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O anjo de Pemberley - Capítulo 20

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Charles Bingley sentia que o reatamento de sua relação com Jane, apesar de estarem noivos, ainda não tinha bases sólidas.

 

Lizzy e Mary não escondiam a reserva que tinham por ele. Mas o que realmente  preocupava Charles era o comportamento de Jane que embora fosse amorosa com ele, parecia manter também certa reserva, como se estivesse sempre na defensiva, aguardando a qualquer momento um deslize de sua parte.

 

- Jane, tenho a impressão de que você não perdoou minha falta e que ela estará sempre assombrando nosso relacionamento.

 

- Charles, realmente, eu tenho me questionado se fiz a coisa certa ao reatarmos nosso namoro e precipitadamente termos ficado noivos.

 

- Você deixou de me amar? É isto?

 

- Não se trata disto. Eu o amo, mas tenho dúvidas em assumir um compromisso sério como o casamento com você. Perdoe minha franqueza, estou  aproveitando que você tocou no assunto.

 

- Jane, não me diga que quer terminar nosso noivado? – Charles não conseguiu esconder um tom desesperado em sua voz.

 

- Acho que seria a coisa certa a ser feita. O noivado é um compromisso sério, de um casal que está a um passo do casamento, e eu acredito que não estamos prontos para isto.

 

- Jane, pelo que há de mais sagrado! Não vamos desmanchar nosso noivado. Vou lhe dar o tempo que for preciso para você ter certeza da solidez de meus sentimentos por você.

 

- Eu não tenho dúvida alguma do seu amor por mim. Minha dúvida em relação a você é outra.

 

- E qual é?

 

- Vou ser sincera, embora eu possa magoá-lo com o que vou lhe dizer: é o fato de você se deixar levar pelas pessoas que tem ascendência sobre você, como sua irmã Caroline ou seu amigo Darcy. Não sinto segurança ao seu lado, parece que nunca vou poder confiar inteiramente em você.

 

- Agradeço a sua sinceridade, reconheço que mereço a sua dúvida depois de tudo que aconteceu entre nós. Mas como já lhe disse estou determinado a modificar meu comportamento. Comecei a fazer terapia há duas semanas e tenho certeza de que ela irá me ajudar modificar minha personalidade, a fortalecer meu caráter.

 

- Fico feliz em saber que está procurando ajuda. Acho que fará um grande bem a você.

 

- Estamos noivos, mas não vou apressar nosso casamento. Só vamos marcar a data quando você achar que estou bem, Jane.

 

- Charles, ainda acho melhor devolver este anel e desfazer nosso noivado.

 

- Não, Jane, por favor, não faça isto. Eu não quero este anel de vollta. Eu o comprei pensando em você, ele nunca poderia pertencer a outra mulher.

 

- Nem eu gostaria que você o desse a outra, mas acho melhor desfazermos nosso noivado. Vamos voltar a ser apenas namorados até termos certeza de que vamos nos casar.

 

Apesar dos protestos de Charles, ele não conseguiu fazer Jane mudar de idéia.

 

- Quando eu sentir que estou confiando inteiramente em você e que poderemos constituir uma família em bases sólidas, pode ter certeza de que vou pedir o anel de volta, Charles. Por favor, não fique com esta cara tristonha.

 

Jane colocou o anel na palma da mão de Charles devolvendo-o.

 

A expressão desolada em seu rosto levou Jane a tomar a iniciativa de abraçar e beijar Charles, numa vã tentativa de consolá-lo. Uma carícia em que se misturaram o grande amor que sentiam um pelo outro e a tristeza de saber que havia uma grande dúvida a ser superada e que atrapalhava a relação entre eles.

 

***********************

 

Na primeira oportunidade, Jane contou a Lizzy a conversa dolorosa que tivera com Charles e a decisão que tomara de terminar o noivado deles.

 

- Desmanchou o noivado? O que deu em você, Jane?

