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Tempo de Ser Feliz - Capítulo I

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Tempo de ser feliz

Capítulo 1

 

Elizabeth estava apreensiva. O prazo que dera a si mesma para voltar esgotaria em duas semanas. E agora, o que faria? Duas semanas passariam voando e ela não se considerava pronta para voltar para casa. Seu dinheiro logo acabaria, e ela não gostaria ter que pedir socorro a sua mãe. No máximo, recorreria a sua irmã Jane, mas isso também não era algo que lhe agradaria fazer. Não. Não tinha jeito. Ela precisava voltar.

E com esses pensamentos, arriscou sair à noite sozinha pela primeira vez. Achou um Pub que lhe atraiu e resolveu entrar. A música era agradável e ela sentou-se em uma mesa de canto na parte interna do pub. Naquele dia havia uma brisa gelada e não havia ninguém nas mesas colocadas ao ar livre. Pediu uma cerveja escura, mas logo lhe ofereceram outra, com uma tonalidade mais avermelhada -especialidade da casa- o que ela aceitou com prontidão. Reparou que era costume servirem em grandes copos, chamados de pint glass (568ml) e que a cerveja não era gelada como ela estava habituada a beber.

O ambiente era agradável, e como ainda era cedo, não estava muito cheio. Algumas pessoas conversavam em uma mesa do lado oposto e estavam olhando para ela, rindo e comentando. Ela decidiu terminar sua cerveja e ir embora. Uma mulher sozinha num bar chamava atenção, ela bem sabia. E não gostava de ser o alvo de tantos olhares. Ela era uma mulher bonita, embora não se sentisse assim, e atraia tanto os olhares invejosos femininos como os de cobiça masculinos.

E enquanto terminava a sua bebida e se aprontava para sair, um dos homens que tocava na banda fez um intervalo e sentou-se perto dela, logo iniciando um papo. Ele era moreno, tinha olhos castanhos e poderia ser considerado atraente se não portasse aquele quê de cafajeste que Lizzy tanto detestava.

- Oi! Você está sozinha?

Ela assentiu, com um aceno de cabeça.

- E não está esperando ninguém? Posso me sentar?

- Depende para que. – ela respondeu, desgostosa por ser novamente abordada dessa maneira. Não tinha mais ânimo para isso, só o que ela queria era um pouco de paz.

- Oh! Você não é daqui. Percebi pelo sotaque - sorriu – Da onde você é?– indagou, e sem esperar resposta puxou uma cadeira e sentou-se perto dela, galanteador.

Ela estava prestes a levantar. A última coisa que precisava era de uma cantada barata de bar.

- Charles! Você chegou, até que enfim! Deixa eu te apresentar, essa é a minha amiga... – fez uma pausa, perguntando a ela – Qual é o seu nome mesmo? Não me recordo.

Ela ia dizer uma resposta mal criada, não tinha a menor intenção de dizer seu nome, mas aquele recém chegado, sorrindo de forma tão simpática para ela, fez com que ela mudasse de idéia. Além do mais, reparou que ele também estava de aliança. Então, com ele junto não correria perigo.

Charles era ruivo, possuía feições bonitas e agradáveis olhos verdes. Tinha a pele clara e algumas sardas no rosto que lhe davam um charme adicional. Ele acabava de chegar e estava com a ponta do nariz vermelha pelo frio que apanhara na rua. Estavam no verão, mas uma brisa gelada chegava junto com o enfraquecimento do sol. Eram 20 horas e o sol ainda estava alto, embora perdesse força a cada minuto. Nessa época do ano, costumava anoitecer só perto das 22 horas, fato que Elizabeth achava ao mesmo tempo estranho e fascinante. O solstício de verão - dia mais longo do ano - ocorria no dia 21 de junho e agora estavam no início de julho. Conforme o passar dos dias, o dia escurecia 2 minutos mais cedo, até chegarem no inverno, onde os dias eram curtos e a escuridão chegava cedo.  Quando nublado, às 16 horas parecia noite.

- Não se recorda porque eu não disse. Meu nome é Elizabeth Bennet.

- Prazer, Elizabeth – estendeu a mão, alegremente – Vejo que você não é daqui, da onde você é? – Charles exclamou, curioso. E ela, não soube por que, mas gostou dele, e isso fez com que mudasse de atitude.

