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Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo IV

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

Capítulo 4

 

Lizzy tomou um banho, contente pela água quente que relaxaria seu corpo cansado. Colocou uma camisola e foi deitar, feliz da vida por poder descansar. Mas antes de dormir, resolveu ver televisão. Não ouviu nenhum ruído vindo ao quarto do lado e estava certa que o Sr. Darcy não estava ali, o que a deixou mais relaxada. Jane ainda não ligara dando uma resposta, decerto ainda estava indecisa e Lizzy não queria ligar de novo para não pressioná-la. Mas como precisava falar com alguém! Jane e Charlotte sempre foram suas confidentes, e ambas estavam fazendo falta.

- Ai Charlotte, preciso tanto de ti! Porque foi arranjar um namorado justo agora! – Mas logo afastou este pensamento, por considerá-lo extremamente egoísta. Deveria é estar contente pela amiga.

Lizzy estava quase adormecendo, quando escutou uma batida na porta. Se levantou, foi ver e não tinha ninguém.

-“Que estranho, de certo sonhei!”

Mas logo levou um susto ao ver a porta interna ser aberta e ao se deparar com ninguém menos que o Sr. Darcy!

Lizzy ficou branca, imóvel, pelo assombro que tal fato causou. Estava só com uma camisolinha preta, curta e de alçinha. Encolheu-se toda e correu para colocar um roupão. Mas este minuto foi suficiente para que ele reparasse em seu pequeno traje e a olhasse com admiração.

- Desculpa entrar assim de repente, é que ouvi a televisão ligada, e conclui que a senhorita estava no quarto e que ainda não dormia.

- Na verdade, estava quase dormindo – Lizzy respondeu meio de mau humor. Era muito atrevimento da parte dele invadir seu quarto assim no meio da noite. – Como você entrou aqui?

- Achei esta chave no meu quarto. – e mostrou a chave – e resolvi entrar, pois preciso da tua ajuda.

- Que tipo de ajuda? Suponho que seja algo muito urgente. Mas não estou trabalhando agora. Não há outra funcionária disponível?

- Não sei, nem pensei. Vi que a senhorita estava acordada, e já que sempre resolveu bem meus problemas resolvi vir aqui.

Lizzy fez uma careta para ele e não disfarçou seu mau humor. Mas vendo que ele não desistiria, resolveu ver qual era o grande problema. E nem acreditou quando constatou o motivo de tanta urgência.

- Olha! Minha tv está verde!

- Me tirou da cama por isso? Por acaso tenho com cara de técnica em eletrônica?

Lizzy estava furiosa, e não conseguiu disfarçar. “Conte até dez Lizzy, conte até dez. Ele é um cliente importante. Depois reclama de ti, e os problemas sempre estouram do lado mais fraco.”

Com muita raiva, pegou o telefone do quarto e pediu para trazerem uma televisão nova.

Darcy olhava para ela com surpresa. Ele estava acostumado a ter todas suas vontades prontamente atendidas. Todos sempre faziam questão de ajudá-lo. Também porque ele sabia recompensá-los bem depois.

- Viu? Podia ter feito isto o senhor mesmo. Não precisava de mim para pegar um telefone.

E saiu fechando a porta. Ele ficou parado olhando para ela.

Lizzy voltou:

- Não vou conseguir dormir sabendo que o senhor pode entrar no meu quarto a qualquer minuto. Pode me dar essas chaves?

Ele entregou as chaves, mas a seguiu até o outro quarto.

- Nossa, que bagunça!

- Sim, são as coisas das minhas colegas que o senhor desalojou para pegar esse quarto. Não temos armários suficientes para guardá-las.

- Ah, elas ficaram sem quarto?

- Sim, mas elas estão de folga e retornarão somente domingo.

- Então não vejo problema nenhum em desalojá-las, como a senhorita diz.

Ele deu uma olhada pelo quarto.

- Vejo que a sua televisão é pequena, mas funciona perfeitamente. – sentou na cama de Charlotte, pegou o controle e mudou de canal, colocando no programa que estava assistindo.- Acho que vou ver aqui até a minha televisão chegar.

