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Contos de Abril - Diário de uma universitária

Escrito por Dayse Ligado . Publicado em Diário de uma universitária

É claro que não foi amor à primeira vista. Antes disso, ele era um esnobe e eu, bem, era muito teimosa. Antes de tudo acontecer, além dele ser o melhor amigo do meu querido cunhado, foi também meu professor. E é a partir daí que nossa estória realmente começa...

 

DIÁRIO DE UMA UNIVESITÁRIA

 

Hoje é o noivado da Jane e Charles. O perfeito casal vinte!

Só participarei porque somos muito unidas. E Charles é um amor de pessoa, como poderia deixar de prestigiá-los.

Mas não estou com disposição para participar de festa alguma, apesar de só terem chamado os parentes mais próximos e os amigos mais íntimos.

Quando precisei descer, pois os convidados já haviam chegado, vi Jane e Charles conversando com alguém cujo rosto pareceu familiar, porém um pouco esnobe para o meu gosto. Já ia passando de fininho, quando Jane me avistou e não tive escapatória.

Lá fui eu ser apresentada ao Sr. Esnobe, que depois descobri ser o mais íntimo amigo de Charles e provável padrinho de casamento. Seu nome era William Darcy.

Charles foi logo dizendo:

- Lizzie, sabia que William é administrador?

– Não – respondi e apenas dei um sorriso meio torto.

- William, Lizzie cursará o último ano de Administração este semestre. – Charles continuou.

Ele me olhou de cima em baixo, respondendo:

-Então uma futura administradora para o mercado de trabalho. Espero que seja uma aluna aplicada e ame sua futura carreira.

- “Quem você pensa que é para me falar assim? Meu professor?”
Esta resposta veio imediatamente, mas ficou só no pensamento – Procuro ser a melhor! E realmente gosto muito da área de Administração – respondi, já pedindo licença e saindo logo dali.

 

Como uma pessoa tão legal como o Charles, tem um amigo tão pretensioso? Coisas da vida que nem sempre conseguimos entender...

Mas tédio mesmo foi ter que passar horas e horas tendo que aguentar os comentários e observações infindáveis dos parentes. Talvez, eu estivesse tão impaciente por estar muito ansiosa pelo primeiro dia de aula na universidade.

Este era meu último semestre e me formaria logo. Já havia passado por alguns pequenos estágios, mas nada que pudesse me agradar ou que desejasse me fixar. Estava procurando alguma empresa que pudesse me dar o suporte que precisava para iniciar minha carreira, e ainda não havia encontrado.

~*~

Meu primeiro dia de aula:

Chegando para mais um semestre, nem imagino o que me aguarda: quantos professores terei, se serão legais, ou uns chatos de galocha.

Ainda bem que estou no último período de meu curso, senão juro que jogaria tudo pro alto, e faria uma viagem ao redor do mundo, daquelas que a gente vai sem lenço e nem documento, pé na estrada mesmo. Mas sei que é só uma fantasia, pois nunca desistiria da minha carreira e estudos porque amo o que faço.

Então cá estou eu, Elizabeth Bennet. Não sou daquelas alunas populares, gostosonas, que os garotos adoram... Loira, olhos claros... Pelo contrário, sou bem comum: olhos castanhos escuros, cabelos da mesma tonalidade, branca até demais, sem aqueles atributos que fazem os homens virar para trás para te olhar. E o pior: com um QI acima da média. Minha mãe sempre me advertia para não parecer tão esperta perto dos rapazes, pois isso os assustaria.

 

Esqueci de mencionar que tenho uma amiga, Charlotte Lucas. Uma jovem assim como eu, sem nada de especial, exceto a inteligência brilhante. Ela é um amor, minha melhor amiga. Estudamos juntas desde... Nossa, desde sempre...

Caramba! Como o tempo passa rápido, já estamos na faculdade e o que é melhor terminando, isso não é o máximo?

Depois de procurar muito pela sala, finalmente encontramos nossos assentos. Sabe como é, primeiro dia de aula, aquela confusão normal. Estávamos sentadas aguardando a primeira aula, sem saber qual seria a matéria e muito menos o professor.

E foi quando “ele” entrou na sala dando boa noite sem olhar para nós. Nem ouso imaginar como estava minha fisionomia quando olhei para o “professor”, ninguém mais, ninguém menos que, o esnobe amigo de Charles, ou seja, William Darcy.

