Imprimir

Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo V

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

Capítulo 5

 

Lizzy acordou antes das 6 e foi tomar banho. Sempre que podia lavava os cabelos ao levantar, hábito lhe dava maior disposição para enfrentar o dia.

“O que devo levar? Não perguntei para onde vamos. Aliás, não faço a menor idéia do que devo usar. “- pensava no banheiro.

Decidiu por fim colocar uma calça preta de malha, uma blusa cor verde água sem mangas bem leve, um casaco fino de linha da cor creme, e um par de tênis. Estavam no verão, e esquentava muito durante o dia, mas mesmo assim achou melhor vestir uma calça comprida, pois ficaria mais protegida no caso de uma queda.

Passou um baton do tipo gloss nos lábios, e um lápis de olho preto. Não costumava se pintar, mas resolveu abrir uma e exceção. Colocou na bolsa um pouco de maquiagem.

“O casaco é só para agora cedo e à tardinha, pois não sei que horas iremos voltar”- pensou .

Olhou-se no espelho e gostou do resultado.

“Será que levo mais alguma coisa? Se vou andar a cavalo, com certeza ficarei no sol. E com esse calor, vou precisar de outro banho.”

Não sabia se teria um chuveiro disponível, mas resolveu levar roupas para esse caso. Pegou um vestido rosa florido, de um tecido fino apropriado para a estação, e umas sandálias baixas que combinavam com o casaco.

“Será que só levo isso? E se voltarmos tarde e ele quiser jantar em algum lugar? Ai, meu Deus, devia ter perguntado melhor sobre seus planos.”

Resolveu colocar um vestido preto na bolsa. Era frente única, com alguns detalhes bordados. Simples, mas que garantia um bom resultado. E umas sandálias para combinar. Era melhor ir preparada, iria passar vergonha se não tivesse o que vestir.

“Ah, e protetor solar também. Não tenho tido tempo de tomar sol, e com essa minha cor branca posso facilmente me queimar”

Antes de descer, resolveu escrever um bilhete para Charlotte. Acabou não falando para ela que iria sair. Quando decidiu tal passeio era muito tarde para telefonar e neste momento era cedo demais.

Pegou um papel e uma caneta, e ficou pensando o que escreveria. Enfim escreveu:

“Querida Charlotte,

Resolvi fazer um passeio de última hora. Ontem quando planejei tal evento já era muito tarde para te ligar.  E agora são 6 da manhã e já estou quase de saída. Como vê, tenho desculpas para não te avisar. Vou levar meu celular, mas como não sei aonde irei, não sei se terei sinal.

Isso mesmo Charlotte: não sei aonde irei, e nem a que horas volto. Sei que ficará surpresa, mas não te direi através deste quem será minha companhia. Certamente ficará muito curiosa, mas não mais do que eu estou por sua causa.

Querida amiga, eu disse que precisava falar contigo! Precisamos conversar com urgência!

Se a Jane ligar para dizer sua resposta, pegue o recado para mim. Seria tão bom se minha querida irmã fizesse o curso! Tente convencê-la caso a resposta seja não.

Procurarei me divertir, mas ainda não sei o que me espera. Tente se divertir também, afinal estamos merecendo uma folginha!

Beijos,

Lizzy.”

E desceu ao restaurante. Terminou seu café, e como não vi nem sinal do Sr. Darcy, foi na recepção falar com Jonas.

- Jonas, se o Alberto me procurar, vou sair e não sei a que horas volto. Hoje estou de folga! – sorriu - E se alguém da minha família ligar, se puder, anote o recado para mim. Mas se for Jane, faça com que ela fale com Charlotte, caso ela esteja no hotel.

- Sim, Lizzy. Pode deixar. – e virou para falar com outra pessoa que vinha em direção a recepção – Sr. Darcy! Precisa de alguma coisa?