Mas Lizzy não se agüentou:

- Pois muito bem! Pode assistir o que quiser, estou acostumada a dormir com barulho. – falou ironicamente, vendo que ele não iria embora.

Lizzy viu o que ele tanto queria assistir:

- O que tem de tão importante nisto? Não vou poder dormir por causa de um programa sobre cavalos?

- Ah sim! Eu adoro cavalos! São o tipo de lazer que mais aprecio. Nada melhor do que uma boa cavalgada para relaxar. – E virou para Lizzy, que estava sentada em sua cama, enquanto ele permanecia na de Charlotte – Nunca cavalga, senhorita Elizabeth?

- Não – respondeu sem vontade.

- Mas já andou de cavalo em algum momento de sua vida, não?

- Nunca.

- Mas isto é uma falha que precisa corrigir. Não sabe o que está perdendo!

- As minhas falhas não dizem respeito ao senhor.- falou, de modo mau criado. Já tinha esgotado toda sua paciência.

- Ah, vejo que minha televisão chegou! Boa noite senhorita Elizabeth, e desculpe por ter tomado seu tempo.

Saiu, mas voltou antes de Elizabeth fechar a porta:

- Também não vou ficar sossegado sabendo que a senhorita pode entrar em meu quarto a qualquer hora da noite. – deu um sorriso debochado.

- Pois fique despreocupado, que não tenho a menor intenção de entrar em seu quarto.

- Mesmo assim, hoje em dia não se pode confiar em ninguém.

- Acha que vou entrar no seu quarto no meio da noite para lhe roubar? Isso é um absurdo!

- Quem falou em roubo? Estava pensando em outra coisa. – E ele estava rindo. Achava surpreendentemente agradável irritá-la. Não estava acostumado com pessoas que o confrontassem e descobriu como isto lhe dava um imenso prazer.

Lizzy percebeu que ele a provocava e respondeu:

- É realmente algo que faz parte da minha rotina atacar homens no meio da noite. Vamos manter a porta fechada para que eu possa me controlar.

Ele sorriu para ela. Um sorriso de cumplicidade. Ela relaxou e sorriu de volta. Estava muito cansada para brigar. Enfim estavam se entendendo.

- Mas o que vamos fazer? – Lizzy perguntou.

- Me dê essas chaves para eu dar uma olhada.

Ela buscou as chaves que havia deixado em cima da cama, e lhe entregou. Ele as pegou, tocando levemente em sua mão. E esse pequeno toque foi suficiente para provocar um grande arrepio em Lizzy.

- Tem duas chaves, vamos dividi-las. Sabe como funcionam estas portas?

Lizzy fez que não com a cabeça, mordendo o canto da boca - um gesto que ultimamente fazia com maior freqüência.

- Se eu trancar pelo lado de dentro, do seu lado não dá para abrir. A gente só consegue abrir com os dois lados destrancados. Quer tentar? Vou fechar a porta, e você tenta abrir.

Lizzy tentou e a porta não abriu. Sorriu satisfeita. Mas logo ele tornou a abri-la e voltou para falar:

- Esqueci de lhe desejar boa noite. – Pegou a mão dela e beijou – Boa noite senhorita Elizabeth, e desculpe qualquer incômodo.

- Boa noite – ela respondeu, e ele voltou ao seu quarto. Mas ela continuou parada no mesmo lugar.  Sem reação, levou sua mão beijada ao rosto.

“Não vou lavá-la, pensou!” e riu de si mesma. “Até pareço um adolescente. Numa hora estou morrendo de raiva e basta um gesto de gentileza para que eu me derreter. Realmente, não estou me reconhecendo.” E deitou na cama, se cobrindo até a cabeça. Mas sem lavar a mão.

Lizzy ficou se virando na cama, mas não conseguia dormir. Estava muito agitada. Não conseguia parar de pensar nele. No quanto ele era bonito. Em seus lindos olhos azuis. Era realmente muito irritante, esnobe e petulante. Mas não podia negar que era lindo! E agora a idéia de invadir o seu quarto no meio da noite já não a repelia mais. Achou graça, afinal há quanto tempo não se interressava por alguém?

