Imprimir

Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo III

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

Capítulo 3

 

Lizzy dormiu até as 6 da manhã, quando Charlotte chegou.

- Charlotte? Está chegando a esta hora? – E deu um bocejo e olhou o relógio.

- Lizzy, desculpa. Eu não queria te acordar. Desculpa mesmo! Mas estou atrasada, muito atrasada.

- Onde você passou a noite?

- Na casa no meu namorado, acabei dormindo por lá.

- Namorado, Charlotte? – Lizzy arregalou os olhos, sentando na cama – desde quando tu tens namorado?

- Ai, Lizzy. Longa história. Depois te conto, estou muito atrasada! Tenho que tomar banho e descer.

- Ok, mas não vai escapar de me contar mais tarde. E quero saber de tudo! Tu andas muito misteriosa!

Charlotte sorriu. Sabia que quando Lizzy queria alguma coisa era muito obstinada, e que mais cedo ou mais tarde teria que contar toda verdade.

Quando Charlotte saiu do banho, Lizzy já estava de pé.

- Lizzy, são 6 e meia da manhã! Para que levantar tão cedo na tua manhã de folga?

- Manhã de folga não: começo as 10.

- Sim, mas podia aproveitar para descansar.

- Mas Charlotte, sabe que gosto de acordar cedo...

Charlotte sabia. Lizzy tinha o estranho hábito de levantar cedo, junto com o nascer do sol, mesmo em domingos e feriados.

- Mesmo assim! Que amiga eu sou! Devia ter tomado mais cuidado para não te acordar.

- Não te preocupa, Charlotte. Eu vou aproveitar bem mais a minha manhã levantando cedo – Lizzy deu um beijo no rosto da amiga ao passar por ela.

- Charlotte, você esta horrível! Precisa de um bom café! Parece que nem dormiu! – debochou.

Charlotte riu do comentário da amiga, e saiu do quarto para trabalhar.

Lizzy ficou pensativa e intrigada: “Quem será o namorado de Charlotte? Só posso conhecê-lo, senão ela não estaria fazendo tanto mistério.“

Charlotte não era muito bonita, nem muito charmosa. Mesmo mais arrumada, não chamava muito atenção do sexo aposto. E quando estava com Lizzy, todas as atenções se voltavam para esta última. Lizzy nunca soube que Charlotte tivesse um namorado. Eram amigas há muitos anos e tanto uma quanto a outra nunca haviam namorado. Lizzy não por falta de oportunidade, mas nunca se interessara realmente por ninguém.

Lizzy tomou banho, se arrumou e desceu para tomar café aàs 7. Usava uma calca jeans e uma blusa de malha rosa. Mais folgadinha, mas que não deixava de revelar suas curvas.

“Está meio desbotada, mas acho que para tomar café e voltar para o quarto dá.”

Lizzy era uma pessoa simples, e só se produzia mais para ir a algum evento especial, como uma festa. Dificilmente ia ao cabeleireiro, tanto para fazer algo nos cabelos, como para fazer mão e pé. Ela mesmo se arrumava em casa, quando se arrumava.

- Lizzy, vai voltar para o quarto?

Lizzy virou-se. Era Dona Rosa que a chamava. Elas quase não se viam, pois ela trabalhava mais na organização da cozinha e do restaurante do hotel, controle e pedido de alimentos, estas coisas. E Lizzy só ia nestes locais para comer.

- Sim, precisa de alguma coisa?

- Sim Lizzy, se puder me fazer um favor, eu ficarei muito agradecida.

- Claro Dona Rosa, se estiver ao meu alcance.

- O Sr. Darcy pediu para levar o café dele no quarto, mas estamos com tanto serviço agora que fica difícil liberar alguma funcionária para ir. E ele não gosta de ficar esperando.

- Sr. Darcy? Quem?

- Creio que já o conheceu. Ele chegou ontem de noite e está no quarto do lado do seu. Sei que é pedir muito, mas já que está indo para lá, não poderia levar o café? Não posso deixá-lo esperando.

- Oh... Sim. Pode deixar que eu levo.

- Então aguarde um pouco, que está quase pronto.

