Imprimir

Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo X

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

Capítulo 10

 

- Lizzy, hoje será um dia muito especial. Você sabe porquê? – Alberto falou.

- Não.... – Lizzy não sabia a que ele se referia. Só o que lhe vinha a mente é que hoje Darcy chegaria. Não lembrava, não pensava em mais nada. Hoje o veria novamente! O resto não importava. Estava nervosa.

- Nesta semana completa um mês que você está trabalhando conosco. E devo dizer que estou muito satisfeito com o seu trabalho, Elizabeth.- fez uma pausa – Mais precisamente, você completará um mês na sexta-feira, dia 8 de fevereiro. E como parte no nosso cronograma, a sua aprovação nesta etapa faz com que entremos em uma nova.

- Ah... Nem percebi que um mês se passou...

- E a partir de hoje lhe será introduzida uma nova modalidade: a contabilidade. Uma área a que apenas funcionários de extrema confiança têm acesso. Hoje lhe mostrarei como se faz o controle de toda movimentação financeira deste hotel. Tudo o que entra e o que sai deve ser registrado, Elizabeth. Pequenos centavos esquecidos podem fazer diferença. E uma de suas futuras funções será supervisionar o controle desta movimentação. Tanto no computador, como no livro-caixa.

- Livro-caixa?

- Sim. O falecido Sr. Darcy não confiava plenamente em computadores e fazia questão de manter o registro escrito. Hábito que ainda conservamos.

Alberto ensinou a Elizabeth tudo sobre o programa de computadores que utilizavam, um programa desenvolvido com exclusividade para o hotel. Ela teve facilidade em aprender e logo passaram a analisar os livros-caixas.

- Aqui nesta sala está o livro deste ano e o do ano anterior. Teremos que buscar em outro local os mais antigos. Quero que os compare e identifique as mudanças.

Para chegar a esta outra sala, tinham que passar pela recepção. Os livros estavam guardados em um depósito, perfeitamente trancados e organizados.

- Deixa eu ver... – Alberto falou enquanto os escolhia – Pegaremos os do ano 1980, 1993, 1999, 2003... você acha que agüenta carregar mais um, Elizabeth? Eu estou com uma hérnia de disco, e meu médico me proibiu de carregar peso.

Lizzy pegou o livro para senti-lo.

- Sim. Eu agüento mais um, se formos direto para sala.

Alberto consentiu com a cabeça e pegou o livro do ano de 1987.

E Lizzy saiu carregando cinco livros de três centímetros de altura empilhados em seus braços. Mas não foram direto para a sala. Pararam no meio do caminho.

- Sr. Darcy! – Alberto falou, ao ver ele se dirigindo a eles. – Que bom vê-lo de volta!

E começaram a falar de algum assunto do hotel.

Lizzy não ouvia nenhuma palavra que eles diziam. Estava parada, paralisada pelo choque, com uma pilha de livros pesando os braços. Queria se esconder atrás deles. Queria que ele não visse que era ela quem os carregava. Mas não havia como. Tomou coragem, e o olhou. E o cumprimentou apenas com um levantar de sobrancelhas. Nenhum sorriso. Estava séria e decidida a permanecer assim.

Ele correspondeu ao gesto com a mesma seriedade. Seu rosto deixou trair certa surpresa, mas se manteve distante. Era como não se conhecessem.

E Lizzy falou:

- Vou para sala, Alberto. Está pesado.

Apenas neste momento, Darcy percebeu os livros. Os havia visto, mas não se deu conta do esforço que ela fazia. E foi em direção a ela, oferecendo sua ajuda.

- Desculpa, não me ofereci para segurá-los. Quer que eu leve para você?

- Não, obrigada. Posso carregá-los perfeitamente sozinha. – E saiu virando-lhe as costas, sem olhar para trás.

Alberto se despediu e seguiu Elizabeth.

- Elizabeth, acho que você foi um pouco rude com o Sr. Darcy.

