Imprimir

O anjo de Pemberley - Capítulo 23

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley




A temporada londrina estava em seu auge fervilhando de atividades naquela ciranda infindável de todo tipo de divertimentos que a caracterizava. Seus participantes se viam diariamente obrigados a escolher o programa a que iriam participar dentre uma gama enorme.

 

Naquela noite se realizava o tradicional baile da Duquesa de Richmond, o primeiro ao qual o casal Darcy comparecia naquela temporada. Arthur estava ao lado de Clementine quando a viu recusar gentilmente o convite para dançar com seu cunhado, marido de sua irmã Cassie. Ele imediatamente se voltou para a esposa dizendo:

 

- O fato de eu não poder dançar não deve impedi-la de se divertir, Clementine, não quero privá-la deste prazer, pois sei perfeitamente o quanto gosta de dançar.

 

Após este comentário, Clementine passou a aceitar os convites e nunca lhe faltaram parceiros para a dança.

 

Não foi com surpresa que logo no início da temporada, Clementine se deparou com seu antigo namorado Walter Langley, por quem um dia estivera loucamente apaixonada e com quem tentara fugir para a Escócia para se casarem.

 

Walter se casara com a filha de um duque e voltara a freqüentar os salões londrinos graças ao prestígio e ao poder de seu sogro. Clementine, cujos sentimentos por ele eram há muito tempo apenas de desprezo, procurou ignorá-lo, mas logo viu que esta missão era quase que impossível.

 

Langley parecia ter o firme propósito de reconquistá-la, a cada evento social a que compareciam, ele fazia questão absoluta de procurá-la e conversar com ela. Caso se tratasse de um baile, ele a convidava para dançar as duas vezes permitidas pelo protocolo. E, em todas as ocasiões fazia questão de se mostrar o mais encantador possível.

 

Clementine se incomodava com o assédio a que Walter a expunha, mas se via impotente em rechaçá-lo, pois perversamente, apesar da insistência com que ele a procurava, seu comportamento social era irrepreensível, então não havia uma desculpa possível para pedir que ele se afastasse dela.

 

Por outro lado, o comportamento de Arthur também irritava Clementine. Ela preferiria que o marido agisse como um esposo ciumento, confrontando Langley e exigindo que ele se afastasse de sua esposa. Ele, entretanto, decidira adotar uma atitude indirente e fria, quando via os via conversando ou dançando juntos, o que desgostava Clementine.

 

Com o passar do tempo, o comportamento de Walter foi se tornando cada vez mais ousado, embora Clementine não tenha dado motivo para tal e procurasse evitá-lo sempre que possível, mas como uma dama se via obrigada a tratá-lo com a mesma educação e cortesia que dispensava a todos.

 

 

*************************

 

 

Richard fez questão de organizar um jantar de gala para comemorar as pazes com Darcy e escolheu o sofisticado e conhecido restaurante de Ramsey Gordon no hotel Claridge.

 

 

- William, não acha que Rick está exagerando um pouco? Um jantar no Claridge é chic demais para uma ocasião informal como esta? - Comentou Lizzy quando seguiam para o jantar.

 

- Também acho, mas o convite partiu dele, não podemos impedi-lo de comemorar como quer, afinal quem vai pagar a conta é ele. – brincou Darcy com ironia.

 

O jantar havia transcorrido num clima amistoso e todos aguardavam a chegada da sobremesa quando, Richard disse num tom solene dirigindo-se diretamente a Lizzy:

 

- Bem, em primeiro lugar quero agradecer a você, Lizzy, que tão bem advogou nossa causa, minha e de Georgie, e a quem devemos a presença de William neste jantar. – Após uma breve pausa, Rick prosseguiu agora se voltando para a namorada:

 

- Georgie, não sei se você preferiria que o que vou dizer agora fosse dito em particular num clima mais romântico, em que estivéssemos apenas nós dois, mas acho que a presença aqui de duas pessoas que você ama tanto quanto a mim, não irá empanar a ocasião. Georgiana, meu amor, você quer se casar comigo?

 

Houve alguns instantes de silêncio pleno de expectativa. Ele foi quebrado pela resposta emocionada de Georgie:

 

- Sim, mil vezes sim. – Ela não conseguia conter as lágrimas que marejavam seus belos olhos azuis que fitavam Richard com amor.

 

Lizzy também não resistiu à emoção daquele pedido de casamento inesperado, era muito bom ver a felicidade de pessoas tão queridas. Ao observar William, sentado ao seu lado, notou que este também procurava conter sua emoção no semblante fechado.