- Não Jonas, está tudo certo. – e se voltando para Lizzy, falando mais baixo – Desculpa, não pude tomar café, me atrasei e acabei comendo umas frutas no quarto. Está pronta?

Jonas percebeu o que ocorria e se afastou, deixando os dois a vontade.

- Sim. Só estava te esperando.

- Esqueci de te avisar para levar uma roupa de banho.

- Um biquíni? Mas não vamos andar de cavalo?

- Sim, vamos andar de cavalo também.

- Ah, mas para onde vamos?

- Isso é segredo, mas acho que você vai gostar.

Lizzy olhou para ele e disse:

- Tudo bem. Vou confiar em você. Só espere um pouco, que eu tenho que voltar ao quarto. Não sabia que iria precisar de um biquíni.

E Lizzy subiu correndo para o quarto pelas escadas. Era só um andar e o elevador demorava muito.

“Um biquíni? Vou pegar o mais discreto que tiver, não me agrada muito a idéia de ficar de biquíni na frente dele. E vou pegar um vestido de praia também, e se possível não o tirarei.”

Estava saindo quando lembrou de pegar um chinelo. Teve dificuldades de colocar em sua bolsa. Mas com um pouco de organização conseguiu fazer com que tudo coubesse.

- Vamos? Vai levar só isso ai? – perguntou olhando o que ela carregava.

- Sim, porque o espanto?

- Nada. Só estranhei.

“Provavelmente sua namorada é daquelas que levam mil coisas para passar um dia. Cheia de frescura!”- Lizzy pensou.

Ele saiu do hotel, e ela o seguiu. Entraram numa Mercedez preta onde o motorista já os aguardava. Lizzy foi olhando o caminho pela janela e estranhou quando eles pararam em frente de um prédio.

- É aqui que nós vamos? – perguntou, como se dissesse: “como assim?”

Ele sorriu e disse:

- Tenha calma. É uma surpresa.

- Não gosto de surpresas. – ela retrucou - Tenho medo de surpresas.

Ele deu risada.

- Não se preocupe, acho que você vai gostar desta.

- Será?

Entraram e o porteiro do prédio já os aguardava.

- Está tudo pronto, Sr. Darcy. Vocês já estão sendo aguardados.

- Ótimo! Muito obrigada, Telmo.

Lizzy surpreendeu-se. Ele tratava todo mundo pelo primeiro nome. Devia ter uma boa memória, e afinal não parecia tão arrogante quanto o julgara no início.

Pegaram o elevador e pararam no último andar.

-Pronta para a surpresa?

- Não sei.

E a porta abriu e ela levou um choque ao se deparar com nada mesmo do que um helicóptero!

- Eu não vou andar nisto. – Deu um passo para trás.

- Ah! Quer dizer então que é medrosa? Parecia tão segura de si, acreditei que não tivesse medo de nada.

Lizzy fez uma cara de braba e disse:

- Não tenho medo. – e bufando de raiva entrou no helicóptero. – Mas poderia ter me poupado deste susto!

- Calma Lizzy, não fique braba. – ele sentou a sua esquerda, pegou sua mão e a beijou – desculpe por não ter avisado.

- Na verdade – ela virou-se para ele, soltando a mão – acho que se tivesse avisado eu não viria.

- Eu imaginei que isto pudesse acontecer.

- E por isso ficou bem quietinho, não é?

- Sim, não quis arriscar. Para não correr o risco de perder sua companhia.

O helicóptero decolou, e Lizzy ficou em pânico, encostada dura como uma pedra em seu banco.

- Colocou o cinto? – ele perguntou

- Sim – mas quase não saiu som de sua boca.

- Não se preocupe, daqui a pouco você se acostuma.

- Mas sacode mais do que avião!

Ele riu, e pegou um jornal para ler. Estava acostumado a voar. E ela relaxou um pouco ao perceber sua tranqüilidade. Começou a reparar na bonita vista da janela. Às vezes perguntava alguma coisa sobre o que via, e ele largava o jornal para olhar e respondia o que era.

