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Tempo de Ser Feliz - Capítulo XXIV

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Tempo de ser feliz

Capítulo 24.

 

Três meses depois...

 

O bebê de Charlotte e Collins estava prestes a nascer.

George e Karine continuavam perambulado por destinos europeus indefinidos.

Georgiana prosperava na carreira de modelos.

Richard e Raquel continuavam morando juntos e quase se matando de vez em quando. O segundo livro dela, quase pronto.

Dani parou de se encontrar com John, inclusive deixando de atender suas ligações.

Tom e Glau continuavam felizes.

Roberta prosseguia indecisa com relação a Mark, que de vez em quando cruzava o seu caminho e conseguia beijos roubados, mas nada mais do que isso.

Charles ficou no Brasil com Jane.

A avó de Lizzy estava cada vez pior. A única pessoa que ela ainda reconhecia era a sua neta preferida: Elizabeth.

O Bistrô de John e Lizzy agora só atendia mediante reserva, visto que estava ficando famoso e bastante freqüentado. Como era um local pequeno e reservado, com um ar de intimidade que eles não pretendiam mudar, era praticamente impossível conseguir uma mesa disponível sem telefonar antes.

A amizade de Lizzy e John estava cada vez mais forte. Um era o braço de apoio do outro.

Lizzy e Darcy continuavam se falando por telefone e pela internet, só que cada vez menos freqüente. Ultimamente ele andava tão ocupado com seu trabalho e tão envolvido com a implantação de outra filial de sua empresa, que praticamente não tinha tempo livre para falar com ela...

 

- William! – Lizzy sentiu alívio ao finalmente conseguir falar com ele, após três dias de tentativas frustradas. – Eu te liguei, não te deram o recado?

- Desculpa, Lizzy... – ele se justificou e pareceu falar com outras pessoas ao mesmo tempo, não dando a devida atenção que ela necessitava – Isso aqui está uma correria, tenho dormindo umas duas horas por noite. Espera aí, só um pouquinho – ela ouviu a voz dele ao longe, dando ordens para alguém – Droga, Lizzy! Isso aqui está uma loucura, posso te ligar depois?

- Não! Não pode me ligar depois! Faz três dias que estou tentando falar contigo!

Novamente ele afastou o telefone do rosto e falou algo que ela não ouviu direito.

- Desculpa, Lizzy.... Estamos em obras aqui, e se eu não fico em cima controlando, dá tudo errado. Ontem vieram umas peças erradas, a produção de montagem está atrasada, já devia estar tudo funcionando normalmente, mas não está! E os clientes estão reclamando e...

- William! – ela interrompeu, quase implorando por atenção – Eu preciso de contar uma coisa!

- Não dá mesmo para ser depois? É muito importante? Estou com tantas coisas na cabeça, Lizzy.

Não! Não dá para ser depois! – ela deve vontade de gritar, mas o grito se perdeu antes de chegar à garganta.

- Tenho que desligar... – ele novamente afirmou mediante o silêncio dela.

- Não! – retrucou quase em pânico. – Eu preciso te ver, William! – Naquele momento, Lizzy percebeu que o assunto que tinha era muito delicado para ser abordado pelo telefone.

- Então vem para cá.

- Não posso. Vem para cá, William? Minha avó está cada vez pior, não posso me afastar dela...

- Lizzy! Eu realmente estou sem tempo para esta conversa agora.

- Não só agora, William! – a voz dela estava carregada de rancor – Ultimamente você está sem tempo para ter qualquer tipo de conversa comigo!

- Lizzy... – ele suspirou resignado. – Eu realmente tenho que desligar.

- Não!

- Eu vou desligar.

- Se você desligar, William, está tudo terminado entre nós. – ela ameaçou já irritada. Ultimamente andava mais irritada do que o usual.

- Lizzy, eu tenho que desligar.

- Você que sabe. Se quando eu preciso de você, você não pode me ouvir, se você nunca está disponível para mim, então não há por que continuarmos juntos. – ela pressionou. Precisava do apoio dele. Talvez assim ele lhe desse atenção.

- Pois bem. Você está certa. Vamos dar um tempo. Agora eu tenho que ir. Adeus, Lizzy.

- Ããããã? – mas o clic do outro lado da linha já indicava que ele havia desligado. Ele se fora...

Lizzy permaneceu boquiaberta, uns dois minutos com o telefone à mão. Tentando fazer com que seu cérebro assimilasse o que havia acontecido.

Darcy estava estressado e irritado e acabou descontando em quem menos merecia. Praguejou no mesmo instante que colocou o aparelho no gancho. Imediatamente, se arrependeu de cada palavra dita, mas não havia tempo para uma nova ligação. Estava muito atarefado. No dia seguinte ligaria para ela e se desculparia.

