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Tempo de Ser Feliz - Capítulo XXII

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Tempo de ser feliz

Capítulo 22

 

 

- Oi filho! Fiz um bolo de cenoura como você gosta e vim te trazer. – Sarah comentou, já entrando no apartamento.

- Mãe? Não sabia que você viria. – ele a fitou, um pouco surpreso. Não gostava que sua mãe chegasse toda hora assim, sem avisar.

Dani estava sentada no sofá da sala agora mobiliada e levantou-se para receber Sarah Taylor, sorridente.

- Oi! Lembra de mim?

Sarah a encarou, confusa, tentando recordar de onde a conhecia.

- Sou a irmã mais nova da Raquel, amiga da Lizzy. – explicou.

- Ah... – Sarah sorriu, analisando-a com atenção. Ficou um tempo indecisa, parada diante da porta. Não sabia se entrava ou iria embora. Devia ter ligado antes – pensou – temendo estar interrompendo alguma coisa.

- Hum, um bolo. E está cheiroso. Olha como a tua mãe é querida, John. Até parece que adivinhou que a gente estava com fome. – Dani interferiu, como se lesse os pensamentos de Sarah. – Bem na hora do chá. Eu ia fazer um chá agora. Você toma com a gente?

- Se não for incomodo – ela balbuciou, insegura.

- Que é isso. Incomodo nenhum, não é John? Não é que a tua mãe é sempre bem vinda? – encarou-o com uma expressão no rosto que não deixava duvidas sobre o que queria dizer: trate bem tua mãe!

- Sim, claro que sim. Venha mãe, sente-se aqui.

Talvez Dani estivesse certa – John por fim pensou ao sentar no sofá com sua mãe – Talvez ele devesse tratá-la melhor. Ela precisava de atenção e o que tinha de mais se ela decidisse vir sem avisar para lhe trazer um pedaço de bolo no meio da tarde?

- Você tem chá em casa John? – Sarah indagou, surpresa.

- Na verdade não tinha, foi a Dani quem trouxe. – ele riu, olhando para a amiga que estava na cozinha organizando tudo.

- E ela é...? – deixou a pergunta no ar, mas era óbvio sua real intenção.

- Uma amiga, mãe. Só uma amiga. E ela tem namorado, portanto não imagine coisas.

- Hum... Que pena. Ela parece tão legal... – Sarah comentou, como que para si mesma.

John olhou para a mãe e quase riu. Ela estava carente e queria uma nora. Ajudar Lizzy após a morte de Erik não era o suficiente, ela queria outra nora.

- Mãe, não adianta ficar tentando me casar – ele comentou, baixinho – Eu não tenho vocação para a monogamia. E depois, ainda sou novo para me amarrar, só tenho 25 anos.

- É, mas o Erik tinha 19 anos quando começou a namorar a Lizzy.

- E você sempre o condenou por isso.

- Sim, mas eu estava errada. E agora sei disso.

- Por isso que você está fazendo tanto pela Lizzy? Como se isso pudesse reparar teus erros?

- Sim, eu admito que sim.

- Eu sabia! – ele fez uma pausa e se inclinou para ver se Dani ainda demoraria na cozinha – Mas mãe... Às vezes parece que você e o pai gostam mais da Lizzy que de mim... Tipo, sei lá, parece que vocês acreditam mais nela, confiam mais nela do que em mim, e isso me chateia um pouco...

- Que é isso, filho. Não há ninguém no mundo que eu goste mais do que você. Só que você tem que entender o quanto eu e o seu pai nos sentimos culpados.... Lizzy e Erik passaram tanto trabalho e nós nunca os ajudamos... E temos tanto dinheiro! Mas dinheiro para quê? Depois que o Erik morreu, nós passamos a valorizar outras coisas... Você entende?

- Eu entendo, claro que eu entendo. Mas comprar a loja do nosso Bistrô e pôr no nome da Lizzy é um pouco demais. E se a gente brigar um dia fica tudo para ela?

- E porque vocês brigariam? Vocês se dão tão bem. E além do mais, Lizzy não faria isso.

- Hum... Mesmo assim, não gostei.

