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O Fruto da Honestidade - Capítulo 22

Ligado . Publicado em O Fruto da Honestidade

Aquela já era a terceira vez que desligava o telefone depois de discar o número dela. Charles estava há mais de dois meses longe de sua amada e não conseguia tirá-la de sua cabeça por um segundo sequer.

 

Ele próprio já havia se apaixonado e desapaixonado umas centenas de vezes, mas nunca sentira por outra pessoa o mesmo amor que tinha por Jane. Ela era a melhor pessoa que já conhecera na vida, e apesar de amá-la muito, não podia ser egoísta e fazê-la esperar por ele. Bingley não tinha idéia de quanto tempo demoraria para pôr a empresa em ordem, então pedir para ela esperá-lo não seria uma atitude certa.

 

Perdido em seus pensamentos e lembranças, não percebeu quando alguém entrou em sua sala. Só deu-se conta disso depois que essa pessoa falou consigo.

 

- Charles, Charles? – olhava para ele com uma feição curiosa, talvez até engraçada à primeira vista.

 

- Ãhn... – de volta à Terra. – Sim, Louisa?

 

Era a irmã de Bingley, Louisa, quem acabara de entrar no escritório dele. Ela já achava comum encontrar seu irmão em uma situação daquelas, “no mundo da lua”. E ela sabia o porquê de ele estar daquele jeito.

 

- Estava pensando naquela garota de novo, acertei?

 

- É só o que eu tenho feito nesses últimos dias, não é? – falou, com um sorriso melancólico.

 

- É. Por que não tenta ligar pra ela? Diga-lhe que a ama, peça-a para esperar por você. Afinal, nesses dois meses, conseguiste reestruturar muita coisa, meu irmão. E se ela te ama assim como é amada por ti, ela esperará por você, sim.

 

- Ela deve estar me odiando agora... só mandei uma mensagem pra ela, no dia em que cheguei aqui.

 

- Oh, Charles! Não há pecado maior do que não dá uma satisfação a uma mulher!

 

Ele riu com o comentário exagerado da irmã.

 

- E o que você quer que eu faça, Louisa?

 

- Ligue pra ela, mande um email, vá lá! Mas faça alguma coisa!!

 

- Ah, tá. Eu ligo para a Jane, e ela me diz que já me esqueceu, me inquire o porquê de não ter ligado antes, pode até dizer que já está com outro! – dizendo isso ele, levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, bagunçando o seu cabelo.

 

- Charles Bingley! Calma. Muita calma.

 

- Como eu posso ter calma? Acho que o melhor a fazer é esquecê-la mesmo.

 

Assim, ele pegou suas coisas e saiu da sala, transtornado. Deixou para trás sua irmã, sentada em uma das poltronas, pensando em como melhoraria o humor dele, que sempre fora tão alegre e expansivo, mas que estava estressado e cabisbaixo desde que chegara lá.

 

********************************

 

Já era tarde e Jane tivera um dia insuportável no trabalho.

 

Chegou com lágrimas nos olhos, tentara segurá-las o dia inteiro, mas ao chegar à sua casa não foi mais possível impedi-las de se manifestar.

 

Entrou logo no seu quarto, mas percebendo que Lizzie estava na sala, ao telefone.

 

Jogou-se na cama, pegou o número do telefone que Caroline mandara sua secretária lhe entregar e ficou olhando-o.

 

“Ligo ou não ligo?” – perguntava-se ela.

 

“E se ele já estiver mesmo com outra como Caroline falou? E se ele não quiser assumir o filho? E se nosso namoro foi apenas uma aventura para ele?”

 

Todas essas questões se reviravam em sua mente e formavam um imenso furacão, que estava prestes a estragar toda sua vida.

 

Lizzie notara a entrada abrupta de sua irmã, mas, como estava ocupada, não pôde cumprimentá-la logo.

 

Mas, ao desligar o telefone, foi até o quarto da irmã, que estava com a porta aberta.

 

Entrou e viu-a lançada sobre a cama.

 

- Jane! E aí? Como foi no trabalho hoje? Conseguiu falar com o Charles? – perguntou se aproximando da cama da irmã. Só assim pôde vê-la chorar. – O que houve, por que estás chorando?

