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Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo I

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

 Um Certo Orgulho e Preconceito

 

 

Tânia 

 

2008

 

 

Capítulo 1

Elizabeth Bennet - Lizzy, como gostava de ser chamada - terminaria a faculdade em duas semanas e estava apreensiva a respeito do seu futuro. Como iria se formar, não poderia mais trabalhar como estagiária no hotel Pemberley de Porto Alegre. E tinha dúvida de ser ou não efetivada em seu emprego se tornava mais angustiante a cada minuto. Provavelmente perderia seu emprego, o que seria uma lastima.

A cadeia Pemberley era uma enorme rede  hoteleira – com sedes espalhadas por todo Brasil e em alguns países da Europa. E certamente, tão cedo não encontraria uma oportunidade como esta.

- Ai, Charlote, estou tão nervosa! Meu estágio termina semana que vem e ninguém falou nada sobre o assunto comigo! Será que não poderei continuar aqui? E o que será de mim? Terei que começar do zero, e hoje está tudo tão difícil... – Lizzy suspirou resignada.

- Acalme-se, Lizzy. Tenho certeza que eles não vão querer perder o teu trabalho. Já notou que pouca gente que faz estágio aqui fica mais do que três meses?

- É verdade, mas isso pode não querer dizer nada... Ou será que quer? – mordiscou o cantinho dos lábios com nervosismo ao encarar a amiga.

Lizzy trabalhava como estagiária naquele hotel há quase um ano, o que era uma exceção, pois quase ninguém parava mais do que três meses. E muitos não chegavam a ficar nem um mês...

- Lizzy, com certeza eles estão satisfeitos com o teu trabalho. O que eles teriam para reclamar? Você sempre foi tão eficiente, amiga. – ela tocou no seu ombro, num gesto de solidariedade.

- Sim, eu sempre me esforcei.... Mas será que irão querer pagar mais do que pagam por ele? Hoje é tão fácil conseguir outro estagiário! É só estalar os dedos e vêm uns dez candidatos correndo! E um estagiário custa tão mais barato do que eu... – Lizzy não pode evitar um resmungo.

- Ai Lizzy, não faça drama! Você sabe que eles estão satisfeitos contigo, inclusive escutei a Sra. Austen nestes dias comentando algo sobre o assunto.

- Oh! É sério? Mas você não me falou nada... – inquieta, Lizzy mexia num cacho do cabelo castanho preso num rabo de cavalo firme.

- É que não consegui ouvir direito as palavras da conversa e não quis criar nenhuma falsa expectativa... Mas tenho quase certeza que eram coisas boas a teu respeito... Pelo menos, eu acho que eram.

- Ah! – Lizzy deu um sorriso de canto de boca, mas saber sobre isso não a convencia. Ficava mais nervosa a cada minuto.

- Agora Lizzy, vamos trabalhar.

E Charlote saiu para o seu setor, deixando Lizzy atarefada com suas funções e entretida com seus pensamentos.

 

Lizzy concluía a faculdade de hotelaria, deixando seus pais e suas irmãs muito orgulhosos. Não eram de uma família rica, e com cinco filhas, pagar a faculdade era algo que exigia muito esforço de todos e que trazia algumas dificuldades. Mas agora, com sua formatura, todos – até as inconseqüentes de suas irmãs mais novas - estavam extremamente orgulhosos e pareciam satisfeitos.

Sua mãe, a Sra Bennet, não disfarçava sua felicidade e dizia para quem quisesse ouvir:

- Oh, mais uma filha formada! Estou tão feliz! E trabalhando em um hotel Pemberley! Que felicidade! E esperta e inteligente como Lizzy é, logo será promovida para um daqueles lindos hotéis de Londres. Ou França! Já viu as fotos dos hotéis de Londres, Sr Bennet?

- Mesmo se eu quisesse não ver, não teria como, minha Senhora, com você esfregando as fotos toda hora debaixo do meu nariz – comentou com sarcasmo. O Humor irônico era uma das expressões mais marcantes do Sr. Bennet.