 

- Como não havia nada formal entre nossas famílias, apenas devolvi o anel que ele me havia dado. Continuamos apenas como namorados. O casamento foi adiado para um futuro incerto. Se é que ele acontecerá um dia.

 

- E como você está se sentindo?

 

- Melhor agora, pois acho que me precipitei aceitando ficar noiva, logo após nossa reconciliação.

 

- Talvez tenha sido melhor assim. Eu e Mary comentamos que você não está completamente feliz desde que voltou com o Charles, parece que há algo que a perturba.

 

- É verdade. Eu amo Charles, tenho certeza de que ele é o homem de minha vida, mas as arestas que existem no nosso relacionamento precisam ser aparadas. Preciso reaprender a confiar nele.

 

- Realmente se você está tão cheias de dúvidas deve agir com cautela. Ninguém deve se casar sem ter a confiança e a certeza de que irá ser feliz.

 

Lizzy abraçou a irmã num gesto em que procurou transmitir seu apoio e sua solidariedade.

 

- Jane, preciso te contar uma novidade, que acredito vai te deixar feliz. Eu e William Darcy estamos namorando.

 

- O quê!? Namorando! Vocês dois? Esta eu não esperava. Será que terei uma irmã aristocrata? Lady Elizabeth Darcy!

 

- Calma, Jane, eu disse apenas que estamos namorando. Daí para o casamento vai um passo muito grande.

 

- Mas o namoro é o primeiro passo. Conte, quero saber tudo. Quando e como tudo começou. E você nunca me contou que estava acontecendo algo entre vocês.

 

- Não contei porque não havia nada entre nós. Confesso que também fui apanhada de surpresa.

 

- Não é possível, devia haver pelo menos um clima entre vocês, um flerte... Uns sinais...

 

- William vinha me ver todos os dias, mas até aí não havia nada de extraordinário, afinal estou trabalhando em sua casa. Ele nunca me disse nada, nem uma insinuação. Nada. Apenas uns olhares que eu não sabia como interpretar, mas nunca imaginei que ele pudesse estar sentindo algo especial por mim.

 

- E como ele se declarou? Onde? Que estória intrigantemente romântica!

 

- Foi no fim de semana passado em Pemberley. Eu estava no sótão à procura de mais documentos sobre Lady Clementine quando William veio e se declarou de supetão, sem maiores preâmbulos. Sinto como se estivesse vivendo um sonho.

 

- Parabéns, Lizzy! Desejo que este namoro vá em frente. William é um partidão, bonito, milionário e parece ser um homem sério.

 

- Sério até demais, mas tem seus encantos, é um cavalheiro, tem o sangue de Lord Arthur correndo em suas veias.

 

- Um herói romântico! Você é uma felizarda, Lizzy.

 

**********************

 

 

 

Londres, 12 de maio de 1883.

 

Hoje o Dr. Averton veio me consultar aqui em casa, a pedido de Arthur.

Ele confirmou minha gravidez, algo que eu já sabia pelos sintomas que meu corpo apresentava e por intuição. Todas as vezes que fiquei grávida, eu tinha certeza do meu estado antes mesmo que o Dr. Gregson de Lambton confirmasse.

O Dr. Averton  foi claro ao dizer que há apenas duas soluções para o meu caso:

A primeira seria interromper minha gravidez, hipótese que descartei de pronto, fui bastante clara e firme de que jamais interromperia a gravidez de uma criança minha e de Arthur.

A segunda possibilidade seria seguir com a gravidez e esperar que meu coração resista ao esforço que representa o trabalho de parto.

Em ambas as opções há riscos.

Vou confiar em Deus de que tudo corra bem e que eu possa sobreviver a este parto.

O Dr. Averton aconselhou que eu permaneça aqui em Londres durante toda a gravidez e o parto, pois eu seria melhor assistida. Arthur e eu concordamos de pronto com ele.

 

Londres, 21 de outubro de 1883.

Como o tempo voa.

Já entrei no sétimo mês de minha gestação. Estou enorme, parecendo um saco de batatas, mas mesmo assim Arthur diz quase todos os dias que sou a mulher mais linda do mundo.