A última coisa do mundo que poderia imaginar é que ele seria meu professor. Afinal tinha sua empresa, o que não o impedia de lecionar.

Mas, agora não sei se fico contente ou preocupada. O fato dele ser amigo de Charles não me diz nada. Embora tenhamos nos apresentados, não nos conhecemos.

Ainda virado para o quadro, escreveu a matéria que iria lecionar “Gestão de Empresas e Serviços”.

 

E o seu nome, que para mim não era a menor novidade.

Quando ele virou-se para nós também percebi um pequeno olhar de surpresa quando finalmente me reconheceu, mas nada que o pudesse abalar e continuou a falar como se nada tivesse acontecido.

A aula foi surpreendentemente agradável, pois ele sabia transmitir muito bem o que se propunha a ensinar, porém seu semblante era muito sério. Sabe como são aqueles professores que não fazem uma brincadeira sequer em sala? Este é William Darcy.

Gravei toda a matéria no meu telefone celular. Como estava sem a apostila não queria perder nada.

Ao término da aula, ele simplesmente olhou em minha direção, voltou-se para a turma e se despediu. Nessa hora conclui: Professores Chatos 1 X 0 Professores legais.

****************

 

O último período estava se iniciando com uma perspectiva um tanto estranha. Mal imaginava o que ainda estaria por vir.

À medida que as aulas iam acontecendo, e já com todas as apostilas adquiridas, o último período começava a dar sinais que não seria tão ruim assim como havia imaginado.

Apesar dos perfis dos professores estarem equilibrados entre chatos e legais, aquele que mais me deixava intrigada era William Darcy.

Com o tempo ele passou a falar comigo, principalmente ao término da aula, e começamos a travar um pequeno relacionamento de amizade.

Mas tudo que é bom, dura pouco. Conforme o curso avançava, as matérias exigiam mais de nós e os trabalhos ficavam cada vez mais complicados e difíceis. Ora fazíamos em duplas, ora individualmente e, outras vezes, em grupo.

O que me deixava mais irritada era que toda vez que um trabalho era individual, principalmente na matéria dele, ele tinha que pegar o meu como exemplo. Nunca estava perfeito, sempre faltando alguma coisa.

Enfim, tomei uma decisão que deveria ter tomado há muito tempo. Ao término de mais uma aula dele, antes que ele saísse, disse-lhe:

- Professor William Darcy?

- Sim, Elizabeth.

- Gostaria de saber, por que meu trabalho é sempre o escolhido como exemplo, quando se trata de atividade individual?

Olhando para mim, sem esboçar nenhuma reação, respondeu:

- Simples, uma vez você me disse que procura ser a melhor, então eu procuro exigir da melhor.

- E por causa disso tenho que ser motivo para brincadeirinhas da turma inteira? –Perguntei já furiosa.

- Como assim, brincadeiras?

- Toda vez que acontece isso, tenho que ouvir os cochichos e risadinhas dizendo que sou a preferida do professor.

 

- Não sei de nada quanto a isso, mas exigirei tanto de você como de qualquer outro aluno que os trabalhos sejam impecáveis. Afinal espero ajudar a formar administradores competentes.

Depois desta conversa, nós nem nos cumprimentávamos como já era de costume, e ele passou a ser mais exigente do que antes.


Chegou a segunda-feira, logo na primeira aula, ele entrou dizendo:

- Guardem seus materiais, teremos hoje um teste surpresa. Quero saber como vocês estão.

Olhei em sua direção tendo a certeza de que ele estava punindo a turma, mas com a intenção apenas de vingar–se de mim.

Fizemos o teste e para minha alegria eu tinha certeza de que havia gabaritado. E realmente pude concluir isso quando o resultado saiu, pois vi seu semblante fechado só em pensar que sua vingança tinha sido um tiro pela culatra.

Os meses se passaram e nossa convivência estava muito estranha. Volta e meia, o pegava me observando... A impressão que ele passava, quando aqueles olhos azuis brilhantes buscavam minha direção, era que algum pensamento o estava inquietando, mas eu não conseguia entender o quê. Além de muitas vezes me sentir hipnotizada por eles...

 

No meio dessa situação, chegou o dia do casamento de Jane e Charles. Como era previsível, William foi o padrinho dele, e eu, é claro, fui madrinha de Jane. Estava tão nervosa que “eu” parecia ser a noiva. Só o fato de estar no altar e tão próxima a ele, já me deixava descontrolada.

