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Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo II

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

Capítulo 2

 

Lizzy se formou e já estava empregada. Era muito bom para acreditar.

- Viu minha filha? Eu não disse? Londres e França!

- Mamãe, mas eu vou para São Paulo! É no Brasil ainda! – Lizzy dizia sorrindo.

- Mas já está mais perto. – A Sra Bennet retrucou. - Não é Sr. Bennet que o vôos para Londres e França tem todos escalas em São Paulo?

- Minha querida senhora, Londres é uma cidade e França é um país. Não estaria querendo dizer Inglaterra e França?

- Ah Sr. Bennet, para que complicar tudo! – e saiu feliz espalhando a notícia para quem quisesse ouvir.

- Mamãe ainda me mata de vergonha! – Falou Lizzy.

- Não se preocupe, minha filha, que vergonha não mata. Eu em vinte anos de convívio ainda não morri! – E riram juntos o Sr. Bennet, Jane e Lizzy.

Os restos dos dias passaram muito rápidos, e quando viram já estava na hora de viajar. Lizzy e Charlotte foram juntas ao aeroporto. Junto com elas viajaria outra funcionária do hotel, a Dona Rosa, que era uma funcionaria mais antiga, já com seus 46 anos. Mas em Porto Alegre não havia disponibilidade de cargos para sua promoção, já os cargos de sua escolha não estavam vagos e seus ocupantes pareciam não querer sair tão cedo. Então esta viagem para ela seria também um bom negócio.

Dona Rosa estava viúva desde os 41 anos, seu marido morrera aos 50 anos devido a um infarto fulminante, e estava feliz por ir para São Paulo, já que sua única filha se mudara para lá ao casar.

A viagem transcorreu bem, apesar do medo horrível que Lizzy tinha de avião.

- Até que foi tranqüilo. Não sacudiu muito. – Lizzy estava traumatizada devido a um vôo que pegara durante o ano, com muita turbulência. Ouvia as aeromoças comentando: “estrada de terra”, e demorou pouco tempo para perceber seu significado.

- Tranqüila Lizzy? – observou Charlotte – Com este rosto mais pálido que um fantasma! E ainda achou a viagem tranqüila? Imagina se não tivesse achado então! – E riu da amiga, junto com Dona Rosa.

Chegaram ao aeroporto, dividiram um táxi e foram direto para o hotel. Charlotte e Lizzy dividiriam um quarto no primeiro andar, os quartos mais simples, mas muito aconchegantes. Já Dona Rosa ficaria na casa da filha, que era perto.

 

Lizzy já estava há uma semana no hotel, quando uma funcionária da recepção ficou doente.

- A Estela pegou uma pneumonia – disse o Alberto, o gerente do hotel que estava treinando Lizzy. – E não vai poder trabalhar. E olha que não deve ser pouca coisa, porque em dez anos a Estela nunca faltou. Se fosse só uma gripezinha, com certeza ela estaria aqui. Então acho que vamos ter que nos virar sem ela por um bom tempo. Mas tudo bem, Lizzy irá substituí-la. Nada melhor para supervisionar um serviço, se souber como fazê-lo bem.

- Tudo bem Alberto, eu acho que dou conta. – Lizzy respondeu.

- Mas não é tão simples como parece. As vezes aparecem imprevistos, e a gente tem que se virar em dez. E muita calma Lizzy, os clientes sempre tem razão! Nada de ser esquentadinha. Qualquer coisa, respira fundo e conte até dez!

- Claro Alberto.

Lizzy pensava que não haveria nada de difícil em trabalhar na recepção. O primeiro dia foi quarta-feira, e tudo transcorreu tranquilamente. Já quinta-feira, o movimento aumentou um pouco, e ocorreram alguns incidentes, mas Lizzy logo tirou tudo de letra.