Depois de meia hora tentando inutilmente dormir, ouviu um telefone tocando no quarto ao lado e depois uma conversa:

- Tia? Com me achou aqui? – Darcy falava com espanto, pois tinha deixado bem claro que não queria ser incomodado. Mas se tratando de sua tia, isto não era inesperado. Sabia como ela poderia ser insistente e os meios que tinha para obter o que queria.

- Não. Amanhã é domingo, não irei trabalhar.

- Não! De forma alguma Caroline deve vir me ver! Ela não deve saber que eu estou aqui.

- O que? Ela já sabe e ficou de vir amanhã cedo?

- Não tia, não insista! Não dá mais. Já pedi para ela sair da minha casa, mas ela não desiste.

- Mas eu não sei como ela ainda tem esperanças! Eu já deixei bem claro que acabou.

- Acabou tia, não insista. Não a mande aqui sob hipótese alguma! Ela vai perder seu tempo, já que passarei o dia fora.

- Sim, já tenho planos. E não lhe direi aonde vou. Aliás, vou sair bem cedo e voltar bem tarde.

- É verdade! Não vou estar aqui. E se ela vier só irá perder seu tempo!

Darcy desligou irritado. Lizzy ouvira tudo sentada na cama de olhos arregalados. Demorou apenas um minuto e ouviu uma batida na porta. Desta vez, dirigiu-se à porta certa.  Já sabia quem era, mas não o que ele queria. E estava curiosa. Mas não se deu o trabalho de vestir o roupão, abrindo só de camisola. “Se eu vou ficar constrangida, com certeza ele ficara também “ – pensou, e riu consigo mesma.

- Oi? Ãh... _ ele ficou meio atordoado ao reparar que ela estava só com aquela pequena peça de roupa, e logo desviou o olhar - Ainda não dormiu? Desculpa te incomodar novamente, mas resolvi arriscar. Desta vez bati bem baixinho, e se já estivesse dormindo não me ouviria.

- Tudo bem, ainda não consegui pegar no sono. – falou, disfarçando um bocejo. – O que você quer? A Tv estragou de novo?

- Não, na verdade, é algo bem diferente.

Lizzy o fitou, levantando as sobrancelhas, com cara de sono.

- Sei que amanhã é o teu dia de folga. Já tem planos?

Pega de surpresa, não pode mentir:

- Não. – não tinha nada mesmo para fazer. E estava desanimada, sabendo que ficaria sozinha. Provavelmente Charlotte ficaria com seu misterioso namorado. Planejara passar o dia com sua tia, mas ela já tinha um compromisso.

- Então gostaria de levá-la para um passeio. Vou ensiná-la a andar a cavalo. E não aceito um não como resposta, porque é inaceitável o fato de nunca ter cavalgado.

- Hum.... – estava muito cansada para pensar em qualquer desculpa, e mesmo não querendo ir, não parecia uma má idéia. Adorava animais.

- Certo então? Consegue acordar cedo? Mas bem cedo? Podemos nos encontrar 6 e meia lá no restaurante?

- Hum... Até parece que está fugindo de alguém – falou debochando.

- Sim, e realmente estou. E você com certeza sabe de quem.  Pois se estava acordada, deve ter ouvido minha conversa.

Lizzy deu um leve sorriso, confirmando que realmente escutara.

- Então não se atrase, hein?

Ia sair do quarto, mas voltou:

- Sério Lizzy, por favor não se atrase.

- Lizzy?

- Sim, vi que todos a chamam desta forma. Posso chamá-la assim também?

- Pode. E eu continuo o chamando de Sr. Darcy?

- Não. Já que vamos fazer um passeio juntos, precisamos de um tratamento menos formal. Pode me chamar de William.

- William? Não sei me acostumarei, mas vou tentar. – Lizzy achou que o nome não combinava com ele.

- Boa noite Lizzy, e obrigado. Por tudo.

- Boa noite.... William.

E ele saiu satisfeito com seus novos planos. E gostou do som de seu nome pronunciado pelos lábios dela.

Ambos estavam felizes, e adormeceram rapidamente, cheios de expectativas para o outro dia.