- Sou Brasileira. Moro no Rio de Janeiro. – sorriu de volta.

- Brasileira? Legal! Acho o Brasil um país maravilhoso, embora só o conheça por fotos. E o que faz por aqui, tão longe de casa? Turismo ou trabalho? – Charles perguntou.

- Pode-se dizer que é turismo. – ela comentou, desanimada.

- Tenho que voltar a tocar daqui a pouco. Toma uma cerveja conosco? Por nossa conta, é claro. Podemos sentar com você? – o amigo indagou, agitado. Sempre fora fascinado por mulheres brasileiras e saber o seu país de origem a tornara ainda mais atraente.

Charles, vendo que ela estava receosa por permitir dois desconhecidos à mesa, comentou:

- A cerveja será por conta da casa, já que estamos convidando. Somos amigos do dono. Meu nome é Charles Bingley e este é meu amigo: George Wickham.

- Está bem – ela concordou – A última, depois eu irei embora.

- Você é casada? – George observou a aliança na mão esquerda.

- Não.

- É noiva então?

- Também não.

- Tem algum compromisso com alguém?

- Não mais...

- E então? Para que a aliança? Para espantar pretendente? Se for esse o motivo, quero que saiba que tem justamente o efeito contrário. Pelo menos comigo. – George comentou, dando uma risada alta.

Lizzy manteve-se em silêncio, e fuzilou-o com o olhar. Mas ele não percebeu nada.

- Eu não penso como ele, Elizabeth. – Charles explicou - Também mantenho a minha aliança, mesmo com o término de meu relacionamento. Ainda não me sinto disposto a me separar dela.

- Sim! Ele cultiva a aliança para se proteger! Para evitar o assédio das outras mulheres. Mas queria ver se Kate visse que você ainda a mantém, Charles, depois de tanto tempo que vocês estão separados. Eu já disse a ele, Elizabeth, várias vezes, que manter essa aliança não era saudável, mas ele não me escuta nunca.

- Eu o entendo. Também não me sinto pronta para dar adeus a minha.

- E há quanto tempo vocês estão separados? – George perguntou a ela.

- Quase dois anos… Fará dois anos no final do mês.

- Dois anos? Mas você superou o meu amigo Charles! Coisa de louco.

Charles sorriu para ela, com cumplicidade. Enfim alguém lhe entendia, enfim conhecia alguém parecido com ele.

- E há quanto tempo você está separado, Charles? – ela indagou.

- Um ano e dois meses.

- Viu só? – Wickham exclamou – Ele ainda conta até os meses. Até os meses! – repetiu, exaltado.

Elizabeth e Charles passaram a ignorar a presença de George, conversando entre eles.

- Bom, voltarei ao meu show. Conversamos depois, Elizabeth?

- Sim, se eu ainda estiver aqui.

- Ok – afastou-se, deixando os dois sozinhos.

- E então? Conte-me a tua história. – ele afirmou, sorrindo.

- Só se você me contar a tua primeiro.

- Ah... – ele soltou um resmungo, mas logo voltou a sorrir – Kate me deixou. E isso é tudo.

- Ah....

- E você? Qual é a sua história?

- Erik me deixou, isso é tudo. – ele repetiu as palavras e sorriu, zombeteira.

- Ah! Isso não vale! Está bem, você quer mesmo os detalhes?

Ela assentiu, com um movimento de cabeça.

- Mas todos os detalhes sórdidos? – ele brincou. E reparou, satisfeito, que enfim já conseguia sorrir ao falar de Kate.

- Eu conheci Kate através de uma amiga em comum, fomos apresentados aqui mesmo, nesse pub. Mais precisamente, naquela mesa – suspirou.- Isso foi há seis anos. Não demorou muito, e ela foi morar comigo. E moramos juntos por cinco anos, até que ela se foi.

Fez uma pausa, bebendo um pouco da cerveja, enquanto Elizabeth lhe observava com atenção.

- E para mim estava tudo bem, sabe Elizabeth?

- Lizzy, pode me chamar de Lizzy. – ela interrompeu, com simpatia.