 

Mais tarde, quando as duas mulheres foram juntas ao banheiro ao ver Georgie contemplar orgulhosa o belo solitário de brilhantes que brilhava em seu dedo anular direito, Lizzy comentou:

 

- Muito lindo o teu anel, Georgie. Richard teve muito bom gosto.

 

- Oh! Lizzy, sou a mulher mais feliz do mundo e só tenho a agradecer a você por ter alcançado esta felicidade tão completa!

 

- Minha participação foi muito pequena.

 

- Foi muito grande, jamais seria completamente feliz sem a aprovação de William. Desejo a você a mesma felicidade que estou sentindo agora. Quero que logo William a peça em casamento. Seremos todos uma única família: unida e feliz!

 

- Eu e William ainda estamos no começo de nosso relacionamento e não estamos preparados para assumir um compromisso tão sério quanto o casamento.

 

- Claro que estão preparados, vocês nasceram um para o outro. William está completamente modificado, ele só pensa e só fala em você. Nunca o vi tão apaixonado, ou melhor, é a primeira vez que o vejo apaixonado.

 

As palavras de Georgiana ficaram martelando na cabeça de Lizzy que desde o início do namoro com William carregava uma dúvida: a verdadeira natureza de seus sentimentos em relação a ele.

 

Se ao invés de Georgie,  aquele pedido de casamento fosse dirigido a mim por William eu não teria a convicção que ela teve em aceitar o pedido de Rick. Será que estou no caminho certo? Será que não estou me deixando iludir pelo status e pelos bens materiais que William tem a me oferecer? Quais são meus reais sentimentos em relação a ele?”

************************

Algum tempo depois, carregada por estas dúvidas que a estavam atormentando, Lizzy foi a Pemberley passar um final de semana prolongado em companhia de William e um grupo de amigos dele e de Georgiana, destacando-se Jane e Charles, as irmãs de Charles, Caroline e Louise e o marido desta.

Lizzy nunca nutrira grande simpatia por Caroline Bingley, apesar dos elogios que a sempre generosa Jane tecia sobre ela. Havia algo no comportamento e no olhar de Caroline que colocava Lizzy de sobreaviso em relação à irmã de Charles, em quem não conseguia confiar.

 

Desde que começara a namorar William esta antipatia só fizera aumentar, pois Caroline passou a demonstrar de maneira ostensiva o quanto este namoro a desagradava insinuando sempre que estava a sós com Lizzy, a diferença social existente entre o casal e que este namoro não poderia dar certo. E quando na presença de William, ela se desmanchava em meiguice e doçura, muitas vezes flertando descaradamente com ele.

 

Decididamente, Lizzy sentia uma antipatia profunda por Caroline Bingley, mas tinha consciência que teria de suportá-la. Ela sempre estaria presente em sua vida devido à grande amizade entre William e Charles e o namoro deste com Jane.

 

Lizzy estava escrevendo uma matéria que precisava ser entregue logo após os feriados e havia ido a Pemberley com o firme propósito de trabalhar no texto até terminá-lo. E foi o que fez grande parte da tarde do sábado em que passou trancada na biblioteca.

 

No final da tarde, se sentindo exausta, Lizzy decidiu parar de trabalhar, pois a matéria que escrevia estava bem adiantada. Saiu para dar uma caminhada pelos jardins de Pemberley para espairecer.

 

Ela seguia por uma das alamedas do jardim ladeada por altas cercas vivas, quando ultrapassou a sebe e alcançou o jardim das rosas se deparou com um casal se beijando perto de um caramanchão, mas a sua surpresa foi descobrir quem era este casal: William Darcy e Caroline Bingley.

 

Lizzy sentiu um choque tão violento que teve a impressão de que havia criado raízes no chão e não conseguiria dar um passo sequer.

 

O casal entretido em si mesmo iniciou um diálogo:

 

- William, você sabe muito bem que eu sempre te amei...[/i]

 

- Caroline, eu...

 

Lizzy não ficou para ouvir as palavras de amor que certamente se seguiriam àquele beijo, se afastou rapidamente. Quis apenas colocar distância entre ela e a cena que presenciara, sem se importar se o casal houvesse ou não escutado o barulho de seus passos se retirando.

 

Ela não soube como encontrou o caminho de volta ao seu quarto no estado de choque em que se encontrava e tomou uma decisão drástica: tinha que ir embora de Pemberley, não queria ficar ali nem mais um minuto. Precisava colocar seus pensamentos tumultuados em ordem, se acalmar e só conseguiria isto longe da mansão dos Darcy.

 

Recolheu os poucos pertences na valise que trouxera e saiu a procura de alguém que pudesse ajudá-la a sair dali. E não tardou em encontrar Richard que caminhava sozinho em um dos corredores da mansão.

