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Namoro de Férias - Cap 06

Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Entretanto não era aconselhável aventurar-se sozinho, sob risco de perder-se. As trilhas eram sinalizadas, mas as visitas deviam ser a acompanhadas por  monitores ambientais, a maioria formada por moradores treinados para a função. Não poucos turistas haviam passado a noite ao relento por partirem sem guia.

 

Elisa fora monitora quando adolescente e conhecia muito bem cada caminho. Partiram da Fazenda Inglesa de carro e primeiramente dirigiram-se ao sistema de reservatórios implantados pelos ingleses quando da fundação da vila. O tanque de água no meio da mata antigamente abastecia as locomotivas e outras máquinas movidas a vapor. Grande parte da represa ainda funcionava para abastecimento da cidade.

 

 

Após algumas fotos seguiram para a Trilha do Segredo, meia hora de caminhada acima. No caminho observaram diversas espécies devidamente registradas pela câmera de George, que aparentava estar tão impressionado com a natureza a sua volta como estava com sua ajudante.  Por vezes amparava a sua mão em alguma subida mais íngreme e eles se viam mais próximos ainda. Em um dado momento ele a levantou e aproximou de si o suficiente para beijá-la.  Elisa permaneceu nesta posição por alguns instantes, mas ao sentir o seu abraço, involuntariamente recordou-se do toque das mãos de Darcy quando dançaram na noite anterior. Um misto de ansiedade e irritação encheu sua mente diante do pensamento inconveniente e ela afastou-se de George desconcertada com sua própria reação.

 

George era uma companhia perfeita: gentil, enquanto Darcy era grosseiro; alegre, enquanto Darcy parecia ter nascido de mau-humor; e tinha os mesmos interesses que ela, enquanto Darcy era seu oposto. Em matéria de aparência, no entanto, era difícil se decidir, porque Darcy tinha uma beleza não convencional, com traços marcadamente masculinos talhados em pedra com um cinzel, enquanto George lembrava mais um lindo garoto travesso.

 

Por que pensava nisso? Havia acabado de conhecê-los e tanto um como o outro estavam fora de seu alcance, principalmente Guilherme Darcy. George passaria apenas algum tempo com eles e o mais provável é que depois de se despedirem nunca mais se vissem outra vez.  Convivendo com turistas há tanto tempo, ela tinha bastante experiência no assunto. Os visitantes chegavam e partiam, enquanto a família e os amigos, os que realmente contavam, permaneciam ao seu lado. 

 

Depois da trilha fizeram meia hora de caminhada para o Lago do Cristal, onde se formava um pequeno remanso vindo da nascente do Rio Grande.  Encerrariam ali a sessão de fotos e desceriam, deixando a subida ao topo da colina para o dia seguinte.  Agora o sol estava no meio do seu caminho para o meio-dia.  Fazia calor e Elisa tirou a camisa que vestia por cima da camiseta para amarrá-la à altura do cós da bermuda que usava.  Ambos trajavam calçados especiais para trekking.  George era bastante experiente neste tipo de incursão e não deu trabalho algum. A companhia de Elisa foi necessária apenas pelo conhecimento do terreno. Quando chegaram ao seu destino não resistiram a um banho no regato, brincando de jogar água fria um no outro como crianças. 

 

E foi assim que Darcy deparou com eles.  De onde ele havia surgido? Estaria os observando há muito tempo? Alta Serra era um lugar pequeno como seu pai havia comentado, mas era muita coincidência encontrá-lo por ali. Todavia lembrou-se que uma das trilhas do “Castelinho” dava diretamente naquele local.  Ele não estava sozinho, a irmã de Bingley, Carolina o acompanhava, assistindo a cena com um ar divertido e irônico.

 

O olhar de Darcy percorreu seu corpo e desta vez foi Elisa quem ficou embaraçada ao se dar conta da transparência de sua camiseta branca molhada.  Mesmo assim cruzou os braços e encarou-os desafiadoramente:

 

- Bom Dia! – cumprimentou.

Darcy não respondeu nada e parecia muito aborrecido.

 

- Subimos a trilha para tirar algumas fotos e estamos encerrando por aqui.  Amanhã vamos subir o restante da colina. – Ela não precisava explicar nada, mas preferiu fazê-lo antes que imaginassem outras coisas.

 

Darcy continuava calado. Encarava George inquisidoramente e Elisa teve a nítida impressão de que já se conheciam.  Wickham também parecia constrangido e não deu uma palavra. Ela resolveu se calar diante da situação inusitada e saiu da água começando a arrumar suas coisas.  Só neste momento, Darcy respondeu a seu cumprimento inicial despedindo-se para seguir outra trilha mais acima com Carolina, que continuava a sorrir, deliciada ao ver Elisa em apuros. Depois que eles partiram, Elisa resolveu esclarecer suas suspeitas a respeito de George e Darcy.

 

- George, você conhecia este homem?

- Sim, o conheço há muito tempo.  E não nos damos muito bem, se é que você percebeu.

- Impossível não notar.  Mas ele é mesmo uma pessoa muito difícil.  O que houve entre vocês?

 

- Nos conhecemos desde adolescentes, meu pai e o dele eram amigos antigos. Mas eles sempre foram ricos e nós não.  Quando meu pai morreu, o pai de Darcy ajudou a pagar minha faculdade e a me manter durante este período e lhe sou grato por isso.  Depois de me formar passamos a nos encontrar bem menos. Em uma certa época uma empresa do grupo de Darcy planejava implantar um resort em uma área preservada do litoral.  Por acaso fui chamado a fazer a reportagem sobre o assunto. Fui imparcial, denunciando as intenções ilegais de se construir em uma área protegida onde isso não poderia acontecer de forma alguma.  O registro da obra foi embargado e a empresa de Darcy perdeu muito dinheiro.  Ele não me perdoa por causa disso, achando que deveria mostrar minha gratidão a eles tomando seu partido.

 

- Pois eu faria a mesma coisa que você, George. 

- Por causa disso prefiro evitar ter contato com ele.  Uma grande coincidência nos encontrarmos por aqui.

- E por isso que você se afastou quando fui pedir carona.  Desculpe-me, julguei você mal.

- Não tem importância, eu é que devia ter esclarecido as coisas desde o início. Não quero nenhum mal-entendido entre nós, Elisa.

 

Ela tinha agora mais um motivo para antipatizar com Darcy. Ele realmente era o que parecia ser: arrogante e insensível. As primeiras impressões nem sempre estão erradas.