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O anjo de Pemberley - Capítulo 24

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em O anjo de Pemberley

Os três longos dias do feriado prolongado custaram muito a passar para Lizzy, apesar de ter ocupado uma boa parte do tempo em concluir seu trabalho.

 

O sentimento dolorido da traição não a abandonava, acompanhando-a a toda parte, não importando qual a atividade a que estivesse se dedicando, parecia que nada a distraía.

 

Pensou e repensou na cena do beijo entre William e Caroline, procurando analisar com imparcialidade o que vira e o que era produto de sua imaginação.

 

A justifitiva de que Caroline houvesse se atirado sobre ele podia ser verdade, ela sempre lhe parecera uma mulher determinada e não escondia o interesse que tinha por William.

 

Contava ainda a favor dele o fato de nunca ter demonstrado nenhum interesse aparente pela irmã de Bingley e a preocupação que demonstrara vindo a sua procura em Londres para saber o que havia ocorrido.

 

Mas Lizzy não conseguia ter certeza de nada, envolvida por um turbilhão de dúvidas.

 

O primeiro dia útil após o feriado chegou por fim. A primeira ordem que William deu a suas secretárias ao chegar ao escritório foi:

 

- Se Elizabeth ligar para mim, passem a ligação imediatamente, não importa o que eu estiver fazendo, preciso falar com ela com urgência.

 

Entretanto, a manhã passou e a tarde já ia pelo meio, porém Lizzy não havia ligado para William. Ele, não suportando mais a ansiedade, decidiu tomar a iniciativa.

 

- Lizzy, precisamos conversar, acho que você já teve tempo suficiente para pensar.

 

- Tudo bem, William, eu ia mesmo ligar para você. Posso passar na sua casa hoje à noite para conversarmos? Você sabe que lá em casa teremos pouca privacidade.

 

- Claro, venha a minha casa, devo chegar lá pelas seis e meia.

 

 

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A ansiedade de William era transparente quando recebeu Lizzy na sua sala de visitas. Cumprimentaram-se, mas não houve a costumeira troca de beijos com que costumavam se saudar.  Sentaram-se num mesmo sofá, porém afastados um do outro e ficaram alguns minutos em silêncio.

 

William aguardava que Lizzy tomasse a iniciativa na conversa e esta pensava no que iria dizer.

 

- William, não sei como podemos começar...

 

- Coloco-me em seu lugar e imagino que deve ter sido horrível para você ter visto aquela cena, mas já disse que foi Caroline quem se atirou em meus braços e me beijou.  Embora você não ache, isto faz toda a diferença.

 

- Não vamos ficar discutindo quem beijou quem, é uma discussão que não nos leva a lugar algum. Reconheço que Caroline pode ter forçado a situação e o apanhado de surpresa.

 

- Não sou tolo e sempre percebi o interesse de Caroline por mim, mas nunca a incentivei, sempre a respeitei por ser irmã de meu melhor amigo.

 

- William, vamos falar sobre nós. Não sei se você percebeu as dúvidas que eu tinha em relação ao nosso namoro? Não acreditava na profundidade de seus sentimentos por mim e duvidava do sucesso de nosso relacionamento. Sempre achei que seu entusiasmo por mim fosse algo passageiro e que se eu mergulhasse de cabeça na relação acabaria machucada.

 

- Por que tinha esta impressão? Você não percebeu que sou um homem sério e que não costumo brincar com os sentimentos de ninguém, muito menos com os das pessoas que amo.

 

- Você me ama de verdade, William? – A pergunta saíra dos lábios de Lizzy espontaneamente, antes mesmo que ela pudesse refletir se devia ou não ser tão direta.

 

- Você é a única mulher que amei até hoje, Lizzy! – Estas palavras saíram de modo intenso dos lábios de William, tocando Lizzy profundamente. - Sinto-me magoado ao saber que você andou duvidando de meus sentimentos. Mas acabe de uma vez com esta tortura e diga o que decidiu sobre nós dois.

 

- Caroline Bingley, sem querer, acabou me fazendo um grande favor. Ela me fez enxergar meus reais sentimentos por você. Cheguei à conclusão de que eu te amo e que não quero perdê-lo. William, eu detestei vê-lo beijando outra mulher, é algo que espero nunca mais ver, nunca mais, ouviu?

