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Apenas um Beijo - Capítulo IV

Escrito por Rosana Ligado . Publicado em Apenas um Beijo

Capítulo 4

 

Um ano inteiro se passara. Mas uma tarde de Domingo do mês de agosto começava a se despedir. William estava sentado à sala da casa de seus pais, aproveitando o fim das férias de verão. Assim que mais um semestre universitário começasse em Setembro teria de voltar ao seu apartamento perto do campus em Cambridge.

Fizera planos de sair àquela noite com colegas do curso de Direito que moravam com os pais em Londres e não viajaram para fora do país nestas férias. Esperava se encontrar com uma garota com quem estava ficando também esta mesma noite. Combinara de apresentar alguns de seus amigos solteiros às amigas dela.

Conhecera Casey por acaso no começo daquele verão ao acompanhar seus pais em um jantar beneficente. Ela se apresentara a ele por iniciativa própria. Bonita, inteligente e extrovertida. Saíram cerca de três vezes antes de engatarem algo mais físico.

Ela era a primeira garota que despertara algum interesse nele desde abril. Mas William não tinha certeza se este relacionamento poderia evoluir para algo mais sério. E, por enquanto, preferia não pensar nisto.

Sua irmã atirou uma almofada em seu colo e deitou a cabeça sobre ela, esticando as pernas sobre o sofá. William fitou o topo da cabeça loura de Georgiana com uma careta. Com oito, prestes a fazer 9 anos, sua irmã estava ficando a cada dias mais folgada.

Seu pai entrou na sala e logo inquiriu sobre o que estavam assistindo. Sua irmã não demorou em informá-lo. E o seu pai dirigiu um olhar cheio de significados para William. Como se lhe perguntasse: “você está assistindo isto?”. William encolheu os ombros, como se replicasse: “eu não estava prestando atenção”.

E ergueu o olhar para a tela da televisão. Sua irmã estava assistindo a um de seus DVDs de filmes para garotas. Uma versão de A bela e a Fera mais atual, em que os personagens são interpretados por humanos e não desenho animado, chamado A Fera (Beastly).

Conhecendo bem a sua filha, o Sr. Darcy nem tentou convencê-la a mudar o filme. Estava preste a retornar ao seu escritório, quando a campainha soou. Ele então se dirigiu até a porta, ao mesmo tempo em que sua mãe surgia à sala com uma porção de pipoca quentinha.

Sua mãe depositou a vasilha de pipoca sobre e mesinha de centro da sala. William se desencostou do sofá e ergueu a mão até a vasilha de pipoca, pegando uma mão cheia e levando-a até a boca. Mas ficou paralisado no meio do caminho quando ouviu sua irmã exclamar.

--Lizzie! – Erguendo-se do sofá num pulo, batendo a cabeça na mão de William e espalhando pipoca para todo lado. – Lizzie! – Georgiana ignorou o que tinha feito e correu a saudar a recém-chegada com um abraço apertado. – Eu não sabia que você já tinha voltado.

--Cheguei de viagem há uma semana. – Ela respondeu.

William sentiu seu estômago revirar ao som de sua voz. Tinha os olhos vidrados nela e mal conseguia se mexer. Ela estava ainda mais bonita do que ele se lembrava. O cabelo estava mais longo, os olhos estavam mais brilhantes e o sorriso parecia ainda mais radiante.

--Como foi a sua viagem? – Seu pai perguntou, convidando-a a entrar e fechando a porta em seguida.

--Aproveitou sua estada em Roma e Grécia? – Sua mãe questionou.

--Aproveitei sim. – Elizabeth replicou.

E enquanto ela fazia um breve discurso sobre a sua viagem, discorrendo sobre os seus lugares preferidos, e entregava a cada membro de sua família uma lembrancinha que comprara para eles durante a sua viagem; William não conseguia fazer nada além de fitá-la.

Antes que qualquer um deles se desse conta, parecia que tinham voltado no tempo. À época em que eles ainda namoravam e Elizabeth vinha a sua casa nos fins de semana e era bem acolhida pelos seus pais e irmã.