Lizzy riu com os comentários de seu pai, assim como suas irmãs.

- Mas mamãe, eu nem fui efetivada ainda, talvez essa seja a minha última semana – Lizzy replicou sem efeito.

- Oh! – exclamou a Sra. Bennet, totalmente horrorizada.

O Sr. Bennet falou:

- Com certeza estão tentando criar certo suspense, minha filha. – colocou o braço sobre o ombro da filha preferida - Eles não irão querer perder uma menina inteligente e esforçada como você.

- Oh, certamente, Sr. Bennet! – Sra. Bennet deu um suspiro aliviado, e então prosseguiu com suas exclamações exageradas: - França, Londres!

- Mas mamãe, a Elizabeth nem fala Francês! Como ela iria para lá? – Quem falou foi Jane, a irmã mais velha de Lizzy, e sua melhor amiga. As duas eram muito ligadas e extremamente próximas.

Lizzy riu com tal comentário, e então acrescentou:

- Deixe a mamãe sonhar acordada, se isto a faz feliz! – sorria.

Estavam presentes também suas outras irmãs: Mary, Kitty e Lídia. Kitty e Lídia, com 15 e 16 anos respectivamente, ainda concluíam o colégio. Mary tinha 18 anos, e começaria a faculdade de música no inicio do próximo ano. Já estavam em dezembro e logo estariam todas de férias. Todas exceto Jane, que trabalhava em uma pequena empresa de cosméticos e como recém contratada não teria direito a férias.

- Oh! Primeiro Jane formada em administração e agora Lizzy irá se formar também! Quanto orgulho para uma mãe! E com bons empregos logo arranjarão bons maridos!

- Mamãe! – Jane e Lizzy exclamaram em coro.

- Não adianta, minhas filhas. Sua mãe não terá sossego enquanto não vê-las casadas. – Falou o Sr. Bennet revirando os olhos.

- Também, com cinco filhas! Só posso querer vê-las bem arranjadas! Formadas e com bons maridos! Não posso desejar mais nada. Primeiro, Jane formada, agora Lizzy. E Mary começa na faculdade no ano que vem. Claro que música não é o curso que eu escolheria para a minha filha, preferia ter uma filha médica ou advogada, mas se é isso que ela quer. Ainda bem que tenho mais duas filhas que estão indecisas, quem sabe não serão uma médica e outra advogada?

- Ah mamãe, não faça pressão, senão sua rebelde filha Lídia fará exatamente o contrário – Lizzy argumentou, enquanto Lídia e Kitty riam.

- Eu nem sei se eu quero estudar! – Lídia replicou - Acho que na verdade quero pular esta etapa, e arranjar um rico marido para virar dondoca!

- Oh, minha filha! Nem fale uma coisa dessas. – contrapôs a Sra. Bennet - Se bem que um rico marido não seria uma má idéia!

- Mamãe! Não estimule a Lídia! – Lizzy replicou - Ela já é muito namoradeira, assim vai sair caçando um marido rico!

- Com certeza, Lídia não precisa de encorajamento para namorar. – o Sr. Bennet acrescentou - É uma menina muito tola, e nos faz passar por tolos com ela.

- Mas papai, você nunca deixa eu trazer meus namorados aqui para casa! – Lídia reclamou – Assim seria um namoro sério, apresentando para o meu pai!

- Nem os meus. Muito injusto papai! – Kitty também se juntou as reclamações.

- Sim, trazendo um por semana, eu certamente confundiria seus nomes, e as faria passar vergonha – Respondeu o Sr. Bennet, simulando seriedade, mas piscando com o canto do olho para Elizabeth.

- Um por semana, papai! Como você é injusto! Com o Jéferson eu namorei três meses! Três meses inteiros! – Lídia falou.

Suas irmãs só riam do assunto. Sempre a mesma discussão!

- Nossa, então vocês já eram quase casados, com três longos meses! - Lizzy interveio.