 

- Você não verá, não verá, meu amor! Eu também te amo e se depender de mim você jamais irá me perder.

 

Lizzy se atirou nos braços de William e selaram a paz com muitos beijos e ainda se beijavam quando após uma leve batida, a porta se abriu para dar entrada ao mordomo que com uma expressão impassível no rosto anunciou:

 

- Milord, o jantar está servido.

 

*****************************

 

Era o mês de agosto e o verão estava em seu auge.

 

Lizzy e William estavam vivendo uma fase de encantamento e paixão, superados os receios, as dúvidas e mal-entendidos, e passavam alguns dias de férias em Pemberley.

 

- Lizzy, que tal se formos este final de semana a Edimburgo ver um pouco do festival que está acontecendo lá. Conhece Edimburgo?

 

- Conheço, é uma cidade linda, mas nunca fui ao festival.

 

- Eu já fui há muitos anos atrás.

 

- Dizem que é muito bonito. Gostaria de assistir.

 

- Então, está combinado vamos passar o final de semana lá.

 

O Festival Internacional de Edimburgo acontece todos os anos durante todo o mês de agosto e é um evento que congrega artistas do mundo inteiro em apresentações de música, dança e artes cênicas nas diversas casas de espetáculos da cidade e numa enorme arena montada especialmente para a ocasião em frente ao histórico Castelo de Edimburgo, num cenário deslumbrante.

 

 

Além da programação oficial do festival, os artistas principiantes ou independentes apresentam suas performances nas ruas da parte antiga da cidade, especialmente na Royal Mille (Milha Real), a rua mais antiga de Edimburgo, assim chamada porque liga o Castelo de Edimburgo e o Palácio de Holyrood, em seus dois extremos.

 

O público faz uma imensa roda para assistir a estas apresentações, algumas bastante comuns, outras extraordinárias e o som melancólico e vibrante das gaitas escocesas ecoam por todos os cantos transformando a atmosfera mágica da cidade em algo extraordinariamente belo.

 

 

William e Lizzy visitaram o castelo que atualmente é um museu e passearam pelas ruas assistindo a diversas apresentações, almoçando num pub centenário e à noite foram assistir ao show oficial de danças e músicas folclóricas escocesas.

 

Quando voltaram ao hotel, ainda tiveram fôlego para se amarem, apesar do dia cansativo e adormeceram nos braços um do outro saciados e felizes.

 

- Acorde, bela adormecida, já a beijei várias vezes e você não acorda. A história conta que com um único beijo o príncipe a despertou de seu sono encantado.

 

- Seu bobo, você se esqueceu que apesar de seu nome você não é um príncipe.

 

- Então, é por isto que não consegui despertá-la com um único beijo?

 

- Talvez porque eu não seja a bela adormecida ou talvez porque eu estivesse fingindo dormir para receber muitos e muitos beijos.

 

- Ah! Então você estava me enganando! Pois vou fazê-la pagar por isto.

 

- Como? – Perguntou Lizzy com um brilho malicioso no olhar.

 

- Vai saber agora...

 

Os beijos que se seguiram, quentes e sensuais, reacenderam a paixão que entre eles estava sempre latente. As línguas se tocavam ávidas e sensuais. As mãos inquietas exploravam seus corpos sem censura, buscando a troca intensa de prazer que seus corpos proporcionavam.

 

Amaram-se com volúpia e paixão numa comunhão perfeita de corpos, que só acontece quando há amor na relação de duas pessoas.

 

Algum tempo depois, ainda deitados nos braços um do outro, mas com pura preguiça de se levantar, William perguntou:

 

- Você quer se casar comigo Lizzy?

 

Lizzy ficou alguns segundos quieta fitando aqueles olhos azuis interrogativos, pois ainda estava meio sonolenta e podia ser que não houvesse entendido direito o que lhe fora perguntado.

 

- O seu olhar é o de quem não entendeu minha pergunta. Vou repetir, preste atenção: Elizabeth Bennet, quer se casar comigo?

 

Lizzy sentiu um calor gerado pela emoção e pelo contentamento.

 

- Sim, quero. Como disse a Georgie: Sim, mil vezes sim.

 

- Ufa! Pensei que fosse me pedir um tempo para pensar, ou pior, que dissesse “não”.