Depois de um tempo, o piloto olhou para eles e falou:

- Agora vamos passar por dentro de uma nuvem. Vai sacudir um pouquinho.

Ele resolveu avisar, pois percebera o medo de Lizzy. Na verdade, achara divertida a situação.

- Oh? Um pouquinho mesmo? – Mas não precisou ouvir a resposta, já que o helicóptero começou a balançar muito.

Lizzy voltou a encostar-se no banco. Estava pálida como nunca. E num impulso, agarrou com a mão esquerda o braço de Darcy.

- Tudo bem Lizzy, pode apertar o meu braço bem forte, se isso te faz se sentir melhor.

- Ai, desculpa. – E diminuiu um pouco a força, mas não o largou.

Ele então colocou o jornal de lado, e segurou sua mão com a mão esquerda que estava livre. Olhou nos olhos dela:

- Já vai passar – ele disse, tentando tranqüilizá-la.

Depois de um tempo, ele resolveu retomar sua leitura, mas não largou a mão de Lizzy. Apenas trocou de mão, para deixar seu outro braço livre.

O helicóptero parou de sacudir e Lizzy aos poucos foi se acalmando, e voltou a se distrair olhando pela janela. Mas eles continuaram de mãos dadas.

Agora ela sorria de vez em quando.

- Olha que lindo estes campos do seu lado da janela! – e praticamente se jogou em cima dele para olhar. Acabaram soltando as mãos.

- Ah sim, já estamos perto.

- Mesmo? – Quis saber. Parecia uma criança feliz com tantas novidades. – Olha só que lindo! Adoro ver tanto verde!

- Ah, então certamente irá gostar do local para onde vamos.

- É mesmo? Que bom!

E não teve mais medo em nenhum momento até o pouso. Estava contente.

 

Desceram do helicóptero, e Lizzy percebeu que um casal de idosos os aguardava. Caminharam em direção a eles, e a mulher falou:

- Espero que tenham feito uma boa viagem.

- Sim, excelente – Darcy respondeu.

- Oi, muito prazer! Sou Lizzy! – Lizzy estendeu a mão para cumprimentá-los.  O casal pareceu surpreso com tal demonstração, mas corresponderam o gesto com grande simpatia.

- Está tudo pronto, Sr. Darcy. Conforme o senhor nos pediu – falou o homem.

- Os cavalos estão preparados?

- Sim. Só estávamos aguardando sua chegada.

Lizzy dirigiu-se a mulher:

- Onde posso colocar minhas coisas? E gostaria muito de me arrumar.

- Ah sim, pode vir comigo.

Lizzy seguiu-a e entraram na casa. Era uma casa de estilo rústico, muito bem decorada com móveis antigos, mas de ótima qualidade. Era grande, e parecia ter mais de dez quartos.

- Que casa linda! E enorme! Devem receber muita gente aqui.

- Até que não. O Sr Darcy, por exemplo, não nos visita há 8 meses.

- 8 meses? Como pode ficar tanto tempo sem vir a um lugar tão bonito?

- Também não entendo. Mas ele trabalha muito desde que seu pai faleceu. Acredito que não tenha muito tempo livre desde então.

- Ah, sim! – Lizzy fingiu conhecer o assunto, mas na verdade ignorava todos os detalhes sobre a vida dele.

- Pode vestir-se neste quarto, senhorita,

- Lizzy, pode me chamar de Lizzy.

A mulher olhou-a com certo espanto, estranhando sua simplicidade.

- Como quiser, Lizzy.

- E a senhora, qual é o seu nome?

- É Lourdes.  Qualquer coisa, é só me pedir – E ia saindo, quando Lizzy chamou-a:

- Olha só... Ele me mandou trazer um biquíni, mas não sei se devo colocá-lo agora. Acho que eu devo? Porque eu não sei bem o que vamos fazer, e não conheço esse lugar...