 

- Calma, Lizzie! Uma pergunta de cada vez! – respondeu, sentando-se na cama e tentando esboçar um sorriso.

 

- Certo, tudo bem! Pergunta número 1: Como foi o trabalho hoje?

 

- Foi... difícil. Houve uma cena que eu nunca imaginaria que iria acontecer...

 

- O que aconteceu?

 

- A Caroline humilhou uma das funcionárias, fê-la chorar, até.

 

- Eu te disse que ela não era uma boa pessoa.

 

- Mas pode ter sido levada pelo momento, deve estar muito cansada, já que antes a empresa era apenas responsabilidade do Charles.

 

- Ok, não vou discutir isso com você, afinal não adianta mesmo, você tem sempre uma justificativa para os erros alheios!

 

Dessa vez Jane conseguiu sorrir genuinamente.

 

- Muito bem, vamos agora para a pergunta de número 2: Conseguiu falar com o Charles? – continuou Elizabeth.

 

- A Caroline me deu um número de telefone, disse que era do escritório dele. Está aqui, olhe. – entregando o pedaço de papel à irmã.

 

Lizzie analisou o papel e falou:

 

- E você já ligou para ele?

 

- Não tive coragem o dia todo... e a essa hora ele já deve ter saído de lá.- argumentou, olhando para o relógio que ficava em seu criado-mudo, que, por sua vez, estava do lado da sua cama.

 

- Jane, você tem que contá-lo! Afinal, ele é o pai dessa criança que está se desenvolvendo em seu ventre.

 

- Eu sei disso e estava com coragem para fazê-lo hoje de manhã. Mas após uma coisa que a Caroline me disse, eu fiquei indecisa se deveria mesmo ligá-lo.

 

- Sobre o que você está falando? O que aquela magricela te falou?

 

Jane fez uma careta por causa do jeito que sua irmã chamara Caroline, mas respondeu:

 

- Ela me contou que o Charles sempre fora volúvel, que os namoros dele nunca duraram por muito tempo e que talvez ele já estivesse com outra lá na Escócia.

 

- Ela teve a petulância de te falar isso? Eu não acredito!

 

- Lizzie, isso pode ser mesmo verdade. Se não ele já teria me ligado, tentado se comunicar comigo uma vez sequer. Mas não, ele me mandou apenas UMA mensagem. E só.

 

Elizabeth tinha que admitir dessa vez. Caroline podia estar mesmo certa acerca do caráter amoroso do irmão. E mais uma vez ela sentia que sua sempre infalível técnica de analisar a personalidade alheia falhara.

 

Primeiro, errou quanto ao caráter do sr. Darcy e de sua irmã, no qual ela tentava pensar apenas nas horas de trabalho.

 

Segundo, quanto à profundidade do sentimento que Bingley nutria por Jane.

 

Lizzie não podia negar. Agora estava realmente confusa. Mas, pensando melhor, concluiu:

 

- Jane, mas mesmo que ele esteja namorando outra, ele não deixa de ser o pai desse bebê que você carrega consigo. O que ele sente ou sentiu por você não influi nisso. Infelizmente, se essa estória for mesmo verdade, você terá que se contentar com isso e tentar esquecê-lo. Por mais que o ame. Mas amar só vale a pena quando o sentimento é recíproco, amar sozinho demonstra falta de amor próprio, e isso eu sei que você tem.

 

Ao término do discurso da irmã, Jane estava aos prantos. Sabia que Elizabeth não falara nada a não ser a mais pura verdade. Mas fora uma verdade muito dura e crua de se ouvir.

 

- Me desculpe se eu falei alguma coisa que te machucou, eu sei que não é assim tão fácil esquecer alguém que se ama tanto. Mas quero que você saiba que eu sempre estarei aqui. Sempre.

 

Jane continuava a chorar, cada vez mais as lágrimas se espalhavam pelo seu rosto. Sinceramente, ela não aguentava mais ficar pelos cantos, chorando ou tentando não fazê-lo. Sua vida nunca girara em torno de alguém, e por que agora teria que ser assim? Por mais que amasse o Charles, ele não tinha o direito de tirar-lhe a paz e fazê-la fraquejar.

 

Uma vez alguém já disse que amar é sofrer, mas amar significa cuidar de alguém, tentar fazê-lo feliz, reciprocamente. E esse sentimento não estava fazendo isso por Jane.