A recepção estava linda e todos muito felizes. Mas o que eu queria mesmo era sair correndo de lá, enquanto todos se divertiam. Caminhei em direção à sacada do salão, sem saber que estava sendo seguida. Estava com os pensamentos tão longe da festa, que assustei quando o ouvi atrás de mim.

- Oi, Elizabeth. - Ele me cumprimentou com sua voz macia e sensual.

- Oi.. .Ainda sabe meu nome? – Perguntei.

- Claro que sei. Como poderia esquecer?

- Então, por que não fala direito comigo na faculdade?

- Porque... Porque não sei como me portar perto de... Você. – Respondeu ele titubeante, e pela primeira vez o vi inseguro.

- Como assim?

- Lá sou seu professor, e não sei se ficaria bem...

- Ficaria bem o que?

- Elizabeth, não é fácil dizer isso. Mas preciso te dizer... - Respirou profundamente antes de falar. - Estou fascinado por você... – Ele acariciou meu rosto suavemente enquanto disse estas últimas palavras.

Senti um sorriso brotar em meu rosto, porém o que ele disse em seguida acendeu minha ira e acabou com toda a possibilidade de termos algo que nem havíamos começado.

-... Mas precisaríamos ser discretos. Receio que achem uma coisa escandalosa, afinal, lá sou seu professor e...

- Então continuemos assim! - Interrompi, não o deixando falar – Eu, sua aluna e você, meu professor!

Saí de lá, com os olhos faiscando de raiva. Como ele poderia dizer estar fascinado e ao mesmo tempo querer que ter um relacionamento praticamente às escondidas, como dois adolescentes?

No final de semana que se seguiu aquele incidente, constatei a seguinte verdade: Eu o amava! Quem

ficaria com tanta raiva diante de tal proposta se não estivesse amando?

 

Porém, num certo dia, ele nos informou a seguinte novidade.

– Não sei se todos sabem, mas tenho uma empresa e estarei abrindo estágio para quatro alunos do último período, o próximo teste servirá para que os quatro primeiros colocados sejam convocados para este estágio. Os nomes serão afixados no quadro de avisos. Quem se interessar em concorrer às vagas, coloque o nome nesta listagem. – É claro que a turma inteira se interessou.

Charlotte, que já sabia de toda a minha busca incansável por estágios, me perguntou:

– E então Lizzie, está disposta a aceitar esse estágio se conseguir ficar entre os quatro primeiros?

- Não sei, Charlotte, talvez não seja uma boa idéia trabalhar exatamente nesta empresa...

- Nossa Lizzie, você nem parece a mulher decida que eu conheço – Ela disse. – Quer saber? Se conseguir, eu vou. Acho que você deveria tentar também, apenas encare como qualquer outro estágio. Ele pode ser bravo, esnobe, e lindo, mas não morde. Estágio é estágio, talvez você nem precise trabalhar ao lado dele. Pense no seu currículo, no final da faculdade, este estágio pode te render muitas portas abertas...

Vendo por este ângulo, tive que concordar com Charlotte. Sabe aquelas oportunidades únicas que acontecem poucas vezes na vida de uma pessoa? Este estágio era uma delas.

Charlotte estava certa, eu não deveria levar esta questão para o lado pessoal. Então, lá fomos nós e mais uma turma inteira tentar uma das vagas disponíveis, na empresa do Sr. Esnobe.

 

Porém, não sabia que a empresa era a DARCY & BINGLEY CONSULTORIA EMPRESARIAL S/A, uma das maiores do ramo de consultoria do país.

Naquele momento pensei: “por que será que Willian leciona? Pelo dinheiro é que não é”.

Em busca de nosso sonho, fizemos o teste e confesso que estava apreensiva, pois tinha dúvidas se me qualificaria para uma das vagas.

O exame seria discursivo e feito diante de uma comissão formada por cinco sócios da empresa, e dentre eles estava o meu professor. Jurava que a prova seria feita com outra pessoa, mas quando o vi, meu coração só faltou sair pela boca.

Fiquei uma pilha de nervos, foram as 10 perguntas mais difíceis que já respondi. Ele não dizia uma palavra, apenas ficava me observando.


Terminei a prova e coloquei em cima da mesa, sem olhar para ele, não tendo muita certeza sobre meu desempenho. Assim que saí da sala, Charlotte veio atrás de mim. Caminhamos em silêncio até que ela me perguntou:

- Então o que você achou? Está tão calada.