- Mas filho... Nós te demos tanta coisa, não seja egoísta. É pelo teu irmão que estamos fazendo isso... Você sabe, não sabe?

Nesse instante foram interrompidos pelo retorno de Dani que trazia as xícaras de chá e a conversa foi desviada para amenidades. Assim que Sarah foi embora, John contou tudo o que se passou com sua mãe para Dani.

- Você acha que eu estou errado, Dani?

- Não sei, John. Tua mãe te deu tanta coisa mesmo. Esse apartamento lindo... E olha quantos móveis legais que você ganhou. E quem me dera ter um telão desses para ver filmes, mas como meus pais não são ricos como os teus, tenho que me contentar em abusar do meu amigo John. – ela debochou e ele relaxou um pouco e riu.

- E que filme nós iremos ver hoje? Por que o último filme que você trouxe... – fez uma careta, colocando a língua para fora, demonstrando sua desaprovação.

- Mas era muito bom o filme, John. Não sei o que vocês homens tem contra romances.

- Vocês homens – ele resmungou – Eu sou único, não quero ser comparado com nenhum outro.

- Hum rum. Você é o único mesmo: o único John Taylor que eu conheço que é chato, resmungão, e que tem ciúmes da mamãe. – ela implicou e deu uma gargalhada, olhando fixamente para ele. Estavam sentados cada um numa das pontas do sofá bege de três lugares.

- Ah, para. Não tenho ciúmes.

- Tem sim, tem ciúmes da Lizzy. E eu sei por que, John.

- Sabe? O que você sabe, Dani? – encarou-a, apreensivo.

- De tudo, John. Minha irmã me contou. – ela comentou como se falasse de um assunto qualquer, como se não fosse nada demais.

- A Raquel te contou? – ele exclamou, agitado – Mas o que diabos a Raquel te falou? – indagou, quase aos gritos.

- Calma, John. Eu sou tua amiga, não vou contar para ninguém. Não precisa ficar nervoso. Na verdade, foi por isso que eu te procurei no primeiro dia. A Raquel pediu para eu te ajudar.

Ele deu um pulo do sofá e caminhou pela sala, rodou um pouco e acabou indo para a cozinha. Logo voltou com uma cerveja para tentar se distrair um pouco, tentar se acalmar.

- E para mim? Não vai me oferecer nenhuma bebida? Quanta educação, John! – ela reclamou e em seguida tirou a latinha gelada da mão dele. – Hum... Está muito boa a MINHA cerveja. – ela provocou, arrancando finalmente um sorriso do rosto antes contraído dele.

- Você não pode beber, Dani.

- Por que eu não posso?

- Por que você é medicam e os médicos sabem que o álcool faz mal para a saúde. – ele zombou.

- Ah tá! Até parece! Como se médicos não bebessem... Médicos também são filhos de Deus, sabia?

Ele deu uma gargalhada.

- Estou brincando com você, sua besta.

Riram por alguns minutos e então ele retomou o assunto, ficando novamente sério.

- Você sabe que eu gosto da Lizzy, não é?

Ela concordou em silêncio, olhando fixamente para ele.

- E tem noção do quanto é difícil para mim? Do quanto eu sofro trabalhando ao lado dela?

- Eu imagino.

- É tão difícil, Dani, sentir isso por alguém e não poder ter essa pessoa... É tão difícil ver e não poder tocar. Penso que foi um erro trabalharmos juntos... Já estou quase jogando tudo para o alto, porque acredito que estaria bem melhor longe dela. As vezes chego a odiá-la por fazer com que eu me sinta assim.

- Por isso o ciúmes, John. Eu entendo. O amor e o ódio são sentimentos que caminham bem próximos, as vezes lado a lado.

- Isso parece uma frase tirada desses filmes bobos que você tanto gosta. – ele debochou.

- Besta! Estou falando sério. – atirou uma almofada nele, quase derrubando a latinha de cerveja.

- Ah é? – ele colocou a lata na mesa de centro e jogou a mesma almofada nela.

- É guerra, é? – pegou duas almofadas e começou bater nele com elas.