No final da noite, Alberto chegou:

- Lizzy, amanhã você vai ter que fazer jornada dupla! Não vou poder te dispensar do treinamento, e muito menos do lugar da Estela. O hotel vai estar lotado! Tem um congresso aqui perto, e não temos mais nenhum quarto vago. Aliás, tivemos que negar vários pedidos de reserva! Não cabe mais ninguém! Ainda bem que o novo hotel será bem maior que este. Todos os 220 quartos estão ocupados! Acho que o novo com 600 quartos, não terá este problema, pelo menos não com tanta freqüência.

- 600 quartos?

- Sim, querida Lizzy. O novo aqui de São Paulo tem 600 quartos. Não sabia?  Por isso não posso te dispensar do treinamento hoje. Quero ver como a senhorita trabalha sob pressão. Se não se sair bem com um hotel de 220 quartos lotados, imagina com um de 600!

Lizzy deu um sorriso amarelo, tencionando esconder o medo que sentia.

- E outra coisa, a Estela não vai voltar tão cedo. Mas vou providenciar alguém para ficar no lugar dela, senão vai prejudicar teu treinamento.  Só que só consegui alguém para domingo, daí te darei folga. Agora vai descansar. Charlotte assumirá o teu lugar por hoje. E lembre: amanhã jornada dupla! Espero te encontrar aqui em baixo às oito horas em ponto, ou mais cedo. Os clientes começarão a chegar ainda nesta madrugada, pois o congresso inicia amanhã de tarde, e devemos nos preparar para muito trabalho.

- Sim, Alberto.

- Vá Elizabeth! Amanhã vai ser uma correria, vai dormir!

E Lizzy foi, mal sabendo o que a esperava...

 

Realmente foi uma correria pela manhã. Muita gente chegando, e Lizzy seguindo Alberto por todo o hotel, vendo como ele resolvia qualquer problema que ia surgindo. Lizzy conseguiu parar para almoçar faltando quinze minutos para as 14 horas, e as 14 deveria assumir o lugar de Estela na recepção.

“Com certeza de tarde já estará tudo mais calmo”, pensou Lizzy. Mas se enganara. Muita gente atrasada, chegando ao mesmo tempo, e querendo agilidade, já que estavam com pressa e sem tempo a perder. E Lizzy contou até dez diversas vezes.

“Nossa, a recepção é realmente muito difícil de se trabalhar. Bem que o Alberto falou, agora darei mais valor e saberei supervisionar melhor.”

E assim passou o dia todo na correria, só pelas 17 horas descansou um pouco. Mas às 19 horas o movimento voltou a toda, com pessoas voltando para os quartos, subindo correndo e logo saindo apressadas para jantar.

“Nossa, essa gente não para, e eu tenho que ser máquina para atendê-los rápido.”

Alberto foi embora às 20 horas, não sem antes passar pela recepção:

- Parabéns Lizzy! Passou no teste de hoje. Tirando algumas coisinhas para corrigir, digamos que foi muito bem para o seu primeiro dia de “full house”. – Esta era a expressão que o Alberto usava sempre que queria se referir ao hotel lotado.- Agora o pior já passou, verá que as próximas duas horas passarão rápidas, e logo poderá ir para o seu quarto descansar. E amanhã pode começar só as 10 horas.

Lizzy olhou para ele:

- Tem certeza?

- Claro! Daremos conta sem você. E esta parecendo um zumbi, precisa descansar!

E Alberto foi embora, deixando Lizzy sozinha para as próximas duas horas de trabalho. E como ele bem disse, passaram quase voando, até as 21:30.

Lizzy estava muito cansada, mas ainda tinha meia hora de trabalho, quando o incidente aconteceu.

Entrou um homem no hotel, e foi direto para a recepção. Olhou para todos os lados, como se procurasse alguém. Trazia uma pequena mala na mão.

- Onde está Estela? – perguntou a Lizzy, parecendo de mau humor.

- A Estela está doente, eu estou no lugar dela. O que seria para o Senhor?

- Hum... Você é nova aqui, não é? – e perguntou com uma cara séria, de poucos amigos - E o Paulo?

- O Paulo só chega as dez horas.

- Hum.... Ainda são nove e meia. Não posso esperar. Preciso de um quarto já.

