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O anjo de Pemberley - Capítulo 22

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Quando Lizzy chegou de volta ao seu apartamento, já no meio da manhã, encontrou apenas Mary que a saudou com entusiasmo:

 

- Recebemos o seu recado dizendo que ia passar a noite na casa do William. Este namoro de vocês está se tornando sério! Você tirou a sorte grande, Lizzy, pois ele é um homem perfeito... Bonito, rico e tem personalidade, não é um ser fraco como Charles Bingley.

 

- Não faça este tipo de comparação, Mary. Se Jane ouvir, ficará magoada. A gente precisa compreender que as pessoas são diferentes uma das outras e aceitar estas diferenças.

 

- Eu não entendo o que Jane viu em Charles, com a beleza que ela tem, poderia ter escolhido alguém melhor.

 

- Devemos respeitar a escolha de Jane, se depois de tudo que houve entre eles, ela o aceitou de volta é porque o ama, apesar dos pesares.

 

- Outra coisa que não entendo foi porque ela terminou o noivado se ia continuar com ele.

 

- Talvez ela se sinta menos comprometida sendo apenas namorada de Charles. Acho que Jane tomou a decisão certa, ela me contou que o relacionamento deles melhorou muito, sem o peso do compromisso do noivado. Ela está sentindo que a terapia está lhe fazendo bem, imagine que ele até pediu para que sua irmã Caroline procure um apartamento e vá morar sozinha. Será uma fonte de problemas a menos para Jane, pois parece que as irmãs, principalmente Caroline, exercem uma influência negativa sobre ele, pois são radicalmente contra o namoro do irmão com Jane, consideram nossa família muito aquém do que a deles.

 

- Elas são duas metidas, muito mais importantes do que os Bingley são os Darcy e no entanto William está namorando com você. Mas me conte como é William como namorado. Ele parece ser tão sério que não consigo imaginá-lo como ele seja na intimidade. Ele é carinhoso? O que vocês conversam?

 

- Bastante carinhoso, Mary. – Lizzy não conseguiu deixar de corar ao pensar na noite anterior.  - O que me surpreendeu, pois sempre o considerei um homem frio. Só estou indo devagar neste relacionamento porque não estou pondo fé de que ele irá durar. E não quero sair dele muito machucada.

 

- Por que você está sendo tão pessimista? Depende de você fazer com que este relacionamento prospere.

 

- Existem muitas diferenças entre nós, tanto sociais como de personalidade, por isto não acredito que este namoro irá vingar.

 

- Pensando de forma tão negativa, é natural que este namoro não vá para frente, Lizzy.

 

- Acho melhor ser cautelosa para não terminar machucada. Depois não estou muito segura de meus reais sentimentos para com William, quando estamos juntos tenho certeza de que o amo, mas quando estou longe dele... Tenho a impressão de que não o amo o suficiente, que tudo não passa de ilusão de minha parte, que estou apenas envaidecida com a atenção que um homem como ele está me dispensando. Preciso analisar melhor meus sentimentos e se for o caso...

 

- Você quer mesmo saber? Sempre achei você meio fria com os poucos rapazes com quem andou saindo.

 

- Devo reconhecer que é verdade, tenho muito medo de sair machucada dos relacionamentos.

 

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Caroline Bingley andava de um lado para outro na ampla e bem mobiliada sala da casa de sua irmã Louise, numa forma de extravasar sua raiva. As pontas finíssimas dos saltos de seu sapato faziam um barulho irritante no vai e vem

 

- Acredite se quiser, Louise, aquele tonto do Charles está outra vez junto com Jane. Ele me contou muito chateado que desfizeram o noivado, mas que ela concordou em continuar namorando ele. Que coisa ridícula!

 

- Quem sabe eles não acabam terminando o relacionamento? Se Jane desfez o noivado pode ser que seu interesse por Charles tenha diminuído.

 

- Quem sabe ela está de olho em algum peixe maior. Estas Bennet não são nada bobas. Veja só aquela sonsa da Elizabeth, está namorando ninguém menos do que William Darcy!

 

- Você tem certeza disto, Caroline? Estou achando incrível, pois parecia que Darcy desprezava as Bennet, tanto que foi a conselho dele que Charles se separou de Jane.

 

- Mas ao que tudo indica o feitiço se voltou contra o feiticeiro. Charles e Jane estão juntos e como se isto não bastasse, Darcy está namorando Elizabeth Bennet.

 

- Darcy namorando Eliza!? Ele sempre me deu a impressão de que desprezava as Bennet... Será este um namoro sério? Não será apenas um passatempo para Darcy? – indagou Louise curiosa.

 

- Não sei te responder. Que eu saiba, William é um homem sério, não é dado a namoros e conquistas deste tipo, por isto estou apreensiva.

 

- Apreensiva?

 

- Sim, apreensiva. Nunca fiz segredo a você que meu grande sonho é me tornar Lady Darcy, tenho me empenhado em conquistar William já faz muito tempo e não vai ser uma sirigaita qualquer que vai tomá-lo de mim.

