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A força de Lizzy - Capítulo IX

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em A força de Lizzy

Capítulo 9

Madrugada de 25 de dezembro – 1969

Geraldo Vandré – Para não dizer que não falei em Flores

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Eram três da manhã. O silêncio imperava na residência dos Darcy. Silêncio só entrecortado pelo uivo de alguns cães ao longe. De repente, batidas vigorosas à porta. Sem resposta. Novas batidas, dessa vez com mais força. Alguém tinha pressa. Alguém estava impaciente.

Lizzy levantou, encontrando-se com Suzana e Georgi, assustadas, no corredor. Ivan pegou o taco de beisebol, temeroso, e desceu. Sem Richard, ele agora era o homem da casa. Lizzy, corajosa, foi logo atrás.

- Sim? – Ivan abriu uma fresta, com o taco em suas costas.

- Eu procuro pela Elisabeth. Elisabeth Bennet.

Lizzy estava de camisola rosa, parada no primeiro degrau da escada, um pouco longe da porta, mas não longe o suficiente para não conhecer a voz.

- Pai! – como um relâmpago, ela rompeu o espaço entre a escada e a porta e jogou-se nos braços dele.

- Filha! – saudoso, ele a apertou em seus braços e acariciou seus cabelos. Com ela em seus braços, ele e seu amigo, que estava em suas costas segurando um bebê recém nascido, entraram na casa e fecharam à porta.

Paulo Roberto - o pai de Lizzy-, o estranho com o bebê, e Ivan, sentaram na sala.

- Não, não acenda a luz – o estranho pediu à Suzana, que agora se aproximava com Georgi. – Pode ser perigoso... Estamos nos arriscando para estar aqui.

- Ah... – Suzana franziu a testa, chocada. Calada, sentou-se, juntando-se ao grupo.

- Que bebê lindo, posso pegar? – Georgi questionou, sussurrando, curvando-se para ele. O estranho olhou para Paulo, como se pedisse sua autorização. Paulo meneou a cabeça em confirmação. O estranho entregou o bebê a ela. – Como é o nome dessa criança linda?

- Não sei ainda... – foi Paulo quem respondeu.

- Pai? – sentindo que havia algo errado, Lizzy se afastou para observá-lo. Havia olheiras fundas e manchas enegrecidas sob seus olhos. E não só cansaço, havia também uma tristeza evidente em seus traços. – De quem é esse bebê?

- É tua irmã.

Lizzy engoliu em seco, olhou para a pequena criança recém nascida nos braços de Georgi, mas não foi capaz de sorrir. Não foi capaz de sentir-se feliz. Justo ela, que sempre quis uma irmã... Algo oprimiu seu coração. A certeza de que alguma coisa estava errada. Extremante errada.

- E a mãe?

Ele se inclinou para frente e baixou o rosto, cobrindo-o com as mãos.

- O que houve com a minha mãe? – com a voz agoniada, Lizzy questionou o amigo de seu pai.

- Ela... Ela sabia que havia risco, quando decidiu voltar ao Brasil... – houve um silêncio total, todos os rostos concentrados nele. Todos, com a exceção de Paulo, que ainda fitava o chão – As contrações começaram há dois dias, antes dos nove meses, mas ela quis voltar ao Brasil. Ela, apesar de tudo, fazia questão que a criança fosse brasileira. E também queria fazer o parto com sua parteira de confiança, mas mal tivemos tempo de cruzarmos a fronteira... Em seguida, ela já estava em trabalho de parto. Paramos em uma vila, pedindo ajuda, todos foram muito gentis, mas o parto foi complicado, a criança estava virada, de nádegas, e foi muito demorado, Bárbara foi ficando fraca e o nenê não nascia...

- Ela não queria ir para o Hospital, Lizzy, ela tinha medo que nós fossemos presos. – Paulo explicou com melancolia.

Lizzy, já antecipando o desfecho, levou às mãos à boca.

- Sim, mas por fim nós a convencemos, quando ela não tinha mais forças para argumentar... Eu fui com ela, teu pai não. Ele é procurado, ele podia ser preso.

- E? – ela já sabia, mas não se convencia. Precisava ouvir para se certificar. Necessitava escutar palavra por palavra, letra por letra, para crer. Ivan se aproximou e segurou sua mão.

- Quando ela chegou ao hospital, já havia perdido muito sangue, estava muito fraca... Os médicos fizeram de tudo, Lizzy, e conseguiram com muito esforço salvar a criança, mas ela não resistiu...

- Não! – seu grito ecoou na sala, mas então ela observou seu pai. Ele estava tão triste... Ela não podia ser fraca... Ela tinha que ajudá-lo... Com muito esforço, engoliu o choro. Com muito auto-controle, conseguiu segurar o grito preso em sua garganta. Em outra hora, quando estivesse sozinha, ela choraria. Não na frente do seu pai. – Georgi? – ela esticou os braços tentando firmá-los, pois estavam trêmulos, e pegou sua irmã pela primeira vez.