- Para, Dani. – ele colocou os braços na frente do corpo, para se defender. – Isso não é postura de uma médica! – ele implicou e novamente deu uma gargalhada. E o comentário dele a fez rir também. Sentou de novo no sofá, agora mais próxima a ele.

- Eu me divirto com você, Jonh. Foi uma surpresa te reencontrar.

- É – ele concordou. Os dois evitavam se olhar. – As horas que eu passo contigo são as melhores horas da minha semana.

- É? Melhores do que as que você passa com a Lizzy?

- Bem melhores! Com você me sinto a vontade. Você me faz rir, a Lizzy me deixa triste. Sei que a culpa não é dela, mas se eu me sinto assim, não posso fazer nada.

- Hum... – a conversa estava tomando um rumo perigoso e Dani resolveu interrompê-la. Tinha namorado e não era do tipo que traia. Pelo contrário, abominava traição e não faria isso nunca com seu namorado. John era seu amigo e não seria nada mais do um amigo. – Vamos ver o filme, John? Está ficando tarde.

- Depende do filme. Não é nenhuma baboseira romântica, não é?

- Não, John. É um drama, meio suspense, e pelo que me disseram acredito que você vai gostar.

- Hum... veremos.

Após uns 15 minutos, John começou a se espreguiçar, pois era do tipo que sempre dormia em filmes.

- Eu quero me deitar, Dani. – comentou, tentando ocupar mais espaço do sofá, enquanto ela se encolhia em um dos cantos.

- E vai me expulsar do sofá?

- Não sua boba, eu estava pensando em outra coisa... – deitou com a cabeça no colo dela – Posso? – a olhou de uma maneira que ela se derreteu e não conseguiu dizer não.

- Pode John. – autorizou e ele se ajeitou no colo dela. Ela ficou sem ter onde por o braço e acabou apoiando-o sobre ele, como num abraço.

- Faz cafuné, Dani? - ele virou para trás e pediu, deixando-a sem reação. Como ela não se mexeu e nem disse nada, ele colocou a mão dela sobre seus cabelos. Sem alternativa e pega de surpresa, ela se deixou levar e atendeu ao pedido. E em seguida ele adormeceu, acomodado no colo dela.

Dani, por sua vez, estava completamente desperta. Mas não sabia se a causa eram as emoções vindas com o filme ou com a proximidade de John.

E o nome do filme que assistia parecia mais uma ironia do destino: “Um Refúgio no Passado.” Era como se seu amigo de adolescência John voltasse do passado para bagunçar sua vida. Mas não deixaria isso acontecer. Estava decidida a se afastar dele antes que fosse tarde, antes que fizesse uma bobagem e se arrependesse.

 

Tão logo terminou o filme, Dani esticou o braço, pegou o controle remoto e desligou a televisão. Olhou para John que dormia tranquilamente e ficou com pena de acordá-lo. Mexeu-se com calma e se acomodou ao lado dele, em suas costas. Pretendia ficar um pouco naquela posição e logo em seguida ir embora. Mas estava tão exausta depois de um cansativo e longo dia de trabalho que acabou adormeceu abraçada a ele, somente despertando no outro dia pela manhã.

- Bom dia, Dani.

Ela abriu os olhos lentamente e se deparou com a imagem de John, deitado em frente ela, apoiado sobre o cotovelo, fitando-a intensamente. Assim que abriu os olhos e o viu, teve certeza que estava sendo observada há algum tempo. Ficou com vergonha e fechou novamente os olhos, fingindo preguiça.

“Onde eu estava com a cabeça quando me permiti dormir de novo com John”- puniu-se antes de ter coragem de encará-lo novamente.

- Bom dia, John. – respondeu, um pouco atordoada com a situação.

Tinha que ir logo embora. Tinha que dizer que não mais ficaria sozinha com ele. Mas como dizer isso a um amigo tão querido? Será que ele entenderia?

- Vou fazer o nosso café da manhã, o que você quer comer? – perguntou ainda deitado em frente a ela.

- Qualquer coisa, John. – ela balbuciou, com dificuldades de olhar para ele. Tinha medo que ele lesse seus pensamentos e por isso desviava o olhar.