 

Quando John desceu ao Bistrô, às 17 horas, bem cedo para organizar tudo para a movimentada noite, Lizzy já estava lá. Seus olhos avermelhados evidenciavam seu choro, mas como ela evitou falar sobre o assunto, ele também desconversou.

Ele notava que há algumas semanas ela estava estranha, às vezes chorona, às vezes extremamente irritada, mas logo concluiu que ela sentia saudade de seu noivo. Até mesmo John ficava assim em alguns dias por sentir falta da Dani.

Naquele dia inverteram os papeis. Lizzy ficou na cozinha preparando os pratos de John. Estava anti-social e arrisca e seu mau humor certamente espantaria os clientes. Cozinhando, descarregava suas frustrações rogando praga para as comidas, que, graças a Deus, não pareciam se importar.

Trabalhando sem parar, tentava deixar sua mente vagando. Tentava não recordar da frieza de seu amor... Das palavras trocadas há alguns minutos antes...

Só que era impossível não pensar... Darcy a descartara como se ela não significasse nada... Ele nunca a amara de verdade, se foi capaz de terminar assim... E agora? O que seria dela?

Lizzy olhava para o anel, e mesmo certa que não era mais noiva, não tinha coragem de tirá-lo... O anel igual ao do Erik... Erik...

O último casal de clientes estava indo embora e John conversava e dava boas risadas com eles. Lizzy apoiou os cotovelos sobre a bancada para observar melhor a cena.

John parecia tanto com Erik! E se Erik ainda estivesse vivo? Como seria a vida dela? Fechou os olhos tentando sentir a presença dele como antigamente acontecia. Nada. Talvez se tentasse por mais tempo... Apertou os olhos e suplicou em pensamento: “Erik, você está aí? Meu amor, você está aqui ainda? Eu vou sempre te amar, sempre...”

Perdeu a noção do tempo. De olhos fechados, deixando sua mente vagar. Há meses não pensava assim no Erik, não dessa forma. Não com essa dor. William preenchia seu coração. William evitava que ela sofresse. Mas agora ele se fora também... Só que foi por que quis, por vontade própria... É diferente, mas dói da mesma maneira...

- Erik? – abriu os olhos, ainda estava sentada no mesmo local, mas agora estava escuro. John devia ter apagado as luzes, era hora de ir embora. Uma fraca iluminação sobre as suas costas. Um rosto se inclinou em sua frente, franzido a testa, preocupado. – Erik? – ela tentou focar o rosto... Piscou os olhos, para se recuperar do choque. Só que estava tão confusa... Muitos minutos ela passou de olhos fechados, implorando por Erik.

O rosto agora estava mais perto e preocupado... A mesma expressão que o Erik costumava olhá-la... Um rosto quase igual... Respirou fundo, tentando entender. Um par de lágrimas rolou. Lizzy estendeu a mão e acariciou o rosto, carinhosa. Ele fechou os olhos, sentindo o toque. Sim, ela tinha quase certeza. O Erik estava ali... Não fazia sentido, mas ele estava ali...

Precisava entender... Precisava ter certeza de que era ele. Aproximou-se do rosto e o beijou, roçando seus lábios nos deles. O rosto endureceu seus músculos e ficou imóvel. Lizzy não desistiu. Queria provar aqueles lábios. Ela estava curiosa e confusa e precisava...

Abriu os lábios e contornou com a língua aquela boca que parecia feita de pedra. Lentamente, a outra boca abriu e correspondeu ao beijo. As duas bocas estavam unidas de forma profunda agora, as línguas se tocavam e brincavam uma com a outra. O gosto do Erik... Era mesmo? Ela não lembrava mais...

Ele a levantou e a colocou sobre a mesa, se encaixando entre suas pernas. Lizzy parecia tão confusa. E ele tentou resistir... Deus sabe como tentou resistir... Mas quando sentiu sua língua quente sobre seus lábios, ficou impossível.... Ele a queria tanto! Há tanto tempo! Talvez se eles só se beijassem, que mal havia nisso... Então interrompeu o beijo e se afastou para observá-la.

- Não... – Lizzy resmungou e o puxou de volta. Aquilo não fazia o menor sentido, mas era tão bom... E ela estava carente... Estranhamente esquisita e carente... Seu corpo agora pedia por ele. – Por favor, não pare. – ela suplicou.

Seus peitos agora maiores e mais inchados imploravam por ser tocados, e instintivamente ela pegou a mão dele e as guiou até eles. Os olhos em choque se arregalaram e ela fez que sim com a cabeça.

- Por favor... – ela suplicou fechando os olhos e subindo o rosto para mais um beijo.