- Está bem, Lizzy. Eu estava feliz e achava que ela se sentia da mesma forma que eu. Ela vivia reclamando que nós não saíamos mais, que eu estava sempre trabalhando e nunca tinha tempo para ela, mas eu não levava isso tão a sério, afinal, que casal não tem os seus problemas? E achei que ela me amasse ainda, como eu a amava. E então ela parou de reclamar. E penso que foi nesse momento que os verdadeiros problemas começaram. Pois quando uma mulher pára de reclamar da forma que ela fez, é porque ou ela se cansou, ou porque arranjou outra coisa para se distrair. No caso dela, acho que foram as duas opções. E a distração que ela arranjou, eu descobri por mim mesmo algum tempo depois. Um dia eu a encontrei na rua com meu amigo Mark. Eles estavam sorrindo, abraçados, enquanto que eu ainda estava em frangalhos, sentindo imensamente a falta dela. Mas me escondi, e eles não puderam me ver. E eu fiquei arrasado, completamente acabado. E qual a minha surpresa quando eu contei tal episódio aos meus amigos: ninguém, além de mim, pareceu espantado. Ao contrário, todos os meus amigos me revelavam que durante todo o nosso relacionamento ele vivia cercando-a de atenções. E, segundo eles, ela correspondia. Tudo ocorrendo debaixo dos meus olhos, e só eu não percebia.

- Mark? Ele era muito amigo seu?

- Sim. Pior que era. Um dia nos reencontramos em uma festa e ele já estava com ela, mas não a levou por minha causa. Ele não sabia que eu os vira, achava que eu não fazia idéia que eles estavam juntos. E tem que ver, Lizzy, o comportamento dele comigo. Tratando-me como se estivesse tudo bem, com a maior cara de pau, me dando inclusive conselhos a respeito de Kate. Se não fosse por Darcy, acho que ele ainda freqüentaria o nosso grupo de amigos, como se não tivesse feito nada de errado.

- Darcy?

- Sim, ele é meu melhor amigo. Talvez ele venha daqui a pouco e você poderá conhecê-lo. Mas ele trabalha muito, quase nunca consegue vir.

Ele deixou a conversa morrer, e como não prosseguia, Elizabeth indagou:

- Mas o que Darcy fez?

- Ele o confrontou na frente de todos. Darcy é um homem de poucas palavras, muito contido e sério, mas quando contrariado, vira uma fera – Charles deu uma risada.

- Ele bateu no Mark? Bem feito, ele merecia uma boa surra.

- Não, não. Não chegaram a tanto. Mas, Mark, colocado contra a parede, não pôde negar que estava morando com Kate, que eles já estavam juntos durante os últimos meses do nosso relacionamento, e, para finalizar, que eles estavam noivos e de casamento marcado. Quando para mim ela dizia que nunca iria se casar. Ficamos noivos durante anos! – ele suspirou – Na verdade, ela não queria casar comigo.

- Hum... Sorte tua, Charles.

Ele a fitou com surpresa.

- Sorte tua que se livrou de uma mulher feito essa. Garanto que o futuro te reserva algo bem melhor.

- Hum... e para você também. E então, qual é a tua história?

- A minha é ainda mais trágica, eu acho... Eu conheci Erik ainda no colégio, e acho que a vida inteira fui apaixonada por ele. Aliás, não lembro de sequer ter olhado para outro além dele. Mas ele não reparava em mim. Ele não me via – ela resmungou – E então, teve um reencontro da turma após dois anos de formados, eu já estava com dezenove anos, e não sei se algo havia mudado em mim, mas ele deve ter achado que sim: pois me olhou diferente. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida, porque nesse dia, trocamos o nosso primeiro beijo. E que beijo! Nunca pude esquecê-lo. – ela comentou, com tristeza.

- E namoramos por dois anos, e então decidimos nos casar.  Retiro o que eu disse antes: na verdade, eu acho que o meu casamento foi o dia mais feliz da minha vida! O beijo foi o segundo. Mas tivemos tantos momentos felizes que eu nem sei – suspirou, com um olhar perdido.

Ela ficou em silêncio, brincando com o copo. O enorme copo de cerveja que já estava quase vazio e era o segundo que ela bebia.