- Hum... Qualquer coisa não tem. Mas como sei do que você gosta penso que posso dar um jeito. – ele sorriu, mantendo os olhos fixos sobre ela.

Ela riu, meio sem graça. Não sabia como agir, tudo estava confuso. E ele não parava de olhá-la, e a olhava agora de um jeito diferente, não era mais um olhar de amigo, ela tinha certeza.

“Será que o John está sentindo o mesmo que eu?” – pensava, com aflição.

- John, eu tenho que ir embora...

- Por quê? Você não está de folga hoje?

- Por quê? ... Ora, por que sim, John. – não conseguiu inventar uma desculpa plausível.

- Hum... – ele não resistiu e arrumou uma mecha do cabelo dela que teimava em cair sobre o rosto, colocando-a atrás da orelha. Aproveitou e fez uma suave carícia em seu rosto durante esse toque. Não sabia o que estava acontecendo, mas de repente estava com uma vontade irresistível de tocá-la. E não se cansava de olhar para ela. Mas devia parar com isso, pois percebeu que Dani estava ficando constrangida. E ela tinha namorado e era tão legal que ele não podia simplesmente brincar com ela. Sabia que ela não era como as outras. Ela era especial.

- Bom, se você tem que ir, pelo menos me deixe te preparar o café da manhã.

- Está bem. – respirou mais aliviada após ele se afastar. Precisava de espaço, não estava conseguindo raciocinar com clareza.

Ele foi para a cozinha, e ela o seguiu com o olhar, inicialmente sem forças para levantar do sofá. Mediou-o dos pés a cabeça e não pôde evitar a comparação com Fábio, seu namorado. John era muito mais bonito, concluiu rapidamente. “Ainda bem que eu não sou solteira – pensou por fim – se eu me envolvesse com John certamente me machucaria.” Conhecia muito bem seu amigo John, conhecia-o o suficiente bem para temer qualquer relação com ele que não fosse amizade. Mas agora tudo estava ficando perigoso e eles precisavam ter um conversa definitiva. E tinha que ser logo.

- John? – sentou-se na mesa de dois lugares situada na cozinha, enquanto esperava que ele servisse seu café com leite e pão francês com manteiga, que era o que ela gostava de comer no desjejum.

- Hum? – a encarou rapidamente, curioso, sentando finalmente diante dela, para comer também e beber uma xícara de café preto recém passado.

- Precisamos conversar, John.

- O que foi, Dani?

- Eu acho que você sabe muito bem.

- Não sei não. – fingiu-se de desentendido.

- Eu sei que você sabe, John. Mas vou fingir que acredito no que você diz. – fez uma pausa, dando uma mordida no pão para ganhar tempo. Tinha que ser direta, pois não havia outra maneira de dizer o que precisava – Eu não vou mais vir aqui, John. Não vou mais ficar sozinha com você. E não me faça dizer os motivos, por que sei que você sabe muito bem.

- Eu acho que sei, mas gostaria que você me explicasse para eu ter certeza.

- John! Eu não vou explicar nada! Sei que eu não estou louca, sei que você percebe o que está acontecendo tanto quanto eu! – elevou a voz, sem paciência.

- Eu percebo que somos amigos, que eu gosto muito da tua companhia e que não quero que você pare de vir aqui. – criou sua própria versão dos fatos, tentando convencê-la.

- É, só que eu tenho namorado e não acho legal eu passar mais tempo com você do que com ele.

- Mas ele não está aqui e eu estou!

- Você está aqui, mas eu não preciso estar aqui com você.

- Precisa sim! – ele retrucou, irritado. – Dani! Será que você não percebe que eu não sei mais ficar sem a tua companhia? Será que você não percebe a falta que eu sentirei se você se afastar de mim? Será que você não percebe que eu não sei mais viver sem ti? – ele concluiu, alterado. Assustou-se com suas próprias palavras e por fim se calou.