Lizzy não sabia o que fazer diante daquela pessoa. Devia ser um cliente importante, para conhecer todos pelos nomes. Com um ar muito arrogante, com certeza costumava ter todas as suas vontades atendidas. E agora? O que fazer? Alberto já tinha ido embora, e ela estava sozinha. E se fosse um cliente importante? Não poderia perder! E justo ela que ainda estava em avaliação!

Lizzy consultou o computador, para ver o que poderia fazer. Olhou, olhou, e não havia nada disponível.

- Desculpe Senhor, não temos quarto disponível.

- Hum... – ele mal levantou os olhos para olhá-la – A Estela nunca me deixou sem um quarto, vai ter que fazer melhor que isto.

- Mas estamos lotados! Temos um congresso, e não temos quartos livres...

- Nem suíte presidencial? A Estela sempre deixa uma reserva para mim.

- Suíte presidencial? Tinha uma reservada em seu nome? Deixa eu ver.... _ Lizzy consultou o computador de novo – Desculpe Senhor, mas estão ocupadas, por três casais em lua de mel. Não tenho o que fazer.

Lizzy pensou: “esse petulante daqui a pouco vai querer desalojar os casais de lua de mel. Só me falta isto!”

Ele levantou os olhos para observá-la pela primeira vez. Lizzy já estava ficando nervosa.

- Vejo que seu crachá ainda não ficou pronto. Qual é o seu nome?

Ela já estava irritada e muito nervosa.

“Que criatura mais arrogante! Chega no meio da noite, com o hotel lotado e sem reserva e quer suíte presidencial! Ai Meu Deus, o que eu faço? E agora quer saber o meu nome. Com certeza vai reclamar de mim depois”

- Elizabeth, Elizabeth Bennet.

- E pelo sotaque é gaúcha. – era uma afirmação, não uma pergunta.

Lizzy mordeu o cantinho da boca, gesto que fazia quando estava nervosa, e fez que sim com a cabeça.

- Vai ter que melhorar este sotaque para trabalhar na recepção. – E deixando de olhá-la novamente, virando-se de costas, falou muito calmamente: - Estou cansado. Dê um jeito de me arranjar um quarto.

Sabia que ele não iria ir embora, e não iria desistir. Ela tinha que dar um jeito. Então teve uma idéia.

- Olha Senhor, o máximo que posso fazer é lhe arranjar um quarto no primeiro andar.

- Primeiro andar? Nunca fiquei no primeiro andar. Mas do jeito que estou cansado e louco para me deitar, serve este mesmo. Posso ir para o quarto?

Lizzy o fitou e respondeu:

- Não ainda, temos que ajeitá-lo para ficar ao seu gosto. – afirmou com um tom levemente irônico, que ele não percebeu.

- Entendo.  Então eu aguardo. Mas não demore.

Lizzy saiu para interfonar. Deveria liberar o quarto da Maria e da Beth. Elas estavam de folga e só voltariam domingo. Como era um quarto conjugado ao seu, era só tirar todas as coisas delas e colocar no seu quarto. Foi o que pediu para ser feito. E além disso, o quarto deveria ser limpo. Lizzy queria que estivesse impecável e com tudo do melhor, porque ele era com certeza um cliente que podia pagar bem e que gostaria de ser agradado. E assim, depois ele não poderia reclamar dela.

“Ele sabe o meu nome e é muito arrogante. Vou fazer o melhor que puder para não ter reclamação. Mas que homem irritante! Só porque é rico acha que pode chegar no meio da noite e exigir um quarto!”.

Nisto chega o Paulo, e vendo o homem aguardando perguntou:

- Elizabeth, o que está fazendo?

E Elizabeth explicou tudo, e disse que só tinha quarto vago no primeiro andar,

- No primeiro andar? Tem certeza? – Paulo parecia apavorado com a situação, o que reforçou a Lizzy a idéia que o homem era muito importante.

Paulo olhou o computador e ficou inconsolável ao perceber que realmente não havia o que fazer.

