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Namoro de Férias - Cap 02

Ligado . Publicado em Namoro de Férias

- Machuquei o tornozelo! Mas acho que dá pra descer.

 

Caso ele não conseguisse deslizar para baixo com seu equipamento, seria mais difícil para resolver pois as medidas de segurança priorizavam basicamente os perigos de uma queda muito rápida. Em caso de alguma incapacidade do participante, as providências eram mais complexas.

 

- Então vamos devagar, venha você primeiro.

 

Darcy esperou Carlos alcançar sua altura e desceram juntos lenta e cuidadosamente.  Carolina que os aguardava abaixo não percebia a situação.  Melhor assim, pois se desconfiasse de algo errado e travasse o equipamento, seria difícil explicar o que acontecia sob o forte som da queda d’água.

 

Enfim chegaram ao chão. Carlos pisava com dificuldade, e permaneceu sentado aos cuidados de sua irmã.  Darcy subiu novamente a trilha em direção ao alto da cachoeira para recolher os equipamentos.  Esta era a parte mais cansativa do rappel, mas ele se sentia revigorado e fez o percurso rapidamente, admirando mais uma vez a magnífica porção de mata que os cercava.   Após descer e guardar as cordas e peças metálicas na traseira do utilitário de tração reforçada foram levar Carlos a um posto médico.

 

A amizade de Darcy e Carlos vinha dos tempos de escola.  Os traços de caráter simetralmente opostos só os uniram ainda mais desde então.  Bingley era extrovertido, apesar de muito compenetrado no que dizia respeito ao seu trabalho. Onde quer que chegasse fazia amigos e encantava as mulheres com facilidade.  Ainda não surgira nenhum relacionamento suficientemente sério que o fizesse desistir da vida de solteiro, mas beirando os trinta, começava a pensar em ter esposa e filhos com mais frequência. 

 

Darcy, por sua vez, era fechado e introvertido, a despeito de sua grande capacidade de comunicação quando o desejava.  Era bastante atraente para o sexo oposto, mas o que mais intrigava as mulheres era exatamente seu temperamento contido, embora fosse do tipo que não se preocupava em agradar a ninguém. Carolina era sua vítima involuntária atual, cercando-o de atenções na expectativa de que algo mais pudesse surgir entre eles.  Ledo engano.  Darcy, ao contrário de Carlos, não planejava nenhum compromisso a médio prazo, restringindo sua vida amorosa a relacionamentos esporádicos e ocasionais.  E a irmã de seu melhor amigo não poderia ser incluída nesta categoria. 

 

Era gentil com ela, mas evitava sutilmente todas as suas investidas. Não confrontava diretamente a situação para não ser grosseiro, mas intimamente as atenções que recebia satisfaziam seu ego masculino. Assim continuava esperando para definir melhor as coisas agora que passariam mais tempo juntos, para evitar mal-entendidos.

 

***

 

Elisa estava cochilando no ônibus quando uma súbita freada a acordou.  O que fora aquilo? Enquanto o motorista descia para averiguar, notou que o lugar ao seu lado, onde antes havia uma velha senhora, era agora ocupado pelo mesmo jovem louro que a olhara antes com tanta persistência.   Ele sorriu e a cumprimentou:

 

- Muito prazer, meu nome é George. – o suave sotaque denunciava a sua origem estrangeira, apesar da fluência.

- Como vai? – Elisa preferiu não dar muito espaço para intimidade a um desconhecido.

- Estou indo para Alta Serra, e você?

- Eu também.  – admitiu ela relutante.

- O que terá acontecido com o ônibus? Vou descer para descobrir.  Espere aqui, não vá a lugar algum agora que a encontrei.

 

Ele arrematou o galanteio com um sorriso.  Era muito jovial e charmoso, mas nunca se sabia com quem se estava lidando, lembrou-se Elisa.  Após alguns minutos ele retornou:

 

- Melhor sair.  Não foi possível descobrir o defeito no ônibus e o motorista vai pedir socorro pelo rádio.

- Estamos perto da cidade, mas em um trecho bem pouco movimentado da estrada.  Vai demorar. – Elisa imaginava a longa espera que os aguardava se não conseguissem outro meio de transporte.

- Você já tinha vindo pra cá antes? – O estranho tentava obter mais algumas informações. Resolvida a manter-se reticente sobre si mesma, Elisa respondeu de forma vaga, sem ser indelicada:

- Conheço bem a região.   Vamos descer?

- Quer ajuda com suas malas? - Ele se ofereceu gentil. - Só tenho minha mochila pra levar.

- Pode deixar, também não tenho muita bagagem.

 

Foram descendo juntamente com os outros passageiros para aguardar do lado de fora.  O sol se aproximava do meio-dia e o ar estava abafado, mesmo naquela região mais fresca pela proximidade da Mata Atlântica.  O reboque não demoraria, mas como fariam para seguir viagem? Eram poucos passageiros, mas seria improvável conseguirem outra condução rapidamente naquela área isolada.  Mesmo carros particulares não eram tão freqüentes naquele trecho. Elisa resolveu sentar-se à sombra de uma árvore enquanto aguardava o desenrolar dos acontecimentos, analisando mentalmente as possibilidades disponíveis para chegar em casa.