Ele ainda resistia, ela sentia isso. E queria acabar com aquela resistência, como queria. Uma de suas mãos invadiu por dentro da camisa dele, traçando uma linha do umbigo até o peito. Era forte. Musculoso. Mais gostoso que o Erik... E o resto... Como seria o resto... Uma de suas mãos invadiu as calças dele... Ele estremeceu, mas ainda resistia.

Ela estava confusa e carente... Mas naquele momento percebeu que não era o Erik... Não era o William... Só que era tarde demais... Os hormônios a enlouqueciam. Ela precisava continuar, não conseguiria parar. Ela estava carente, ela precisava de amor...

- John? Por favor?

Pronto! Todas as resistências dele agora foram por água abaixo ao ouvir o seu nome. Ele a queria tanto!

Seu beijo agora continha um quê de violência. Seus lábios baixaram e se apossaram de seus seios. Estranho... Pareciam maiores... Devia ser impressão, pois nunca os tinha visto de perto, só imaginado... Imaginando muitas e muitas vezes... E ela era linda... Tão perfeita... E ela continuava com a mão em seu sexo... Ele estava ficando louco, completamente insano... Sem raciocinar direto, removeu a parte inferior das vestimentas dela, abriu bem seu zíper, e o impensável aconteceu. Ele estava dentro de Lizzy! Seria isso real? Alguns minutos depois, chegou ao clímax e então...

Assim que as respirações normalizaram, ambos se encararam em choque. Dois rostos perplexos, com olhos arregalados.

- Não! – Lizzy gritou, levando à mão em espanto à boca. Automaticamente, sentindo uma vergonha repulsiva por si mesma e vergonha do homem parado à sua frente, com urgência, começou a se vestir. – John! O que foi que nós fizemos? – o pânico estampado em sua face.

John ficou paralisado em choque, tomando consciência lentamente do que havia recém ocorrido. Ele a queria tanto! Há tanto tempo! Então por que agora se sentia tão sujo? Por que não se sentia feliz? Ficou parado no mesmo local, observando-a se vestir. Sabia que ela não estava bem, estava atordoada e confusa. Mas ele também estava. Ele não conseguia ajudá-la... Era como se estivesse amarrado, com os braços e as mãos atadas.

- Eu sou um verme mesmo – ele praguejou baixinho. Comprimiu os lábios. Algo sufocava o seu peito. Um bolo se formava em sua garganta. – Lizzy, você não está bem... Nós não estamos bem... – as palavras saiam com dificuldades, mas enfim conseguiu dizer – Pegue um táxi, não vá sozinha. – ele gostaria de levá-la para casa, só que sabia que ela não aceitaria. E de alguma forma, ele não conseguia se mover.

- Hum rum. – ela concordou sem olhá-lo. Mesmo com pouca claridade, John pode ver as lágrimas em seu rosto. Queria acariciá-la e consolá-la, mas não conseguia se aproximar. Ele era um porco! Devia estar preso. Devia ser atropelado! Ele desejava morrer!

Assim que Lizzy se foi, ele desabou. John começou a chorar, caiu ao chão sobre os joelhos e ali ficou se debulhando em lágrimas.

- Desculpa, Erik... Desculpa, meu irmão... Eu amo você... – ele gemia, abraçando a si mesmo.

De alguma forma, se arrastou até o telefone... Ele precisava dela...

- Alô. – a voz de sono do outro lado do aparelho deixou evidente que ela já dormia.

- Dani? – ele suplicou com dificuldades. Sua voz era embargada, entrecortada pelas lágrimas.

- John? – ela se assustou – O que foi que aconteceu?

- Eu preciso... – não conseguiu concluir. Soluços cortaram a frase.

- Estou indo aí.

Dani levantou da cama atordoada. Pegou no armário a primeira roupa que viu. Fábio roncava ao seu lado da cama. Deixou um bilhete na mesa de cabeceira:

- “Uma amiga precisou de ajuda. Tive que socorrê-la. Ela está mal. Não sei a que horas volto. Beijos, Dani.”

Chamou um táxi. Não queria deixar seu carro na rua. Era mais seguro. Em poucos minutos, batia no apartamento dele.

Ele demorou a atender. Estava péssimo. Com os olhos vermelhos, com os cabelos desgrenhados, com a roupa toda surrada. Assim que o viu, ele caiu de joelhos a seus pés, chorando que nem criança agarrado a sua cintura. Instintivamente, ela o abraçou. Depois o levou até o sofá e o aconchegou em seus braços. Ficou acariciando o seu cabelo, até ele se acalmar.

- Preciso de um banho. – ele afinal disse. Sentia-se sujo. Um lixo. A escória humana.

Ela assentiu com a cabeça, levemente confusa. Observou-o se afastar, parada no mesmo lugar. Não ousaria sair dali. Ajudá-lo no banho não seria nada recomendável. Certo, imaginava que ele seria lindo nu... Mas mesmo curiosa, não sairia dali.