- Ah... Acho que sim. Deve sim. Se ele for te levar para seu local preferido, com certeza vai precisar de uma roupa de banho.

Lizzy sorriu aliviada:

- Obrigada pela dica! Agora vou me vestir.

Lourdes saiu satisfeita. “Que simpática! Tão diferente de Caroline! “ Conhecia Darcy desde criança, e nunca percebeu seu interesse por nenhuma mulher. Nem por Caroline. Aliás, não entendia como eles eram namorados. Ele tratava todos tão bem, e ela tão antipática! E decidiu observar Darcy e Lizzy. “Ele nunca leva ninguém ao lago. Se a levar, é porque ela é especial” - pensou.

Lizzy colocou o biquíni embaixo da roupa e pôs protetor solar. Pegou uma sacola para levar o seu vestido e chinelos, e não esqueceu do protetor solar e óculos de sol.

 

Darcy já a esperava com certa impaciência, parecia nervoso. Estava de calça comprida também, e trajava uma camisa de linho branca e botas de montaria.

Conversava ainda com o senhor que os recebera.

- Vamos? – ele disse.

E foram os três caminhando até o local onde estavam os cavalos.

- Separei estes dois para vocês, o seu preferido e essa égua branca. Como ela é a mais mancinha, achei que seria a mais adequada. – E perguntou para Lizzy: - nunca montou mesmo?

- Não.

- Ah, mas com certeza terá um ótimo professor. E vai se surpreender ao ver como é fácil! Bom, vou deixá-los sozinhos, pois tenho muito o que fazer.

O cavalo de Darcy era dourado e reluzia ao sol. Tinha três das quatro patas brancas e era muito bonito. Lizzy achou que devia ser caro, mas não entendia de cavalos. Ele era maior e mais forte do que a égua e trazia nas costas uma cesta, que Lizzy ficou curiosa para saber o que continha. Mas não perguntou. De qualquer forma, sabia que ele não diria.

- Quem são eles? São um casal tão adorável! – Lizzy indagou

- São os caseiros. Lourdes e João. Eles moram aqui e coordenam este lugar.

- Mas dão conta de tudo isso sozinhos?

- Não, claro que não – ele riu – Um lugar deste precisa de muita gente. Mas só eles moram na casa.

- Ah... Mas a quem pertence este lugar? Não é seu, né? – perguntou duvidando do fato. Achava que ele era muito novo para ser tão rico, pois não aparentava ter mais do que 30 anos.

- Não, claro que não – ele mentiu – É da minha família.

- Ah... – e foi observar sua égua – Que égua linda! Posso tocar nela?

- Mas é claro!

Lizzy se aproximou e acariciou a cabeça do animal.

- Oi cavalinha! – falou – Com é o seu nome?

Darcy deu uma risada e disse:

- Cavalinha? Se eu não tivesse ouvido chamá-la de égua antes, começaria a duvidar de sua inteligência! – zombou.

Ela olhou para ele e riu. Ele estava encantado com seu jeito. Tão espontânea! Tão diferente das pessoas com que ele convivia. As vezes enxergava nela uma menina, as vezes via uma grande mulher. E tal contradição o fascinava.

- O nome dela é Primavera.

- Ah, ela tem cara de Primavera mesmo. Mas você não tem cara de William! – comentário que o fez rir.

Ele logo começou a dar algumas dicas de montaria e a ajudou a subir no cavalo.

- Vamos primeiro andar devagar, para você pegar o ritmo. E se de início não conseguir conduzi-la, sua égua seguira naturalmente o meu cavalo.

Mas ela aprendeu rápido, e logo já cavalgava mais veloz do que ele.

- Não vá tão rápido! Assim não poderemos apreciar a vista.

- Sim, tem razão. Que lugar bonito! Estou tão feliz!

Ele não disse nada, mas também estava feliz.

