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Namoro de Férias - Cap 07

Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Era um tipo não muito alto, com olhos vivos e cabelos castanhos claros precocemente rareando nas têmporas. Estava em Alta Serra para fazer os primeiros levantamentos de um grande projeto para o grupo que representava. Que espécie de empreendimento seria este?  Elisa se arrepiava só de pensar em alguma iniciativa como a que Darcy tentara e fora impedida por George.

 

Collins não parava de olhar para ela à medida que discorria sobre como era solitária sua jornada pelo país a serviço da De Bourgh Incorporações.  Suas irmãs riram disfarçadamente das atenções que ele lhe dedicava, exceto Joana, sempre mais discreta. Sua mãe por outro lado parecia encantada com a presença do primo para conversar, enquanto seu pai apenas observava tudo divertido, aparteando um ou outro comentário.

 

Elisa resolveu interpelá-lo:

- Podemos saber exatamente o que se pretende fazer por aqui?

- Não posso dar detalhes, mesmo porque ainda estamos na fase preliminar. Mas será algo muito grande. O turismo em Alta Serra ainda está muito aquém de onde poderia ir, especialmente quando falamos em um público de alto poder aquisitivo. É preciso criar toda a infra-estrutura necessária e estabelecer as condições para o retorno dos investimentos.

 

Elisa desconfiou deste discurso. Preferia a cidade exatamente como estava, ou pelo menos crescendo sem que isto interferisse com a qualidade de vida que possuíam.  Mas era melhor não se angustiar por antecipação. 

 

Collins encorajado pela sua pergunta, passava agora a detalhar cada etapa a ser cumprida para que os seus esboços saíssem do papel, salientando os benefícios para a comunidade caso tudo corresse como esperado.  Mencionava inclusive a possibilidade de vir se estabelecer em Alta Serra após tudo concluído, pois desejava casar e constituir família.  Ao dizer isso, seus olhos se voltaram novamente lânguidos para Elisa, que reprimiu a vontade de rir diante de sua falta de sutileza.

                                                                                                                    

Ele não era seu tipo.  Nem tanto porque não fosse bonito.  Mas a forma ostensiva como dirigia seus olhos a ela, não percebendo suas reações, o tornava canhestro a seus olhos.   Ao mesmo tempo sentia por ele uma dose de compaixão.  Realmente devia estar se sentindo muito só.  Mas que não esperasse nada mais da parte dela, a não ser o respeito e a boa educação com que costumava tratar a todos.

 

Ao final do jantar combinou os detalhes do dia seguinte com George e resolveu dormir mais cedo para descansar.  Quando se deitou começou a repassar mentalmente os detalhes daquele dia, especialmente o encontro desastrado com Darcy no lago.   A imagem de seu olhar implacável não saía de sua cabeça. Depois do relato de Wickham ela entendera que não era por sua causa que ele se mostrara assim, como chegara a imaginar no início.

 

Mas porque não conseguia parar de pensar no assunto? Ele a atraía, precisava admitir, mas esta sensação se misturava a uma forte antipatia. Ainda mais depois de saber da questão entre George e ele, na qual estaria do lado do fotógrafo sem piscar os olhos.  Joana se deitou depois dela.  Desde crianças costumavam fazer confidências mútuas na hora de dormir.

 

- Então como vão as coisas com o príncipe do “Castelinho”?

- Só ficamos juntos naquela noite e não o vi mais. Mas confesso que ele é tudo que espero de um homem: bonito, educado, engraçado e simpático.

- Vai aceitar mesmo o convite para encontrar-se com ele no fim de semana?

- Por que não?

- Hmm... E o que teremos pela frente no futuro? – Elisa começou a rir e a cantarolar a Marcha Nupcial.

- Lizzy, foi-se o tempo em que os homens e as mulheres ansiavam por se casar.

- Sim, minha irmã. Mas a verdade é que a maioria acaba buscando um casamento, mais cedo ou mais tarde. Como nosso primo Collins, por exemplo.

- E que olhares ele deu pra você, Lizzy.  O pobre homem foi totalmente subjugado por seu charme.

Ambas riram juntas.

- E quanto a Guilherme Darcy? O que achou?  – perguntou Joana.

- Orgulhoso e mal-educado.

- O que ele fez?

Elisa passou a contar o incidente na estrada, os diálogos que travaram e a atitude dele em relação a George.

- É uma pena, vocês faziam um par bonito quando dançavam.

- Aposto que a irmã de Carlos não achou a mesma coisa.  Fez questão de não me convidar para o fim de semana. Mal sabe ela que me fez um grande favor.  Que fique com o Darcy e faça bom proveito!

- E você já conseguiu melhor companhia, não? – Joana respondeu em tom de brincadeira aludindo a George.

- Estamos nos conhecendo ainda. – Elisa colocou a mão debaixo do queixo e seu olhar se perdeu no vazio - Ele é uma pessoa muito interessante e temos muitas afinidades. Mas acho pouco provável que aconteça algo mais entre nós. Ele não é do tipo que procura relacionamentos mais sérios. E eu na verdade nem sei ao certo o que estou procurando, então vai ser difícil encontrar de qualquer modo.

- Sim, Srta. Bennet, estas férias estão começando bem. Agora vamos dormir que amanhã precisamos acordar bem cedo.

- Boa noite, Joana.

- Durma bem, minha irmã.

Dito isto, apagaram as luzes, exceto um pequeno abajur. Na penumbra Elisa ainda permaneceu um bom tempo acordada tentando afugentar de sua mente um par de olhos azuis zangados que teimava em não desaparecer, perturbando seu sono.