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O anjo de Pemberley - Capítulo 21

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Lizzy acordou na manhã seguinte desorientada e levou algum tempo para ter plena consciência de onde estava e de tudo que havia acontecido na véspera e de quem se encontrava dormindo ao seu lado.

 

Ainda devia ser muito cedo, pois apenas uma luz muito tênue se infiltrava pelas venezianas das janelas do quarto.

 

Ela se movimentou na cama com o propósito de se levantar, mas foi detida pela mão firme de William que pousou em sua cintura e a puxou de volta para o calor de seus braços.

 

- Bom dia, meu amor, ainda é muito cedo para levantar. Vamos ficar mais um pouco aqui.

 

William sorria. Um sorriso ainda sonolento e malicioso. Seu rosto repousado no travesseiro aparentava uma jovialidade desconhecida para ela.

 

A intenção de William de retê-la junto a ele ficou logo clara para Lizzy quando se aninhou no calor de seu corpo e ele a beijou preguiçosamente reacendendo o desejo dormente com suas mãos atrevidas por todo o seu corpo.

 

Amaram-se ardorosamente e voltaram a dormir para só acordar novamente com o barulho irritante do despertador.

 

Antes de soltar Lizzy do aconchego de seus braços, William disse:

 

- Lizzy, quero que saiba que esta noite foi muito especial para mim. Eu te amo.

 

Estas palavras significaram muito para Lizzy, mas ela permaneceu calada. Retribuía ela este sentimento com a mesma intensidade? Na verdade, ela estava confusa, não parara para analisar seus reais sentimentos para com William. Este homem que estava se revelando uma verdadeira caixa de surpresa. O comportamento carinhoso e amoroso demonstrava que aquela aparente frieza com que se apresentava ao mundo era apenas uma carapaça que escondia sua verdadeira personalidade que poucos conheciam realmente.

 

Ao descerem juntos para o café da manhã, Lizzy e William encontraram Georgiana que terminava o seu.

 

Lizzy não chegou a se sentir embaraçada com a situação porque Georgie os saudou alegre, sem fazer qualquer comentário que pudesse constranger a amiga.

 

- Bom dia, pombinhos.

 

- Bom dia, Georgie, posso saber a que horas você chegou ontem? – perguntou William com o cenho franzido.

 

- A uma da manhã.

 

- Não acha que é um pouco tarde para quem precisa acordar cedo? Richard deveria pensar um pouco antes de lhe trazer a esta hora para casa.

 

- Rick não tem culpa alguma, ele estava preocupado com o adiantado da hora, fui eu que insisti em ficar até mais tarde. – Georgiana se justificou com o irmão e voltando-se para Lizzy disse – Lizzy, minha esperança é que você dê um jeito neste meu irmão ranzinza e mal humorado que fica implicando com o Richard o tempo inteiro. – Georgie piscou para Lizzy e levantou da mesa. – Já vou indo, estou atrasada para a primeira aula. Vocês dois, tenham um lindo dia!

 

- Georgiana parece que desabrochou desde que começou a namorar o Richard. Não acha William?

 

William deu apenas um grunhido indefinível que Lizzy não soube interpretar se ele estava concordando ou não com sua afirmativa e continuou tomando a sua refeição.

 

************************

 

 

A apreensão e a ansiedade tomaram conta a residência dos Darcy aos primeiros sinais de que hora do parto de Lady Clementine estava se aproximando. Até mesmo os criados, sabedores do problema, pareciam preocupados com o que poderia acontecer com ela.

 

Os longos meses de gravidez tinham sido calmos, pois Clementine não apresentara nenhum sintoma do mal que sofria, dando-lhe a falsa impressão de que estava curada.

 

Logo aos primeiros sinais de manifestação do trabalho de parto, o Dr. Averton foi  imediatamente chamado juntamente com duas das mais experientes e renomadas parteiras da cidade. Todo este cuidado de Lord Arthur revelava o temor de que o pior pudesse acontecer a sua esposa.

 

Clementine estava estranhamente calma apesar das dores que sentia a intervalos regulares. Ela tentou em vão acalmar o marido antes dele se retirar do quarto onde sua presença não era permitida.