 

O jovem viking, que agora sabia chamar-se George, parou a uma distância razoável conversando com outro passageiro, sempre com um meio sorriso e sem tirar os olhos dela. A seguir, desvencilhou-se rapidamente do companheiro de viagem e sentou-se ao seu lado. Elisa resolveu-se a não mais evitá-lo. Afinal era solteira, adulta e desimpedida e retribuiu sua aproximação sorrindo de volta.   Ele vestia roupas bem alternativas, parecendo um tipo meio aventureiro.  De onde viria?  Como se ouvisse seus pensamentos ele respondeu:

 

- Sou argentino de nascimento, mas moro no Brasil há muitos anos.  

- Dá para perceber, apesar de restar bem pouco sotaque.

- Você fala espanhol? – perguntou ele.

- Não tão bem como você fala o português.

- Amo seu país e esse foi meu principal estímulo para aprender.

 

Ele devia ser apenas um pouco mais velho do que ela, talvez uns vinte e cinco anos.   Mas seu ar despreocupado o fazia parecer mais jovem.  Uma vez que ele estava indo para Alta Serra porque não se permitir conhecê-lo melhor?

 

- Onde vai se hospedar? – perguntou ela.

- Na Fazenda Inglesa. 

 

Este era o hotel de seus pais. Resolveu calar-se para não trair sua surpresa diante da coincidência. Haveria algo de destino neste contato?  Não era fatalista nem romântica, muito pelo contrário.  Mas apreciava a possibilidade de que existisse uma lógica invisível pairando sobre os encontros e desencontros humanos. Enquanto se distraía com estes pensamentos, Elisa viu surgir um carro ao longe na curva da estrada.  Ocorreu-lhe que talvez a solução mais rápida fosse pedir carona. Junto de alguém não haveria perigo. Resolveu propor a idéia a seu novo amigo estrangeiro.

 

- Não acha que deveríamos pedir uma carona? Provavelmente vamos esperar muito por outra condução. 

- Por que não? Vamos tentar com este.

 

O ônibus havia parado no acostamento no ângulo máximo da curva.  Portanto não havia como se posicionar para ser visto pelo carro que se aproximava a não ser colocando-se no meio da estrada estreita.  Foi o que fizeram, uma vez que a rodovia por seu próprio traçado não permitia uma velocidade muito alta a nenhum veículo. 

 

Elisa começou a sinalizar com os braços para que parassem. Entretanto o carro se aproximava sem fazer menção de reduzir a sua marcha acelerada.  Seria possível?  Nem que fosse apenas por curiosidade qualquer um dirigiria um pouco mais lentamente passando ao lado de um incidente na rodovia.  Mas não este motorista.

 

Elisa resolveu não arredar pé de onde estava.  George permaneceu ao seu lado, embora um tanto inseguro.  O carro foi se aproximando no mesmo ritmo em que surgira inicialmente.   E a jovem Srta. Bennet teimosamente postada em seu caminho.   A esta altura todos os olhares prestavam atenção ao que ia acontecer.  George pediu a Elisa para se afastar:

 

- Vamos, acho que não vão parar e você pode ser atropelada.

- Ninguém seria louco o suficiente para fazer isso, não acha? Pelo menos pedimos ajuda, se não quiserem nos dar carona.

 

O carro seguia seu percurso cada vez mais próximo do ponto onde estavam.  George a segurou com mais firmeza pelo braço.  Mas não foi necessário, pois uma freada brusca se fez ouvir a poucos metros de onde estavam.  Havia três pessoas dentro dele, mas apenas um homem bem alto e moreno com cara de poucos amigos saltou. 

 

- O que está havendo?

- O ônibus quebrou e estamos aguardando reboque.  – respondeu ela.

- E por que você está no meio da estrada ao invés de aguardar no acostamento? – A voz dele carregava um tom de surda irritação.

- Precisamos chegar a Alta Serra e outro ônibus vai demorar muito.  Poucos carros passam por aqui, seria possível nos dar carona? – Ela não simpatizara nem um pouco com as atitudes do estranho, mas não se deixaria intimidar.

- Não seguiremos para o mesmo caminho, meu amigo está machucado e preciso levá-lo ao posto médico. – Ele não se esforçava nem um pouco para não ser áspero.

 

Elisa espiou o carro disfarçadamente e havia dois lugares na cabine dupla do amplo utilitário, além das pessoas que o acompanhavam.

- Mas o posto médico fica bem perto de onde vamos. – insistiu. 

 

Se ele não queria ser amigável, mesmo assim tentaria conseguir a carona que a levaria para o banho demorado e a refeição bem caprichada que seu corpo cansado estava exigindo.

 

- Sinto muito, mas não é possível. Agora pode nos deixar passar?

 

A voz dele agora era pura animosidade. O que tinha contra ela se nunca a vira antes?  Elisa estendeu o olhar a sua volta em busca de ajuda, mas George se afastara desde que o estranho saltara do carro e conversava novamente com o motorista.  

 

Sem ter mais o que dizer e sentindo subir-lhe ao rosto um forte calor provocado pela ira momentânea diante da reação daquele homem grosseiro, Elisa afastou-se da estreita passagem entre o ônibus e a pista, sem dar uma palavra.  Do mesmo modo o estranho dirigiu-se ao seu carro e arrancou em maior velocidade do que antes.  Tomara que não o visse nunca mais, pensou ela.