Lizzy fez que sim com a cabeça, mordendo a pontinha do lábio e cruzando os braços nervosamente. O que menos queria no momento era encontrar novamente este homem. E levando café para ele no quarto! De certo pensaria que ela era uma empregadinha dele, e que estava a sua disposição. Que raiva! Como queria ter seguido os conselhos de Charlotte e ter ficado mais tempo na cama.

- Pronto Lizzy. Desculpa abusar assim de ti, mas é que está difícil conseguir liberar alguém mesmo, uma funcionaria ainda não chegou, atrasada como sempre, e temos muito o que fazer....

- Não se preocupa Dona Rosa, é um prazer ajudar a senhora.- mentiu

- E mais uma coisa, Lizzy, o Sr. Darcy não costuma levantar para abrir a porta. Mas bata antes, e só entre quando ele autorizar. Leve essa chave e entregue para o Sr. Jonas depois (o funcionário que fica na recepção pela manhã).

Lizzy saiu carregando a bandeja, levando a chave no bolso.

“Não gosta de esperar, não levanta para abrir a porta. Muito folgado! Acostumado a ter tudo a seus pés! Mas não espere muitos sorrisos por minha parte, estou fazendo isto de certa forma forçada. Com certeza valorizarei mais as funcionárias que fazem este serviço!”

Lizzy bateu na porta uma vez. Esperou, e como não obteve resposta, bateu novamente.

- Pode entrar. – ouviu enfim.

Entrou se equilibrando com a bandeja. De longe podia perceber-se que não tinha prática. O mais difícil foi abrir a porta com a bandeja, o que foi facilitado pelo fato da chave ser um cartão magnético.

- Pode colocar a bandeja nesta mesa – disse sem se dar o trabalho de levantar os olhos do jornal que lia.

“ Pelo menos ele não vai ver que sou eu”, pensou Lizzy.

Mas no caminho até a mesa, ela esbarrou em um par de sapatos, quase caindo, o que fez com que ele a olhasse.

- Ah, é você de novo? – parecia levemente espantando, mas logo se recompôs, demonstrando a mesma indiferença de sempre. – Esta é sua função também? Mas cadê seu uniforme?

Darcy a olhou dos pés a cabeça, e pareceu gostar do que via. Um arrepio percorreu o corpo de Lizzy ao perceber que estava sendo analisada.

- Na verdade não estou trabalhando ainda. Só começo as 10. Mas me pediram para trazer o teu café, já que estou no quarto ao lado.

- Entendo. – e deu um pequeno sorriso, quase imperceptível – Já havia percebido que era a senhorita que estava no quarto ao lado.

Lizzy estava colocando a bandeja na mesa e parou para olhá-lo. Franziu as sobrancelhas, como se perguntasse “ como assim?”. Como não obteve resposta, pegou a jarra de suco de laranja para colocar no copo.

- Não sabia que essa porta era tão fina – apontou para a porta interna que separava os dois quartos. – Dá para se ouvir tudo perfeitamente. Acho que devemos providenciar uma porta com algum isolamento acústico.

Terminou de falar com um sorriso meio irônico, fazendo com que ela percebesse que ouvira toda sua ligação com Jane. Lizzy, tomando consciência de tal fato, ficou nervosa e se desequilibrou, derrubando a jarra de suco que servia em cima dele e no chão.

- Oh, me Deus! Me desculpe!

E foi pegar uma toalha do banheiro para limpar.

O suco fez uma sujeira. Ele tirou o roupão que estava usando, que era branco e estava pintando de laranja, ficando só de calça e com uma camisa fina.

- Sua desastrada! Como sei que é nova, não reclamarei de você!

Lizzy olhou-o com raiva. E sem pensar no que fazia, começou a limpá-lo com a toalha. Primeiro os braços, e depois foi limpar seu peito. Pode perceber no meio da tensão como seu corpo era bonito. Darcy, irritado com tal contado, segurou firme no braço de Lizzy, apertando seu pulso, num movimento que acabou puxando-a para mais perto.

- Pode deixar que eu limpo!

- Oh... – Foi o único som que Lizzy conseguiu pronunciar. Aquele contato breve, meio brusco até, a havia deixado desnorteada. Seus olhos se encontraram e por um momento Lizzy se perdeu: “Que lindos olhos azuis, não tinha percebido!”

Mas logo se recompôs:

- Está me machucando. – Lizzy murmurou.