Mais de vinte minutos se passaram, e ele continuava no banho. Preocupada, ela decidiu averiguar. Azar. Ela era médica. Apesar de agora só lidar com radiografias, já vira muitos homens nus profissionalmente. Era só fingir que John era um paciente. E ele parecia precisar de ajuda tal como um paciente...

A porta do banheiro estava entreaberta.

- John! Pelo amor de Deus! – correu e removeu a esponja de aço de suas mãos.

Ele estava sentando no chão, deixando a água escorrer em suas costas, com a pele em alguns lugares em carne viva. Fez com que ele se levantasse e o enrolou numa toalha.

- Eu estou sujo, Dani... – ele murmurou constrangido. – Eu transei com a Lizzy... – balbuciou.

Mesmo chocada, Dani não se deixou trair. Apertou os olhos por alguns segundos e se controlou. Tinha vontade de pular em seu pescoço e esganá-lo, mas não era o momento certo para isso. Ele já se punia o suficiente. Simplesmente sufocou as palavras e não disse o que tinha vontade.

- Foi bom? – não pode deixar de indagar enquanto secava o corpo dele. John parecia inerte. Nem era capaz de olhá-la. Fitava algum ponto indefinido da parede.

- Foi... Na hora foi... Só que depois foi terrível... É errado, Dani... Ela era do Erik... E eu fecho os olhos e sinto-o olhando para mim... Eu sou um ser desprezível...

- John, isto está muito feio... – analisou preocupada o esfolado em suas costas. – Aonde tem remédio?

Ele apontou para o armário do banheiro. Ela seguiu para lá.

- Não tem nada aqui. Vou pedir algo por tele-entrega. Pode inflamar.

- Tá. – ele concordou.

- Vai se vestir. – ela ainda evitava olhá-lo. Ele era mesmo lindo e estava nu.

- Tá. – arrastou os pés até o quarto. Colocou uma bermuda de pijama e se jogou na cama.

Em poucos minutos, após telefonar para uma farmácia 24 horas, Dani se juntou a ele, sentando na cama ao seu lado. Ele estava de bruços.

- Está doendo. – ele resmungou.

- Bem feito. – ela ralhou. – Você às vezes parece uma criança, John. Se sente melhor por se machucar?

- Não. – ele admitiu com o rosto escondido no travesseiro. – Mas me sinto melhor por que você está aqui.

- Hmmmm.

- Você me odeia, Dani?

- Não.

- Me odeia por que eu transei com outra?

- Não. Eu também transo com outro.

- Quem? – ele se girou para encará-la. – Ah... Com o Fábio, não é?

- Hum rum.

- E é bom?

Ela apertou os olhos e lhe lançou um olhar fulminante. Ele entendeu o recado. Foi o suficiente para que se calasse. Voltou a afundar a cabeça no travesseiro.

- Quer casar comigo, Dani?

- John! Se você já não estivesse machucado eu juro que te bateria!

- E eu juro que seria fiel.

- Cala a boca, John!

- Mas? – ele resmungou.

- Cala a boca e dorme.

- Mas está doendo. Pelo menos me abraça?

- Só até a farmácia chegar.

- Tá bom.

Ela se deitou às costas dele e ali se aconchegou.

- Isso é bom. Obrigado. – ficaram abraçados, com as mãos entrelaçadas.

Você não tem idéia, John. Do quanto isso é bom. – ela pensou com o coração acelerado.

A farmácia enfim chegou e ela lhe aplicou uma pomada, que aliviou a ardência.

- Dormi aqui, Dani? Não quero ficar sozinho.

- Não posso, o Fábio está aqui, no meu apartamento.

- Então me dá um beijo? Você nunca me beijou...

- John! Eu tenho namorado, sabia? E você não acha que já fez muita besteira por hoje?

- É... Então fica aqui até eu dormir? Para cuidar para eu não fazer mais besteira? – ele suplicou.

- John! Isso é chantagem!

- Eu sei. – ele deu o primeiro sorriso da noite, radiante, olhando no fundo dos olhos dela – É que eu senti saudades.

Ela não pôde evitar: teve que rir.

- Então vira de costas e fica bem quietinho. Qualquer movimento suspeito e eu vou embora, John.

- Tá bom. – ele rapidamente obedeceu. – Obrigado, meu amor. – beijou a mão dela e depois não disse mais nada.

 

Dani acordou na manhã seguinte ainda na cama de John. Saiu correndo e bateu a porta, quase em pânico. “Não! Isso não é certo! É a terceira vez que a gente dorme juntos... Mas só dormi, por que sequer o beijei...” Correu até sua casa, era perto. Fábio esperava acordado por ela, tomando seu café da manhã distraidamente.