- É? Nem percebi... – essa foi sua resposta. Estava alterada. Não conseguia sequer pensar, quanto menos formular uma desculpa.

Darcy permaneceu um tempo imóvel, e ficou alguns minutos no mesmo lugar, pensando. Jonas o observava da recepção.

Durante as duas semanas que permaneceram separados, Darcy pôde refletir. Elizabeth Bennet mexera com ele. Nenhuma mulher jamais se aproximou do que sentira por ela e com ela. Seu jeito, seu comportamento –tudo- o encantou. Diferente de todas as outras que conhecera. A achara adorável. Com ela se sentira perfeitamente à vontade. Ao seu lado, se sentira livre e feliz como nunca. E durante aquele dia, experimentou prazeres nunca antes vivenciados.

Mas essas lembranças ao mesmo tempo que o seduziam, o torturavam. Lizzy não era adequada a ele. Esta palavra tão usada por sua tia Catherine se encaixava perfeitamente à situação.  Sentia que aquele amor representava um rebaixamento, pela inferioridade de Lizzy. E os obstáculos que enfrentariam, a resistência da sua família, pareciam insuperáveis.

Darcy havia se preparado para este encontro, imaginando-o diversas vezes. Planejava manter-se distante. Planejava dar um fim a este relacionamento, mesmo contrariando seu desejo.

Mas nunca, em nenhum momento, concebeu a idéia de ser tratado por ela desta maneira. Nunca esperava frieza e indiferença da parte dela. Nunca imaginava que ela não visse vantagens em um relacionamento com ele.

Estava esperando lamúrias, choro e decepção. Estava preparado para perseguições, artimanhas e súplicas. Tal como Caroline fazia. E tantas outras haviam feito.

Mas o comportamento de Elizabeth o surpreendera e o desarmara. Não conseguia entender como ela podia tratá-lo desta forma. Estava curioso, e resolveu procurá-la.

Parou em frente à porta do local onde Elizabeth se encontrava, mas não conseguiu ir adiante. Foi até sua sala. Pensou. Ligou o computador e decidiu escrever um e-mail. Era mais fácil. Todos os computadores estavam interligados em rede e permanentemente conectados a internet. E se ela usava o computador, tinha um e-mail do hotel.

Mas não conseguiu escrever. Não havia o que escrever. Então decidiu voltar à sala, e desta vez entrou.

Elizabeth estava em frente ao computador, com os livros a seu lado. Ele parou a porta. Ela levantou a cabeça para olhá-lo, curiosa. Mas o silêncio permaneceu.

- Sim, Sr. Darcy. O que o Sr. deseja? – sua vontade era ignorá-lo por completo, mas ele era o chefe. Tinha que lhe dar um mínimo de atenção.

- Estou procurando por Alberto – foi a única coisa que ele conseguiu pensar. Estava confuso.

- Como podes ver, apenas eu estou aqui. – respondeu de forma insolente. E ficou aguardando a resposta.

Novo silêncio. Mas ele não ia embora. Lizzy estava cada vez mais nervosa, mas mantinha-se aparentemente calma.

- Posso retomar meu trabalho? Tenho muito o que fazer. – ela enfim falou.

- Sim... – ia saindo, mas voltou para dizer – Minha irmã Georgiana voltará ao Brasil ainda nesta semana.

- Ah.... – ela não soube o que falar.

Novo silêncio.

Então Darcy pediu licença e se retirou.

Lizzy fechou os olhos assim que ele se afastou, respirando fundo.  E se controlou para não chorar. “É difícil, muito difícil – pensou – mas tem que ser assim.”

Darcy saiu da sala mais perplexo do que entrou. Queria entender o motivo de tal comportamento. O que causara esta mudança. Na última vez que a vira, ela parecia tão entregue. Parecia tão fascinada por ele quanto ele por ela.

E se ele agia assim agora, era porque tinha motivos. E ela, que motivos teria?

Tinha certeza que ela agora sabia quem ele era. E não entendia como tal informação a repelia.