Darcy largou seu braço, e parecia não saber o que fazer. Levantou-se e foi para janela, evitando olhar para ela. Sempre que se sentia desconfortável com alguma coisa, tinha esse hábito de fingir olhar janelas para refletir.

- Pode sair agora, senhorita Elizabeth Bennet – fez questão de mostrar que lembrava de seu nome – e providencie alguém para limpar essa bagunça.

Lizzy saiu o mais rápido que pode, batendo a porta. Mas teve que voltar, pois esquecera a chave.

- O que foi agora? – ele falou irritado

- Esqueci a chave....

Ele a entregou e ela saiu correndo. Devolveu a chave para o Jonas e da forma mais discreta que pôde chamou alguém para limpar o quarto.

 

Lizzy voltou ao seu quarto.

“ Que bela manhã de folga! Mas ainda preciso arranjar algo pra me distrair até as dez horas, são recém sete e meia.”

Lizzy gostava de acordar mais cedo para caminhar. Mas logo descobriu que era algo arriscado para se fazer nas ruas de São Paulo, pelo menos perto do hotel. Com o trânsito da região, corria o risco de ser atropelada. E fora proibida de usar as esteiras da sala de ginástica, que eram exclusivas para os hospedes.

“ Nem gosto de esteira mesmo, qual é a graça de andar, andar e não sair do lugar?”

O que ela gostava era de ver as paisagens. Adorava o contato com a natureza. Assim que tivesse tempo, sairia para conhecer os parques de São Paulo. Mas na verdade, nunca tinha muito tempo.

Então resolveu ler um livro que havia comprado para ler nas horas livres, mas que ainda não tivera a oportunidade nem sequer de abrir. Lizzy adorava ler, e com certeza isto a forneceria distração suficiente até a hora de trabalhar.

Mas não conseguiu se concentrar! Pensar neste homem tão perto dela a tirava do sério! Que raiva! Como odiava pensar nele! Como odiava pensar que ele estava perto nele!  E como odiava pensar que ele ouvira seu telefonema com Jane!

“ E se ele resolver boicotar Jane no curso por ela ser minha irmã? Não, ele não seria capaz de uma coisa destas. Ou seria? “- pensou.

“ Que raiva! Esperei tanto por uma oportunidade para ler este livro e agora por causa deste homem não consigo me concentrar!”

Lizzy resolveu deixar o quarto. Enxergava um lindo jardim, mas pequeno e aconchegante, de sua janela. Como nunca via ninguém ali, resolveu descer para perguntar se era permitido para os funcionários.

- Jonas, sabe aquele jardim que eu vejo da minha janela?

- Sei Lizzy, o que tem ele?

- Sabe se posso me sentar ali para ler um livro?

- Ah sim, ali não é livre para os hóspedes, e quase ninguém usa. Na verdade usamos aquele espaço para cultivar temperos. Encontrará uma pequena horta ali. Mas se eu não me engano tem um banco perfeitamente confortável para ler um livro.

- Sim, eu o enxergo da minha janela. Como se chega lá?

E Jonas explicou.

- Lizzy, tem outra coisa, como às 14 horas assumirá novamente o lugar da Estela, tenho que te passar algumas informações extras. Soube que se virou muito bem ontem diante de um imprevisto noturno.

- Ah sim, fiz o possível.

- Sim, acho que teve uma boa idéia. Mesmo não sendo o quarto mais adequado para ele. Mas preciso te passar alguns dados. Este é um homem muito importante, como já deve ter percebido.

- Sim, percebi.

Jonas deu uma risadinha.

- Se ligarem atrás dele, recebemos ordens para dizer que ele não esta. Não esqueça, isto é muito importante. Não repasse as ligações e muito menos informe o número do quarto. Ele não está para ninguém, principalmente para a senhorita Caroline Bingley.

- Caroline quem?

- Caroline Bingley! Mas não me faça mais perguntas, Lizzy. Se quer continuar trabalhando neste hotel uma das primeiras lições a aprender é ser discreta. Não pergunte nada sobre a vida de ninguém e muito mesmo comente sobre o que sabe.

- Tudo bem Jonas, lembrarei disto.

- Tenho certeza que vai acabar descobrindo sozinha de quem se trata, mas da minha boca não vai ouvir nada – E Jonas fez com as mãos um gesto que significava boca fechada. E Lizzy repetiu o mesmo gesto e seguiu rindo para o jardim.