- John, meu querido – Saber que não estava louca, que o que ela sentia era recíproco e não apenas uma invenção de sua mente, a deixara mais calma. Pegou a mão dele e a acariciou, tentando tranqüilizá-lo.– Eu adoro você, mas pense bem em tudo o que você acabou de me dizer... Você acha mesmo, John, que isso são palavras de um amigo?

- Não sei... Na realidade, eu estou confuso. – não mentiu. Para ela podia falar a verdade.

- Eu também, John. Também estou confusa. – admitiu com a mão ainda presa a dele.

Ele então deu um longo suspirou e levou a mão dela aos lábios, depositando nela um suave beijo enquanto a encarava. Ela não recolheu a mão, apenas retribuiu o olhar e sorriu, permitindo o carinho. Agora, depois de ter esclarecido tudo, sentia-se aliviada. Sentia-se mais a vontade. O medo de olhar nos olhos dele desaparecera.

Comeram o resto do café da manhã em silêncio, de olhos baixos, cada um com seu pensamento. Apenas ainda mantinham as mãos entrelaçadas.

Dani levantou e se despediu do amigo com um abraço pelas costas. Apertou e prolongou o abraço, não querendo mais soltá-lo. Era difícil dizer adeus após três meses de convivência. Após conversarem quase que diariamente e passarem vários finais de semanas fazendo companhia um ao outro. Antes parecia tudo tão conveniente! Ela sentia-se muito sozinha com o namorado morando em outro estado, e John sentia-se sozinho também, pois apesar de solteiro o amor que sentia por Lizzy impedia que ele se envolvesse com outras mulheres. E ele não se interessava por nenhuma outra, pelo menos não até aquele momento.

E assim, inicialmente achando que estavam seguros - que não corriam riscos de se envolverem com essa aproximação - passaram a fazer companhia um ao outro. Passaram a preencher o vazio que havia na vida de cada um. Uma solução que antes parecia certa e conveniente, mas que agora se mostrava perigosa e equivocada.

- Tenho que ir - ela enfim o largou e saiu da cozinha, passando antes no banheiro para se arrumar. Prendeu seus cabelos num rabo de cavalo baixo, colocando para frente em um dos lados.

Quando saiu, John estava parado em frente à porta de entrada, de braços cruzados, parecendo contrariado. De bermuda de abrigo cinza, com uma camiseta velha e pés descalços, com os cabelos despenteados e a barba por fazer: mal arrumado, mas incrivelmente lindo! Indecisa, Dani não sabia se prosseguia ou recuava, vendo ele parado a porta. Resolveu seguir sua decisão e ir embora.

- Dani – ele suplicou, segurando-a pelo braço e fazendo-a parar – Por favor, não vá. – puxou-a para perto de si, sem saber direito o que fazia. Ficaram com os corpos próximos, com os rostos quase colados. Apenas alguns centímetros separavam suas bocas.

- John, por favor... – ela implorou. Sua boca dizia uma coisa, mas seus olhos falavam o contrário. Seus olhos a traiam, demonstrando o quanto ela desejava aquele beijo.

Naquele momento tudo parou, e ela praticamente parou de respirar, fitando com atenção aqueles lábios convidativos tão próximo a ela. Sua visão se alternava entre a boca e os olhos dele que a encaravam com intensidade. Se John a beijasse, simplesmente não resistiria. Sabia que se entregaria ao beijo. Sabia que se entregaria a ele. Por isso precisava fugir, por isso precisava ir embora. Ele ficou indeciso por alguns segundos, chegou com os lábios bem próximos aos delas, mas por fim se afastou. Gostava demais dela para fazer isso.

Quando ele desistiu do beijo e se afastou um pouco, Dani tomou consciência do que faziam e o empurrou para longe. Desvencilhou-se dos braços dele e rapidamente chegou até a porta, mas quando estava saindo deu meia volta e disse, parada na porta e distante dele:

- Até sábado, John.

- Até sábado – ele respondeu com tristeza e baixou a cabeça.

 

- Lizzy, minha filha, você já está acordada? – Margareth Bennet ouviu um barulho na sala e resolveu descer para averiguar. Deparou-se com a filha mais nova andando de um lado ao outro, impaciente. – O dia ainda está escuro, Lizzy, por que você não volta para a cama?