 

- Rick, que sorte encontrá-lo. Estou precisando que você me faça um grande favor?

 

- Claro, Lizzy, o que você precisar. Você está bem? Está tão pálida.

 

- Estou bem. Poderia me levar agora até Chesterfield, preciso tomar o próximo de trem de volta a Londres.

 

- Mas... O que aconteceu? Por que quer ir embora para Londres, assim de repente?

 

- Por favor, Rick, não me faça perguntas, queria apenas que você me ajudasse sem me perguntar nada, depois eu te explico, não estou em condições de falar nada agora.

 

- Se está me pedindo para levá-la é sinal de William não está sabendo de nada. –Richard logo desconfiou que tivesse havido algum desentendimento entre o casal. -Tem certeza de que está fazendo a coisa certa?

 

- Tenho, Rick. Você vai me levar ou vou ter que pedir a outra pessoa? – havia um tom de desespero na voz de Lizzy que fez com que Richard concordasse imediatamente com o pedido feito.

 

- Claro que vou levá-la, apesar de achar que você está tomando uma atitude precipitada, deveria conversar com William.

 

O curto trajeto entre Pemberley e Chesterfield foi feito em silêncio por Lizzy que se fechou num mutismo total e Richard respeitou o silêncio da amiga. Apenas quando já estavam em frente à entrada da estação de trem ele falou:

 

- Ainda está em tempo de voltar a Pemberley comigo e conversar com William para esclarecer o mal entendido que possa haver acontecido.

 

- Não houve nenhum mal entendido. Compreendi perfeitamente o que aconteceu, pois não sou tonta. Rick, me faça outro favor, diga a Jane para não se preocupar comigo, diga-lhe que estou bem. Obrigada pela carona, Rick.

 

- Você acha que está em condições de ir embora para Londres sozinha? Você me parece bastante abalada, Lizzy.

 

- Não se preocupe comigo, Rick, estou bem.

 

- Em todo caso, vou aguardar a chegada do trem com você. Vamos lá.

 

Lizzy despediu-se de Richard, meia hora depois na plataforma da estação, com agradecimentos e um beijo na face e partiu.

 

William só se deu conta da ausência de Lizzy, algum tempo depois de sua partida. Ele não havia se preocupado com ela, porque sabia que ela estava ocupada trabalhando. Quando se aproximava a hora do jantar, não a encontrando na biblioteca e nem no quarto, saiu a sua procura, achando que ela estivesse conversando com os demais convidados em uma das salas.

 

Foi quando ele encontrou Jane e perguntou sobre o paradeiro da namorada.

 

- William, Lizzy foi embora para Londres. – Foi a resposta constrangida de Jane.

 

- Embora para Londres!? Como? Por quê?

 

- Ela não explicou o motivo, simplesmente, pediu ao Richard para levá-la de carro até Chesterfield e lá tomou o trem para Londres. Richard disse que ela não quis dizer o motivo de sua partida por mais que ele insistisse. Deixou apenas um recado para mim dizendo que eu não me preocupasse, que estava tudo bem. Estou tentando me comunicar com ela, mas não consigo. Ela desligou o celular, e o telefone de nosso apartamento em Londres está ligado na mensagem da secretária eletrônica. William, aconteceu alguma coisa entre vocês? Vocês brigaram?

 

- Não, não aconteceu nada entre nós. Ela apenas me avisou que precisava terminar uma matéria e eu a deixei trabalhando na biblioteca. Depois não a vi mais. Bem, vou agora mesmo para Londres atrás dela, preciso esclarecer o porquê deste comportamento estranho.

 

- Quer que eu vá junto com você, William?

 

- Obrigada, Jane, não é preciso, prefiro ir sozinho.

 

 

********************

 

 

Acontecia um animado e concorrido garden-party na residência do Marquês de Durrell, em sua propriedade nas margens do Tâmisa.

 

Clementine sentia-se indisposta, atormentada desde o início por uma dor de cabeça que não queria passar, saiu ao jardim à procura do marido para pedir a ele que fossem embora.

 

Foi quando se deparou com Walter que surgiu a sua frente num recanto recluso do jardim. Clementine o cumprimentou e já ia se afastando quando ele se apressou em dizer:

 

- Clementine, por favor, estava a sua procura, pois preciso ter uma palavra com você.

 

- Sr. Langley, estou a procura de meu marido, vamos deixar para conversarmos em outra hora.

 

- Clementine, acho que não tenho necessidade de confessar o imenso amor que ainda sinto por você. É a mulher que amarei por toda minha vida e não ter me casado com você foi o maior erro que cometi.