- Onde você foi? – não tinha ciúmes. Ele confiava nela.

Dani olhou para aquele rosto e era como se agora visse um estranho. Não adiantava mais mentir, não adiantava tentar se enganar: não era ele que ela amava.

- Fui ajudar uma amiga... – mentiu e então levou à boca uma maça. Sentou em frente a ele – Fábio, precisamos conversar.

Ele largou o jornal e observou-a com atenção.

- Não está dando certo. – fez uma pausa. Nova mordida na maça para ganhar tempo – Eu... – respirou fundo, procurando como se justificar. Qualquer justificativa doeria – Eu... não… te... amo... mais...

Ele abriu a boca em choque. Seu queixo caiu. Ambos se encararam sem saber o que dizer.

- Desde quando? – ele afinal indagou.

- Não sei... Há três meses, eu acho.

- Três meses? – ele brandiu – E você por acaso não achou que eu merecia saber? Você sabe que eu recusei uma excelente proposta de trabalho para poder voltar para o Rio e ficar com você?

- Desculpa... – ela balbuciou cabisbaixa – Eu pensei que fosse só uma fase, que passaria...

- Mas não passou.

- Não.

- Puta que pariu! Eu não acredito nisso! – levantou da cadeira em um pulo. – Vou arrumar minhas malas, Daniela.

Em poucos minutos, voltou à sala com tudo pronto.

- Você me traiu? – ele indagou ainda tentando compreender.

- Não. – só se em pensamento conta... Por que daí sim, eu te trai muitas e muitas vezes! Refletiu calada.

- Você... – ele engoliu em seco - Está interessada por outro?

O silêncio foi a única resposta.

- Está ou não está? – ele segurou em seu pulso e o apertou. Com medo, ela negou.

- Não. – afirmou fitando o chão.

- Mentira! – ele gritou com fúria. – Você é uma péssima mentirosa, Dani!

- Eu nunca te traí, Fábio... Nunca, eu juro! – seu rosto estampou seu desespero.

- Vagabunda. – ele cuspiu as palavras e então saiu, batendo a porta.

Chocada, Dani deixou o corpo cair sobre o sofá. Afundou a cabeça na almofada e chorou. Teve vontade de ligar para o John, mas optou por não fazê-lo. Ela o amava, mas não estava pronta para se relacionar com ele. Só que de alguma forma, ela não governava seu corpo. Deixando-se guiar, seus pés a levaram de volta à casa dele.

 

Lizzy girou na cama a madrugada inteira, sem conseguir pregar os olhos. O que ela fez? Meu Deus do céu! Tinha vontade de ligar para o William e contar tudo, para tirar aquele peso de seus ombros. Tinha que lhe contar também que esperava um filho dele... Um filho e uma traição... Era muita informação... Como ele reagiria?

Então se lembrou que ele não queria mais falar com ela... Que ele não ligava mais para ela... Naquela tarde, tomaria coragem e se abria com sua mãe. Ela seria avó. Apesar de tudo, estava certa que ela se alegraria. E depois, Lizzy tinha seu trabalho, era suficientemente capaz de sustentar a si mesma e a criança inocente que crescia rapidamente em seu ventre.

O seu trabalho... Como encararia o John? Ela se jogou a seus pés... Implorou por amor para o homem errado. Como ele a veria? Ela era uma vagabunda... E ironicamente, ele era o terceiro homem de sua vida, quando o primeiro foi seu próprio irmão... Erik... Levou a mão ao peito, num gesto de dor. E se ele os tivesse visto? Fechou os olhos e então rezou... Por Erik, por ela e pelo seu futuro filho...

Sim! Sentiu-se mais forte pensando naquela criança. De tarde ligaria novamente para William, antes que perdesse a coragem... Apesar de tudo, ele tinha o direito de saber que seria pai...

Arrastando os pés, seguiu até o quarto de sua avó e lá ficou.

- Lizzy? – a gentil velhinha abriu os olhos e cedeu espaço para a netinha em sua cama.

Lizzy se sentiu amada. Afinal de contas, era a única que sua avó ainda reconhecia...

- Vou ter um filho, vovó. – ele sussurrou em seu ouvido. Um filho sem pai – concluiu em pensamento.

- Erik vai ficar feliz. – ela simplesmente respondeu.

- Espero que sim... – foi tudo o que conseguiu dizer.

- Hoje farei um casaquinho de bebe. – a doce senhora sorriu antes de fechar novamente os olhos e adormecer.

 

Dani caminhou até a casa de John, sem refletir no que fazia. “Ele está mal, e eu sou sua amiga”, tentava se justificar. “E também sou médica, vai que suas feridas das costas pioraram.” Independente do motivo, nada a faria recuar, como ela bem sabia. Determinada, apertou a campainha.