- Ah mãe... Não consigo mais dormir...

Margareth analisou a filha com atenção. Lizzy enfim parou de caminhar, observando pela janela os primeiros raios de sol que começavam a despontar.  Apesar de estarem no último dia do verão (21 de março), os dias ainda eram longos e mesmo sendo seis da manhã já ameaçava clarear. Lizzy percebeu os primeiros traços de luz com entusiasmo, fitou a mãe e sorriu. Margareth, percebendo a alegria contagiante da filha, resolveu fazer companhia a ela e não mais voltar a dormir. Ficou satisfeita por vê-la tão feliz.

- Bom, já que é assim, farei um café para nós.

- Obrigada mãe. – recomeçou a andar, intercalando sua atenção entre o relógio da sala e o da cozinha, onde sua mãe fazia o café. Mas os minutos estavam longos demais e os relógios pareciam debochar dela e simplesmente não querer andar.

- Mãe?

- Hum? – achava graça do nervosismo da filha. Mas era um nervosismo saudável e que a deixava tranqüila. Perceber Lizzy feliz após tanto tempo de sofrimento alegrava seu coração

- Será que eu posso ir agora para o aeroporto? E se o avião chegar antes?

- Mas filha, o vôo está marcado para chegar as dez e meia e são seis da manhã!

- Eu sei, mas vai que eles cheguem antes...

- Filha – ela não se agüentou e deu risada – ainda é muito cedo.

- Eu sei, mãe – ela riu também, dando-se conta da situação – Mas é que eu estou com saudades do Will...

- Eu sei, filha. Mas fique calma. Sente aqui que o café já está quase pronto. Quer que eu esquente uns pães de queijo para você?

- Hum rum – ela concordou. Sentou e ficou observando em silêncio a mãe acabar de passar o café.

- Mãe? Não tem problema mesmo a Jane dormir aqui com o Charles? Você não se incomoda de verdade?

- Claro que não, minha filha. A única que poderia se importar é a tua avó, mas do jeito que ela está agora com certeza não perceberá nada... É capaz dela não reconhecer a própria neta.

- Hum... É, as vezes ela não lembra quem eu sou... E o que o médico disse ontem na consulta? A gente não pode mesmo se mudar para a Inglaterra?

- Não, minha filha. O médico disse que uma mudança brusca na rotina dela pode acelerar a perda de memória.

- Ah...  Mas quando ela não se lembrar mais de nada, o que eu realmente espero que demore a acontecer, a gente pode ir morar lá, não pode?

- Claro, filha. Se esse for o desejo de vocês duas, se a Jane concordar, eu não vejo porque não.

- Obrigada, mãe. Eu não poderia morar lá e deixá-las aqui, mas também não vejo como passar o resto da vida longe do Will. Se passar três meses longe dele já foi difícil, imagina a vida inteira.

- E eu finalmente conhecerei meus dois genros. O que será que eu faço de janta para eles hoje? O que William gosta de comer?

- Ah, qualquer coisa, mãe. Ele come de tudo sem reclamar. Até as receitas que não davam certo, que ficavam horríveis mesmo, ele comia – sorriu com a lembrança, mantendo um olhar sonhador – Ah mãe, pena que eu não vou poder te ajudar com o jantar...

- Não te preocupe, minha filha. Passe o dia todo com ele, matando a saudade como você merece. Não te preocupe que eu e a Jane nos viramos na cozinha. Aliás, tenho uma coisa para te dar. Espere um pouquinho, minha filha.

Demorou uns cinco minutos para voltar.

- O que é isso, mãe?

- A chave do apartamento da tua avó. Mandei a Terezinha ir lá limpá-lo ontem para você ficar com o William. Queria ter outro quarto para poder acomodá-lo aqui também, mas como eu não tenho, achei uma boa idéia vocês ficarem no apartamento. Ninguém está usando mesmo e é bem melhor do que ficar no hotel.

- Ótima idéia, mãe! Adorei – agarrou a chave e deu um abraço carinhoso nela. – Você é mesmo a melhor mãe do mundo!