Não sei o que seria de mim sem o apoio e o amor de meu marido a quem amo mais e mais a cada dia que passa.

Minha gravidez está sendo muito tranquila, depois que os enjôos matinais terminaram não senti mais nada, nem mesmo aqueles mal estares devidos ao meu problema cardíaco . Às vezes, chego a pensar que por um milagre fiquei curada, mas o Dr. Averton me disse que não devo me iludir.

Tenho muita pena de Arthur, ele está mais ansioso e apreensivo do que eu a respeito do parto. Tento acalmá-lo de todas as formas, mas sei que enquanto esta criança não nascer, ele não ficará tranqüilo.

Outro dia Arthur disse algo que me deixou muito preocupada.

- Clementine, não sei se conseguirei amar esta criança como amo Claire e Georgiana, pois sinto que ela irá nos separar.

- Arthur, não diga uma heresia destas. Não se esqueça que esta criança não tem culpa alguma de minha doença. Aconteça o que acontecer, quero que me prometa que irá amá-la como ama nossas outras filhas, que não guardará rancor por ela se algo de ruim acontecer comigo.

 

********************

 

Há cerca de um mês que Lizzy e William estavam namorando. E Lizzy andava cética quanto ao futuro deste relacionamento. O seu senso prático e realista a levava a crer que duas pessoas tão diferentes não poderiam levar adiante por muito tempo uma relação, embora tudo estivesse correndo bem.

 

Este pensamento pessimista de Lizzy não se devia ao comportamento de William para com ela, pois apesar de ser um homem extremamente ocupado, na medida de suas possibilidades, ele era atencioso procurando estar sempre presente na vida de Lizzy. E ela estava adorando ser tratada com toda esta consideração.

 

E eu que pensei que os homens cavalheiros fossem uma espécie extinta da Terra.

 

Os programas que ambos faziam eram normalmente jantares em restaurantes, teatros, cinema. Naquela noite, para variar, William convidara Lizzy para jantar em sua casa.

 

- E Georgie não irá jantar conosco? – perguntou Lizzy ao ver que os empregados de Darcy haviam preparado uma mesa para duas pessoas com flores e velas numa saleta criando uma atmosfera íntima, acolhedora e romântica.

 

- Não, ela saiu com Richard. – foi o resposta de William não escondendo sua irritação com o fato.

 

- O namoro deles está indo muito bem. Fico muito feliz por eles. – contemporizou Lizzy com um sorriso.

 

William nada respondeu e Lizzy aproveitou o silêncio para mais uma vez tentar defender seus amigos.

 

- William não faz sentido algum esta oposição que você faz ao namoro deles. Tudo aquilo que você considera obstáculos, eles não encaram como problemas, nem o fato de serem primos e muito menos a diferença de idade. Aceite o relacionamento deles, você verá que será melhor para todos, inclusive para você. – ponderou Lizzy.

 

- Os problemas que eles...

 

- Deixe que eles mesmo lidem com os problemas que terão.  Georgiee já é bem crescida para saber como lidar com eles. Todos nós temos problemas de uma natureza ou de outra e precisamos aprender a lidar com eles. É assim que crescemos como pessoas.

 

William cortou a argumentação de Lizzy abruptamente dizendo:

 

- Não a convidei para jantar hoje aqui em minha casa para discutirmos a relação de Georgiee e Richard. Falaremos disto em outra ocasião.

 

- Está bem, William, falaremos sobre isto em outra hora.

 

- Vamos jantar.

 

Os pratos nada deviam em qualidade e sabor aos servidos nos melhores restaurantes que William já a havia levado. Após o jantar que transcorreu tranqüilo, William levou Lizzy para a sala de visitas onde o café foi servido. Logo que o empregado que o serviu foi dispensado, William tomou Lizzy em seus braços e apressou-se em dizer:

 

- Não quer ficar comigo esta noite? Não acha que após este tempo que estamos juntos você já me conhece o suficiente para fazermos amor e dormirmos juntos?

