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Um Certo Orgulho e Preconceito - Capítulo XXXII (Final)

Escrito por Tânia Ligado . Publicado em Um Certo Orgulho e Preconceito

Capítulo 32

 

Houve um tempo em que o Mar Egeu fazia parte de um continente que ligava dois lados opostos do mundo. Lados tão opostos que viviam se chocando. Ora o Oriente se lançava contra o Ocidente, ora ocorria o contrário. E foram tantos os embates que um dia a terra se rompeu e afundou. Por séculos, parte delas submergiram e emergiram numa desesperada busca por um lugar ao sol. Até que um dia a movimentação parou e o que se viu foi um grande mar transparente salpicado de pontas do continente extinto. Assim nasceram as Ilhas Gregas, que os deuses, sob o comando de Zeus, as transformaram numa extensão do céu. Elas estão lá até hoje e não há quem tenha encontrado uma história melhor para justificar sua existência. E como é possível vê-las, tocá-las e senti-las, todos sabem que elas são reais, por mais que pareçam um sonho de deuses mitológicos. http://www.saltlake.com.br/GRECIA.htm

 

Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy casaram-se em meados de agosto, em uma cerimônia simples e para poucas pessoas. Não havia tempo para organizarem uma grande festa e nem eles estavam dispostos a isso. Ambos eram discretos, e não fazia parte do perfil deles grandes comemorações.

O tão esperado sim foi pronunciado com sorrisos de orelha a orelha, tanto pelo casal, tanto pela mãe da noiva que mal se continha de tanta felicidade. Foi uma festa bonita de se ver. A barriga da noiva era apenas um discreto volume, e somente quem a analisasse muito atentamente perceberia.

O bolo era todo branco, com três andares, e acima continha uma cópia fiel dos noivos, feita de biscuit. O vestido de Lizzy era no estilo princesa, tomara que caia e justo em cima e com volume maior e mais armado em baixo. Não era muito rebuscado e possuía poucos bordados, mas mesmo simples, deixou a noiva encantadora. Seus cabelos estavam presos num belo coque, com alguns brilhos em forma de borboletas e outros em espiral. Ela estava simplesmente maravilhosa! O que fez com que Darcy ficasse boquiaberto, ao vê-la entrar na igreja. Com os olhos brilhando e quase indo às lágrimas, emocionada, foi como Lizzy se posicionou junto a ele no altar.

Após a cerimônia, o casal recepcionou os convidados, menos de cem pessoas entre amigos íntimos e familiares, em um salão próximo à igreja. A decoração estava impecável e foi escolhida a dedo por Jane e Georgiana, esta última agora mais a vontade na organização de eventos.

Lídia e Kitty disputaram à tapa o bouquet, e proibiram Jane de participar. Pois com casamento marcado, não seria justo que ela tirasse a oportunidade de outras solteiras. E como havia alguns amigos bonitos e ricos de Darcy presentes, elas não poderiam deixar escapar essa chance. Como bem se vê, Lídia já estava voltando ao seu estado normal. Mas quem pegou o bouquet, pela grande estatura que a favorecia, foi Georgiana. Envergonhada, posou para as fotos ao lado de Lizzy com um sorriso sem graça. Ainda era nova e não tinha planos de se casar, pelo menos por enquanto.

Jane e Charles estavam sentados em uma mesa com Charlotte e Fitzwilliam, onde todos conversam e riam muito. Este último prolongou sua estadia no Brasil por mais um mês, com a desculpa de esperar pelo casamento do primo, mas na verdade, querendo ficar mais tempo ao lado de Charlotte. Durante todo esse tempo, moraram juntos no apartamento dela. Porém, sua presença era necessária na França e não mais poderia adiar sua volta. Partiria já no dia seguinte.

Lizzy e Darcy dançaram até o fim da festa, quando foram finalmente dormir. Não era uma atividade que agradava verdadeiramente ao noivo, mas a felicidade e o estado de euforia em que ele se encontrava, fizeram-no curtir muito desta vez.