 

E assim cavalgaram por quase trinta minutos, sem pressa. Cruzaram com algumas vacas, que pastavam tranquilamente, e Lizzy se encantou ao ver um bezerro. Na maior parte do caminho passaram por um campo aberto, de um lindo verde. Havia algumas árvores ao fundo, e podia perceber montanhas mais longe. Alguns pássaros voavam sobre eles.

Lizzy enxergou um lago, que foi se tornando maior na medida em que se aproximavam. Era longo, e ela não conseguia ver o fim.

“Ah, por isso o biquíni! E nada mais agradável do que nadar com esse calor!” – pensou.

Há dias fazia calor, mas este estava excepcionalmente quente. Pararam na única árvore que havia, desceram, e Darcy amarrou os cavalos nela.

- Que engraçado! Uma árvore sozinha, no meio do nada! – Lizzy observou.

- Ah, sim. Eu mesmo a plantei.

- É?

- Sim. Costumava vir aqui sempre com meu pai, e como não tínhamos onde amarrar os cavalos, era sempre uma dificuldade para encontrá-los depois. Então decidi eu mesmo plantar uma arvore.

- E fez um bom trabalho.

- Sim, depois de três tentativas. Todas morriam, mas por fim me indicaram uma mais adequada ao clima – e olhava satisfeito para sua árvore.

- Ela deve lhe trazer boas recordações.

- Na verdade não.... ela demorou para crescer, e quando estava com um tamanho apropriado meu pai adoeceu e eu quase não vim mais aqui.

- Ah.... – Lizzy achou o fato triste, mas gostaria de saber mais sobre sua vida. – E sua mãe?

- Minha mãe morreu quando minha irmã nasceu.

- Oh! E quando foi isto? – Lizzy não conseguia imaginar sua vida sem seus pais. Sua mãe às vezes a enlouquecia, mas não saberia viver sem ela.

- Minha irmã Georgiana é doze anos mais nova do que eu.

- Ah, e quantos anos ela tem?

- 16.

“Então ele tem 28! Sabia que não tinha mais do que trinta! Eu tenho 23, então ele é perfeito para mim!”

Ele desamarrou a cesta que estava presa ao cavalo, e a carregou até perto da beira do lago. Tirou de dentro uma toalha e a estendeu no chão.

- Perfeito para um piquenique. Espero que esteja ao seu gosto.

Era uma tolha xadrez vermelha e branca.  Colocou a cesta em cima.

- Não sei. Ainda não vi o que tem ai dentro.

- E não vai ver por enquanto. É surpresa.

- Por isso nem me dei o trabalhos de perguntar. Sabia que diria isso!

- Então eu devo ser muito previsível! – e riu

- Um pouco! – Os dois eram só sorrisos.- Mas estou morrendo de sede. Tem algo para beber nesta misteriosa cesta?

- Ah sim. – e entregou a ela uma garrafinha de água mineral.

- Vou sentar um pouco para beber, estou um pouco cansada.

E ambos sentaram na toalha. Mas Lizzy gostaria de mais detalhes, então retomou o assunto anterior:

- E sua irmã? Mora com você?

- Não, ela esta estudando em Londres.

- Em Londres? Mas são só vocês dois de irmãos?

Ele fez que sim com a cabeça.

- Oh coitada! – Lizzy nem pensou, seu comentário foi automático.

- Coitada? Por quê? – Darcy ficou intrigado. Sempre pensara fazer o melhor por sua irmã.

- Ah desculpe. Não sei se devo dizer o que penso. Pode me considerar muito atrevida.

- Não, pode falar. Eu gostaria de ouvir. – Queria realmente saber o que ela tinha a dizer.

- É que ela deve se sentir muito sozinha morando lá. Talvez... Não a conheço, mas se fosse eu... – e fez uma pausa para pensar no melhor jeito de falar - Acho que o que ela mais gostaria era poder ficar a seu lado.

- Você acha?