Lizzy ficou olhando para ela, aninhada em seus braços... Tão pequeninha... Ela não teria uma mãe... E parecia tão indefesa... Então, tudo fez sentido. Ela não teria uma mãe, mas teria uma irmã. Uma irmã mais velha amorosa, que cuidaria dela e faria da melhor maneira que pudesse o papel de mãe. Ela precisava dela... Seu pai precisava dela... Lizzy iria embora com eles... Para onde quer que eles fossem. Sem que fosse preciso pedir.

Subiu o rosto, e olhou para Ivan.

- Eu sei... – ele murmurou, balançando a cabeça e comprimindo os lábios.

Depois olhou para o outro lado, para o seu pai. Ele estava tão triste...

Estava entre dois homens que ela amava, queria ficar com ambos, só que sabia que no momento isso não seria possível. Seu pai teria que sair do Brasil... Ivan iria para a faculdade... Ela não queria que ele desistisse de seus sonhos por ela... Não havia o que fazer. Ela iria embora, Ivan ficaria. O casamento teria que ser adiado...

- Lídia – o nome saiu de seus lábios naturalmente. Lembrou-se da identidade falsa de sua mãe... Lidiana... – Minha irmã se chamará Lídia. Muito prazer, Lídia Bennet – apertou a minúscula mãozinha. – Quando você crescer – ela murmurou, com carinho – eu vou te fazer um monte de roupas, você será a minha bonequinha, sabia?

Seu pai a encarou, agradecido. Uma pequena curva apareceu em seus lábios. Um leve sorriso.

- Para onde nós vamos pai?

- Para o Chile.

- Chile? Ah... – ela compreendeu – Tá... Vou fazer minhas malas... Temos que ir agora?

Ele assentiu, balançando a cabeça em silêncio.

- Alguém quer segurar a Lídia? Enquanto eu arrumo as malas?

- Me dá ela aqui. – Suzana se ofereceu amorosa, com saudades de segurar um bebê. Seus filhos estavam tão grandes...

Ela subiu as escadas, Ivan foi atrás.

- Ah, meu amor. – ela fechou a porta do quarto e, agarrada a ele, permitiu que algumas lágrimas corressem. Ficaram calados, enquanto ela chorava baixinho. – Ivan, eu vou voltar, eu prometo.

- E eu vou te esperar, eu prometo.

- Você vai para a faculdade, vai estudar e vai ser um médico brilhante, promete?

- Lizzy... Creio que isso não será possível...

- Por que não?

- Eu rompi com o Richard, não quero mais nada dele, não terei mais como me bancar em Porto Alegre...

- Ivan, use o dinheiro da nossa conta. Tem dinheiro suficiente para comprar doze Fuscas. – ela sorriu de leve, com os olhos avermelhados – Acho que dá para as tuas despesas.

- Mas o dinheiro é teu, Lizzy, eu não posso...

- Ivan! Eu vou voltar! E quando eu voltar, eu quero um marido médico. Como você vê, é um pedido totalmente egoísta.

- Sendo assim... – ele sorriu e a encarou apaixonado. – Eu faço tudo por você.

- Então faça as pazes com o Richard.

O sorriso dele murchou.

– Tudo menos isso.

- Eu te amo, Ivan. – ela o beijou demoradamente – Se eu soubesse que seria assim, teria antecipado nossa noite de núpcias.

- É... – ele também pensou o mesmo.

- Agora tenho que arrumar minhas malas, não posso deixar meu pai esperando. A gente tem que sair ainda de madrugada. Pega minha vitrola e minhas coisas na sala de costura?

- Claro, amor.

 

Lizzy despediu-se da família Darcy com três abraços apertados. Uma despedida sem data marcada para o reencontro.

- Te amo, viu? Para sempre. E nunca mais tirarei esse anel. – ela sussurrou em seu ouvido.

- Tchau, meu amor. Te cuida e me escreve, viu?

Apesar de ninguém ter chorado, o ambiente ficou saturado de tristeza e de melancolia.

 

Entrariam no exterior pela fronteira com a Argentina (por Uruguaiana, pois a fronteira São Borja - São Thomé só se cruzava de dia pela barca), e de lá seguiriam para o Chile, numa longa viagem. O pai de Lizzy, procurado pelo governo militar, encontrava-se escondido sob o banco de trás.

Dirigiam pelas ruas vazias de São Borja em plena madrugada. Em poucas horas, amanheceria.

- Cláudio! – era o nome do amigo de seu pai – Pare o carro!

Ele a encarou com surpresa.

- Por favor – ela suplicou - Eu não vou demorar. – ela apontou para o Fusca negro estacionado – Eu preciso me despedir de uma pessoa. – Richard dormia no banco do motorista.

Ela saltou do carro e bateu no vidro, animada com a oportunidade.

- O que você está fazendo aqui? – ele acordou, esfregando os olhos, e a olhou com curiosidade.

Ela circundou o carro, e ele abriu o trinco, permitindo que ela entrasse. Lizzy sentou no banco do passageiro.