O casal viajaria em Lua de mel apenas na outra semana. Iriam fazer um cruzeiro pelas ilhas Gregas, e como logo se informaram, deveriam evitar viajar entre 20 de julho e 20 de agosto, pois essa era uma época em que o país fervia com turistas. Era verão, e o calor intenso atraía uma multidão.

Lizzy decidiu se arriscar numa viagem de navio, apesar do medo de enjoar com a sacudida do barco. Não conseguiu resistir ao analisar o roteiro, as paisagens paradisíacas e as maravilhas oferecidas dentro do próprio navio: bares temáticos, danças de salão, discoteca, biblioteca, piscina, solarium, jacuzis, espectáculos tipo Broadway todas as noites e espetáculo de patinação no gelo. E, além disso, a pista de patinação era aberta a todos, fora do horário dos espetáculos, e Lizzy apreciava muito tal exercício.

Resolveu fazer a viagem mesmo grávida, apenas garantindo que sua cabine seria a mais alta dentre todas disponíveis e, sendo assim, sentiria menos o balanço do mar. E agora que entrara no quarto mês de gestação, os enjôos diminuíram consideravelmente.

O vôo, partindo de São Paulo, chegaria primeiramente a Atenas e no outro dia sairiam de lá rumo ao Porto de Pireus. Nos quatro primeiros dias, conheceriam as ilhas de Mykonos, Kusadasi, Patmos, Creta e Santorini, passando o dia em terra e apenas retornando ao navio para dormir.

Mykonos é uma das ilhas mais populares da Grécia e Santorini, dentre as mais de 2000 ilhas gregas, é considerada a mais bonita, sendo um típico cartão postal da Grécia: com mar azul e telhados brancos.

Aos olhos de Lizzy, as ilhas pareciam-lhe um sonho: as águas eram compostas de um azul translúcido e a antiguidade das construções possibilitavam uma visão espetácular. Ela estava radiante, tanto pela emoção de enfim conhecer a Grécia (seu grande sonho), mas ainda mais pela companhia de Darcy. Agora que estavam juntos, não pretendia separar-se nunca mais dele. E o feliz casal, aproveitando muito o passeio, desfrutando de momentos inesquecíveis a dois, tiraram inúmeras fotos para mostrar à família e aos amigos. Os últimos dois dias, passariam em Atenas.

No final de dezembro, com oito meses de gestação, nasceram as filhas de Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy: Sofia e Ana. Sofia em homenagem a falecida Sr. Darcy, a pedido de Georgiana, e Ana, em homenagem a aquela que previa o futuro.

Jonas e Ana, funcionários dos hotéis de São Paulo e de Porto Alegre, logo foram promovidos, por influência de Lizzy, recebendo um salário maior. Jonas passou a ocupar a função criada inicialmente para treinar Elizabeth, tornando-se necessária com a sua ausência, e Ana ocupou o cargo deixado livre pela Sra. Austen, com a sua aposentadoria.

O filho de Jonas, Bernardo, nasceu dois meses antes das meninas Darcys e as crianças, com idades próximas, criaram-se juntas. Lizzy, mesmo trabalhando em outro hotel, manteve o contato e amizade com ele e com sua esposa Natália. As meninas, conformem cresciam, passaram a disputar entre si as atenções de Bernardo, brigando por diversas vezes por sua causa.

