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Namoro de Férias - Cap 01

Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Não que tivesse uma vida sedentária. Acordava mais cedo quase diariamente para exercitar-se em sua academia particular, enquanto assistia ao noticiário. Mas aquela água gelada descendo pelo seu corpo fazia com que se sentisse profundamente renovado como há tempos não se recordava.  Sim, precisava fazer isso mais vezes. 

 

O amigo vinha um pouco mais acima, graduando sua velocidade de acordo com o ritmo de Darcy.   Ambos eram experientes nesta modalidade de rappel, que consistia basicamente em descidas livres utilizando técnicas de alpinismo. Carolina, irmã de Carlos, os esperava embaixo segurando os dispositivos das cordas que travariam a descida de qualquer um dos dois no caso de alguma eventualidade não prevista.

 

A descida era bastante inclinada e o volume de água aumentado pelas chuvas de verão fazia pressão sobre eles.  As cordas haviam sido solidamente ancoradas a rochas na parte superior da cachoeira reforçadas com grampos de aço fixados em outros pontos de segurança.   O paredão da cascata estava um tanto escorregadio, mas o principal item de segurança para descidas deste tipo era a própria destreza de cada um dos participantes no manuseio dos equipamentos.  

 

Darcy resolveu parar um pouco para apreciar o belo cenário de montanhas recobertas pela Mata Atlântica envolvidas pelo sol da manhã.  Neste momento ouviu um grito.  Algo acontecera.

 

***

 

Elisa Bennet, recostada ao banco do ônibus que a levava de volta à casa de seus pais, estendia seu olhar à mesma paisagem.   Ansiava estar novamente com sua família.  A agitação da cidade grande não combinava com sua disposição, preferia o contato com a natureza. Não por acaso amava tanto estar no meio daquelas florestas, onde passara a infância.  Uma ligação muito íntima existia entre ela e o verde que a cercava, e a paz deste retorno a envolvia em um suave contentamento que a levava a fechar os olhos, prelibando as férias que surgiam a frente.   

 

Joana sempre dizia que ela parecia uma criatura da mata ao vê-la subir destramente em alguma árvore quando eram crianças. Havia profunda afinidade entre ela e a irmã mais velha.  Tendo quase a mesma idade, saíram de casa praticamente na mesma época para cursar faculdade, porque nos arredores da pequena localidade não havia nenhum estabelecimento de nível superior, e ao morarem juntas, apoiando-se mutuamente em todos os reveses e desafios de estarem longe dos pais, aproximaram-se mais ainda.

 

Mas os projetos da primogênita eram diferentes dos seus.  Joana recém-formada em Medicina com especialização em Clínica Geral, voltara para se fixar definitivamente em Alta Serra.   Elisa, embora amasse a terra escolhida por seus pais, sonhava desbravar novas fronteiras e imaginava para si uma vida completamente diferente da rotina tranqüila de sua família. 

 

Antevia a imagem futura da irmã casada com algum bom partido local na hora em que estalasse os dedos, bonita como sempre fora.  Seus modos suaves e agradáveis aliados à simpatia e acolhimento que transmitiam, apesar de não ser de muitas palavras, encantavam a todos que a conheciam.

 

Já para si imaginava este dia bem distante. Costumava usar de seu pensamento rápido para esgrimir verbalmente com quem quer que a desafiasse, brincando com tudo e todos inclusive com os possíveis namorados, o que talvez houvesse espantado vários pretendentes  Nunca houve alguém mais importante nesse sentido, mas Joana sempre dizia que ainda encontraria um homem que prenderia não apenas seu olhar, mas seguraria a sua língua. Enquanto este dia não chegava, prosseguia com seu jeito afável e extrovertido, e sem procurar compromissos. 

 

Olhou para o reflexo de seu rosto no vidro da janela do ônibus. Apesar de não ser muito vaidosa, conhecia seus pontos fortes e utilizava-os em seu favor.    Os lábios naturalmente bem desenhados haviam sido realçados por um batom em tons de cobre. Seus grandes olhos escuros levemente delineados com rímel eram o que mais chamava atenção em Elisa, talvez pelo brilho inteligente que os iluminava. Mas o corpo esbelto de estatura mediana era de proporções harmoniosas, mantido em forma pelas caminhadas freqüentes.

 

Normalmente usava roupas casuais, mais adequadas a seu estilo de vida.  Mas naquele dia escolhera um vestido fluido de estampa suave que ressaltava seus seios e colo bem feitos.   Não se intimidava com os olhares masculinos que a seguiam, embora não se preocupasse em atraí-los. Mas era agradável perceber-se bem feminina de vez em quando.

 

Dentro do ônibus não pode deixar de perceber um jovem louro aparentando ser apenas um pouco mais velho que ela. Os olhos verdes dele a seguiram desde que entrara.  Estavam próximos, mas não havia como conversarem.  Embora apreciasse mais os tipos morenos, era obrigada a reconhecer que era um homem bonito. Provavelmente nunca mais o veria, uma vez que a sua cidade era apenas uma entre as paradas da longa linha percorrida pela viatura. Assim, esqueceu-se do rapaz de cabelos claros como um viking e suspirou novamente pensando nos dias agradáveis que a esperavam.