 

- Caroline, você vai me desculpar, mas sempre tive a impressão de que a estima que Darcy tem por você é apenas a de um amigo. Nunca achei que ele tivesse qualquer outro tipo de interesse por você.

 

- Você está engana, Louise. Vou conseguir reverter esta situação e fazer com que ele se apaixone por mim.

 

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O tempo passou, mas a vida seguia tranqüila em Pemberley.

 

As crianças cresciam lindas e saudáveis. A filha mais velha dos Darcy, Claire, estava com nove anos, Georgiana com sete e o pequeno William quatro anos.

 

Arthur e Clementine viviam como qualquer outro casal, alternando momentos de amor e paixão e pequenas rusgas próprias da vida rotineira de um casal que vive junto há muito tempo juntos.

 

 

Pemberley, 15 de março de 1888.

Agora em abril Arthur precisará viajar a Londres para a abertura do Parlamento e ele insiste que este ano eu o acompanhe, pois nos anos anteriores eu e as crianças permanecemos em Pemberley, ou porque eu estava grávida ou porque as crianças eram pequenas e eu não queria expô-las a uma longa e exaustiva viagem.

Começa também a temporada londrina, será bom rever minha família e os amigos, e porque não, comparecer a alguns eventos sociais. É incrível como agora eles já não despertem em mim, o interesse de quando eu tinha meus 18 anos, meus interesses agora estão centrados em Arthur e em nossos filhos.

Vejo agora o quanto estou diferente, o quando amadureci. Naquela época, eu só me importava com as aparências, só pensava em futilidades, em estar vestida na última moda e em me divertir. Nem um salão de baile parece agora exercer em mim o fascínio que exercia naqueles tempos.


Lord Arthur e Lady Clementine acompanhados de seus filhos chegaram a sua casa londrina em Grovesnor Square numa linda tarde de abril para a temporada, que a cada ano repetia sua sucessão infindável de bailes, festas de todos os tipos, concertos e recitais para entreter a sociedade ávida por divertimento.

 

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 A forte amizade existente entre Richard e William desde a infância de ambos ficara seriamente abalada.

 

William considerava o namoro entre Richard e Georgiana uma espécie de traição do primo, a quem junto com ele fora confiada a guarda da irmã pelo pai moribundo. E desde o princípio fora claro contra este relacionamento que em sua opinião só faria a infelicidade da irmã.

 

Foi com surpresa, portanto, que numa manhã ao chegar ao museu, Richard foi informado pela secretária que seu primo William o aguardava.

 

- Estou precisando ter uma conversa com você, Richard, e você sabe muito bem qual o assunto que quero tratar.

 

- Só há um assunto em que discordamos: meu namoro com Georgiana. Acho que está mais do que na hora de discutirmos e esclarecermos nossas diferenças. Vamos conversar. – Richard respondeu com um sorriso amistoso em seu rosto simpático, enquanto tomava assento atrás de sua mesa de trabalho.

 

Assim que o primo se acomodou William voltou-se para Richard e foi direto ao assunto:

 

- Richard, minha posição em relação ao namoro de você e Georgie tem sido alvo de discórdia entre eu e Lizzy. E você sabe muito bem como são as mulheres quando colocam uma idéia na cabeça.

 

- Há algum tempo que precisamos conversar sobre isso e esclarecer as diferenças que estamos tendo, mas eu estava esperando você se acalmar para podermos ter uma conversa civilizada.

 

- Você e Georgi sabem muito bem porque me oponho a este namoro. Não preciso ficar repetindo aqui.

 

- William, tudo isso que você argumenta que pode fazer a nossa infelicidade: a grande diferença de idade e o fato de sermos primos não estão atrapalhando em nada o nosso relacionamento.

 

- Não está agora, enquanto tudo é novidade.

 

- Eu e Georgie, temos plena consciência de nossa situação. Saiba que sua irmã não é mais nenhuma criança, ela é uma mulher muito madura para a idade que tem, e sabe muito bem o que quer.

 

- A diferença de quinze anos entre vocês pode não estar pesando agora, mas daqui a alguns anos ela pesará. Georgie ainda será jovem e você um velho.

 

- Pelo amor de Deus, William, se eu for pensar assim, não vivo, todos nós seremos velhos um dia.  Estou pensando em viver o momento presente, é ele o que importa, ninguém pode dar garantias quanto ao futuro.

 

- E você sabe que o fato de serem primos irmãos pode ser problemático na hora que resolverem ter filhos. E também sabe muito bem o quanto Georgie é louca por crianças. Ela sempre disse que queria ter uma família grande.

 

- Hoje em dia com o avanço da Medicina poderemos detectar logo no início da gravidez muitos dos problemas gerados pela consangüinidade. Só não garanto a ela uma porção de filhos, ela terá que se contentar com um ou no máximo dois se tudo correr bem com o primeiro.

 

- Bem, parece que você tem solução para tudo.

 

- William, eu amo Georgie de todo coração e nada irá me separar dela, nem mesmo você.