William começou a se lembrar do inicio de tudo. Como em um dia qualquer se flagrou a admirá-la enquanto Elizabeth enrolava um cacho de cabelo entre os dedos distraidamente. E passou a observá-la com muito mais constância desde então, notando os seus diferentes olhares e sorrisos.

Lembrou-se de como passou a usar o trem por sua causa e despertou a suspeitas de seu primo, Richard, e amigo, Charles, por detrás de sua atitude. E de como fora Richard o primeiro a adivinhar o objeto de sua fascinação. A forma como ele usou aquele jogo de Verdade e Conseqüência para confirmar suas suspeitas.

Lembrou-se da reação dela diante da proposta de beijá-lo – a relutância em aceitar. O beijo. Ele podia quase sentir o gosto dos lábios dela em sua boca naquele instante, ao pegar-se a pensar naquele primeiro beijo.

E podia também se lembrar da fuga após o beijo. O motivo pelo qual se manteve distante dela na semana seguinte. Sabia que ela só o beijara por pressão de seus amigos e temia que o convidasse para o baile do Dia dos Namorados pelo mesmo motivo. Tinha certeza que as amigas dela estavam tentando convencê-la a convidá-lo, porque os seus próprios amigos não conseguiam falar de nenhuma outra coisa.

Sentindo o coração bater acelerado, pensou com carinho no momento em que ela veio ao seu encontro naquele corredor durante o baile. A surpresa e contentamento que sentiu quando pôde beijá-la pela segunda vez.

E como, por saber que gostava dela muito mais que ela gostava dele, fora sempre cauteloso ao revelar o quanto gostava dela e que direção esperava que o relacionamento deles tomasse.

Ela fora a primeira garota por quem realmente se apaixonara. Sua primeira mulher. A primeira pessoa fora de sua família para quem dissera as palavras eu te amo. E fora também a primeira pessoa a partir o seu coração.

Ele conhecia, letra por letra, do e-mail derradeiro que pusera fim em seu relacionamento.

De: Elizabeth (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Enviada: sábado, 09 de abril de 2011: 09:22:55

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Assunto: Nós

Eu nem sei como lhe dizer isto. Eu até consigo imaginar qual vai ser sua reação ao ler este e-mail. E o que você faria se estivéssemos tendo esta conversa cara a cara.  Pior! Eu sei que nós não teríamos esta conversa se estivéssemos frente a frente, se não estivéssemos longe um do outro.

Mas estamos e sei que é minha culpa. Eu escolhi fazer esta viagem e me separar de você. E sei que uma parte sua nunca vai entender porque eu tive de fazer isto. E lhe garanto que não teve nada a ver com você e tudo a ver comigo.

Enquanto você sabia exatamente o que queria em seu futuro, eu não fazia idéia quanto ao que queria no meu. Eu me sentia perdida e não sabia o que fazer. Então escolhi adiar o momento em que teria de fazer uma escolha o máximo possível.

Eu tive medo que esta viagem nos separasse. Eu sei que você sabe disso. E sei que você sentiu o mesmo, embora não demonstrasse para não me deixar triste. Eu sei disso por causa da promessa que você me fez.

E, no entanto, sou eu quem vai pôr um fim em nós dois.

Não pense que eu não te amo. Eu amo. Amo muito. Sei que nunca vou amar outro alguém como amo você.

Mas não posso mais fazer isto. Eu não agüento mais.

Eu passo a semana inteira conhecendo pessoas novas, lugares novos, fazendo coisas novas. Tentando forçar a minha mente a não pensar em você, a não desejar que você estivesse aqui comigo, a não me sentir sozinha e culpada. Mas sempre que leio um e-mail seu é assim que me sinto.

Meu coração explode de felicidade, eu sinto como se pudesse ouvir a sua voz ao ler as suas palavras. E eu fico radiante por alguns minutos, antes de começar a me sentir péssima de novo.

Tem dias que eu acordo tão deprimida que sequer tenho vontade de sair da cama. Quero só ficar deitada, esperando que os dias passem depressa e esta maldita viagem termine, para que eu possa voltar para casa. Para que eu possa te ver de novo.

E não posso continuar a agir assim. É errado. Eu não devia me sentir assim. Devia aproveitar esta oportunidade, tirar o maior proveito desta viagem e tentar amadurecer.