 

- Se você tivesse feito esta pergunta há algum tempo atrás, provavelmente eu pediria um tempo para pensar, pois estava cheia de dúvidas quanto aos meus sentimentos em relação a você, mas agora... – Ela completou a frase com outro beijo.

 

- Então vamos nos casar. Quer se casar hoje mesmo?

 

- Casar hoje mesmo? Impossível! Você só pode estar brincando.

 

- Não, nunca falei tão sério em minha vida. Podemos nos casar hoje mesmo. Estamos perto de Gretna Green e podemos nos casar lá como fizeram Lord Arthur e Lady Clementine. Quer?

 

- Acho que você enlouqueceu, William.

 

- Não enlouqueci e não estou brincando. Se você não se importar com uma cerimônia de casamento bem simples, apenas nós, o pastor e uma testemunha arrumada na hora, poderemos nos casar hoje mesmo.

 

- Mas... – Lizzy estava atônita diante da proposta inesperada. Jamais passara por sua cabeça que o bem comportado William fosse capaz de uma loucura destas.

 

- A não ser que você prefira um casamento formal, com todas as pompas e circunstâncias em Londres com todos os amigos e parentes presentes. Você decide.

 

- Não faço questão de ter um casamento pomposo.

 

- E então, quer ir se casar em Gretna hoje mesmo? Quer me dar a honra de se tornar minha esposa, a minha Lady Darcy?

 

- Sim, quero.

 

- Vamos levantar desta cama porque teremos um dia bastante ocupado, inclusive uma viagem pela frente.

 

Lizzy e Darcy chegaram a pequena Gretna Green à tarde do domingo e não encontraram maiores dificuldades para providenciar os documentos, numa cidade preparada para oficiar todos os tipos de casamentos, principalmente estes realizados às pressas, sem maiores formalidades. Passaram, depois, numa pequena joalheria onde escolheram um lindo par de alianças de desenho celta, cuja simbologia e delicado desenho Lizzy adorou.

 

 

A cerimônia de casamento foi realizada numa pequena e antiga capela de pedra, oficiada por um pároco obeso e bonachão, sua simpática esposa servindo de testemunha.

 

Em alguns minutos, pronunciando as tradicionais palavras litúrgicas do casamento, o pároco tornou William e Lizzy, marido e mulher.

 

Quando já estavam a caminho de volta a Pemberley, Lizzy não pôde reprimir um sentimento de arrependimento, não por haver se casado, pois tinha certeza de que amava William e que ambos seriam felizes juntos, mas por ter privado seus pais, irmãs e amigos de compartilhar com ela a alegria deste momento único.

 

Mas ao olhar William ao seu lado dirigindo compenetrado na estrada movimentada de final de domingo, o arrependimento foi embora, não tinha mais como voltar atrás.

 

Agora era esperar que família e amigos entendessem e aprovassem o ato impulsivo de um casal apaixonado. Afinal, depois poderiam fazer uma reunião com a família e amigos para celebrar a oficialização do casamento.

 

 

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Como era de se esperar, a notícia do casamento de William e Lizzy caiu feito uma bomba entre conhecidos, amigos e parentes dos noivos. A princípio duvidaram da veracidade do fato, acreditando que o sempre sério e compenetrado William jamais tomaria uma atitude tão desatinada e precipitada, tão diferente dos seus padrões normais de comportamento.

 

Mas todos acabaram aceitando o fato consumado e congratulando os noivos. E comentando que ambos formavam um casal perfeito, bonito e harmonioso.

 

Uma das primeiras visitas que William e Lizzy fizeram, logo após voltar das férias, foi aos pais de Lizzy em Longbourn, a fim de lhes comunicarem pessoalmente o casamento.

 

- Só você mesmo, Lizzy, para me fazer uma desfeitas destas. – Censurou a Sra. Bennet assim que conseguiu ficar a sós com a filha.

 

- Mas, mamãe, você nunca escondeu de ninguém que seu maior sonho era ver todas as suas filhas casadas. Deveria estar feliz porque uma já se casou.

 

- Ficaria mais feliz se você tivesse se casado como todas as jovens fazem, numa igreja enfeitada e uma bela recepção depois. Eu poderia ter convidado todas as minhas amigas e elas ficariam verdes de inveja porque minha filha se casou com um lord milionário.