- Acho que não fui bem, fiquei muito nervosa.

Charlotte não falou mais nada. Ela me conhecia muito bem e sabia que nada do que dissesse melhoraria meu humor.

Passaram-se duas semanas, quando finalmente o resultado foi afixado no quadro de avisos, não pude acreditar. Eu tinha passado!


Modéstia a parte sempre havia dominado bem os conteúdos envolvidos na prova, mas quando fico nervosa tenho dúvidas sobre a minha capacidade.

Eu e Charlotte, que também havia sido aprovada, iniciamos o estágio na Darcy & Bingley Consultoria. Estava radiante, pois lá eu teria a oportunidade de pôr em prática meus conhecimentos e ter a experiência de que precisaria depois de formada.

Minha vida profissional estava realmente caminhando. E felizmente nosso relacionamento na empresa começou a ficar mais civilizado.

Voltamos a, pelo menos, nos cumprimentar. À medida que o tempo foi passando, o serviço exigia, de vez em quando, um contato mais próximo com ele.

 

Às sextas-feiras, depois da faculdade, quando era possível, íamos a um pub junto com alguns colegas da turma, ou mesmo quando Jane e Charles me convidava com Charlotte para encontrá-los.

E é óbvio que geralmente William também estava por lá. Aproveitávamos e deixávamos os problemas universitários e de trabalho de lado, até que conversávamos animadamente, tentando ter um relacionamento amigável.


Porém, já havia notado que toda vez que eu e ele tínhamos algum contato, os cochichos começavam, a ponto de até na faculdade sentir que isso também acontecia.

Caso não fosse Charlotte vir me perguntar, jamais teria tido certeza.

- Lizzie, sou tua amiga, como uma irmã, então me diga: é verdade o que tenho ouvido?

- O quê, Charlotte? Não faço idéia do que você está falando...

- Estou ouvindo uns comentários que você e o professor William têm um caso?

- O quê? Ficou louca Charlotte? É claro que não! Estamos tentando apenas ser amigos. Além do mais, fomos apresentados antes mesmo dele ser nosso professor. Quem falou isso?

- Ouvi uns cochichos lá no estágio. A princípio fiquei surpresa, mas se for verdade e se você o ama...

- Charlotte não existe nada entre nós. Nem chegou a existir.

- Então precisa tomar uma posição para que isso não continue. Você não percebeu que até aqui na faculdade os alunos ficam te olhando?

Foi o bastante para mais uma vez me afastar dele.

Sempre pedia a alguém que encaminhasse a ele o serviço a ser autorizado, ao invés de procurá-lo diretamente, entre outras coisas que exigiam a liberação dele.

Passados os dias e vendo meu afastamento e meu bom dia mais seco do que nunca, ele não se conteve. Esquecendo-se até do lugar onde nos estávamos, chegou perto de mim dizendo:

- Precisamos conversar – E caminhando no meio de todos na faculdade, me levou para um laboratório que estava vazio.

 

- Porque está me evitando, na empresa, na faculdade, o que eu fiz desta vez com você? Você não quis aceitar meu amor, entendi que fui um idiota em falar daquela maneira, mas o que foi desta vez, eu preciso saber.

- Bom, para começar você só piorou as coisas me trazendo aqui desta maneira. Estão comentando que temos um caso, por isso preferi me afastar. Não quero que sejamos mal falados por fatos que realmente não aconteceram...

- Não aconteceram porque você não quis.

- Não aconteceram porque nós não somos adolescentes que precisam esconder o que sentem.

- Tudo bem, vamos parar por aqui. Não quero mais brigar com você. Então o que vamos fazer? Podemos assumir isso, acho o melhor a fazer...

- Eu prefiro que nos afastemos.

- Por quê?

- Porque sim, e agora me dê licença

Ele ficou estático, enquanto eu caminhava em direção à porta.
Saí de lá pior do que entrei, mas achando que era a coisa certa a fazer naquele momento.

Aproximava-se o final do curso e a turma inteira já estava preparando a formatura. Discutíamos agora quem seria o nosso paraninfo. Vários nomes de professores foram cogitados. Por fim, eu, logo eu, tive a grande idéia, já que ninguém chegava a um consenso.

- Já que não conseguimos chegar a um consenso, que tal tirarmos na sorte, já que cada um prefere um professor?