 

- Arthur, meu amor, procure ficar calmo, tenho certeza de que tudo correrá bem comigo e com nosso bebê. Estou me sentindo muito bem e sinto que nada de mal irá me acontecer. Só espero que desta vez eu possa dar a você um menino lindo e saudável, um herdeiro.

 

- Não estou preocupado com a criança e muito menos se será menino ou menina. Estou preocupado com você, com o que possa acontecer a você.

 

- Nada de mal irá me acontecer. Você vai ver.

 

Lord Arthur apertou com força as mãos da esposa entre as suas numa tentativa de transmitir-lhe força e coragem e após depositar um beijo em seus lábios ele a deixou entregue nas mãos dos profissionais que iriam cuidar dela.

 

O trabalho de parto foi relativamente curto, levando apenas um par de horas, parecia que o bebê tinha pressa de vir ao mundo, mas para Lord Arthur que caminhava ansioso e irrequieto em círculos pela sala de visitas de sua casa, parecia que havia se passado uma eternidade.

 

O próprio médico que assistira Lady Clementine veio dar a notícia de que tudo correra bem. Mãe e filho passavam bem.

 

Lord Arthur Darcy tinha finalmente um herdeiro para seu nome e sua fortuna.

 

 Londres, 22 de dezembro de 1883.

Nosso filho William Arthur Darcy veio ao mundo nas primeiras horas do dia 20, após um parto tranqüilo. Ele não deu muito trabalho para nascer, parecia que estava ansioso para vir ao mundo e eu apesar de tudo permaneci calma durante o parto, graças as experiências anteriores.

Foi o nosso presente de Natal antecipado.

Ele é um menino sadio e bonito, que nos encheu de orgulho. Apesar de suas feições ainda serem indefinidas, acho que ele herdou os traços do pai e será sem dúvida um belo rapaz, mas espero que ele tenha herdado também o caráter e a personalidade de Arthur, que para mim são mais belos e dignos de admiração do que seu físico.

Meu filho dorme tranqüilo no berço que mandei colocar ao lado de minha cama, pois não quero me afastar dele um minuto que seja. Apesar dos protestos de minha mãe, que diz que uma lady não dá de amamentar seu filho para isto existem as amas de leite. Eu não dou importância a estas etiquetas tolas, quero eu mesma alimentar meus filhos nos primeiros anos de suas vidas.

Arthur ficou duplamente feliz, primeiro porque tudo correu bem comigo e segundo porque finalmente ele tem o seu herdeiro. Seria uma pena se todo o patrimônio da família passasse para algum parente que talvez não soubesse dar valor a estes bens, principalmente Pemberley.

O Dr. Averton disse que tive muita sorte desta vez, mas que devo tomar cuidado daqui para frente, e não arriscar engravidar novamente, pois o esforço físico exigido num parto não é bom para mim e posso não ter a mesma sorte em uma próxima vez.

Claire e Georgiana estão felizes com a chegada do irmãozinho, felizmente não demonstram sentir ciúmes dele. Não se cansam de beijá-lo e falar com ele na tentativa de chamar sua atenção, mas a maior parte do tempo o meu pequeno William só quer mamar e dormir seu sono de anjo.

Assim que o Dr. Averton disser que está tudo bem comigo e  nosso bebê mais forte, voltaremos para Pemberley.

Arthur tem ido para lá periodicamente, mas se queixa que Pemberley não é mesma sem minha presença e a das crianças.

Minha ansiedade não tem limites, não vejo a hora de estar de volta àquela casa tão querida. Povoar aqueles salões e corredores com os risos e a alegria inocente de nossos filhos.

Pemberley será sempre nosso verdadeiro lar.


**************************

 

 

Quatro meses após o nascimento do filho, os Darcy voltaram para sua amada Pemberley em companhia da prole agora aumentada para três.

 

Um único problema entristecia Clementine e muito. Seu marido com o óbvio temor de engravidá-la novamente, havia se afastado do leito conjugal. Continuava a tratá-la com a mesma consideração e carinho, mas evitava qualquer tipo de aproximação física.