Todos riram, só Lídia que fazia uma careta, fingindo indignação, mas logo entrou no clima e riu também. E a Sra Bennet,     que parecia não ouvir nada, continuava:

- França, Londres! Com certeza vai arranjar um marido rico por lá! E não fala francês, mas aquelas horas gastas em cursos de inglês vão valer cada centavo!

- Ah mamãe... – Mas Lizzy, cansada do assunto, resolveu ignorar sua mãe.

E o jantar prosseguiu normalmente. Numa família com cinco mulheres, certamente nunca faltavam assuntos. E com tanta gente tagarelando ao mesmo tempo, era difícil se fazer ouvir. Era difícil de ouvir até mesmo seus próprios pensamentos. Por isso o Sr. Bennet vivia enclausurado no refúgio privado de seu escritório, onde encontrava paz e ficava longe de suas barulhentas filhas e esposa. Suas duas filhas mais velhas eram exceções. Tranqüilas e educadas, não eram muito espalhafatosas e apenas junto delas conseguia ter paz.

Lizzy, como em quase todos os dias, chegou ao hotel quinzes minutos adiantada. Ela nunca se atrasava e caso isso chegasse aos ouvidos da direção contaria em seu favor. Logo ao entrar, Élson, o recepcionista, a abordou:

- Lizzy, a Sra Austen quer falar com você. Pediu para eu te avisar que é para estar na sala dela às dez horas.

- Ah! – exclamou um tanto espantada, e automaticamente buscou as horas em seu relógio de pulso, percebendo os ponteiros imóveis. Como pode? Quando saiu de casa logo cedo, ele funcionava tão bem...

Élson, notando o que o ocorrido, ajudou:

- Agora são oito e quarenta e cinco.

- Pois é... Não sei o que aconteceu com esse relógio... – sacudiu o pulso, como se esse movimento fosse o que o relógio preguiçoso necessitava - Estava funcionando quando eu saí de casa... – resmungou ao ver que não tinha jeito.

- Tem um amigo meu que diz que quando os relógios estragam é sinal de boa sorte. – ele deu um leve sorriso à morena.

- Sério? Nunca ouvi falar nisso. – ela franziu a testa, um tanto confusa.

- Na verdade, é só esse amigo que diz isso. Que quando o relógio dele para, sempre acontecem coisas boas. E acredito que hoje não será uma exceção.

- Será? Ela tem algo bom para falar comigo?

Élson manteve o sorriso no rosto, como se dissesse: com certeza! Mas como ele era muito reservado, Lizzy deu de ombros, sabendo que não arrancaria nada mais dele, e em seguida pediu licença. Agora nervosa, saiu em busca de Charlotte, só que não a achou em lugar nenhum.

“Ai meu Deus, que ansiedade! E ainda falta uma hora para as dez! O que eu posso fazer para me ocupar? E nem acho Charlotte para me tranqüilizar com seus conselhos...”

Meia hora depois, Charlotte apareceu no setor de Lizzy e segurou nas mãos da amiga com um pouco de força excessiva. Lizzy percebeu que ela tremia, mas nada comentou.

- Já soube Lizzy?

- O que foi Charlotte?

- Fui promovida! Quer dizer, na verdade ainda não, mas quase...

- O que? Como assim? – Lizzy a olhou com assombro.

- Vão abrir novos hotéis, que já estão quase prontos. Um em Florianópolis, um em São Paulo e um em Minas. – ela soltou as mãos da Lizzy e passou a enumerar os hotéis com os dedos - E querem gente de confiança e com experiência para administrá-los.

- É?

- Sim, mas vou ter que ir para São Paulo passar por um treinamento, de três meses, e se eu for aprovada serei contratada! Para um cargo de gerência! Vou ganhar três vezes mais! Claro que vou ter que ficar longe da minha família, mas depois eles me transferirão para o hotel em Florianópolis, que não é tão longe daqui. E quem sabe com o tempo eu seja promovida de novo e volte para cá, não é? Ou me arranje por lá mesmo.

