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Namoro de Férias - Cap 05

Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Mas com que cuidado prepararam tudo, desde o cardápio a ser servido passando pela música e pela ornamentação.  A Srª. Lucas parecia onipresente em todos os cantos da casa verificando cada detalhe.  A simplicidade das flores de campo combinadas a belas orquídeas brancas compunha um arranjo muito original para a ampla sala onde o sacerdote celebraria a cerimônia. Seu marido a auxiliava solicitamente nos preparativos.

 

Os convidados começavam a chegar, sendo que os primeiros foram os Bennet.  Apesar de ter chegado há alguns dias, Elisa ainda não conseguira matar as saudades o suficiente de sua grande amiga Charlotte, com quem ainda mantinha constante contato à distância.

 

Uma vez acomodados para a celebração, Ela observou três convidados desconhecidos sentados na última fileira, dois homens e uma mulher.  Um deles lhe pareceu vagamente familiar, mas não conseguiu identificar de onde. De qualquer modo não poderia encará-los por mais tempo sem chamar atenção e decidiu refrear sua curiosidade para mais tarde.

 

O sacerdote deu início à liturgia que foi breve e tocante.  Elisa não conseguiu deixar de se emocionar diante da afeição e fidelidade do casal após todo este tempo juntos. Seria ela mesma capaz de manter o mesmo tipo de ligação com alguém?  Os relacionamentos não pareciam mais ser feitos para durar como antes.  Tudo era muito rápido e descartável. Sentia-se fora de sua época neste particular.  Ainda acreditava ser possível um amor verdadeiro e duradouro, como era também o de seus pais.

 

Logo depois de servido o coquetel, a pista se encheu de convidados. Elisa adorava dançar e foi uma das primeiras a adentrar o espaço, arrastando consigo Charlotte e sua irmã. Um dos convidados desconhecidos da última fila olhava insistentemente para Joana.  Logo se levantou e convidou-a para dançar. Era atraente, de cabelos louros escuros e olhos claros e parecia conhecê-la, embora ligeiramente tímido ao abordá-la. Entretanto era um exímio dançarino e os dois não se desgrudaram mais depois disso. 

 

O homem moreno e a mulher que o acompanhavam observaram o casal à distância.   Elisa analisou detidamente a face masculina e recordou-se dos olhos frios que encontrara na estrada ao pedir carona.  Uma onda de decepção a inundou.  Que azar encontrá-lo de novo! Mesmo assim não ia permitir que isso estragasse a sua festa.

 

O homem que dançava com sua irmã parecia completamente diferente dele e as convidou para conhecerem sua irmã e o amigo, se juntando à mesma mesa.  Elisa considerou se a reconheceriam, mas não poderia se furtar ao chamado que lhe fora feito sem ser mal-educada.   E Charlotte havia se afastado para desempenhar suas funções de anfitriã, eliminando qualquer pretexto que pudesse invocar.

 

- Estes são Guilherme Darcy, meu amigo, e Carolina, minha irmã. Esta é Joana Bennet, a médica que nos atendeu no posto médico e sua irmã Elisa.

 

Ela conseguiu ler um olhar desdenhoso da parte dele em sua direção. Certamente se lembrava dela e não tinha prazer nisso. Após os cumprimentos de praxe, sentaram-se todos.   Era inevitável ter que se dirigir ao motorista grosseiro, porque Carlos e Joana estavam juntos do outro lado da mesa e Carolina, a irmã, parecia decidida a ignorá-la, conversando apenas com Joana.  Elisa então decidiu retribuir a frieza de Guilherme Darcy dedicando-lhe a maior cortesia possível:

 

- Acho que já nos conhecemos, não é mesmo?

- Na estrada. Há alguns dias. – ele respondeu laconicamente.

- Pelo visto seu amigo já está bem, não era nada tão grave.

Ele olhou para ela com os olhos azuis ainda mais frios e concordou com um monossílabo.

- Estão gostando de Alta Serra?

Novamente ele assentiu apenas com um gesto de cabeça e um murmúrio inaudível.  Ela queria ser gentil, mas não prosseguiria se humilhando ao tentar conversar com ele contra a vontade de ambos.  Resolveu voltar a dançar. Ainda assim faria uma última tentativa de diálogo.

- Acho que vou voltar à pista.  Gosta de dançar?

- Não quando posso evitar.

 

Essa era demais.  Ele fixou novamente nela os olhos azuis escuros e Elisa sentiu um arrepio. O homem era insuportavelmente atraente o que só piorava as coisas.  Levantou-se antes que ele a ofendesse novamente. Melhor manter distância daquele iceberg em forma humana. 

 

Quando voltou à pista encontrou-se com Charlotte e outros amigos formando um círculo animado.  Esqueceu-se do estranho para aproveitar a festa.  As músicas lentas se entremeavam às mais dançantes e ela foi convidada por um amigo de infância a dançar de rosto colado.  Ela podia ver que Carlos Bingley e Joana ainda dançavam juntos. Não faltavam pretendentes à Joana, mas ela ainda esperava alguém que fizesse seu coração bater realmente mais forte. Será que havia encontrado? Talvez sim pelo jeito como dançavam.

 

Concentrada no outro casal, ela não percebia um par de olhos azuis a encarando a poucos metros. Darcy dançava com Carolina Bingley e pensava consigo que a irmã da médica tinha olhos incríveis, apesar de ter se mostrado um tanto inconveniente mais uma vez.  Exceto Joana, a escolhida de Bingley, seria a única mulher com quem dançaria naquele lugar.  Mesmo assim, ela era apenas tolerável para o padrão de beleza das mulheres com quem costumava estar, pensou.