- Sim... Se seus pais morreram... Você como irmão deve ser a pessoa mais importante para ela. Ainda mais com 16 anos, que temos tantas dúvidas, e precisamos de uma pessoa querida ao lado.

- Mas eu sempre pensei que enviá-la aos melhores colégios era o melhor a ser feito. E ela nunca demonstra estar descontente, sempre se mostra agradecida.

- Talvez ela o respeite bastante para não contrariá-lo.

- É, pode ser. - As pessoas não costumavam contrariá-lo. Sempre que decidia algo, ninguém fazia objeção. – Mas se for este o caso, como posso descobrir se ela está mesmo infeliz?

- Tenho uma idéia, se quiser ouvir.

- Sim, estou ouvindo.

- Chega para ela e diz: “Georgiana, estou pensando em trazê-la de volta ao Brasil para morar comigo. Descobri um colégio adequado para sua educação perto da nossa casa.” Pega de surpresa, ela não vai poder mentir e você vai perceber o que ela realmente sente.

- Está falando você ao invés de tu? Está perdendo o sotaque de gaúcha? – Ele provocou.

Ela fez uma careta para ele.

- Pois é, me falaram para eu melhorar o meu sotaque. Estou tentando desde então.

- Não Lizzy. Não precisa mudar nada. Eu o acho extremamente agradável.

Lizzy ficou envergonhada e desviou o olhar.

Ele pegou sua mão e falou:

- Obrigado pelos conselhos, Lizzy.- Ela voltou a fitá-lo- Foram muito importante para mim. E vou pensar a respeito.

Lizzy olhou em seus olhos e respondeu:

- De nada. Quando precisar de uma opinião sincera sabe onde perguntar. Não costumo disfarçar o que penso. Na verdade, penso nisto como um defeito meu.

- Não Lizzy, de maneira nenhuma. Honestidade hoje em dia é uma coisa rara e é uma grande qualidade.

Ficaram em silêncio por alguns momentos, até que ela falou:

- Estou com calor. Podemos tomar banho neste lago? Ou é perigoso?

- Ah, sim. Em certos pontos é profundo, mas a água é calma. Sabe nadar?

- Não muito bem, mas sei me virar.

- Então não vamos mais perder tempo, vamos entrar! A água deve estar na temperatura ideal, com o calor que esta fazendo. Porque costuma ser gelada.

E ele ficou em pé e ajudou Lizzy a se levantar.

- Vou até a Primavera buscar minhas coisas. – E já me arrumo por lá, pensou.

Sua sacola com o chinelo e o vestido estava amarrada na égua. Tirou os tênis, a calça e a blusa procurando se esconder atrás dela. Colocou os chinelos e ficou pensando se deveria ou não por o vestido de praia por cima.

“Sei que não faz sentido colocar o vestido, se já vou entrar na água. Coisa mais idiota!”

“Como tu é besta, Lizzy! Sempre fica de biquíni na praia sem problemas, em biquínis menores do que este e na frente de muito mais gente! ”

Usava um biquíni preto, cujas peças eram pequenas, mas não indecentes.

Ela esticou o pescoço por cima da égua para observá-lo. Ele estava de costas, enquanto tirava sua roupa, ficando só de sunga!

“Ai meu Deus!”- Lizzy pensou – “Não posso olhar isto! Ele é maravilhoso! Mais até do que eu podia imaginar! O que eu faço? E se ele não gostar de mim? “

Darcy entrou na água e a chamou com um aceno de mão. E saiu nadando para o meio do lago.

“Vou aproveitar que ele está de costas, nadando, e entrar rápido para ele não me ver de biquíni ”

E foi o que ela fez. Só que no caminho tirou o chinelo e jogou suas roupas de qualquer jeito em cima da toalha. Enquanto que as dela ficaram todas espalhadas, as dele estavam impecavelmente dobradas e organizadas.