 

A partir dessas conclusões, ela falou para a irmã, que estava abraçada a ela, tentando consolá-la.

 

- Sabe de uma coisa, Lizzie? – falou, se apartando do abraço. – Eu não vou ficar aqui, me lamentando e chorando enquanto ele talvez já nem se lembre de mim. Você está certa mesmo, tenho que seguir minha vida, normalmente. Agora vou me lembrar do Charles apenas como uma lembrança boa, mas que passou rápido. Na vida temos muitos amores. Ele foi apenas mais um deles.

 

Elizabeth sabia que a irmã não esquecera Bingley assim, em menos de cinco minutos. Mas estava feliz porque agora ela estava ao menos tentando não se mortificar com a ausência dele.

 

- Você não sabe o quanto eu fico feliz ao te ouvir dizer isso, Jane!

 

A outra respondeu com um sorriso, em sinal de aprovação.

 

- Então... o que acha de mudarmos de assunto?

 

- Acho ótimo!

 

- Quando cheguei percebi que você estava ao telefone. Estava pedindo nosso jantar? Estou com muita fome! – fazendo uma expressão apelativa, que arrancou uma gargalhada de Lizzie.

 

- Não, eu já havia pedido o jantar. Aliás, ele já deveria ter chegado... Mas naquele momento eu estava conversando com o George. Ele me convidou para sair.

 

- Pela milésima vez?

 

- Exatamente. Ele disse que dessa vez será como uma despedida, falou que a peça entrará em turnê por todo o Reino Unido e que gostaria de me ver pela última vez antes de viajar.

 

- Por que você não aceita? Ele já te chamou milhares de vezes, mas sempre recusastes. Além disso, dessa vez ele teve um bom argumento.

 

- É, ele teve mesmo... Bom, acho que vou aceitar. Afinal, ele é apenas meu amigo e um jantar não arranca pedaço de ninguém.

 

Logo quando Lizzie acabou de falar isso, as irmãs ouviram a campainha do apartamento.

 

- Acho que é nosso jantar! – exclamou Elizabeth.

 

Assim, elas saíram do quarto de Jane em direção à sala e foram saborear o jantar.

 

********************************

 

Chegando à sua casa, Caroline Bingley imediatamente ligou para sua irmã, Louisa.

 

- Louisa, oi!

 

- Olá, Caroline! Como vai?

 

- Eu te digo depois, agora preciso conversar com você urgente.

 

- O que foi? Aconteceu alguma coisa?

 

- Se não aconteceu irá acontecer a qualquer momento. E você tem que me ajudar a impedir.

 

- Sobre o que você está falando?

 

- O Charles te falou sobre alguma namorada que ele deixou aqui em Londres?

 

- Fala quase toda hora. Disse que ela é muito bonita, atenciosa, simpática, amável... da parte dele não faltam elogios a ela. E ele anda muito deprimido por causa das saudades que sente dela. Qual o nome dela mesmo? Acho que é Jane...

 

- É sim, Jane Bennet.

 

- Esse nome mesmo. Ele não para de falar nela.

 

- E é mesmo sobre ela que eu pretendo falar com você.

 

********************************

 

Já eram dez da noite. Georgiana tentava assistir a um programa de televisão, mas parecia que em nenhum canal passava algo que lhe agradasse.

 

A verdade era que desde o encontro inusitado que tivera com Edward não conseguia mais se concentrar em nada. Teve um dia horrível no trabalho porque não conseguia pensar em mais nada, a não ser num certo moreno que insistia em invadir sua mente.

 

Arrependia-se até hoje por ter acabado seu relacionamento com ele. E o remorso incomodava-lhe ainda mais quando pensava no motivo por tê-lo deixado.

 

Lembrou-se que ainda devia satisfações a Charlotte sobre Edward e resolveu ligar para ela.

 

- Char? É a Georgiana. Você está ocupada? Pode conversar?

 

- Oi! Não estou ocupada, podemos conversar.

 

- Eu sei que fiquei te devendo algumas explicações sobre ontem.

 

Charlotte sorriu de satisfação do outro lado da linha do telefone. A curiosidade já lhe corroia por quase 24 horas.

 

- Não sei como posso começar.