- Tudo bem Lizzy, vai dormir. Pode deixar que eu assumo daqui.

- Ai, obrigado Paulo. Meu dia foi tão cansativo, principalmente esta última hora – falou alto para que o cliente ouvisse, mas Paulo já saíra e não percebeu o que Lizzy dissera.

Como o quarto era do lado do seu, Lizzy pode observar toda a arrumação que foi feita. Ficou no corredor olhando incrédula a equipe que foi chamada para arrumar o quarto. Lençóis, roupão, tudo do melhor! Trouxeram bandejas de frutas, chocolate, uma cesta de produtos de higiene, e coisas que Lizzy nem imaginava que poderia haver num hotel.

E ficou atônica quando viu uma enorme Tv de plasma sendo trazida para o quarto.

“Nossa, ele deve ser importante mesmo. E com essa enorme Tv, o quarto vai parecer menor ainda!”

Enfim entrou em seu quarto, e se desinteressou pelo assunto. Mas não totalmente.

“Estou tão cansada, não vou perder o meu tempo pensado neste arrogante. Que nojo! O Alberto disse para eu contar até dez, mas acho que nem se eu contasse até mil adiantaria! E meu sotaque! Quem é ele para falar do meu sotaque? Tem que melhorar o seu sotaque! Que petulante! E pensar que ele vai ficar ali bem pertinho, separado por apenas aquela porta. Que raiva!”

O quarto era conjugado e apenas uma porta interna a separava do dela.

Então foi tomar banho e esqueceu um pouco do assunto.

Saindo do banho, o telefone tocou. Era Jane.

- Jane, que bom ouvir tua voz!

- Desculpa ligar tão tarde Lizzy, mas só agora vi tua ligação. Quer que eu te ligue mais tarde? Já está dormindo?

- Não Jane, nem deitei ainda. Acabei de sair do banho. Mas olha, tenho um assunto do teu interesse.

- Meu interesse? O que pode ser?

- Vai ter aqui em São Paulo um curso de hotelaria para formados em administração de empresas. Só duas semanas, Jane. Imagina se tu consegues um emprego comigo no hotel!

- Mas Lizzy, eu já tenho um emprego.

- Só que vive reclamando que ganha pouco, que a empresa é pequena e que não tem oportunidade de crescer.

- É verdade!

- Jane, pode ser uma oportunidade única! Vai ser aqui no anfiteatro do hotel mesmo. Eles vão poder te conhecer, e será impossível não gostarem de ti. E eu poderei te apresentar a todo mundo!

- Lizzy, vou pensar.

- Mas não tem muito para pensar, tenho que te inscrever até segunda.

- Que dia que é?

- Dia 28 de janeiro, por duas semanas.

- Muito em cima da hora Lizzy, não vou conseguir folga.

- É só adiantar as tuas férias, não vai ser difícil. Aliás, já está na hora de tu tirares umas férias mesmo. E pode ficar na casa dos nossos tios Gardiner. Não é muito perto, mas pode passar os dias comigo e só ir para casa deles a noite.

- Está bem, Lizzy, vou pensar. Mas me conta, como está tudo ai?

E Lizzy contou como foi seu dia, principalmente sobre o seu final de dia.

- Tinha que ver Jane, tão arrogante! Com um olhar tão superior! Parecia o dono do mundo. Controlei-me tanto para ser educada! Mas como foi difícil para mim.

- Se ele era bonito, Jane? Isso é pergunta que se faça! Claro que não percebi, estava com tanta raiva que nem reparei. Mas acho melhor eu falar mais baixo, pois ele está no quarto do lado, já pensou se ele me escuta?

- Charlotte? Charlotte foi numa festa, mas não quis me dizer com quem. Um mistério só! Mas acho que vai voltar tarde. Mas eu estou muito cansada para esperá-la, vou dormir logo. Boa noite Jane, manda um beijo para todos.

Depois desligou e foi deitar. Achou que demoraria para pegar no sono, mas o sono veio rápido. Estava tão cansada....