Charlotte falava muito depressa, o que deixou Lizzy mais atordoada.

- E o que será que ela quer comigo? – Charlotte a olhou, com um rosto interrogativo – Tenho reunião com ela às dez. – explicou e então observou o relógio verde da parede – E faltam só quinze minutos! Acho que tenho que ir, não é? Mas agora estou mais nervosa...

- Lizzy, que notícia boa! Será que você também será promovida e irá para São Paulo comigo? Isso seria maravilhoso!

- Mas Charlotte, eu ainda não sou nem funcionária deles! Imagina ser promovida! – ela sorriu meio nervosa.

- Oh! Mas fico tão feliz com a possibilidade que não posso parar de pensar nela. Agora vá Lizzy, e depressa! A Sra. Austen não gosta de atrasos!

E Lizzy saiu correndo, apressada, quase derrubando um homem que passava pelo corredor.

- Oh desculpe, estou atrasada. Na verdade, muito atrasada.  – E saiu correndo, sem olhar para trás, deixado atrás de si um homem estupefato, que ficou parado observando-a se afastar.

Acalmou-se para entrar na sala da Sra. Austen. Não seria uma boa impressão ela chegar assim, toda esbaforida. Respirou fundo, arrumou o cabelo como conseguiu e entrou.

- Oh! – a secretária da Sra. Austen, uma moça loira com o nome Ana bordado no terninho azul clarinho, gritou ao se virar e deparar com Lizzy. Automaticamente, levou a mão ao peito – Desculpa... Eu estava tão distraída que não a vi entrar. Mas você foi tão silenciosa, nem ouvi barulho... Na verdade, confesso que me assustei. – ela sorriu, o que fez Lizzy relaxar e sorrir também.

- Elizabeth Bennet, certo? Acho que ela vai se atrasar um pouco. Na verdade, ela nunca se atrasa, mas o dono dos hotéis esteve aqui, e acho que isto vai acabar atrasando um pouco a tua entrevista...

- O dono?

- Sim, ele mesmo. Deve ter cruzado com ele no corredor, ele acabou de sair.

- Oh! – Lizzy ficou vermelha, lembrando do homem, com quem havia esbarrado. Mas sequer tinha olhado para ele... E ele era o dono e seria futuro chefe , “Se deus quisesse, pensou”. Mas Ana não percebeu seu embaraço e continuou falando:

- No início eu estranhava a sua presença aqui, mas agora já me acostumei. Não viu ele mesmo?

Lizzy fez que não com a cabeça.

- Não, não o vi. – O que de fato não era uma mentira, pois não tinha olhado para o homem com o qual havia esbarrado. Não sabia se era velho ou novo, bonito ou feio, loiro ou moreno. Só tinha percebido que era alto, pois ela quase bateu em seu ombro.

- Sabe – Ana continuou – Apesar de serem 22 hotéis aqui no Brasil, com mais 3 em construção, ele sempre os supervisiona pessoalmente! E às vezes chega aqui sem avisar. No início eu levava um susto ao vê-lo, mas agora já me acostumei. Para ele é fácil viajar, para gente rica é tudo mais fácil. Ele tem seu próprio avião!

- Oh, ele deve ser muito rico! – Lizzy não disfarçou a careta, pensando: “e um velho e esnobe também!”

- Sim, muito rico! Mas é tão lindo! – Ana suspirou.

Lizzy pensou: “Então não deve ser tão velho, mas esnobe certamente é.”

- E os hotéis da Inglaterra e França, ele supervisiona pessoalmente também? – Lizzy perguntou, curiosa.

- Não, lá ele vai menos. Mas os visita às vezes também, quando ocorre algum problema maior.  Sua tia, Catherine de Bourgh, mora na Inglaterra e cuida dos negócios de lá.

Lizzy sabia que eram mais 15 hotéis na Inglaterra e 5 na França, mas não sabia dos detalhes sobre a família.