 

Lizzy estava desconfiada desde que chegara a casa de William que o convite para jantar na sua casa tinha este propósito e se recebesse este convite havia decido que iria concordar, pois ela também desejava e se achava preparada para isto.

 

- Tudo bem, William.

 

William a conduziu pela imensa escadaria de mármore ao andar superior da casa que ela desconhecia. Alcançaram um largo corredor e em silêncio ele a direcionou a uma das portas.

 

Lizzy ficou surpresa com o tamanho do quarto de William que era imenso, havia espaço de sobra apesar dos grandes móveis antigos que o decoravam.

 

- Você deve estar estranhando meu quarto ter esta decoração antiga. Ele era o quarto de meus pais. Quem o decorou foi minha mãe logo que se casou e está assim desde então. Eu passei a ocupá-lo, quando meu pai faleceu e não me preocupei em mandar reformá-lo ou redecorá-lo.

 

- Estes móveis são lindos e combinam com o restante da casa. Eu gostei muito.

 

- Pensei que não fosse gostar. Georgiee não gosta da decoração desta casa, diz que se sente oprimida em meio a estas antiguidades que lhe dão a impressão de estar vivendo em um museu. Ela redecorou seu quarto num estilo bem moderno que destoa do restante da casa.

 

Lizzy nada comentou e ficaram alguns instante em silêncio, parecia que ambos estavam de repente constrangidos com a situação. Foi William quem  por fim quebrou o silêncio dizendo:

 

- Fico contente que tenha gostado do quarto.

 

- Você acha que este foi o quarto que Lady Clementine e Lord Arthur ocuparam?

 

- Pode ser, mas não tenho certeza, pois não há registro algum e existem outros quartos nesta casa que eles poderiam ter ocupado.

 

- Eu gostaria que este tivesse sido o quarto deles.

 

- Lizzy, gostaria que você parasse de pensar neles e pensasse em nós. Saiba que estou muito feliz que esteja aqui comigo.

 

William aproximou-se de Lizzy que estava parada próxima a um móvel admirando seus finos entalhes em madeira. Ele a tomou em seus braços e começou a distribuir beijos por todo o rosto até alcançar com seus lábios a base de sua garganta de Lizzy, ela sentiu um arrepio de excitação percorrendo sua espinha.

 

Aquecida pelo calor da paixão, Lizzy moldou seu corpo inteiramente ao de William. Havia uma sensação de conforto e segurança em estar em seus braços recebendo suas carícias, sentindo a mistura do perfume da fina colônia que ele usava com o cheiro masculino de seu corpo.

 

O estado de excitação de William não era menor que o de Lizzy. Ele sentia o sangue fluindo rápido através de seu corpo, levantou sua cabeça e procurou com seus lábios entreabertos os lábios de Lizzy, invadindo com sua língua o calor e a umidade da boca feminina.

 

Não demorou para que ambos estivessem despidos e deitados na larga cama de casal.

 

Naquela noite Lizzy descobriu nos braços e no leito de William Darcy a extensão de seus próprios sentimentos por ele, que até então estiveram camuflados nas dúvidas e incertezas que ela tinha sobre o futuro do relacionamento entre os dois.

 

Tudo parecia estar acontecendo da maneira certa. Não havia mais constrangimentos, nem outro lugar no mundo em que Lizzy gostaria de estar naquele momento. Seu porto seguro, seu paraíso era ali nos braços daquele homem que havia tomado de assalto o seu coração.

 

A decoração opulenta da casa com móveis e objetos antigos dava a Lizzy a sensação de estar vivendo um sonho que a transportara a outra época. Mas as sensações físicas provocadas por William em seu corpo eram por demais reais para serem apenas de um sonho.

 

- Lizzy, quero que saiba que eu te amo e que você é a pessoa mais importante de minha vida.

 

Foram as últimas palavras que ela ouviu com um sorriso de felicidade nos lábios antes de sucumbir a um sono profundo.