- E então, Lizzy? O que aconteceu?

- Ele morreu, Charles... – ela balbuciou, desviando o olhar.

- Ele morreu? – indagou, atônito – Mas como?

- Acidente de automóvel.

- Nossa! Você tem razão, Lizzy. A sua história é pior do que a minha. A Kate foi embora porque quis, mas o Erik...

Ele contraiu os lábios, apreensivo.

- Ele foi tirado de mim... E tão rápido, que eu não pude me despedir...

Um silêncio pairou no ar.

- Lizzy, você não acha que nos encontramos hoje por algum motivo?

- Hum?

- A nossa história, Lizzy. Ambos sofremos, mas não acha que está na hora de nos livrar desses fantasmas? Não acha que está na hora de retomarmos a nossa vida normal?

- Acho – ela murmurou. - Eu o amava, Charles. Mas preciso deixá-lo ir. Preciso viver a minha vida, parar de remoer o passado. Mas não sei como se faz isso... Eu sou uma viúva, Charles. Uma figura triste. Me sinto tão velha. Às vezes sinto pena de mim mesma, e isso é tão patético! Meus amigos não agüentam mais me ouvir, e eu tenho guardado tudo para mim. Eles acham que é fácil, Charles.

- Sei como você se sente, Lizzy. Comigo é a mesma coisa. – ele suspirou.

- Se ao menos tivesse um livro com a receita: como esquecer um amor em dez lições. A gente poderia escrever um, assim que aprender, não é? – ela riu de sua própria piada.

Ele sorriu, condescendente.

- Você não acha que o melhor jeito da gente esquecer é querendo? – ele indagou.

- Mas eu quero, quero muito.

- Lizzy, Lizzy – ele balançou a cabeça – Olhe só para a gente, isso sim é patético! Olha para nossas mãos, porque ainda portamos nossas alianças? Se tirássemos, pelo menos nos livraríamos de perguntas indiscretas como as do George. Mas se estamos com elas ainda, é porque não queremos esquecer. Pelo menos não nos esforçamos para isso.

- É verdade. – ela comentou, esticando a mão e olhando o anel. – Vamos fazer isso junto, Charles? Vamos aproveitar hoje e tirar as alianças para sempre? – indagou, com um olhar suplicante – Charles, nós dois juntos, seria a oportunidade perfeita! Acho que foi para isso que nos conhecemos.

- Mas como Elizabeth? Vamos simplesmente as tirar e nunca mais colocar?

- Tenho uma idéia melhor, veja o que você acha: vamos enterrá-las.

- Como? – ele perguntou confuso, coçando a cabeça.

- Fazer um enterro das alianças, Charles. Com velório e tudo.

- Velório? Mas quem iria?

- Nós dois. Olha que perfeito!

- Você é maluca!

- Ou poderíamos jogá-las ao mar.

- Hum... gostei mais da idéia do enterro – afirmou, pensativo – Vamos, Lizzy. Vamos sair daqui antes que meus amigos cheguem. Richard é o dono de bar, é o primo de Darcy, e ele poderá nos fornecer alguns dos objetos necessários.

- Que maluquice! – ela exclamou.

Quando levantou, ela percebeu que estava com dificuldade para caminhar, tropeçando e comentou:

- Acho que estou bêbada – sorriu.

- Melhor.

 

- Você tem certeza que só precisamos disso? – Charles indagou.

Sentaram-se embaixo de uma árvore, num lugar pouco movimentado, com vista para um rio.

- Claro. Pegue, coloque a tua aliança aqui dentro – sorriu, estendendo a ele uma caixa de fósforos vazia. E eu colocarei a minha nesta outra.

- Hum... Parecem mini-caixões. Que fúnebre.

- É essa a idéia, Charles. Enterro das alianças! Nunca viu um enterro de alianças antes?

- Não.

- Nem eu – comentou, dando risadas.

- Só você para me fazer rir numa hora dessas.

E deram risadas.

- Tome essa colher. Cave bem fundo, Charles. Para a gente nunca mais achá-las.

- Você é maluca, Lizzy. – ele riu.