Fitzwilliam de Bourgh voltou à França, e Charlotte, depois de um tempo, mudou-se para ficar com ele. Mas permaneceu somente um mês em Paris, pois não se adaptou ao país. Estranhou a comida, os hábitos, o clima tão diferente do brasileiro, mas, principalmente, sentiu enormemente a falta de seus amigos e parentes. E a presença constante da sogra, Catherine de Bourgh, fazia-na ansiar ainda mais pelo retorno. Fitzwilliam trabalhava o dia inteiro e, Charlotte, deslocada por não dominar o idioma, sentia-se sozinha. Acabou voltando ao Brasil e eles, aos poucos, foram deixando de se falar. E não se viram por mais de três anos, quando voltaram a se encontrar. Charlotte nunca pôde esquecê-lo, sendo ele o seu único verdadeiro amor. Foi uma paixão fulminante, arrebatadora, jamais substituída em seu coração. Mas mesmo assim, ela não ficou esperando por ele. Como costumava dizer: enquanto o homem certo não voltava, ela divertia-se com os errados, porém não era capaz de amá-los.

Eduardo Prates e William Collins assumiram-se, enfim, como namorados. Mas o namoro não durou muito, pois William Collins depois de confessar a si mesmo o fato de ser gay, após anos de autocontrole, logo caiu na promiscuidade. Descobriu o que era bom e queria tirar o atraso.

George Wickman, como souberam através do pai de Charles Bingley, que mantinha contato com a família Wickham, acabou preso na Argentina, sob a acusação de desfalques e sonegação de impostos. Nunca mais voltaram a vê-los e ele jamais voltou a perturbá-los.

Georgiana concluiu o colégio e em seguida ingressou na faculdade. Apesar do interesse crescente pela organização de eventos e o interesse pela música, decidiu-se, por fim, pelo curso de administração de empresas. Seu namoro com o Thiago durou apenas um ano, mas depois dele, muitos outros namorados vieram. Até que conheceu aquele que seria o último, com quem se casou. Nessa altura, seu irmão e Lizzy já tinham três filhos: as meninas gêmeas e o caçula, Fitzwilliam. Jane e Charles Bingley, por sua vez, tiveram dois meninos, o mais velho nascido no mesmo ano de Fitzwilliam Darcy Júnior e o outro, dois anos após.

O Sr. e a Sra. Bennet moraram em Porto Alegre até o final de suas vidas. Lídia e Kitty continuaram namoradeiras até os trinta anos, quando enfim sossegaram um pouco. Mary, mais retraída que as irmãs mais novas, teve um único namorado com o qual se casou.

Lizzy e Darcy, por nenhum momento deixaram de se amar, embora por algumas vezes tenham tido vontade de matar um ao outro. A convivência de um casamento – como aqueles que já tiveram tal experiência bem sabem – é complicada, por vezes parecendo até impossível. Brigas existem sempre, não há como evitar. E o que seria de um casamento sem o prazer de fazer as pazes após uma acalentada discussão? Casar é complicado sim, conviver é muito difícil, mas no fim das contas: o amor compensa tudo. E enquanto houver amor, companheirismo e fidelidade, o resto a gente supera.

 

Um complemento – no meio de tudo isso:

 

Lizzy e Darcy caminhavam com as filhas pequenas ao redor do lago negro. Adoravam Gramado, localizado na serra gaúcha, e costumavam visitar a região duas vezes ao ano.

- Mamãe, mamãe! Compra chocolate? – Sofia gritou, puxando-a pela barra de sua blusa.

- E eu quero um balão! Olha mamãe, aquele balão em forma de usinho – Ana não pronunciava o “r”, e dizia usinho ao invés de ursinho.

- Hum... O que você acha, meu amor? – Perguntou à Darcy. E sem ouvir a resposta, indagou às filhas – Mas o que vocês preferem, filhas: andar de pedalinho, chocolate ou balão? Vocês não podem querer tudo.

- Eu quero tudo, mamãe. – Ana resmungou.

- Eu também – Sofia imitou a irmã.

- Sua mãe está certa, vocês não podem querer tudo que vêem. – Darcy afirmou, sorrindo para a esposa.

- Hum... – elas ficaram pensativas, trocando olhares e conversando entre si. Lizzy achava graça ao vê-las tomando as suas próprias decisões. Suas filhas estavam crescendo rápido demais, constatava, com certo pesar.

Mas foram interrompidas por uma senhora que se aproximou delas.