Por mais que eu te ame e queria acreditar que estamos destinados um para o outro, há uma parte de mim que diz que estou sendo ingênua. Que ninguém encontra o amor verdadeiro aos dezessete anos e que irei me arrepender se jogar esta oportunidade para o alto por sua causa.

Então, eu te peço. Não escreva mais para mim.

--Quais são os seus planos agora? – Seu pai perguntou a Elizabeth, arrancando-o de suas lembranças.

--Eu vou para a faculdade. Estudar História da Arte. – Elizabeth respondeu, confiante. – Eu conheci um professor do Curso de História da Arte quando estava na Grécia. Ele estava fazendo pesquisa para um livro que irá escrever e fez com que eu me encantasse pela matéria. Ele me disse que se eu ficasse interessada, para procurá-lo quando estivesse de volta a Inglaterra e ele me ajudaria com a admissão tardia na Universidade.

--Qual Universidade? – A sra. Darcy questionou.

--Cambridge. – Elizabeth respondeu, lançando um breve olhar na direção de William.

--É a mesma Universidade que William freqüenta. – Georgiana comentou; e, animada, questionou. – Isso significa que vocês vão reatar o namoro?

Elizabeth desviou o olhar do seu ao ouvir o comentário de sua irmã, corando profusamente. Enquanto William deixava sua mente vagar naquela exata direção. Chegando a se perguntar se ela aceitaria dividir o seu apartamento.

--Georgie, as coisas não são assim tão simples. – Sua mãe afirmou.

Ao ouvir isto, William recobrou o raciocínio. Ela havia terminado com ele; quem poderia lhe garantir que ela viera ali reatar o namoro?

--Por que não? – Sua irmã contestou. – É por causa da menina que Will está ficando? Eu sei que ele não gosta dela de verdade.

William empalideceu diante deste comentário.

--Este assunto não lhe diz respeito, mocinha. – Seu pai a recriminou, silenciando-a. – Vamos lá para dentro. Deixar que seu irmão e Lizzie conversarem em paz.

--Mas eu estou assistindo meu filme. – Georgiana reclamou, mal-criada.

--Eu não quero causar nenhum incômodo. – Elizabeth disse, constrangida.

--Nós vamos conversar lá no meu quarto. – William finalmente se pronunciou.

Guiou-a até o seu quarto, cuidando de sempre deixar espaço suficiente entre seus corpos. Evitando o contato físico. Assim que entraram, fechou a porta do quatro para ter alguma privacidade. O silêncio perdurou entre eles por alguns minutos, até que Elizabeth lhe estendeu o último pacote embrulhado para presente. Não era muito grande, mas era maior que uma caixa de sapato.

William levou o pacote para sua escrivaninha e, de pé, abriu-o. Encontrou em seu interior uma seqüência de miniaturas de monumentos históricos dos lugares a que ela tinha ido, em Roma e Grécia; cartões postais onde ela tinha escrito algumas frases, descrevendo curiosidades sobre os lugares ou suas sensações de quando estivera neles; e, por fim, um livro.

William retirou o livro da caixa e ao abri-lo, descobriu que se tratava de um diário de viagens. Logo na primeira folha havia uma fotografia dos dois juntos no saguão do aeroporto antes de ela embarcar no avião.

William se viu transportado para aquele momento. Jane tirara a foto dos dois e em seguida eles se despediram. Elizabeth o abraçou o mais apertado possível e sussurrou ao seu ouvido.

--Eu te amo. – Com um tom de voz choroso. – Eu queria ter lhe dito isto naquele dia, mas não disse. – E olhando-o nos olhos, repetiu. – Eu te amo. – Antes de beijá-lo uma última vez.

--Eu sei que não devia aparecer aqui deste jeito... sem avisar. – Elizabeth afirmou, nervosa, trazendo-o de volta ao presente. – Você quer que eu vá embora?

William fechou o diário e voltou-se de frente para ela.

--Não.

Elizabeth estava parada perto da sua cama. Os pés plantados no chão, as mãos dentro do bolso detrás da calça e estava tão agitada que o seu corpo todo tremia, embora ela não saísse do lugar.