- Vou te falar uma coisa, mas não pode dizer que eu falei, está bem? – Ana falou quase cochichando e Lizzy fez que sim com a cabeça, o que fez com que Ana prosseguisse:

- Sua tia Catherine já veio aqui algumas vezes, e é uma nojenta. – ela fez uma careta - Trata todo mundo que não é rico muito mal. Tem que ver como ela fala comigo: Ana, me traz um café mais forte que este mais parece um chá! Ana, estaciona o meu carro, que eu deixei ele mal estacionado. Ana, preciso de uma escova de cabelo urgente, consegue uma para mim. Mas não pode ser qualquer uma, e dá mil detalhes de como quer uma escova de cabelo. Tudo isso para uma simples escova! Como ela me enlouquece! Mas eu não posso falar disso para ninguém, pois se a Sra. Austen me ouvir, posso perder meu emprego.

Lizzy ria divertida com os comentários de Ana.

- Sério!  Não pode contar isto para ninguém!

Lizzy novamente fez sinal afirmativo com a cabeça, achando muito engraçado o modo com que Ana se abria com ela. Não era nada discreta, e não sabia como se encaixava na função de secretária da Sra. Austen, um poço de seriedade e discrição.

- Sei o que está pensando, mas não sou sempre assim. Não sei explicar, contigo consigo falar tudo tão naturalmente! Sabe? Eu não me engano com as pessoas, minhas amigas costumam dizer que eu tenho um sexto sentido aguçado. E acho que eu posso te falar essas coisas. Acho que a Senhorita é uma pessoa de confiança.

- Ah, muito obrigada! Mas não precisa me chamar de senhorita, pode me chamar de Lizzy.

Ana deu um sorriso, e continuou:

- E tem mais uma coisa, Lizzy – sorriu - mas não sei se isso eu posso dizer, não sei não é muito atrevimento da minha parte. E também não sei o que você pensaria se eu te dissesse isso. Pode até me achar maluca.

- O que é? Fala! – Lizzy perguntou, curiosa, e riu – Pode falar, mas não prometo que não vou te achar maluca.

- É que algo me diz que você será muito importante para essa rede de hotéis. Ainda não consigo saber o porquê, em que sentido, mas eu sinto isso. E quando tenho esses pressentimentos, costumo acertar.

Lizzy olhou com surpresa:

- É Ana, te achei um pouco maluca sim. – e deu um sorriso – Mas como posso ser importante se ainda não sou nem funcionária efetiva?

- Ah, mas logo vai ser! Vai ser sim! Não sei o que a Sra. Austen quer contigo, mas deve ser algo bom. Com certeza!

Lizzy fez uma expressão de quem não acreditou que Ana não sabia realmente o assunto.

- É verdade Lizzy, não sei mesmo. Mas é coisa boa sim! Tenho certeza!

Nisso toca o telefone, e Ana atende. É a Sra. Austen dizendo que Lizzy pode entrar.

- Boa sorte Lizzy.

- Obrigada, Ana. Você é muito gentil.

E as duas se despendem e Lizzy entra na sala.

 

- Senhorita Elizabeth Bennet?

- Sim, sou eu.

- Queira se sentar, por favor. – A Sra. Austen olhava alguns papeis com anotações que estavam sobre a mesa. – Vejo que já faz um ano que trabalha conosco.

- Sim senhora.

- E se formará em hotelaria semana que vem.

- Sim, dia 21 de dezembro, senhora.

- É casada?

- Não.

- Filhos?

- Também não tenho.

- E pretende ter logo?

- Não senhora - Se nem namorado eu tenho, Elisabeth pensou.

- Hum, entendo. E tem algum motivo que a impediria de viajar?

- Não senhora, nenhum motivo.

- Porque a nossa rede possui 22 hotéis só no Brasil, e logo serão 25. Estamos ampliando o nosso quadro de funcionário e precisamos de gente para assumir cargos de confiança e de inteira responsabilidade. E por enquanto estamos muito satisfeitos com o seu trabalho. A senhorita mostrou-se eficiente, pontual, responsável e chegou aos meus ouvidos que é de confiança também, o que hoje em dia considero a característica mais importante para um funcionário.