 

- Vejo que estou sozinho nesta batalha, porque além de tudo vocês têm uma forte aliada em Lizzy.  Ela tem sido uma advogada excelente e por ela estou disposto a ceder. Então, quero que você saiba que de hoje em diante não vou mais interferir no namoro de vocês, mas espero que vocês realmente saibam muito bem o que estão fazendo.  E que você trate de fazer minha irmã feliz porque terá que responder a mim, caso isto não aconteça.

 

- Fique tranqüilo, fazer Georgie feliz é meu principal objetivo de vida. E para selarmos nosso armistício, vamos comemorar com um jantar numa noite destas. Eu e Georgie precisamos agradecer pessoalmente a Lizzy pelo que fez por nós.

 

- Vamos ver, vou falar com Lizzy e depois combinamos melhor.

 

Richard se sentiu aliviado com a conversa que acabara de ter com William. Ele tinha certeza de que a aprovação de William seria essencial para a felicidade dele e de Georgie. E, finalmente, parecia que toda aquela situação estava tomando um rumo favorável e tudo isso graças à Lizzy e a influência positiva que ela estava exercendo sobre William.

 

Richard, porém, não aguardou o jantar para agradecer a interferência de Lizzy. Logo que teve um momento livre, ligou para a amiga.

 

- Lizzy, você não sabe quem esteve aqui, hoje pela manhã, me fazendo uma visita?William Darcy!

- O que houve? Vocês não estavam brigados? Não estavam nem se falando.

- Graças a você, minha querida, ele resolveu aceitar meu namoro com Georgie.

- Isto é ótimo, já não era sem tempo. Fico feliz por vocês.

- Você sabe que devemos isto a você. William foi claro ao dizer que resolveu não se opor mais ao meu namoro com Georgie. Você foi a melhor advogada que podíamos ter arrumado para defender nossa causa.

- Nunca pensei que William fosse dar ouvidos às minhas críticas à posição absurda que ele adotou em relação a vocês.

- Você está conseguindo transformar o homem, Lizzy! Hoje eu percebi o quanto William mudou e tenho certeza é por causa da sua influência. Ele está completamente apaixonado por você.

- Se de alguma forma eu ajudei, fico feliz.

- Ajudou e muito!


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Assim que Richard desligou Lizzy ficou pensativa: Será que realmente William estaria tão apaixonado como Richard declarou?

O comportamento romântico e as atitudes carinhosas de Darcy faziam com que Lizzy se sentisse segura e amada ao seu lado, mas mesmo assim não conseguia se libertar do medo que a perseguia de ser magoada, impedindo-a de se entregar totalmente a este sentimento. No fundo, ela admitia não ter certeza de seus reais sentimentos por William Darcy.

 

Preciso descobrir o que sinto por William. Sinto que nosso relacionamento a cada dia que passa está se tornando cada vez mais sério e não quero enganá-lo e ficar com ele apenas porque ter um homem como ele envaidece meu ego.”

No dia seguinte, ao chegar à residência de William, ele a aguardava na biblioteca, após a habitual troca de beijos e carinhos. Ainda abraçado à Lizzy, ele falou:

 

- Estava como sempre ansioso a sua espera. Tenho uma notícia que você irá adorar: resolvi que não vou mais me opor ao namoro entre Georgiana e Richard.

 

- Eu já sei.

 

- Sabe como?

 

- Richard me ligou ontem à tarde contando a novidade.

 

- Vejo que a central de notícias corre depressa nesta família. – ironizou Darcy com um sorriso brincalhão que o tornava mais jovem e ainda mais atraente.

 

- Richard não se agüentava de felicidade e precisa compartilhar com alguém a novidade. Fiquei muito feliz também, finalmente você resolveu mudar sua posição radical e sem querer ofendê-lo, retrógrada. Eles jamais iriam se separar apenas por causa de sua oposição. E Georgiana como recebeu a notícia?

 

- Ficou muito feliz. Ela estava dividida entre o amor que sente por mim e por Richard, mas me disse que se eu continuasse irredutível em mudar de opinião ficaria com o Richard, mesmo contra minha vontade.

 

- Nada pode separar duas pessoas quando se amam William.

 

- Sim, agora eu entendo, pois ninguém, nem nada me fariam separar de você. Você não sente o mesmo por mim?

 

Lizzy se sentiu incomodada com a pergunta por causa das dúvidas que tinha sobre seus reais sentimentos pelo namorado, incapaz de mentir preferiu permanecer calada e William pareceu não se importar com a falta de resposta, pois continuou falando:

 

- Ah! Richard falou em sairmos nós quatros para jantar numa noite dessas? Você quer ir?

 

- Claro que sim! Uma decisão destas precisa ser comemorada.

 

- Deve saber que mesmo amando minha irmã, fiz isso por você. Você me enfeitiçou de tal forma, que tenho deixado de lado até minhas convicções por sua causa...

 

- Fico feliz em ter contribuído para a felicidade de duas pessoas que amo. Georgie e Richard conseguirão superar seus problemas muito bem, você vai ver.

 

Seus braços enlaçaram a cintura de Lizzy e seus lábios aproximaram-se procurando os dela, num beijo cheio de ternura e paixão.