William conhecia muito bem este estado de nervosismo de sua parte. Fora assim que ficara na noite em que lhe dissera que ia embora por um ano. Estavam voltando para casa dela e Elizabeth o deteve um pouco antes de alcançar o pequeno jardim enfrente a casa.

--Eu ainda tenho que te dizer uma coisa. – Ela disse, alarmando ainda mais William; imaginando que ela lhe informaria que estaria indo embora no dia seguinte.

--O que é? – Apressou-a, porque ela soltara sua mão e estava parada a sua frente, imóvel e, ao mesmo tempo, tremendo dos pés a cabeça.

--Eu quero que você seja o meu primeiro. – Sussurrou em resposta.

--O q-que? – William gaguejou.

--Você ouviu bem, Will. – Ela resmungou, fitando-o nos olhos desafiadoramente.

Ela estava deste mesmo jeito agora. Uma pilha de nervos.

--Você está namorando? – Elizabeth, enfim, perguntou-lhe.

--Não. – Ela não acreditou em sua resposta; pôde ler isto em seu olhar. – Não é nada sério. – William argumentou.

--Você está apaixonado? – A cada pergunta o tom da voz dela soava mais ansioso, embora Elizabeth parecesse lutar para não demonstrar.

William preferiu não responder.

--Qual é o nome dela? – Elizabeth não se deteve.

--Casey. – William respondeu.

--E você está apaixonado... por Casey? – Ela insistiu na pergunta.

--Não. – William respondeu, se sentindo desconfortável com aquela conversa.

--Não minta. – Elizabeth pediu; mas, para William, soou como uma acusação.

--Eu nunca menti para você, Lizzie. – William se defendeu, ficando irritado.

--E por que hesitou em responder quando eu lhe perguntei da primeira vez? – Elizabeth revidou, também se exaltando.

--Porque esta conversa é muito estranha. Eu nunca imaginei que um dia você ia aparecer na minha casa para me perguntar se estou apaixonado por outra pessoa. – Argumentou, defensivo.

Ela ia dizer alguma coisa, mas ele a interrompeu.

--Eu não estou apaixonado por ela. – Reafirmando as suas palavras.

--Mas você gosta dela. – Elizabeth afirmou.

--Gosto. – Murmurou em resposta.

Elizabeth fechou os olhos e mordeu o lábio inferior. Em seguida, aproximou-se da cama e se sentou. Mantendo a cabeça baixa.

William manteve a distância, observando-a sentada na sua cama. Na mesma cama em que eles dividiram um dos momentos mais puro, excitante e emotivo de sua vida até aquele momento.

Lembrou-se de tê-la em seus braços, nua, com a respiração entrecortada e coração lentamente voltando a bater normalmente. Ainda perdidos entre o mundo de sonhos e realidade.

Ouviu-a prender um soluço e chamou por ela.

--Lizzie, olhe para mim. – Quando ela ergueu a cabeça de seu peito e fitou-o nos olhos, William disse. – Eu te amo. Esta viagem não vai ser o nosso fim. Eu ainda vou estar aqui, esperando por você, quando você voltar. – Ela deixou uma lágrima escapar dos olhos e ele apressou-se a limpar, dizendo. – Eu prometo.

Ele pôde ouvir aquele mesmo som distinto, denunciando que ela estava tentando segurar o choro.  

--Você está chorando? – Perguntou, alarmado. Odiava vê-la deste jeito.

--Não! – Elizabeth exclamou, num soluço raivoso. E apressou-se a limpar a lágrima do rosto com uma das mãos, num gesto zangado.

William contornou a cama, parando a sua frente, inclinou-se em sua direção e segurou o seu rosto com ambas as mãos, forçando-a a erguer a cabeça e fitá-lo nos olhos. Sua boca comprimiu a dela em um beijo apaixonado muito ávido. Fazendo-a erguer-se da cama e abraçá-lo apertado.

--Eu te amo, sua boba. – Afirmou, tendo-a ainda em seus braços mesmo depois de interromperem o beijo.

--Ama? Ainda? – Ela quis saber, soando temerosa e aliviada ao mesmo tempo.

--Sempre. – Garantiu, antes de beijá-la uma segunda vez.

Fim.