- Dani! – um sorriso de orelha a orelha a recebeu. Ela entrou novamente no apartamento com a certeza de que nunca deveria ter saído dali. – Já tomou café?

- Comi uma maça, mas estou sem fome.

- Quer alguma coisa? – ele indagou gentil.

- Não, obrigada. Na verdade, John, voltei para ver como você está.

Ele não pôde evitar e sorriu. Um sorriso esperançoso, luminoso.

Sentaram cada um em uma ponta do sofá. Estranho. Pareciam tímidos um com outro, apesar de toda a intimidade que tinham.

- Deixa eu ver como está tuas costas, John? – sutilmente se aproximou dele por trás. Ele levantou a camisa para facilitar. – Você cicatriza rápido. – apertou a ferida mais feia e ele se encolheu – Dói?

- Hum rum.

Ela então assoprou o machucado como se faz com um bebê, depois se afastou e riu da expressão surpresa que ele fazia.

Dani estava louca para se jogar em seus braços agora que estava oficialmente solteira. Senti-se livre e desimpedida. Mas um traço de razão ainda a impedia. Palavras sensatas soavam em sua cabeça: “Você vai se machucar com ele... Ele ama a Lizzy, lembra?”

John estava quase em pânico! Não conseguia mais ficar ao perto da Dani dessa maneira! Segurava-se no braço do sofá para não agarrá-la de uma vez. Agora estava certo de que a amava! Ele a queria tanto! Será que deveria se declarar? E se a assustasse?

- John?

- Dani?

Falaram ao mesmo tempo, então se calaram e logo começaram a rir.

- Você primeiro. – novamente os dois juntos. Estavam sincronizados de uma forma estranha e inusitada.

- Bom… - ela prosseguiu tímida – Como você pretende agir com a Lizzy? Já pensou nisso?

Ele franziu a testa, intrigado. Não era o tipo de assunto que gostaria de conversar com ela naquele momento. Havia tanta coisa melhor a ser dita!

- Em que sentido? – ele perguntou, mas ela abriu a boca e nada falou. Apenas olhou fixamente para o rosto lindo dele esperando por qualquer resposta. Talvez fosse a resposta que ela ansiava ouvir. Talvez não. – Primeiro, Dani, eu vou deixar bem claro que eu não me arrependo de nada.

O queixo de Dani caiu, ela não conseguiu se controlar. Que decepção! John percebeu e não pode evitar que um sorriso se formasse nos cantos dos lábios. Sim, ela também sentia algo por ele! Apressou-se em explicar.

- Por que, Dani, assim eu pude ter certeza de que nunca a amei. Sabe? Estar com ela não foi tão bom quanto eu imaginei. Não que tenha sido ruim, lógico que não, mas foi muito estranho. E eu me senti tão mal, tão sujo depois! Como se eu tivesse ficado com uma irmã. Como se tivesse cometido um incesto. Por que é isso que ela é para mim, uma irmã. Eu estava cego e iludido por considerá-la outra coisa. E agora estou certo de que nunca a amei. Não de verdade. – Dani contraia o rosto, perplexa, e o encarava em silêncio. Seu coração palpitava agitado. – Só que se nada tivesse acontecido, talvez eu fosse ficar para sempre preso à essa ilusão. Entende?

Ela sacudiu a cabeça em confirmação.

- Dani – ele se inclinou em direção a ela e segurou suas mãos – Eu nunca tinha amado ninguém antes, não sabia como era. Agora eu sei. – pronunciou essas palavras tão suavemente, que Dani sentiu como se ele a acariciasse. Instintivamente, fechou os olhos.

Ele se aproximou ainda mais e colocou a mão sobre a sua nuca, trazendo-a para mais perto. Quando ela reabriu os olhos ele estava tão próximo, que ficou difícil se concentrar. Só o que ela conseguia fazer era observar cada detalhe daquele rosto, da marquinha de catapora acima da sobrancelha direita à cicatriz embaixo do queixo. Ela achava tudo tão belo! E desejava ardentemente aquela boca. Como seria o gosto do John? Não podia deixar de pensar.

- Dani? – os olhos castanhos imploravam por atenção. – Eu te amo.

- Hmmm? – ela arregalou as sobrancelhas em choque. Os lábios ficaram abertos e convidativos, suplicando por um beijo.

- Diz que me ama também? – ele sussurrou em seu ouvido.

- Hmmm? – seu cérebro estava vagando em algum lugar. As palavras sumiram e ela nada conseguiu dizer... Mas sua expressão apaixonada deu a ele a certeza que precisava.

