esperar muito por um. Resolveu pegar um atalho por uma viela.
 
Passando pela rua estreita e deserta, ouviu um choro abafado. Olhou em volta, mas não havia nada. Seguiu o som até um amontoado de latas de lixo como o que havia visto no beco. Com nojo, afastou a tampa de uma das lixeiras e encontrou, embrulhado em muitas mantas, um bebê.
 
Sua surpresa foi rapidamente substituída por revolta. Que tipo de pessoa abandonava um bebê em uma lixeira? Ainda mais na noite de natal! Estava tão frio... A pobre criança poderia ter morrido congelada!
 
Movido por um instinto de proteção, ele tomou o bebê em seus braços e levou-o para longe dali. Não fazia idéia do que fazer com a criança, mas não podia deixá-la onde estava. Decidiu levá-la para o apartamento. Pensaria no que fazer depois, quando chegasse lá.
 
Caminhou por muito tempo. Felizmente, o bebê havia dormido, e ele andava devagar com medo de acordá-lo. Durante o percurso, ele aproveitou para observar melhor a criança. Seus cabelos muito escuros contrastavam com a pele alva. Por baixo das mantas, ele viu que ela usava uma roupinha cor-de-rosa. Era uma menina e não devia ter mais do que um ano.
 
Estava quase na rua em que morava quando avistou a moça de cabelos castanhos. Ela havia acabado de servir a sua sopa para um outro grupo de indigentes. Não havia sinal da loira nem do rapaz, mas o carro estava estacionado logo à frente.
 
Sem pensar duas vezes, William dirigiu-se a ela. Estava acostumada a fazer trabalhos de caridade; saberia melhor do que ele como agir em casos de crianças abandonadas em lixeiras.
 
- Hei! Moça! – chamou
 
- Ah, é você novamente? – dessa vez ela parecia mais cansada do que irritada.
 
- Eu preciso da sua ajuda. – disse mostrando o bebê que carregava.
 
- Mas o que você tem aí? – perguntou a moça com uma nota de doçura na voz enquanto puxava delicadamente a manta para ver melhor a criança.
 
- Eu a encontrei em uma lata de lixo.
 
- O quê? – tinha sido mais uma exclamação do que uma pergunta.
 
- Eu estava passando por uma rua, ouvi um choro de criança, fui atrás e a encontrei dentro de uma lixeira! – respondeu colocando toda a revolta e angústia que sentia nas palavras.
 
- Mas isso é um absurdo! – a moça estava visivelmente desconcertada – Que tipo de monstro abandona um bebê no lixo?
 
- Essa é uma ótima pergunta! Mas eu preferia deixá-la para uma outra hora. Se não se importa, preciso ajudar gente com problemas maiores no momento. – repetiu as palavras dela no beco indicando a menininha com a cabeça – Eu pensei que talvez você pudesse me ajudar. Não sei o que fazer!
 
- Eu também não sei! Nunca lidei com uma situação dessas antes! Mas não se preocupe, vamos dar um jeito. – William apreciou a mudança no tom com que ela se dirigia a ele. Quando não estava irritada, a voz dela tinha um timbre bastante agradável. Era levemente grave e havia algo de macio, confortante, no som.
 
- Olhe, está muito frio aqui fora. Meu apartamento fica na próxima rua. Se puder me acompanhar, eu agradeço.
 
Normalmente, ela usaria seu spray de pimenta e sairia correndo se um estranho a convidasse para ir ao seu apartamento, mas, naquelas circunstâncias, a possibilidade de que o homem estivesse com segundas intenções sequer lhe passou pela cabeça. 
 
Ele entregou a criança a ela, que imediatamente demonstrou muito mais habilidade do que ele para carregá-la e caminharam juntos até o portão do edifício.
 
- Acho melhor passarmos em uma farmácia ou supermercado antes.
 
- Para quê? – ele perguntou genuinamente intrigado.
 
- Não está sentindo o cheiro? Ela precisa trocar a fralda. E eu duvido muito que você tenha fraldas descartáveis no seu apartamento.
 
- Está bem. – depois que ela falara, o cheiro parecia ter se tornado mais evidente – Há uma farmácia logo adiante. Tome – ele tirou as chaves do bolso do sobretudo e entregou a ela – Esta é a chave do portão e esta é a do apartamento. – explicou – O número é 503. É a cobertura. Suba com ela enquanto eu vou à farmácia comprar as fraldas.
 