 

Quando Clementine foi se despedir de sua irmã Cassandra, esta não deixou de notar a sombra de tristeza nos olhos da irmã e a interpelou de forma direta como era seu costume:

 

- Conte-me o que está acontecendo Clementine? Não me diga que não é nada, porque a conheço o suficiente para saber que há algo errado com você.  Não tem se sentido bem? Voltou a ter aqueles mal estares?

 

- Não, graças a Deus, estou bem, nunca estive tão bem, parece até que estou curada, pois nunca mais senti aqueles mal estares desde que William nasceu.

 

- Então qual é o problema que a aflige?

 

- É Arthur. Desde que nosso filho nasceu, ele não me procurou mais. Eu sei que é devido ao medo que ele tem de me engravidar novamente. Cassie, não sei o que será do meu casamento se esta situação continuar, mas tenho que admitir que eu também tenho medo de uma nova gravidez, o Dr. Averton deixou bem claro que posso não ter numa próxima vez a sorte que tive nesta última gravidez.

 

- O Dr. Averton deve ter falado com vocês sobre os métodos existentes para evitar a concepção. Nenhum é totalmente eficiente, mas daqui para frente vocês terão que lançar mão deles para evitar uma nova gravidez.

 

- Sim, ele recomendou que eu introduzisse em minha vagina, antes de ter relações, um pequeno pedaço de esponja do mar embebida em vinagre. O vinagre tem o poder de matar o sêmen. E também que procedesse a uma cuidadosa lavagem após o ato sexual. Ele foi claro ao dizer que estes métodos não são infalíveis, apenas diminuiriam a possibilidade de eu engravidar, nós estaríamos sempre correndo o risco de uma gravidez indesejada.

 

- Tenho certeza de que foi isto que levou Arthur a te evitar. – concluiu Cassie.

 

- O que vou fazer, Cassie, se ele nunca mais me procurar? Se ele acabar arrumando uma amante para satisfazer suas necessidades, como fazem a maioria dos maridos que conhecemos?

 

- Acalme-se, Clementine, Arthur não é homem para estabelecer uma amante. Vocês sempre tiveram um casamento feliz e harmonioso. Acho que deve conversar abertamente com Arthur que é um homem bom e compreensivo e chegarão a um acordo.

 

- Quando ainda estava grávida ele me garantiu que não arrumaria uma amante, disse que eu era a única mulher em sua vida, mas diante das circunstâncias ele pode mudar de idéia.

 

- Abra o jogo com ele, minha irmã. Não fique neste estado de apreensão que só fará mal a você.

 

- Você está certa, Cassie. Vou conversar com ele, está situação não pode continuar.

 

Após quase um ano de ausência, finalmente os Darcy voltaram a Pemberley, onde foram recebidos com alegria pelos criados da casa que os receberam perfilados à entrada da mansão para saudar os patrões e conhecer o mais novo membro da família.

 

Naquela mesma noite, já deitada em seu leito há algum tempo, Clementine teve certeza de que o marido não iria procurá-la. Ele voltara a ocupar seus aposentos adjacentes aos seus e tudo indicava que sua intenção era ali permanecer, iriam dormir em quartos separados.

 

Clementine ficou pensando qual seria a melhor atitude a ser tomada, por fim decidiu agir, colocou o penhoar sobre a camisola e foi ao quarto do marido a procura de explicações.

 

Arthur que já se encontrava deitado assustou-se com a entrada abrupta da esposa, após curta batida na porta que intercomunicava os quartos.

 

Clementine permaneceu de pé ao lado da cama do marido que se sentara imediatamente no leito. Ela não escondia o seu nervosismo esfregando uma mão na outra, sua respiração era curta, rápida e audível.

 

- Clementine, aconteceu alguma coisa? Por que está neste estado de agitação?

 

- Você deixou de me amar Arthur?

 

- De onde tirou esta idéia absurda. Continuo a te amar como sempre, meus sentimentos por você continuam inalterados.

 

- Então por que estamos dormindo em quartos separados? Eu pensei que agora que estamos de volta a Pemberley, voltaríamos a nossa vida normal de casados. Desde que o Dr. Averton me deu alta, já faz algum tempo, você nunca mais me procurou para voltarmos a nossa vida normal de casados.