Lizzy sorriu, satisfeita. Pensava sobre o que a Sra. Austen teria ouvido a seu respeito. “Provavelmente foi sobre o Bruno”, pensou. Bruno foi despedido, mas com razão. Vivia constantemente atrasado e tudo era motivo para faltas, abusava de atestados médicos e até odontológicos. Mas quando recebeu sua demissão, ficou indignado, e disse que processaria a rede de hotéis, alegando mil motivos. Incitou seus colegas a abrirem juntos um processo, que juntos ganhariam uma fortuna, que seu irmão era advogado, e não tinham como não ganhar. Seus argumentos foram tantos, que conseguiu por fim convencer dois colegas. Lizzy ficou indignada! “Mas como vocês vão fazer isso com quem deu oportunidade para vocês? Isso é um absurdo! Eles sempre foram justos com a gente, nos pagam direitinho, e é assim que vocês retribuem?” E brigou com todos, mas foi voto vencido.

“Com certeza chegou algo sobre esse assunto ao seu ouvido”- pensava Lizzy – “E hoje em dia, diante de tantas ações trabalhistas que as empresas enfrentam, isso é o que ela quer dizer com confiança. Que bom!”

- E estamos precisando de funcionários para as nossas novas sedes em Florianópolis, São Paulo e Minas. Teria alguma objeção em deixar sua cidade? Provavelmente a destinaremos para Florianópolis, por ser mais perto, mas isto ainda não está definido.

- Não, claro que não. Nenhuma objeção, senhora. – Lizzy de maneira nenhuma queria perder esta oportunidade. Hoje em dia estava tão difícil de arranjar emprego, e em uma rede de hotéis deste porte! Iria até pra China, se fosse necessário. E além do mais, nada a prendia em Porto Alegre. A não ser a falta que sentiria de sua família, mas isso não seria tão difícil de lidar.

- E daqui a três semanas iniciaremos um treinamento em São Paulo, inclusive já esta acertada a ida com alguns funcionários desta rede. Deixa eu ver – e pegou uns papeis sobre a mesa – a senhorita Charlotte Lucas já confirmou. E acho que só vocês duas, por enquanto. Isto se a senhorita aceitar também nossa proposta.

E continuou falando. Seria um treinamento de 3 meses, para um cargo de gerência. Se ela passasse no teste, e se mostrasse competente, ao final deste período seria transferida para uma das novas filiais. Isto é, se as obras não demorassem mais do que o previsto. Neste tempo, poderia ficar em um quarto do hotel, que dividiria com a Senhorita Lucas, sem custo, com café da manhã e almoço incluído.

“Isso que é o bom de trabalhar para um hotel”- Pensou Lizzy – “tudo incluído.”

- Claro que estas cortesias serão somente durante o treinamento, após a efetivação será cada um por si. E o salário maior compensará esses novos gastos. – Continuava a Sra Austen.

O salário era muito bom! – Lizzy sorria satisfeita.

-Então estamos combinadas? – Perguntou a Sra. Austen.

- Sim, tudo certo. Daqui a três semanas irei para São Paulo.- Lizzy estava radiante por dentro, mas aparentava tranqüilidade.

- E por enquanto já pode começar seu treinamento aqui mesmo.

- Sim, senhora Austen.

- Pode ir então. Depois combinaremos os detalhes.

E Lizzy saiu da sala. Passou por Ana e deu um sorriso:

- Você tinha razão! São boas noticias!

- Viu? Eu não disse? – e Ana sorriu de volta - Mas ainda estou pensando no outro assunto, sobre a sua importância para este hotel...

- Sua maluca! – disse feliz - Mas por enquanto estou satisfeita com sua previsões. Vou trabalhar! – E saiu da sala mandando um beijo para Ana com um aceno de mãos.