- Certo. – e entrou no prédio.
 
Chegando à farmácia, William se deparou com uma enorme prateleira repleta de fraldas de todos os tipos e marcas. Decidiu pegar a primeira que viu, checando apenas o tamanho. Escolheu o menor disponível. A menina era tão pequena...
 
Pagou rapidamente pela mercadoria e voltou ao apartamento. A moça havia deixado a porta destrancada. Encontrou-a sentada em sua poltrona embalando a pequena enquanto cantarolava uma melodia natalina. O abajur da mesa ao lado, onde ainda se via o copo de uísque vazio, estava aceso, mas o resto da sala estava na penumbra.
 
- Ainda bem que você chegou. Eu já não agüentava mais o cheiro. – ela sussurrou entre um sorriso que foi involuntariamente correspondido.
 
Seguindo as instruções dela, William encheu uma bacia com água quente e pegou toalhas limpas. Depois ele a assistiu enquanto ela dava banho na menina e colocava a nova fralda. Colocaram as mantas e roupinhas que ela usava na máquina de lavar e a enrolaram nas toalhas. Puseram-na para dormir no sofá mais confortável e cobriram o chão com almofadas, caso ela caísse.
 
- A propósito, sou Elizabeth Bennet. – disse a moça quando finalmente sentaram para observar a pequena em seu sono.
 
- William Darcy.
 
- Muito prazer, William.
 
- O prazer foi meu, Elizabeth.
 
- Eu esqueci de dizer: peguei um pouco de leite na sua geladeira para dar a ela enquanto você estava na farmácia.
 
- Ótimo. Ela devia estar com fome.
 
- Estava sim.
 
- Por falar nisso, eu também estou com fome. E você?
 
A barriga dela roncou em resposta e ambos riram.
 
- Não tive tempo de jantar ainda.
 
- Estava muito ocupada com os mais necessitados. – disse ele mostrando na voz toda a admiração que sentia por ela.
 
- Sim. Eu e minha irmã Jane fazemos isso todos os anos. Antigamente meu pai nos levava de carro, mas depois que ele morreu, Daniel, o namorado da Jane, passou a fazer isso.
 
- Eu os vi com você mais cedo. Mas quando a encontrei ainda há pouco você estava sozinha...
 
- Deixei os dois em casa para aproveitarem o resto da noite de natal e continuei sozinha. Já estava acabando mesmo.
 
- Entendo. E o que você faz quando não está ajudando o próximo?
 
- Trabalho no restaurante da família.
 
- Ah, então é você mesma que faz a sopa?
 
- Oh, não! Nenhum daqueles pobres coitados merece tomar uma sopa feita por mim! Sou uma péssima cozinheira, a vergonha da família. – brincou – Eu sou apenas uma garçonete. Quem faz a sopa é a minha mãe. Ela sim é uma verdadeira chef de cuisine.
 
- Nesse caso, é melhor que eu prepare o nosso jantar. Não sou um chef de cuisine, mas acho que consigo fazer algo comestível.
 
Ele preparou rapidamente um espaguete com molho de tomate, que os dois comeram sentados no chão, sem tirar os olhos da menina.
 
- Que nome daremos a ela? – perguntou William ao final da refeição.
 
- O que acha de Natalie? Vem do latim. Significa “dia de natal”.
 
- Eu gosto. Não sabia que você entendia de latim.
 
- Há muitas coisas sobre mim que o senhor não sabe.
 
- Mas estou muito interessado em descobrir. – ela ruborizou diante daquela resposta.
 
Existem coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro, e cuidar de um bebê abandonado no lixo é uma delas. William e Elizabeth, aos poucos, descobriam um ao outro e se encantavam cada vez mais. Algumas vezes eram interrompidos pela pequena Natalie, que precisava ser constantemente alimentada. Sentiam que de alguma forma os três estariam ligados para sempre. Iriam à polícia registrar o caso quando amanhecesse, mas uma coisa era certa: não abririam mão do lindo anjinho que dormia tranqüilamente no sofá.
 
A neve se depositava silenciosamente no parapeito da janela. Mas dentro do apartamento uma nova melodia começava a soar.