 

- Comece do começo. Diga-me onde se conheceram.

 

Char era daquelas pessoas que fazia dos detalhes a parte mais importante da estória. Além do mais, ela achava que merecia mesmo uma recompensa por ter aguentado tanto a expectativa de saber tudo.

 

- Bom, nós nos conhecemos num bar. Ele tocava violão e cantava numa banda que estava se apresentando no lugar. Eu tinha ido com uns amigos, apenas para me distrair. Acho que quando nos vimos foi amor à primeira vista. Ele me conquistou inicialmente por seu olhar e pela sua voz doce. Eu percebi que ele me olhava com interesse, de lá do palco mesmo.

 

- Mulher tem sexto sentido para essas coisas.

 

- Talvez seja isso mesmo. Mas, voltando ao assunto, ao terminar o show fui cumprimentá-lo pelo belo trabalho, com duas amigas. Assim, nós começamos a conversar e eu acabei me enfeitiçando de vez pelos modos e pela conversa dele. Apesar de não termos ficado juntos logo naquela noite, trocamos os números de telefone e emails.

 

- E ele te ligou logo?

 

- Me ligou no final de semana seguinte, disse que iria tocar em outro lugar e me perguntou se eu não queria acompanhá-lo.

 

- Você aceitou?

 

- Eu pensei bem, mas enfim aceitei. Após o show, jantamos no restaurante onde ele tocara e fomos ao cinema. Lembro-me como se fosse hoje. Mal prestamos atenção no filme. Os olhares furtivos que lançávamos um ao outro e a conversa paralela que travávamos nos impediam de dar a devida atenção ao filme.

 

- Não teria sido melhor ir a um outro lugar? Apenas para conversar?

 

- Acho que não. O cinema tem uma aura mágica, e o escuro reinante ali parece aproximar os corpos, exalar os perfumes e descobrir os amores.

 

- É, você tem razão... mas continue!

 

- Depois demos uma volta de carro pela cidade, uma volta sem rumo. E vimos o sol nascer em um banco, à margem do rio Tâmisa*, e foi ali que nos beijamos pela primeira vez, onde somente o sol que nascia era testemunha de nosso amor.

 

- Que lindo...

 

Georgiana sorriu com o comentário da amiga, e continuou:

 

- Saímos juntos outras vezes e começamos a namorar dali a duas semanas. Nosso namoro foi uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida... ele era carinhoso, inteligente, companheiro...

 

- Então por que a relação de vocês acabou, se era tudo tão lindo? – perguntou Charlotte, realmente curiosa. Ela estava sentada no sofá da sala da sua casa e brincava com uma mecha do seu cabelo.

 

- Não sei como tudo começou a ruir. Mas sei quando. Ele teve que viajar a negócios com o pai, e...

 

- Mas ele não era músico?

 

- Sim. Mas trabalhava com o pai também. Para ajudá-lo, se sustentar,...

 

- Ah... entendi.

 

- Ele viajou com o pai para resolver algumas coisas da concessionária do último e nossa relação acabou esfriando.

 

- Então quer dizer que uma viagem arruinou tudo entre vocês?

 

- Não totalmente. A viagem foi como o “pontapé inicial”. Houve muita coisa depois, mas eu não sei se me sinto confortável para contar agora.

 

- Certo, tudo bem... – respondeu a amiga. Apesar de já ter tomado conhecimento da maioria da história de amor dos dois, se segurava para não perguntar acerca da parte mais importante, a separação.

 

Elas conversaram por mais um tempo, mas tiveram de desligar, já que a noite dava sinais de cansaço.

 

*************************************

 

Sentada na areia muito clara e limpa de uma bela praia deserta, observava o mar, que estava tingido de tons azuis e verdes.

Segurava seu bebê nos braços. Ela própria estava com um vestido azul muito claro e seu filho tinha o enxoval todo branco.

O sol brilhava muito forte, de um modo que nunca tinha visto antes.

Olhou para o horizonte, sentindo a brisa morna enrubescendo sua face. Percebendo que no mesmo local vinha uma pessoa. Charles. Ele sorria para ela com ternura e dizia silenciosamente: “Te amo!”

Ela sorria com a declaração dele e respondia: “Também te amo, muito!”