 

- Por favor, Sr. Langley, peço que se cale agora mesmo. Sou uma mulher casada que ama seu marido e sou fiel a ele. E o senhor também é um homem casado e como tal deve lealdade a sua esposa.

 

- Não acredito que ame seu marido. O que um homem aleijado tem a oferecer a uma mulher linda como você, além de sua imensa fortuna?

 

- Não irei responder a sua pergunta impertinente e com sua licença vou me retirar.

 

Clementine foi detida por Walter que a segurou pelo braço direito e a trouxe de encontro a seu peito e segurando-a firmemente contra si e a beijou, apesar dos esforços de Clementine para se libertar.

 

Ela estava tão fora de si que não notou a mudança na expressão facial de Walter, quando este a libertou, vendo-se livre ela se apressou em voltar para a mansão quando se chocou contra o peito de ninguém menos que seu marido.

 

- Vou lidar com você mais tarde, em hora e local mais apropriado, Langley. – foram as palavras cortantes e frias que Lord Arthur dirigiu a um pálido e assustado Walter e dirigindo-se à esposa disse:

 

- Vá se recompor, Clementine.

 

- Arthur, se não se incomodar gostaria de ir embora.

 

A distância relativamente longa entre a mansão do Marques de Durrell e a residência dos Darcy foi feita no mais absoluto silêncio, apenas quando chegaram aos aposentos que ocupavam foi que Clementine tentou se explicar:

 

- Arthur, sei que você deve estar pensando o pior de mim, mas quero esclarecer que a cena... O beijo que você presenciou aconteceu contra a minha vontade, Walter Langley me forçou a beijá-lo.

 

- Se ele a beijou é porque você de alguma forma você consentiu.

 

- Arthur, ele me forçou!

 

- Ele não a teria forçado se você não tivesse dado sinais de que poderia fazê-lo.

 

- Como pode pensar que eu permitiria uma improbidade destas? Após tantos anos de casamento você deve saber que eu jamais cometeria uma indignidade deste tipo.

 

- Você pode ter se cansado de viver ao lado de um homem aleijado como eu.

 

- Meu Deus! Será que é possível que após tantos anos juntos você ainda não acredite na minha lealdade e na sinceridade de meus sentimentos por você?

 

O silêncio foi a temida resposta à indagação de Clementine.

 

Não, ele não acreditava!

 

Nos dias que se passaram Arthur passava a maior parte do dia fora de casa e quando em companhia da esposa mantinha uma postura fria e distante, numa atitude irredutível de que não a perdoara, rechaçando todas as tentativas que ela fazia de reconciliação. Extremamente magoada, Clementine tomou uma decisão drástica que comunicou ao marido.

 

- Arthur, quero ir embora com as crianças para Pemberley.

 

- Eu não posso me ausentar agora de Londres com as sessões do Parlamento em pleno funcionamento.

 

- Posso ir com as crianças, iríamos acompanhadas de alguns criados, não haveria perigo algum. Por favor, Arthur, não estou suportando ficar mais nem um dia aqui, com você se comportando desta maneira comigo.

 

- Você tem as festas da temporada para desfrutar.

 

- As festas da temporada perderam toda a graça para mim.

 

- Faça como achar melhor. – Foi a resposta curta e seca de Lord Artthur que parecia ter pressa em encerrar a conversa para sair.

 

Clementine tinha uma pequena esperança de que anunciando sua vontade de partir, Arthur pedisse para ela ficar e este fosse o início da reconciliação para ambos.

 

Poucos dias depois, numa clara manhã, Clementine e as crianças partiram para o Derbyshire, Arthur se despediu dos filhos com um abraço e um beijo em cada um e se limitou a ajudar Clementine a entrar na carruagem dizendo:

 

- Faça uma boa viagem, Clementine e me escreva quando chegar.

 

Clementine viu através de olhos cheios de lágrimas a figura alta e elegante de Arthur parado à entrada da casa observando a carruagem se distanciar.

 

 

*****************************

 

Assim que chegou ao seu apartamento em Londres, Lizzy desabou sobre sua cama e chorou por muito tempo, derramando as lágrimas que estiveram contidas até então. Em seu íntimo havia uma mescla de sentimentos em ebulição: raiva, ciúmes, ódio e amor.

 

Lizzy se deu conta, então, de que quando temos um problema, ele nos acompanha como uma sombra, não importa aonde vamos ou onde estejamos.

 

Sozinha em seu apartamento, Lizzy não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a cena de William e Caroline se beijando.

 

Passava das onze horas da noite e Lizzy se preparava para uma noite de insônia, sabia que no estado emocional em que se encontrava dificilmente conseguiria conciliar o sono, mas em todo caso tentaria dormir.