- Você tem dormido na rua? – ela questionou preocupada.

- Só hoje.

- Ah...

- O que você está fazendo aqui? – franziu a testa, intrigado.

- Eu vou embora, Richard.

- Embora?

- Para o Chile... Os pais do meu pai, meus avós, moram lá... Meu pai não fala com o pai dele há anos, sabe? Eles brigaram... E é tão triste essas brigas de família... Mas agora é bom que eles façam as pazes, pelo menos isso...

- Por isso você não quer que o Ivan brigue comigo?

- Também.

- Ah...

- Minha mãe morreu, Richard.

- Ah... – assombrado, ele abriu a boca. – E você está bem? – indagou preocupado.

- Sim... Quer dizer, não sei... Ainda não tive chances de assimilar...

- Lizzy... – ela parecia tão triste, tão desamparada, que ele não se agüentou. Rompeu o espaço existente e a abraçou – Desculpa por aquilo... – murmurou com ela apertada em seus braços.

- Tudo bem... – ela aceitou o abraço. – Eu tenho que ir – mas logo se afastou. - Richard? Você gosta mesmo de mim?

- Sim.

- Então posso te pedir algo?

- Claro, se estiver em meu alcance.

- Posso então pedir mais de uma coisa?

- Claro, Lizzy.

- Primeiro, não use mais drogas, tá?

Ele achou graça e sorriu.

- É verdade, Richard... Você só fez aquilo por que não estava bem... Se você não estivesse sob o efeito das drogas e do álcool, não teria feito aquilo... Você é legal, um cara bom. – Ele negou com a cabeça, pois não estava certo daquilo – É sim, eu sei que é.

- Hum...

- A outra coisa é: cuida bem da tua família. Você é o homem da casa agora. Tua tia precisa de ti, a Georgi também. A Georgi é meio maluquinha, precisa de alguém que olhe por ela, e a tua tia continua triste pela morte do teu marido, eu a vi várias vezes chorando escondida pelos cantos. Tenho medo que meu pai fique assim também... Por isso tenho que ser forte, tenho que ficar ao lado dele e ajudar a criar a Lídia.

- Lídia?

- É, minha irmãzinha. Ela está no carro, você quer conhecê-la? Ela é tão linda!

- Linda como você?

- Não, não. Muito mais.

- Acho difícil. Você vale ouro, sabia?

- Hum... Eu vou voltar, viu? Vou voltar e me casar com o teu primo um dia. E até lá, espero que vocês dois se entendam. – o carro parado atrás fez sinal de luz, chamando-a – Eu tenho que ir. Vem conhecer minha irmã.

Os dois saíram do Fusca, antes dela entrar, trocaram outro abraço apertado.

- Não deixa o Ivan esquecer do quanto eu o amo, tá?

- Tá bom.

Ela fechou a porta e se ajeitou com Lídia em seu colo. Naquela época, crianças no banco da frente eram permitidas. Os carros não eram tão velozes, o trânsito não era tão violento. E, além disso, Lizzy não queria sentar em cima do local em que seu pai se escondia. Após atravessarem a fronteira, ela pularia para trás com Lídia.

 

Lizzy, seu pai, e sua irmãzinha recém-nascida, Lídia, seguiram para o Exílio, assim com uma pequena parte da população brasileira formada, sobretudo, por integrantes da classe média intelectualizada.

Lizzy e sua família ficaram no Chile até 1973, quando - com o golpe de estado - a permanência de brasileiros tornou-se inviável, sobretudo com a união das ditaduras latino-americanas pela Operação Condor. Até essa época, ela ainda mantinha contanto com Ivan através de cartas.

 

Em 1973, Lizzy seguiu para Paris com seu pai e sua irmã. Nesse mesmo período, Richard (agora com 29 anos) se casou. Ivan não foi ao casamento. Suzana e Georgiana se mudaram para Porto Alegre. A residência da família Darcy em São Borja foi vendida e o apartamento alugado que Ivan morava, devolvido. Georgi, Ivan e Suzana passaram a residir juntos, agora num apartamento de três dormitórios no bairro Bom Fim.

Por algum tempo, Ivan ainda retornou ao antigo imóvel em busca de alguma correspondência de Lizzy. Como nada encontrou, desiludido, acabou desistindo. Com a viagem à França, Lizzy acabou interrompendo o contanto com o Ivan. Atarefada - tinha que arrumar a casa nova, cuidar de sua irmã casula de 4 anos, cozinhar para o seu pai e para Lídia, procurar um trabalho como costureira - a carta que planejava escrever para ele acabou sendo relegada sempre a um  segundo plano. Quando enfim se lembrou e conseguiu escrever, já se passavam alguns meses deste a última correspondência. Após três cartas – uma dela para o endereço de São Borja - e nenhuma resposta, ela cessou as tentativas.

 

Em 1˚ de novembro de 1979, a família Bennet retornou ao Brasil, junto com outros beneficiados pela Anistia Política.