Amaram a minha idéia, mas preferi não tomar a frente no sorteio, meu nome já estava sendo comentado demais e preferia que as atenções não estivessem voltadas para mim.

Mas eu não tenho muita sorte. Sabe qual o nome sorteado? Tenho certeza de que acertaram. Tinha que ser ele, novamente a bagunçar minha vida, WILLIAM DARCY.

Ninguém podia reclamar, pois haviam aceitado a minha idéia, apesar de que agora eu mesma não a achasse mais tão boa, mas estava decidido que seria ele.

Ele de início relutou um pouco, mas acabou sendo vencido pelos alunos e principalmente pelas alunas que o achavam lindo.

 

O dia da formatura chegou! Estávamos todos nervosos, finalmente nosso curso chegara ao fim e cheios de perspectivas sobre o que nos esperava no mercado de trabalho.

Terminada a cerimônia de entrega dos diplomas e as fotos intermináveis com os professores e familiares, fomos para a festa que nos aguardava.

Estava feliz, os meus pais, minhas irmãs e meu cunhado também. Mas, lá dentro, uma parte de mim me dizia que não estava bem como eu insistia em me convencer.

Sentada em um canto afastado, tinha uma visão privilegiada de todo o ambiente.

Como se procurasse o remédio para curar a tristeza que se instalara em meu coração, procurava por alguém, mas não o via no salão.

“Como pude ser tão burra, idiota...”. Quase podia ouvir meus pensamentos, como se estivesse falando para quem quisesse ouvir...

Quando o avistei, ele estava rodeado de algumas pessoas, mas tentando visivelmente escapar.

Conseguindo uma oportunidade, agora ele caminhava em minha direção.

- Você está linda! – Disse.

- Obrigada. - Respondi sem procurar transparecer o que estava sentindo.

- Nunca pensei que os alunos gostassem tanto de minhas aulas, a ponto de me convidarem para paraninfo.

- Não fique muito entusiasmado, você ganhou por sorte.

- Como assim?

- Dei a idéia de fazerem um sorteio. Afinal ninguém chegava a um consenso. E você ganhou.

- Hum, quer dizer que não sou tão querido assim?

- Bom, só de ter sido o sortudo já deve valer alguma coisa.

- Lizzie, você não está levando a sério aquela estória de não nos falarmos mais, está?

- Por que não levaria?

- Porque agora não sou mais seu professor.

- Bem, nisso você tem razão.

- Então... - Ele falou tomando minha mão. - Vamos dançar?

Relutei um pouco, mas, por fim, deixei-me conduzir enquanto uma música começava a tocar. Era maravilhoso sentir o corpo daquele homem bem junto ao meu. Estava inebriada, sentindo a firmeza como ele me conduzia, sentindo seu cheiro másculo tão perto de mim.

- E então, não está preocupada com o que vão falar? – Ele pronunciava cada palavra suavemente ao meu ouvido.

- Porque estaria? Não sou mais sua aluna! - Um sorriso veio aos meus lábios.

- Então o que é agora?

- Não sei, me diga você.

- Gostaria de ser minha namorada?

- Pensei que não me quisesse mais.

- Você pensa demais.

- Não vamos começar uma briga agora, vamos?

- Se depender de mim não. A única coisa que quero no momento é começar um namoro. Venha, vamos sair daqui.

- Para onde vamos?

- Para onde você quiser. – Ele me disse.

Nosso primeiro beijo aconteceu ali mesmo, dentro do carro, enquanto as carícias ficavam cada vez mais fortes. Precisamos nos controlar bastante, para que não nos amássemos ali mesmo...

Como era bom ver aqueles lindos olhos azuis bem próximos a mim e sentir a força dos braços dele me envolvendo...

Em poucos meses marcamos nosso casamento, o que para muitos não era mais nenhuma surpresa.

A linha tênue que nos separava, entre as brigas e o amor, levou muitas pessoas que conviveram conosco a acharem que na realidade, sempre nos amamos, embora não quiséssemos admitir.

E foi assim que nossa estória de amor começou. Hoje, aprendemos com o tempo e a convivência, que ceder nunca é fácil.

Porém, este sentimento maravilhoso que cega nossa visão, nos coloca, várias vezes, em situações difíceis, também é aquele que não nos deixa desistir facilmente, e que remove montanhas e supera obstáculos, como os que queriam nos impedir de sermos felizes...


FIM