Jane estendeu os braços, para entregá-lo o bebê, mas uma outra pessoa, vestida de preto, colocou-se entre os dois.

Ela não sabia ao certo de onde esse desconhecido havia surgido, mas este último, além de se pôr entre ela e Bingley, ainda carregou seu filho consigo e sumiu.

Ela olhou para os lados, desesperada, mas não o via mais em lugar nenhum. Algum tempo depois, Charles chegaria perto de si e lhe abraçaria, tentando consolá-la.”

 

Jane acordou assustada. Outra vez tivera um sonho daqueles: Sem pés ou cabeça.

 

Levantou-se da sua cama, pegou um copo d’água – assim como havia feito na noite anterior.

 

Sentou-se no sofá e ficou pensando, tentando desvendar o significado daqueles sonhos tão sombrios.

 

****************************************

 

Mais uma noite se erguia em Londres.

 

Naquela noite, Lizzie combinara de jantar com George, depois de inúmeras tentativas frustradas dele.

 

Ela estava realmente bonita àquela noite. Apesar de não ter se esmerado tanto na produção, o resultado fora realmente incrível.

 

Jane já estava em casa há algum tempo e levara trabalho para casa naquele dia. Comportava-se como uma workaholic** há três dias, ou seja, desde o dia em que decidiu que esqueceria Charles.

 

Lizzie saiu do seu quarto e se postou em frente à Jane.

 

- Jane, já estou indo. O George deve estar me esperando.

 

- Como você está linda!

 

- Obrigada! – respondeu Lizzie, sem jeito. Geralmente era ela quem elogiava a beleza da irmã.

 

- Aproveite bem a noite e o companheiro de noite também!

 

- Oh, Jane! Por favor... o George é só meu amigo!

 

- Se fosse mesmo ele não tinha insistido tanto em sair com você.

 

- Ele insistiu em sair comigo porque a peça em que ele trabalha vai sair em turnê e nós não vamos nos ver por muito tempo. É só por isso!

 

- Está bem, eu finjo que acredito!

 

- Jane, eu não quero discutir com você. Tchau! – disse, dando um beijo em uma das bochechas da irmã.

 

- Tchau!

 

Jane se despediu da irmã e voltou ao que estava fazendo: trabalhos e mais trabalhos.

 

Enquanto pesquisava na internet, deparou-se com uma mensagem:

 

“Você tem um email!” – apareceu escrito em um dos cantos da tela do seu monitor.

 

Clicou para ver sobre o que se tratava.

 

*******************************************

 

Elizabeth chegou ao saguão do seu prédio e constatou que George ainda não chegara.

 

Sentou-se em uma das poltronas da recepção e tentou arrumar algo para servir-lhe de passatempo.

 

Passaram-se cinco minutos. Dez. Quinze. Vinte...

 

Lizzie já tinha sua paciência quase esgotada e pensava se ele não se esquecera do compromisso ou tivera um contratempo.

 

Meia hora depois ele chegou ao prédio em que ela morava para apanhá-la.

 

Ele saiu do carro e andou até o saguão, onde ela estava.

 

- Elizabeth! Desculpe-me a demora, o ensaio de hoje terminou mais tarde e meu celular descarregou. Então não pude te avisar que chegaria atrasado.

 

- Não há problema. – Ela levantou-se e cumprimentou-o. Apesar de desculpá-lo, sua voz exalava desconfiança. Ele não parecia ter vindo de ensaio algum, sua roupa cheirava a algum tipo fajuto de charuto.

 

Eles saíram do prédio em direção ao carro.

 

Após meia hora de andança, ele estacionou em um belo, mas simples restaurante de comida tradicional inglesa***.

 

O restaurante tinha um ambiente reservado muito aconchegante, com paredes escuras e luzes não muito brilhantes e mesas e cadeiras rústicas.

 

O jantar inteiro fora muito agradável. A comida estava deliciosa – por mais que a fama da culinária inglesa não seja favorável a tal título -, o local era confortável e a conversa que travavam estava tão divertida que Lizzie já até se esquecera do atraso dele.

 

Saíram de lá e George levou-a logo para o apartamento dela com a desculpa de que no outro dia viajaria cedo e ainda não arrumara suas bagagens. Elizabeth aquiesceu e disse que não havia problemas.