 

Não pudera recusar-se a dançar com Carolina.  Não porque não fosse atraente, o problema mais uma vez era alimentar falsas esperanças por parte dela. Darcy esperava a ocasião adequada para ser mais direto, mas este momento parecia não surgir.  Enquanto isso tentava ser polido sem se deixar envolver pelo clima romântico que a irmã de seu melhor amigo tentava criar.

 

Bingley, por sua vez, parecia estar muito feliz ao lado da sua parceira. Carlos tinha muita facilidade em se deixar envolver quando se tratava de mulheres. O amigo ultimamente se mostrara em busca de uma companhia feminina definitiva e não apenas de relacionamentos descompromissados como antes, se tornando inconscientemente um chamariz para jovens em busca de um marido.  

 

Deslizando pela pista, Elisa Benett entrou no seu campo de visão dançando com o outro parceiro mais uma vez.  Não eram apenas seus olhos, pensou Darcy, tinha um corpo magnífico apesar de não ser muito alta.  O vestido não muito comprido mostrava boa porção das suas pernas bem torneadas e os contornos curvilíneos de seu corpo.  Por um momento, desejou tê-la em seus braços.  Mas agora era tarde, eles haviam começado mal. Todavia, talvez fosse melhor assim, preferia sempre deter o controle da situação quando se relacionava com uma mulher e daria trabalho conseguir isto com ela pelo que percebera.

 

Quando todos se sentaram no intervalo entre as músicas, Carolina convidou Joana para passar o próximo fim de semana no Refúgio das Águas.  Elisa notou que ela convidara exclusivamente a irmã, parecendo querer evitar a sua presença, mas não se importou, afinal seria melhor encontrar-se o mínimo possível com Guilherme Darcy. E ainda seria mais fácil para os dois pombinhos que pareciam estar se entendendo tão bem ficarem mais à vontade.

 

Quando a música recomeçou levantou-se para dançar e ficou muito surpresa quando Darcy também se ergueu num impulso e segurou seu braço. Ele sequer dera uma palavra com ela e agora a acompanhava para dançar, sem pedir ou convidar.  Que indivíduo autoritário!  O que fazer? Mais uma vez decidiu evitar uma cena por causa da irmã. Chegando à pista, a música rápida foi trocada por uma mais lenta anunciada pelo locutor ao microfone. 


O que era ruim ficou ainda pior, pois deveria dançar não apenas com ele, mas junto dele, que passou suavemente suas mãos firmes pela sua cintura.  Elisa enlaçou seu pescoço e aproximaram-se. O que estava acontecendo com ela para que suas pernas fraquejassem?  Ele dançava bem e a guiou com habilidade pelo ritmo da canção, ainda sem falar nada.  Para não se sentir ainda mais perdida nos braços dele, Elisa resolveu dizer alguma coisa:

 

- Não conseguiu evitar dançar agora?

Ele sorriu pela primeira vez desde que o conhecera.  Deus, ele era muito bonito, pena que fosse tão insuportável.

- Você tem sempre uma frase na ponta da língua para cada situação? – replicou ele.

- Melhor assim, não acha? O diálogo é a base para qualquer relacionamento bem sucedido.

- Incluindo os que se referem ao sexo oposto?

- No momento não há ninguém com quem eu precise me preocupar quanto a isso. -  Ele flertava com ela e a idéia não lhe desagradou de todo. Quem sabe se houvessem se conhecido em outra situação pudesse ter gostado dele?

- Deve ser mesmo difícil encontrar alguém interessante vivendo em um lugar tão limitado, – Darcy respondeu.

 

O menosprezo demonstrado por ele fez o encantamento que começava a fluir esvair-se como fumaça.

- Depende de suas expectativas.  Pessoalmente não desejo conhecer nem me relacionar com pessoas prepotentes e mal-educadas, por exemplo. A civilidade é algo que ainda não saiu de moda em cidades pequenas.

 

Ele acusou o golpe e calou-se. Sua maldita língua! Quando estava nervoso falava o que pensava sem antes perguntar ao cérebro se devia fazê-lo. E a proximidade dela o estava deixando confuso. Seu perfume, seus olhos, o toque macio de sua pele o faziam sentir-se meio alto, embora houvesse bebido muito pouco aquela noite. 

 

- Desculpe se fui direto demais. – replicou um Darcy constrangido.

- Direto? Parece que é hábito seu ser sempre um pouco mais que isso.

Ela também estava tensa por sentir o corpo dele tão perto do seu.  Calaram-se e continuaram a dançar em silêncio.  

 

Outro olhar examinava atentamente o casal formado por eles com ar contrariado: Carolina não estava gostando nada do rumo que as coisas tomavam com Darcy.  Conhecia-o suficientemente bem para saber que era irresistivelmente sedutor quando queria.  Mas estava decidida a mobilizar a atenção dele, com intenções definitivas. Julgava-o uma opção perfeita para se casar, especialmente devido à sua condição financeira, ainda mais privilegiada que a sua própria. E examinando os fatos racionalmente considerava-se a mulher certa para ele. Não seria uma aventura que interferiria com seus planos. Esperaria o momento certo para defenestrar a rival. Por via das dúvida, seria melhor manter a irmã de Joana Bennet à distância.

 

A esta altura, Darcy e Elisa acabaram de dançar ainda silenciosos.  Ele retornou para a sua mesa e ela se dirigiu a um grupo de amigos que estava no outro extremo do local, aliviada por se despedir dele.