 

- Clementine, não confio nestes métodos contraconceptivos que o Dr. Averton recomendou. Ele mesmo foi claro ao recomendá-los que oferecem sérios riscos de falhar. Meu desejo por você pode ser grande, mas meu medo de te perder ainda é maior.

 

- Em outras palavras você está dizendo que nossa intimidade como casal terminou? Que vamos viver como estranhos nesta casa?

 

- Clementine, é uma questão de escolha, precisamos optar pelo que é o melhor para nós. E considero o melhor que você continue viva cuidando de nossa família e que eu possa desfrutar a tua companhia mesmo que esteja proibido de tocá-la.

 

- Eu...Eu prefiro morrer a viver desta maneira.

 

Clementine não conseguiu mais reter as lágrimas que estava procurando segurar bravamente. Elas corriam copiosamente por seu rosto. Arthur levantou-se imediatamente e tomou a esposa em seus braços, abraçando-a.

 

- Não chore, Clementine. Não gosto de vê-la neste estado, faz mal a você, a tua saúde.

 

Arthur levantou-se da cama e aproximando-se da esposa acariciou com as mãos seus longos cabelos. Clementine levantou o rosto e olhando diretamente nos olhos do marido disse num tom de súplica:

 

- Arthur, prometo tomar todos os cuidados que o Dr. Averton recomendou, mas não me exclua da tua vida. Não me obrigue a viver desta forma, longe de seu amor. Prefiro viver uma vida plena mesmo que ela seja mais curta.

 

Ele fechou seus olhos e inclinando sua cabeça em direção aqueles olhos azuis suplicantes disse:

 

- Não me peça isto, Clementine. Peça-me qualquer outra coisa menos isto. Você não sabe o sacrifício que estou fazendo. Não quero correr o risco de uma nova gravidez, não quero voltar a viver o inferno que foi o medo de te perder. – Arthur tentou enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto da esposa. – Não chore mais, meu amor, se quiser podemos voltar a dividir o mesmo leito. Vamos dormir juntos, você se sentirá melhor. Venha.

 

Arthur logo teve certeza de que fizera muito mal em convidar Clementine a compartilhar a cama com ele. Sua intenção era apenas a de dividir o leito com ela  para consolá-la. Não iriam fazer amor. Nunca mais.

 

Clementine, entretanto, se aninhou em seus braços colando toda a extensão de seu corpo ao do marido, não deixou nenhuma brecha entre os dois corpos.

 

Arthur imediatamente sentiu que seria impossível qualquer tipo de repouso para ele tendo junto a si o calor daquele corpo tão querido e desejado.

 

Logo que Clementine se acalmou e suas lágrimas secaram. Ela aproximou seus lábios entreabertos aos de Arthur e murmurou numa voz rouca que não escondia seu desejo:

 

- Beije-me, Arthur.

 

- Clementine...

 

A princípio ele tentou não aprofundar o beijo, pois tinha claro de que seria sua perdição, mas Clementine o enredou em suas artimanhas de conquista, aquelas inatas em todas as mulheres e aperfeiçoadas durante anos de casamento.

 

A provocação não demorou a minar as defesas fragilizadas de Arthur que caíram por terra como um castelo de cartas.

 

Esquecidos de tudo, Arthur e Clementine deram vazão ao desejo represado por tanto tempo. O ardor do início do matrimônio renascera com força renovada, buscaram na união de seus corpos a saciedade do desejo que se havia acumulado pela privação a que tinham sido submetidos.

 

 

 

Pemberley, 10 de maio de 1884.

Finalmente Pemberley!

Estamos de volta a velha e boa rotina. Parece que tudo voltou aos eixos e que todo o problema pelo qual passamos foi apenas um pesadelo do qual despertamos e que procuramos esquecer.

As crianças crescem alegres, barulhentas e saudáveis.

Claire e Georgiana parecem duas lindas bonecas. Parece que o nascimento do irmão deixou-as mais compenetradas e responsáveis.

O pequeno William está um bebê saudável e lindo, o retrato em miniatura de Arthur.

Apesar de todos os protestos de Arthur, nós voltamos a viver nossa vida normal de casados, mas tenho sido bastante cuidadosa para evitar uma nova gravidez, não quero correr nenhum risco.

Somos uma família muito feliz! Agradeço a Deus todos os dias por isto.