Com as alianças bem enterradas, o mais fundo que a colher pôde escavar a terra, antes de entortar, ela fez o sinal da cruz e disse:

- E agora vamos rezar pela paz das alianças. Um Pai Nosso e uma Ave Maria. Para que elas descansem em paz.

- Amém – ele afirmou, compenetrado, ao terminarem a reza.

- Tchau Erik. Eu te amo, e te amarei para sempre.

- Tchau, kate. Eu certamente não te amarei para sempre.

- Nossa, já me sinto bem melhor, sabia? Bem mais leve, como se tirasse um peso de mim. – ela comentou.

- Vai ver a tua aliança era bem mais pesada que a minha – ele gracejou.

- Pára Charles, estou falando sério. Sabe que eu nunca beijei ninguém depois que o Erik morreu? E agora, até sinto vontade de dar um beijo na boca.

- Se quiser, posso me oferecer como voluntário – ele sorriu.

Ela riu.

- Claro que não, Charles. Você é meu amigo. Aliás, acho que depois do que fizemos juntos, você é meu melhor amigo.

- Então você também é a minha melhor amiga, Lizzy. Porque o que acabamos de fazer será muito bom para mim.

- Para mim também.

- Pena que você vai embora. Você mora longe – ele resmungou.

- Por mim eu não iria embora... Se eu ao menos arrumasse um emprego...

- Sério? Meu amigo Richard está precisando de alguém para trabalhar no Pub dele, não está interessada?

- Oh! Claro que sim! Mas não tenho nenhuma experiência, será que ele me aceitaria?

- Se eu pedir, penso que sim. Mas não percamos mais tempo, Lizzy. Vamos falar com ele agora.

- Hum... ele é bem bonitinho – ela comentou fazendo graça – mas não posso nem pensar em beijar o meu futuro chefe.

- E ele tem namorada, Lizzy.

- Ah... – ela fez uma careta. – Mas não repara, Charles. Eu estou bêbada. Amanhã certamente não terei vontade de beijar ninguém.

- Então pode aproveitar a minha oferta, Lizzy. Você é uma mulher bonita, não seria nenhum sacrifício para mim.

- Pára, Charles. É até pecado.

- Pecado?

- Claro! – ela zombou – amigos que enterram alianças juntos não podem se beijar!

Ele deu uma gargalhada.

- Lizzy, você é o máximo. Com certeza, é a minha melhor amiga!

- Charles, você acredita em sinais? Em destino, essas coisas?

- Hum?

- Que o nosso destino era nos conhecer para nos ajudar? Que nada acontece por acaso?

- Não sei, nunca pensei no assunto.

- Eu acredito, Charles. Acho que tudo na vida acontece por um objetivo, nada é por acaso e a gente constantemente recebe sinais para fazer as coisas certas. E agora que Erik morreu, eu vivo buscando sinais em tudo, para tentar arranjar um rumo para a minha vida.

- Sinais? – ele arqueou as sobrancelhas, enquanto faziam o trajeto de volta.

- Sim! Eu procuro por sinais, eu peço sinais à Deus toda hora. Tipo assim... Deixa eu pensar...- parou de andar, pensativa – Se houver algum homem naquele bar que eu deva beijar faça com que ele me ofereça uma bebida. – ela riu e ele deu uma gargalhada.

- Lizzy, se alguém lhe oferecer uma bebida você terá que beijá-lo, hein?

- E você também, Charles. Se alguma mulher lhe oferecer uma bebida, não precisa ser hoje, pois é mais difícil de acontecer isso com um homem, mas se alguma mulher te oferecer uma bebida nos próximos dois meses, é porque ela é o amor da tua vida.

- Dois meses? Por que dois meses?

- Sei lá, foi o que me veio na cabeça.

Entraram rindo no pub.

- Meus amigos estão aí. – Charles comentou. – Venha, eu vou apresentá-los a você.

- Está é Elizabeth Bennet, é brasileira e agora é a minha melhor amiga – Charles comentou, gracejando. – Elizabeth, está é minha irmã, Caroline, William Darcy e sua irmã, Georgiana, e esta é Charlotte Lucas.

Fez as apresentações e Lizzy cumprimentou a todos com um grande sorriso.