- Mas que lindas meninas, que gêmeas mais lindas que vocês são!

Lizzy sorriu, mas ficou de olho. Suas filhas costumavam a chamar a atenção aonde iam, e ela já estava acostumava com esse tipo de abordagem. E mãe coruja como ela era, sentia-se lisonjeada. Apenas Darcy ainda ficava incomodado, pois não se sentia a vontade com estranhos.

- Quantos anos vocês têm, meninas?

Ana mostrou os quatro dedinhos para a mulher.

- Quatro aninhos?

Ana assentiu, orgulhosa.

- Já sou gande. – Falou, sem pronunciar o “r”

- É grande, Ana – Sofia corrigiu.

- Então: gande.

A mulher riu.

O casal se aproximou das filhas e cumprimentou a senhora, que logo se despediu e se afastou.

- Então, crianças, já escolheram o que querem?

- Pedalinho, pai! – Sofia comentou.

- Eu quero anda no patinho blanco. – Ana acrescentou, apontando para um deles.

- É cisne, filha. – Lizzy corrigiu.

- Cisne – Ana repetiu a palavra, acrescentando-a mentalmente ao seu vocabulário.

- Só teremos que esperar a tia Jane, ela ficou de nos encontrar aqui.

- Ah... Ela demora, mamãe? – Sofia perguntou, já nervosa. Era a mais agitada das duas.

- Não sei, minha filha.

- Então vamos apostar uma corrida, papai? – Sofia suplicou, já estava cansada de ficar parada.

- Oba! Eu também quelo! – Ana exclamou, já se juntando aos dois.

- E eu? Vão me deixar sozinha? – Lizzy reclamou às filhas – Não posso correr com esse meu barrigão.

- Ah, mamãe, você fica com Fitz. – Sofia disse e se afastou.

- Que filha espertinha! – Lizzy riu com o comentário dela.

- Lizzy, posso ir com as meninas? Ou você não quer ficar sozinha? – Darcy abraçou a esposa e deu um beijo no rosto dela. Estava receoso de deixá-la sozinha, mesmo que por alguns minutos, com a pesada barriga de sete meses.

- Pode ir, ficarei bem. Eu não estou doente, estou apenas grávida – ela sorriu. – Vou sentar naquele banquinho e os olharei daqui. Logo Jane chegará.

Dito isso, ele se afastou. As meninas já aguardavam por ele impacientes, a alguns metros à frente.

- Vem papai!- elas gritaram em coro.

E Lizzy ficou sozinha, observando contente a sua linda família. E logo teriam um novo integrante.

- Jane! Que bom que tu estás aqui. Porque tanta demora, querida?

- Ah, Lizzy! Boas notícias! A gente foi ao médico antes e eu confirmei que estou grávida. De dois meses! – exclamou eufórica.

- Oi Lizzy! – Charles a cumprimentou apressadamente, e correu ansioso atrás de Darcy para contar a boa notícia.

Lizzy ficou sentada com a irmã, conversando com ela ao mesmo tempo em que observava Darcy e Bingley se divertirem com as crianças. Os dois, felizes, pareciam estar de volta à infância. Tio Charles comprou balões para as sobrinhas e os quatro os jogavam ao ar, correndo em volta do lago.

- E Char, Jane? Conseguiu falar com ela?

- Sim! Acho que a acordei, mas consegui falar com ela – riu, satisfeita.

- E aí? – Lizzy indagou, curiosa.

- Tudo certo! Eles se acertaram, Lizzy. Fitzwilliam retornará ao Brasil e desta vez em definitivo.

- Que bom, minha irmã. Fico tão contente por Charlotte! Acho que ela agora poderá ser tão feliz como a gente.

- Sim, espero que sim, porque eu estou tão feliz! – exclamou, colocando a mão sobre a barriga.

- Eu também! – Lizzy repetiu o gesto de Jane e ficou em silêncio olhando a sua linda família.

 

FIM