 

- Acredito que logo você terá este prazer, Jane irá se casar com Charles Bingley e ela com certeza fará um casamento bem tradicional como você gosta.

 

- Ora, o que é a fortuna e o prestígio da família Bingley comparada ao dos Darcy? Você perdeu a oportunidade de ter uma cerimônia de casamento digna de uma princesa.

 

A cantilena da Sra. Bennet continuou enquanto esteve a sós com a filha, esta se apressou em buscar refúgio na companhia do pai que fez o seguinte comentário:

 

- Confesso, Lizzy, que a notícia de seu casamento me pegou de surpresa porque pensei que você sentia antipatia por Darcy. Lembra que há algum tempo atrás você me disse que o considerava insuportavelmente orgulhoso e arrogante?

 

- Papai, eu não o conhecia direito, meu preconceito me levou a acreditar que ele era arrogante e orgulhoso, na verdade ele é um homem bom e generoso. Eu o amo muito e ele deu inúmeras provas de que me ama também.

 

- Se ele é capaz de fazê-la feliz, é o que importa para mim.

 

Lizzy beijou a testa do pai e acariciando suas faces com carinho disse:

 

- Somos muito felizes juntos, papai.

 

 

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Pemberley, 9 de junho de 1888.

Arthur, meu amor:

Chegamos muito bem a Pemberley, as crianças adoraram a viagem de volta. Como é bom ser criança, elas se encantam com tudo que vêem e para elas a longa viagem não pareceu absolutamente cansativa ou aborrecida.

Eu prefereria dizer pessoalmente a você o que vou escrever aqui, mas todas as tentativas que fiz para explicar o que aconteceu no [i]garden party[/i] do Marquês de Durrell fracassaram porque simplesmente você não quis me ouvir.

Meu coração é pura agonia, não suporto viver assim, separada de você, não só fisicamente, mas principalmente emocionalmente.

Quero que você compreenda que Walter Langley não significa mais nada para mim há muito tempo. Ele foi um desvario de minha juventude, pensei que o amava quando era uma jovem recém saída da adolescência sem a mínima noção do que fosse o amor. Um amor verdadeiro.

Desde que o Dr. Everton me preveniu que o meu problema cardíaco pode me levar à morte súbita, tenho procurado viver cada dia de minha vida como se fosse o último. Tenho muito medo de ir embora e deixar esta pendência, sem ter esclarecido este mal-entendido e estar brigada com você.

Não sei mais o que fazer para que você acredite que meu amor por você é sincero e profundo. Por tudo que aconteceu em Londres, cheguei à triste conclusão de que você tem dúvidas sobre a sinceridade de meu afeto, e não há nada que me deixe mais magoada e triste.

Da esposa que o ama profundamente.

Clementine

 

 

O fato de estar sozinha com os filhos não era o que aborrecia Clementine. Diversas vezes no decorrer de seu casamento, Arthur havia se ausentado para cumprir seus afazeres parlamentares em Londres, ou em visita às suas propriedades espalhadas pelo país e apesar das saudades, ela havia suportado bem a separação.

 

O que a entristecia e estava deixando esta separação insuportável era o fato de estar brigada com o marido.  

Clementine estava dormindo mal desde que retornara a Pemberley, aguardava ansiosa uma resposta à carta que enviara ao marido, mas todos os dias a espera se revelava inútil.

 

 

Naquela manhã, enquanto as filhas tinham aulas com a preceptora e o filho estava aos cuidados da babá, Clementine saiu para colher  flores para enfeitar os salões da mansão. Esta era uma tarefa que ela não costumava delegar aos empregados, pois ela mesma gostava de montar os arranjos nos vasos e sabia quais as flores e plantas de que iria precisar.

 

Clementine começou a sentir uma ligeira palpitação de seu coração, mas como este era um sintoma que a acometia com relativa freqüência, ela não deu maior importância a ele e continuou sua tarefa de colher flores. Mas as palpitações foram se tornando mais fortes e subitamente uma forte dor surgiu em seu peito, suas pernas vacilaram ante a dor e não a suportando mais ela perdeu os sentidos.

 

Lord Arthur, que chegara a Pemberley naquela manhã para conversar com a esposa, foi quem a encontrou caída em meio ao jardim ao lado do cesto cheio de flores coloridas em contraste com o seu rosto pálido, já sem vida.