“Caroline Bingley! Então deve ser por isso que ele apareceu do nada no meio da noite. Deve ter brigado com a esposa. Ou melhor, deve ser namorada, por que senão seria chamada de Sra. Darcy. Mas não vou pensar mais nisso, vou ler meu livro e esquecer esse assunto”.

E sentou no banco do jardim para ler.

Neste local foi mais fácil se concentrar, já que se sentia tão bem entre a natureza. As horas passaram rápidas, e quando viu já estava na hora de ir para o quarto se arrumar. Nenhum imprevisto, apenas a sensação que alguém a observava, mas não viu ninguém.

O resto do dia passou tranqüilo, já se acostumara a rotina do hotel com movimento. Às 14 horas assumiu o lugar da Estela pela última vez, pelo menos assim esperava. Não viu Charlotte pela manhã, e teve a impressão que ela a evitava.

- Sr. Darcy! – ouviu Alberto chamando por ele, enquanto passava apressado.

Darcy caminhou em direção a Alberto.

- Desculpe Alberto, estou com pouco tempo, estou atrasado para uma reunião e tive que voltar aqui para pegar uns documentos que eu esqueci. O que você quer?

Lizzy estranhou que ele falava com Alberto de modo educado, e parecia ser bastante atencioso.

- É que vai liberar um quarto no quarto andar, e gostaria de saber se o senhor gostaria de ser transferido para lá.

- No quarto andar? Mas não é um quarto do tamanho do meu?

- Sim, mas é num andar mais reservado, e os quartos não são tão simples.

- O meu quarto simples?  Eu não tenho reclamações. Até que está bem confortável, exceto pelo tamanho. Vocês fizeram um bom trabalho. E aquele lindo jardim que vejo da minha janela, nunca pude observá-lo de nenhuma outra janela. E a vista é tão agradável que compensa o fato de eu estar no primeiro andar.

Darcy deu uma olhada de canto de olho para Lizzy, fazendo com que ela tivesse certeza de que fora mesmo observada. Lizzy corou, e virou-se de costas.

“Não sei por que me importo tanto. Se quer me olhar que me olhe. Mas por que isto tem que me afetar desta maneira? “- Lizzy pensou.

- Tudo bem Sr. Darcy, se assim deseja. Precisando de alguma coisa estamos as suas ordens.

- Obrigado Alberto, mas tenho que ir, pois já estou atrasado. Até mais senhorita Elizabeth.

Lizzy acenou com a cabeça, sem abrir a boca. Ainda estava corada e ele certamente percebera.

Pela 18 horas Lizzy avistou Charlotte de longe e a chamou.

- Charlotte, não te vejo mais! Tenho tanta coisa para te contar!

- Eu também Lizzy, mas estou numa correria. Nos falamos depois. Pena que tu sai tão tarde! Não conseguimos nem jantar juntas. Mas amanhã tu vai estar de folga e poderemos conversar.

- Mas e hoje de noite, Charlotte? Não podemos conversar hoje? Preciso falar contigo!

- Acredito que não, Lizzy. Creio que mal nos veremos. Vou jantar com meu namorado, ele vem me buscar às 21 horas.

- Ele vem te buscar? Então eu finalmente o conhecerei?

- Ainda não Lizzy. Não quero que o veja antes da gente conversar.- Charlotte abaixou a cabeça e olhou para o chão, como se estivesse com vergonha.

Lizzy olhou-a com uma cara interrogativa:

- Mas Charlotte, para que tanto mistério? Porque não me fala logo quem é o teu admirador secreto? Estou tão curiosa!

- Ai, Lizzy. É uma longa história. Mas não quero que o veja antes da gente conversar. Ele vai me esperar no carro.

- Ah....

- E não me espere de noite, não sei se voltarei para dormir.

- Está bem. Mas de qualquer forma não conseguiria te esperar mesmo se eu quisesse, porque vou para o quarto tão cansada...

- Eu imagino, Lizzy! Mas vou indo, tenho muito o que fazer!

E saiu apressada.

Lizzy passou o resto do dia atarefada, e quando viu já eram 22 horas. Paulo chegara, e ela pode sair da recepção. Antes de subir para o quarto, deu uma passadinha na cozinha. Sempre guardavam para ela algum sanduíche com as sobras do café da manhã.