 

Foi quando ouviu o interfone tocar, ao atender ouviu a voz inconfundível de William:

 

- Lizzy, preciso conversar com você.

 

- Vá embora, William.

 

- Lizzy, abra este portão para mim, precisamos conversar.

 

- Não tenho condições de conversar com você agora. E já estou preparada para dormir. Se quiser podemos conversar depois dos feriados.

 

- Lizzy, eu não vou esperar até depois dos feriados, daqui a três dias. Quero conversar com você agora. Abra este portão, Lizzy.

 

- Não vou abrir, William.

 

Lizzy desligou o interfone e foi para seu quarto, mas mal se acomodara na cama, quando ouviu desta vez o toque estridente da campainha do apartamento. Só poderia ser William que conseguira entrar no prédio juntamente com algum morador que abrira o portão de entrada.

 

Lizzy foi até a porta e sem abri-la disse:

 

- William, peço que vá embora, já disse que vamos conversar depois dos feriados.

 

- Lizzy, abra esta porta, estou perdendo a paciência.

 

Lizzy não acreditou que o sempre discreto e reservado William, pudesse perder a paciência como afirmara e aprontasse algum escândalo, mas ao começar a ouvir o som forte e estridente da campainha tocando sem parar, ela teve certeza de que ele deveria estar no seu limite, numa clara demonstração de que sua paciência se esgotara.

 

Lizzy, inimiga de escândalos, resolveu que seria melhor abrir a porta para evitar as reclamações dos vizinhos.

 

- O que você quer? Que os vizinhos chamem a polícia por causa do barulho que você está fazendo? Vamos, entre.

 

- Você me obrigou a agir desta forma.

 

- Já disse que não quero conversar com você hoje, William.

 

- Não acha que tenho o direito de saber o motivo por que foi embora de Pemberley sem explicação alguma?

 

- Quem me deve uma boa explicação é você, William Darcy!

 

- Eu!? O que foi que eu fiz?

 

- Não seja cínico porque eu o vi beijando Caroline Bingley no jardim.

 

- Eu não estava beijando Caroline, ela é quem estava me beijando.

 

- Não vejo a diferença, o que importa é que vocês estavam se beijando.

 

- Ah! Então foi isto! Você pode ter visto ela agarrada a mim me beijando, mas não viu, nem ouviu a estória inteira, pois teria entendido o que aconteceu. Caroline tomou a iniciativa de se declarar, disse que me ama, quando eu lhe disse que não correspondia ao seu afeto porque estava apaixonado por você, ela simplesmente se pendurou no meu pescoço e me beijou. Foi o que você deve ter visto, por acaso você ouviu o que eu disse a ela depois?

 

- Não, não ouvi, pois já havia visto o suficiente. Certos gestos falam mais do que mil palavras.

 

- Lizzy, o que preciso fazer ou dizer para que você acredite em mim? Só existe uma mulher no mundo para mim: você. Se eu tivesse algum interesse por Caroline já estaria até casado com ela, pois a conheço há muito mais tempo.

 

- Pois então está perdendo o seu tempo.

 

- Lizzy, não tenho nenhum interesse em Caroline como mulher, apesar dela ser bonita, elegante e sofisticada. Você queria que eu fizesse o quê? Ela se pendurou no meu pescoço e começou a me beijar, eu não poderia empurrá-la e jogá-la ao chão, não seria o comportamento de um cavalheiro.

 

- Então, apelo para seu cavalheirismo e peço que vá embora. Preciso ficar sozinha para conseguir colocar meus pensamentos em ordem e para tomar a decisão certa.

 

- Isto quer dizer que você não está acreditando em mim.

 

- Eu estou cansada, trabalhei a tarde inteira, depois viajei e estou emocionalmente abalada com o que presenciei e sem condições de pensar com clareza.

 

- Então, podemos conversar amanhã.

 

- William, por favor, preciso de mais tempo, vamos conversar depois dos feriados. Amanhã, acho melhor você voltar para Pemberley, não se esqueça de que deixou Georgie sozinha para atender seus hóspedes.

 

William se retirou do apartamento das Bennet derrotado. Apesar de seu estado de espírito depressivo ele se viu obrigado logo na manhã seguinte voltar a Pemberley por causa de seus convidados.

 

Aparentando uma tranqüilidade que estava longe de sentir, William aguardou a resposta que Lizzy daria a respeito do futuro do relacionamento deles.  Nele havia apenas uma certeza, a de que lutaria para conservar ao seu lado a mulher que amava, pois ela significava tudo o que importava em sua vida.