 

Chegando à frente do prédio, ele saiu do carro e deu a volta nele, a fim de abrir a porta para ela.

 

- George, muito obrigada pelo jantar. Estava tudo maravilhoso!

 

- Não há o que agradecer. Aliás, quem deveria agradecer era eu, por sua tão agradável companhia.

 

Eles se calaram por um instante. Ele foi aproximando-se dela devagar, até encostá-la totalmente na lateral do carro.

 

O rosto dele foi ao encontro do dela.

 

Lizzie estava sem reação alguma. Não sabia o que fazer ou pensar. Aliás, ela não sabia o porquê de ELE estar fazendo aquilo. Sempre pensara que a relação deles era apenas uma simples amizade.

 

“Acho que a afirmação de que homem e mulher não podem ser ‘apenas bons amigos’ tem um fundo de verdade...”

 

Ele se aproximava cada vez mais.

 

“Engraçado, parece que está tudo acontecendo em câmera lenta...”

 

Uns milésimos de segundos depois, ela podia sentir a respiração dele ainda mais perto, e o calor do seu corpo que a imprensava.

 

Ela finalmente reagiu e virou seu rosto. Os planos dele desmoronaram e George agora beijava-a no rosto.

 

Acabado o instante do beijo, ele olhou-a confuso, como se perguntasse: “Por que você desviou o rosto?”

 

Como se entendesse o que diziam os olhos dele, ela falou:

 

- George, nossa relação se limita à amizade. – com feições duras, mas ainda assim bondosas.

 

Ele continuou em silêncio, com uma expressão frustrada.

 

- Boa noite. – disse ela, se esquivando dele e entrando no prédio, deixando-o lá, sozinho.

 

Wickham entrou no seu carro e ligou o celular, que permaneceu desligado durante o tempo em que esteve com Elizabeth.

 

- Ronald, já estou voltando. Minha noite não foi tão boa quanto imaginei. Apesar da garota ser bonita e até agradável, ela não me deu nenhuma chance... E em pensar que eu não quis rachar a conta do jantar, esperando ser recompensado com um beijo, no mínimo! Mas, deixando isso de lado, perdi muito no pôquer?

 

*************************************

 

“Sentada em sua cama, amamentava aquela pequena criaturinha em seus braços.

Estava encantada com as feições de seu filho. Acariciava-lhe levemente o rostinho pálido.

Vê, de relance, Charles entrando no seu quarto. Ele sorri.

Ela sorri em resposta.

Ele se aproxima vagarosamente.

O mesmo desconhecido dos outros sonhos entra correndo no quarto, empurra Charles e leva o bebê embora, desaparecendo.

Jane olha para Charles, que a abraça forte, para consolá-la.”

 

Jane acordou irritada dessa vez. Há dias não dormia direito por causa desses sonhos que vinha tendo.

 

O que será que eles significariam?

 

**************************************

 

O sol nascente anunciava a chegada de um novo dia na capital inglesa.

 

Apesar de algumas típicas nuvens escuras cobrindo-o, ele demonstrava todo o seu vigor e brilho.

 

Jane já saíra para o trabalho e Elizabeth acabava de chegar à Darcy Imobiliária.

 

Mal chegou ao corredor de sua sala e Georgiana procurou-lhe.

 

- Elizabeth, Darcy deseja falar conosco.

 

Ela concordou e deixou-se seguir por Georgiana até a sala dele.

 

Chegando lá, ele estava sentando em sua poltrona esperando-lhes. Elas sentaram-se também.

 

Ele dirigiu um olhar intenso à Elizabeth, que o retribuiu à altura.

 

William começou logo a falar:

 

- Serei direto e rápido no que tenho a dizer. Chamei-as aqui para anunciar que nesse final de semana viajaremos os três, além de Caroline Bingley, a negócios – é claro -, a fim de verificar a situação de uma extensa e mui valiosa propriedade, que, se em bom estado, será comprada pela nossa empresa.

 

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*Rio Tâmisa: http://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A2misa

 

**Workaholic: Expressão americana que teve origem na palavra alcoholic (alcoólatra). Serve para designar uma pessoa viciada em trabalho. http://pt.wikipedia.org/wiki/Workaholic

 

***Culinária inglesa: http://www.sprachcaffe-england.com/portugues/gast.html