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Namoro de Férias - Cap 03

Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Darcy não havia reparado direito no rosto dela, apenas ficaram retidos em sua memória uns olhos negros que cintilavam de ira.

 

- Nada disso – atalhou a irmã, Carolina.– Desde quando se deve dar carona a desconhecidos?  Guilherme está certo.  – Seu instinto feminino havia farejado uma ameaça do sexo oposto.

 

Que mulher teimosa, pensou Darcy.  O comportamento dela fora tipicamente provinciano, achar que ele, um completo desconhecido, tinha obrigação de levá-la.  Ainda mais com o amigo passando mal no carro. Embora sua contusão não parecesse grave, só saberiam da verdadeira extensão quando fossem a um médico.  Se é que haveria algum disponível naquele fim de mundo!  

 

Que droga, havia começado tão bem aquele dia e agora seu corpo formigava de tensão por causa daquela discussão.  Melhor tentar dar o assunto como encerrado e se concentrar no percurso que deveria completar para que Carlos fosse atendido o mais rápido possível.

 

***

 

Elisa, ainda ruminando a frustração de não conseguir ir para casa, sentou-se para aguardar outra possível carona ou a chegada do novo ônibus.  Aquele homem insuportável!  Os passageiros haviam parado para assistir à cena e agora voltavam a retirar suas bagagens para que o veículo fosse rebocado pelo guincho recém-chegado.

 

George aproximou-se de novo.  Por que se afastara quando o motorista saltou?  Teve a nítida impressão de que fora um ato deliberado, embora não entendesse bem a razão, mas decidiu não indagar nada a respeito. 

 

- Sem sucesso, não foi? Melhor esperarmos para ir com os outros.  As pessoas têm medo de dar caronas a estranhos, mesmo aqui.

- Na situação em que estamos não seria nada demais.  Mas não consegui convencê-lo, infelizmente.  – Novamente uma onda de contrariedade a tomou quando pensou no estranho.

- Vamos conversar enquanto isso. Pode ser mais interessante...

 

Novamente ele deu aquele sorriso arrasador, fazendo Elisa esquecer-se de sua atitude pouco cavalheiresca diante do desconhecido. Pouco tempo depois era como se o conhecesse há muito tempo.  Ele viajava o país fotografando e revelava um temperamento extrovertido, fazendo-a rir com suas tiradas engraçadas.  Ela decidiu contar-lhe que iam para o mesmo hotel, sem revelar seu parentesco com os proprietários.    

 

O novo coletivo chegou após uma longa espera, como previsto, e sentaram-se em poltronas contíguas para chegar a Alta Serra, prolongando a animada conversa. Elisa analisou-o detidamente. Tinha um porte muito elegante, esguio sem ser franzino e bastante alto.  Os cabelos louros e os olhos azuis provocavam forte contraste com a pele bronzeada de quem passava a maior parte do tempo ao ar livre.

 

Sentindo-se observado, ele retribuiu o olhar de Elisa de forma tão intensa que ela sentiu-se constrangida.  Ainda não se sentia a vontade para encorajar as expectativas de um homem que devia ter freqüentes e descompromissados relacionamentos onde quer que fosse. Esta não era a intenção de Elisa, especialmente com alguém que estaria tão próximo de sua família.   

 

Por outro lado passar algum tempo com um homem gentil e engraçado, além de bonito, não lhe faria mal, com certeza.   Talvez não devesse ser tão rigorosa em seus julgamentos.   Seria apenas uma atração física ou poderia evoluir para algo mais?  Resolveu esperar para ver o que aconteceria, sem desencorajá-lo abertamente. Distraída, nem percebeu que haviam chegado ao ponto final.

 

- Podemos ir juntos para o hotel? – perguntou ele.

- Vou ligar para alguém nos buscar.  Táxis são raros por aqui.

Ele descobriria logo que a pousada era de sua família.  Além desta só havia ali outro pequeno hotel e hospedagens em casas no estilo “cama e café”. Assim, decidiu antecipar a informação.

– Na verdade, o hotel é de meus pais.

– Melhor. – Ele não parecia surpreendido, curiosamente. –  Assim você não terá como fugir de mim.  – completou enquanto levava sua bagagem.

 

Seu pai viria buscá-la pessoalmente.  Ele amava e tratava a todas as filhas igualmente, mas não conseguia esconder sua predileção por Elisa, pelo muito que tinham em comum.  Sentiam um mesmo amor arraigado pela família, o que não lhes impedia uma visão realista e por vezes mordaz das qualidades e falhas de cada um. Além disso, ambos apreciavam sobremodo as leituras e as conversas inteligentes. 

 

Quando seu pai resolveu regressar a Alta Serra, a sua terra natal, Elisa era ainda bem pequena, mas se pudesse ter opinado, não seria diferente.  Esta decisão lhes proporcionara uma infância livre e saudável, diferentemente do que teria sido vivendo em uma metrópole.  Ainda pensando no assunto, lembrou-se do homem que encontrara na estrada.  As pessoas se tornavam muito estressadas pelas pressões das grandes cidades e não eram capazes de conceber um estilo de vida mais tranqüilo, onde não fosse preciso correr tanto o tempo todo e a gentileza e a confiança no outro ainda fossem a regra, não a exceção. A irritação esquecida aflorou novamente na forma de uma pontada no estômago vazio. Finalmente seu pai despontou no pequeno largo onde estavam.

 

Feitas as apresentações, Tomás Bennet abraçou a filha demoradamente e subiram no carro para chegar à Fazenda Inglesa, que ficava a uma razoável distância. No caminho conversaram animadamente sobre as novidades que Elisa trazia de sua estadia fora de casa, observados por George com expressão pensativa e curiosa.