A água estava fria, e deixou Lizzy arrepiada.  Mas com o calor que sentia entrou rapidamente. Logo estava nadando e foi ao encontro dele. Lizzy adorava mergulhar, e ia bem fundo, desaparecendo e surgindo em algum ponto mais distante. Mas logo voltava para o lado de Darcy. Ficaram quase o todo tempo perto um do outro. Quando se afastavam um pouco, voltavam em seguida a se procurar.

Depois de um bom tempo:

- Estou um pouco cansada – Lizzy falou

- Vamos para aquele canto então. – nadou e ela o seguiu. – Aqui é mais raso.

Mas Lizzy foi colocar os pés no chão, e afundou até a cabeça.

- Para mim não dá pé.

- Mas para mim dá. Pode se apoiar em mim.

Ela se apoiou nele com o braço esquerdo. Ficaram em silêncio.

- Agora parada fiquei com frio. – E passou a nadar em círculos ao redor dele. – Se importa se eu fizer isso? Porque parada fico com frio, mas não posso ir muito longe, pois acho que não agüento. E não dou pé....

- Fique a vontade, Lizzy.

Lizzy girou mais um pouco, mas depois parou.

- Vamos sair? – ela falou

- Não Lizzy, ainda não. Faz tanto tempo que eu não venho aqui! Fica comigo mais um pouco... -  e a olhou de um modo que ela não pode negar tal pedido. – Descansa aqui comigo.

- Mas daquele jeito estava doendo meu braço.- ela murmurou

- Então me abraça assim – e a colocou em suas costas, com os braços em volta do seu pescoço.

“Assim é bem melhor”. Lizzy pensou, enquanto disfarçava um sorriso.

Mas suas pernas ficaram sem apoio. Ela queria poder colocar as pernas em volta dele também, mas não tinha intimidade para tanto.  Colocou as pernas para frente, dobrando-as. Depois, voltou a esticá-las, e em seguida as dobrou novamente. Não achava uma posição confortável.

Ele notou seu desconforto, então a puxou para frente e a fez sentar em sua perna dobrada. Ficaram abraçados.

Lizzy não conseguia sequer respirar direito. Tal contato a atordoava.

 

Então dois pássaros de peito amarelo começaram a voar perto deles. Iam de um lado para o outro, passando por vezes sobre suas cabeças. Pareciam estar namorando, e era uma cena agradável de ver. Darcy os observava, acompanhando cada movimento. Já Lizzy, aproveitando sua distração, passou a olhar para o rosto dele.

“Ele é tão lindo!”- o olhava admirada -  “ Que olhos! Que sorriso! Que corpo! Ai, meu Deus! Quando ele sorri para mim... “ – e não concluiu seu pensamento, já que ele percebeu que ela o olhava e se virou para ela.

- Lizzy....  – e a trouxe para junto dele. Ficaram frente a frente, ela ainda com os braços ao redor de seu pescoço, e ele a abraçando pela cintura.

Naquele instante era como se não existisse mais nada, só os dois. Olhavam-se nos olhos, como se quisessem devorar um ao outro apenas com o olhar. Lizzy nem se mexia, mil sensações percorriam o seu corpo. Apenas ousava respirar.

Ele foi chegando mais perto, seus lábios se aproximando, sua mão buscou seu rosto. Lizzy continuava imóvel, apenas aguardando o momento. Queria muito aquele beijo, mas estava assustada com seus sentimentos.

E o cavalo relinchou.

Foi um barulho alto, quebrando o encanto. Lizzy levou um susto, não pelo som produzido pelo cavalo e muito menos pelo beijo que quase ocorreu, e sim por tudo que sentira. Nunca sentira algo tão forte. Não sabia o que fazer, como agir. E ela se afastou.

Nadou até a borda, saiu do lago, colocou seu vestido e logo se pôs sentada na toalha do lado da cesta. Tão rapidamente, sem ao menos tomar consciência do que fazia.