- Dani! Você me ama também! – ele exclamou aliviado. Ainda mantinha a mão em sua nuca, sua boca a milímetros da dela. Um balançar leve de cabeça foi a única resposta que ela, entorpecida, conseguiu dar. Foi o suficiente. – E o Fábio? – quase a beijou, mas tomado de ciúmes, recuou.

- A gente acabou... – ela balbuciou com um embaraço inesperado – Hoje de manhã...

Seu coração gritava: “me beija, John, pelo amor de Deus!”

Ele sorriu e a olhou de uma forma nunca vista antes: um misto de desejo, amor e de amizade.

Passou a mão de leve pelo nariz dela. Estranhamente, não tinha pressa. Estava inesperadamente calmo. Como se estivesse em paz. Como se tivesse encontrado o seu lugar. Dessa vez, não estragaria. Dessa vez, faria tudo diferente.

- Eu prometo ser fiel à você, Dani – segurou ambas as mãos dela – Prometo nunca te magoar...

Ela abriu a boca em choque. Será possível que eles estavam tão conectados que ele lia seus pensamentos?

- Eu prometo me dedicar a sempre te fazer feliz. Você aceita namorar comigo, Dani?

- Não sei. – ela afinal respondeu, debochada.

- Não sabe? – ele se espantou.

- Como posso aceitar namorar um homem que eu nunca beijei? Vai que teu beijo é ruim. – ela afirmou brincalhona.

Ele fez uma careta, já perfeitamente à vontade, fingindo indignação. Jogou-se em cima dela, derrubando-a de costas no sofá. Se apoiando em seus braços, deitou-se sobre ela. Os dois estavam ansiosos, e rapidamente se entregaram ao beijo.

- Então, meu beijo é ruim?

- Não sei, tenho que provar mais um pouquinho. – respondeu enroscando os braços de novo no pescoço dele.

Novamente colaram suas bocas, rolando no sofá nos braços um do outro durante vários minutos.

- Teu beijo é perfeito, John. – ela respondeu sorridente, com um brilho intenso no olhar.

- Então... – ele a encarou com paixão – creio que a minha mãe vai ficar feliz por ganhar uma nora. Vamos convidá-la para vir hoje a tarde?

- Hoje não dá, John. Você tem que conversar com a Lizzy.

Ele contraiu o lábio em reprovação e então voltou a se sentar.

- Dorme aqui hoje à noite, Dani?

- Hum rum.

- Agora vamos lá embaixo, no Bistrô. – a puxou pela mão - O que você quer de almoço? Eu faço o que você quiser. – a enlaçou pela cintura. Antes que ela respondesse, voltou a grudar seus lábios nos dela num ardente beijo.

- John... – ela murmurou levemente constrangida – eu preferia ficar aqui... – tentou se fazer entender sem precisar de palavras.

- Meu amor – voltou a abraçá-la – Minha cabeça está cheia de problemas agora... Quando for para acontecer, quero me dedicar exclusivamente a você. E para isso, precisarei ter uma certa conversa antes. Entende? – explicou abusando do charme. Dani se derreteu.

- Hmmm – se derreteu, mas não deixou de resmungar. – Entender eu entendo, só não sei se eu quero esperar...

Os dois se olharam e então sorriram.

- Essa noite. – ele prometeu.

- Tá bom.

 

Lizzy estava agitada e inquieta. Sem conseguir relaxar. Ligou para o John e avisou que almoçaria com ele. Precisava tirar o peso de seu ombro. Precisava ter duas conversas. E a que teria com John, certamente seria a mais fácil delas. Estranhamente, precisava do apoio do John para ligar para o William. Como se nada tivesse acontecido, como se ainda fossem os melhores amigos... Só a gente não pode simplesmente fazer sexo com o nosso irmão, com nosso melhor amigo, e desejar que nada mude... Mas era com essa esperança, com essa expectativa, que Lizzy se dirigia ao Bistrô...

Ela estava certa que ele não a julgaria. Ele era o seu irmão, apesar de tudo. O irmão que ela nunca teve. E o choque que vira em seus olhos depois do ocorrido, lhe dava certeza que ele sentia-se da mesma maneira que ela. Sim, havia sido um erro... Um enorme e estúpido erro... E à medida que se aproximava de seu destino, ensaiava em sua mente as palavras que diria...

Mas nunca, em nenhum momento, em hipótese alguma, sequer sonhou que ele pudesse estar acompanhado...

Ao colocar o primeiro pé no pequeno restaurante, ouviu vozes e risadas oriundas da cozinha. John estava feliz! Como ele poderia estar feliz enquanto que ela se corroia por dentro?

Chegando mais perto, identificou a voz. Sorrateiramente, parou junto à porta. Dois pares de olhos se arregalarem e se fixaram em seu rosto. Lizzy estancou e sentiu um bolo se formar em seu estômago. A pouca comida engolida no desjejum quase voltou. Procurou se acalmar.

