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Vermelho - Capítulo 11 - Senhora X

Escrito por Cristina Ligado . Publicado em Vermelho

Esses são um daqueles momentos que tiram você da terra. Observei Caroline com tanta surpresa que não sabia o que dizer ou pensar. Tudo que havia exposto para o Senhor X, todos meus segredos, desejos e minha nudez parcial voltaram como um soco no estômago. Aquelas lembranças se misturaram as de que possuía de Caroline. Ela me observando com o nariz empinado, rindo de minhas desventuras, fazendo piadas veladas. 

“Tarada!” Gritei, saltando do sofá. Ela deixou o copo de lado, com sua frieza costumeira. 

“Eu não sabia que a “Rosebud” era você.”

“E como sabe agora?!”, indaguei, caminhando pela sala sem saber o que fazer.

“Estava na festa com o Darcy. Eu a reconheci pelo pouco que vi na webcam. Sabia que naquela festa haveria uma mulher com o tipo físico da Rosebud. Se eu fosse homem provavelmente esses detalhes passariam despercebidos, mas... bem, você conhece o quão detalhistas somos nós mulheres com nossa imagem pessoal e a dos outros.” 

Ponderei, dando de ombros e voltando a me sentar do lado de Caroline. Eu a fitei de soslaio e cruzei os braços.

“Isso soa tão pervertido.” Envergonhada, não conseguia olhar para aquela velha conhecida.

Novamente lembrei as intimidades que compartilhamos protegidas pelo anonimato e meu rosto ficou quente, eu desvia estar vermelha como um pimentão. Ouvi o que parecia ser uma risada sufocada vindo da mulher e a fitei de soslaio. Esta ria e chorava ao mesmo tempo. Ria de mim, devia imaginar o que eu estava pensando naquele momento. E chorava por si também, por se expor daquela maneira para um antigo desafeto. Cheguei a conclusão que todas as mulheres são um turbilhão de sentimentos, eu nunca fui exceção.

“Você está apaixonada por mim?”, perguntei de supetão, trazendo o olhar surpreso desta na minha direção. 

“Não.” Respondeu firmemente. Então desviou o olhar e deu de ombros. “Mas se você quisesse...Eu te pegava.”

O choque daquela declaração em mim foi tão grande que Caroline começou a rir da minha expressão de pura surpresa. Logo me desarmei e ri junto de toda aquela situação tão ridícula. Por fim ela tornou a falar, parecendo menos triste, mais alcançável.

“Senti que... senti que Rosebud e o Senhor X, no fim das contas, eram acima de tudo bons amigos. Na internet eu posso ser o que sou, Elizabeth. E posso encontrar pessoas que me aceitam e são mais amigos meus do que todos lá fora, mais até que minha família. Confesso que não iria me aproximar da Rosebud na festa, jamais tinha essa intenção. Já fiz isso antes. Marquei encontros, observei as moças de longe e... “

“ ...trancou seu desejo”, completei.  Ela fez um sinal positivo com a cabeça.  “Quando a reconheci fiquei feliz. Era... era como se um amigo de verdade estivesse próximo de mim, alguém que eu pudesse ser eu mesma. E eu sei que você aceita essa condição já que Kitty também é...”

“É lésbica”, completei novamente. Caroline empalideceu, mas não negou. 

“Isso.” Baixou a cabeça, fechando os olhos. - Nem consigo completar a frase, me designar assim. Imagine só, Caroline Bingley, um dos pilares da sociedade, famosa nas colunas sociais sendo... isso. Ela se calou naquele instante e pude compreender melhor a prisão de luxo em que vivia. Aparências, o mostrar ser e não o ser de verdade. Depois de um silêncio compartilhado, seu tom de voz ficou mais baixo e pesaroso. ”O pior de tudo isso é que hoje vou noivar com o Darcy. Eu sei que ele não me ama, eu não o amo, mas estamos um puxando o outro para o fundo do poço.” 

No meio de todo aquele desabafo consegui compreender o olhar de tristeza que recebi de William naquela manhã. Ele estava trancafiado na mesma angústia que Caroline e só eu, apenas eu, poderia tirá-los daquilo. Me ajoelhei na frente de Caroline, no chão. Não a via mais como a moça que odiei profundamente nos últimos anos. Era ela, o meu querido Senhor X. Ou melhor, a Senhora X. Uma amiga que me ajudou a descobrir a verdadeira Elizabeth Bennet, sem pudores descartáveis, uma mulher capaz de se amar e de amar alguém. Era minha amiga e havia ido até ali encontrar alguém que tinha amizade. Ela foi procurar a sua Rosebud e não a irmã de sua cunhada. Resolvi lhe devolver tudo que havia dado para mim, suprir suas expectativas. Ergui o rosto dela com os dedos e a fitei, sorrindo. 

“Caroline...Você confia em mim?”