- E já conseguiu quem trabalhe no Bistrô no teu lugar nessas duas semanas?

- Sim, mãe. A Alexandra, minha colega do curso de culinária, trabalhará com John no meu lugar. Até ontem eu estava esperando uma resposta dela, mas ela enfim disse que está tudo certo. Ainda bem, porque eu quero ficar todos os minutos com o Will até ele ir embora. – suspirou, apaixonada.

- E amanhã vocês jantarão lá, no Bistrô?

- Sim, mãe. Sábado marcamos com a Dani de nos encontrarmos lá. – fez uma pausa e olhou novamente as horas. – E agora, mãe? Ainda está cedo para eu ir?

Margareth Bennet riu, pois não eram nem sete da manhã.

 

Lizzy andava impaciente de um lado ao outro em frente a sala de desembarque. Seus sapatos de salto faziam um barulho irritante a cada passo, mas ela simplesmente não conseguia ficar parada. Olhava atentamente as pessoas que desciam e passavam ao longe por ela, tentando perceber um rosto conhecido no meio da multidão.

- Ele está demorando – pensava, enquanto acabava de arrancar um pedaço de uma das unhas. Não tinha o hábito de roer unhas, mas naquele momento estava quase as destruindo.

Enfim reconheceu Charles e Jane que vinham na frente e logo atrás deles, viu William Darcy. Lizzy o viu e paralisou, ansiando pelo momento de chegar perto dele. Ficou estática, observando ele, que também parou assim que a viu no lado de fora da sala de desembarque. Ficaram se olhando, fixos nos mesmos lugares, e então sorriram. E era nítido para quem observasse a satisfação de ambos e o desejo de estarem juntos.

- Vai lá, Darcy – Charles praticamente empurrou o amigo para fora – Deixa que eu pego a tua mala.

Ele fitou o amigo e sorriu, aceitando a oferta com prontidão. Estava ansioso por ter Lizzy novamente em seus braços.

Correu para fora e Lizzy correu ao encontro dele, se jogando em seus braços. Era uma cena bonita de se ver, pois o amor estava estampado na face dos dois. Beijaram-se ali mesmo, em frente de toda aquela gente e no meio do caminho, atrapalhando um pouco a passagem.

- Que saudades, meu amor – Lizzy foi a primeira a falar, emocionada, com os olhos cheios de água.

Ele a fitou e a acariciou no rosto, com um sorriso de satisfação estampado no rosto. Um homem então esbarrou nos dois, pedindo licença, pois ambos ainda estavam no meio do caminho, quebrando o clima por alguns segundos. Foram então para um canto, onde continuaram a namorar enquanto esperavam por Jane e Charles.

- Como foi a viagem? – ela indagou, abraçada a ele.

Ele não falava nada, apenas a fitava, tentando aplacar a saudade através do olhar. Tentando decorar cada expressão que ela fazia, decorar cada curva de seu corpo, para lembrar para sempre de cada pedacinho dela.

- Foi ótima. Saber que eu te veria novamente fez com que ela fosse ótima.

- Que bom, meu amor.

- Senti muitas saudades.

- Eu também.

- Não vejo a hora de ficar sozinho com você, Lizzy. Senti tanta a tua falta! – sussurrou com malícia junto ao ouvido - e estou louco para te devorar todinha.

Ela se encolheu um pouco, arrepiada, e por fim riu e concordou com ele. Sentia-se da mesma forma: estava com tantas saudades que tinha vontade de mordê-lo com força e arrancar um pedaço.

Era engraçado. Aquele pensamento da adolescência que tinha com o Erik voltou-lhe a mente: tinha um novo namorado falando em inglês exclusivamente para ela e novamente fantasiava que ninguém ao redor os compreendia. Novamente fantasiava que ele falava em inglês somente para ela – mas dessa vez não era mais fantasia, era realidade.

Sem perder tempo, largaram Jane e Charles rapidamente em casa e seguiram direto para o apartamento em que ficariam. A saudade era tanta, que doía fisicamente. E se não tivessem uma janta à noite, não teriam saído de casa e nem dos braços um do outro.