Mas não gostou de Caroline Bingley e nem de William Darcy. Caroline foi esnobe, e a olhou de cima a baixo. Lizzy estava com os sapatos cheios de terra, contraída na cerimônia de enterro, e Caroline reparou, não disfarçando a sua cara de nojo. William Darcy não retribuiu o sorriso, olhando-a de maneira sisuda, parecendo ter sido incomodado por ela.

Georgiana era loira e muito bonita, e parecia ser muito mais nova do que o restante do grupo. Charlotte era uma simpatia, mas não possuía a beleza das outras duas. Tinha cabelos castanhos claros e olhos do mesmo tom. Mas o seu sorriso logo lhe iluminava o rosto e compensava a falta de beleza. Caroline, por sua vez, tinha uma pele alva e lindos olhos verdes, possuindo o mesmo tom de cabelo que o irmão: ruivo.

Das pessoas apresentadas, Lizzy apenas simpatizou com Georgiana e Charlotte. Percebeu logo que elas poderiam se tornar grandes amigas, isso se conseguisse o emprego.

- E aquele que está lá no bar conversando com Richard é William Collins, marido de Charlotte. Mas como Collins e Darcy têm o mesmo nome, costumamos chamá-los pelo sobrenome.

- Lizzy, sente aqui com a gente. – Georgiana solicitou – Conte-me como é o Brasil, tenho a maior curiosidade de conhecê-lo. Mas meu irmão não me permite fazer a viagem, diz que é muito longe para eu ir sozinha, ou com as minhas amigas. – ela falou em tom de confidência.

Elizabeth sentou-se entre Charlotte e Georgiana, logo engatando uma conversa animada com as duas.

- Meu irmão? Cadê a tua aliança? – Caroline reparou, mas indagou parecendo desinteressada.

- Eu enterrei! – ele falou orgulhoso, ganhando em seguida todos os olhares sobre si. – E Elizabeth me ajudou. Por isso ele é minha melhor amiga. – deu uma risada gostosa.

Em seguida, todos lhe encheram de perguntas, e Elizabeth agradeceu mentalmente por sua participação não ter sido mencionada com detalhes. Ninguém precisava saber que ela enterrara a sua também.

E assim que Collins retornou à mesa, Lizzy percebeu que sentara em seu lugar. Aproveitou para levantar e ir ao banheiro.

Charles conversava com Darcy em um canto mais sossegado, próximo ao banheiro feminino, e eles não perceberam a sua chegada.

- E então Darcy? O que você achou da Elizabeth? Eu acho que ela é mulher perfeita para ti.

Ouviu o seu nome e, curiosa, parou para ouvir. Posicionou-se atrás da parede, onde não poderia ser vista.

- Ela é tolerável, mas não o suficiente para tentar-me.

Lizzy sentiu o ar faltar-lhe, de tanta raiva. Mas quem ele pensa que é:

“Tolerável, mas não suficiente para tentar-me”.- bufou.

Mas não deixaria nada lhe incomodar naquele dia. Sentia-se leve e feliz. E tão logo se recompôs: deu uma gargalhada discreta, cuidando apenas para não ser ouvida.

Não precisava da aprovação de ninguém, muito menos da aprovação daquele homem. E agora estava certa que não gostava dele.

Elizabeth voltou à mesa, sentando novamente entre as novas amigas.

Darcy, como um bom cavalheiro que era, vendo que ela pretendia continuar entre seu grupo, não pôde deixar de perguntar:

- E então, Elizabeth, já que vejo que pretende permanecer com a gente, posso lhe oferecer uma bebida?

Pega de surpresa, ela trocou um olhar assustado com Charles, que sorriu com vontade. O homem que lhe oferecera bebida era o último homem da face da terra que ela teria vontade de beijar. Dessa vez, talvez pela primeira vez na vida, ela ignoraria um sinal.

- Não, obrigada. – ela respondeu, e logo voltou a engatar a animada conversa, ignorando aqueles olhos de um azul profundo.

Darcy era um homem alto e moreno, com os cabelos castanhos escuros e aparentava ter pouco mais do que trinta anos. Ele poderia ser considerando um homem atraente se não fosse a sua pose sisuda e carrancuda que lhe tiravam todo o charme, pelo mesmo aos olhos de Lizzy.