- Lizzy! – Dani sorriu, um sorriso claramente triste ao vê-la, e se aproximou dela. Um olhar complacente e gentil.

Não! - Lizzy pensou com pavor. Dani era sua amiga! E pelo visto ela estava com John... E ela traíra sua amiga jogando-se em cima do homem que ela pelo visto gostava... Mas Lizzy não sabia, não sabia... Abraçou a si própria, para se sentir melhor.  Só que nada adiantou.

- Lizzy? – quando deu por si, Dani estava em sua frente e a observava de uma forma esquisita. – Não pode ser! – Dani ficou boquiaberta, em choque, olhando atentamente para algo em seu rosto. Levou à mão à boca, assustada.

John, por sua vez, continuou estático e distante, como se fosse um mero espectador.

- Lizzy? – Dani chamou. Lizzy franziu as sobrancelhas intrigada. O que ela queria? Dani esticou os dedos e tocou em algo em seu rosto. – Isso é uma mancha de gravidez... – ela murmurou baixinho. – Não é?

Silêncio. John parou o que fazia, ansiando pela resposta. Dani também.

- Hum rum. – ela afinal assentiu.

John sentiu seus joelhos fraquejarem. Ele era um monstro! Sentiu-se tomado de pavor! E asco! Um ódio violento por si mesmo! Ela transara com uma mulher que esperava um filho de outro! Lizzy estava grávida! Não! Mas ele não sabia... Como poderia saber?

 

 

 

 

lass=!�(om`��Q�'text-align:justify'>- Não se preocupe comigo, Kaká. Vou tentar me entender com Richard.

 

- Hum... sei...

- Me entender como amiga dele, né? Já esgotei meu estoque de beijos por hoje.

- Hunrum, até parece. – debochou. – Se ele quiser te beijar você vai dizer: não Richard, muito obrigado. Já esgotei meus beijos por hoje. Tente amanhã! – ela gracejou, implicante.

- É! – ela respondeu entre risadas.

- Então Raquel, vamos lá no bar com eles? E esperar para ver o que vai ser de Lizzy e Darcy?

- Sim, por favor! Espero que tudo dê certo e os dois se entendam de uma vez! Lizzy merece ser feliz.

- Se não der certo ao menos você aproveitou o beijo, não foi?

- Sim, com certeza! – sorriu.

- Então já valeu o esforço!

- Baita esforço! – e as duas chegaram ao bar às gargalhadas.

 

- O que você pensa que está fazendo? Beijando a minha amiga daquele jeito?

Darcy sentiu um puxão no braço quando ia para o banheiro. Lizzy o parou, enraivecida, encostando ele contra a parede, se posicionando em frente a ele.

- Por acaso ela beija melhor do que eu, hein? – ela indagou, deixando ele sem reação. Ela estava super irritada e nem pensava direito no que fazia. Chegou com o corpo próximo ao dele, prensando-o contra a parede e prendeu os braços dele com os dela.

- Hein? Ela beija melhor do que eu?

Ele não respondeu, apenas a encarou, gostando da situação. Ela chegou com a boca bem perto da dele, provocando-o. Lizzy roçava seu nariz em sua bochecha, quase tocando seus lábios com os dela.

- Eu poderia te beijar agora, se você não tivesse beijado antes a minha amiga. – afirmou, num sussurro, ainda provocando-o.

Ele não agüentou mais aquela provocação. Ela o prendia, mas ele era mais forte e logo se desvencilhou. Com o braço direito pegou a nunca dela, ao mesmo tempo em que a puxou pela cintura com o braço esquerdo, e a trouxe para junto de si, beijando-a com sofreguidão.

Lizzy se rendeu ao beijo e se atirou nos braços dele, com a mesma urgência e com a mesma intensidade que ele sentia. Ela correspondia ao seu desejo e o queria para ela, só para ela. Não queria dividi-lo com ninguém, muito menos com sua amiga, e não havia mais como fugir disso. Era mais forte do que ela.

- Vamos embora daqui, Will? – ela se afastou um pouco e o encarou, suplicante. – Eu quero você e não quero mais que você fique com a Raquel.

- Vamos Lizzy. Vamos para onde você quiser. – ao ouvir essas palavras, ela deu um sorriso e um suspiro de alívio e satisfação. Ele ainda era dela, afinal.

- Vamos para tua casa, Will? – indagou com um sorriso maroto nos lábios, deixando claro suas intenções.

- Claro! – ele respondeu sem pestanejar - Mas sem se despedir?

- Sem se despedir.

Já haviam perdido tempo demais e não queriam perder mais nenhum segundo sequer. Ele a puxou pelo braço e saíram apressadamente e de fininho, sem serem percebidos pelos amigos.