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Conto de Natal - Entre Brigas e Descobertas

Escrito por Fátima Ligado . Publicado em Conto de Natal - Entre Brigas e Descobertas

Conto de Natal - Entre brigas e descobertas!

- Posso ao menos saber do que estou sendo acusado agora? – a voz confusa bradou do lado de fora do quarto.

- Não se faça de desentendido, Darcy! – a mulher gritou completamente nervosa e aborrecida. – Sabe muito bem o que fez!

Segura em sua fortaleza, leia-se, quarto, Lizzy remoia toda a raiva e frustração que sentia após a desastrosa festa de natal da empresa de seu marido. Olhando sua imagem refletida no espelho, as palavras de seu pai ditas há sete anos, ecoavam em sua cabeça. – Não se case minha filha. Daqui a alguns anos, estará sentada em frente a um espelho se perguntando se fez a pior bobagem da sua vida, estragando-a. ”

- Elizabeth! Quer fazer o favor de abrir esta porta?!

- Não! Pode voltar para a sua secretariazinha.

Revirando os olhos em um claro sinal de cansaço, Darcy passou nervosamente as mãos no rosto em seguida pelos cabelos enquanto encostava-se na parede do corredor. – “Cara, a crise dos sete anos no casamento existe, e quando ela chegar, você vai desejar nunca ter se casado.” – Neste exato momento, Darcy se perguntava se seu primo Richard estava certo.

- Elizabeth, nem preciso dizer que você está agindo de forma infantil, preciso? – desafiou a mulher, pois a conhecendo bem, sabia que ela não se calaria diante de tal provocação.

- A única criança que tem aqui, é você! – ela esbravejou enquanto abria a porta, encarando-o furiosa e se dirigindo até a sala.

- Ah é? Eu nem ao menos sei por que estamos brigando desta vez. – Darcy se defendeu enquanto a seguia.

- Pergunte a Sharon, ela certamente deve saber. – ironizou gesticulando nervosamente – Aliás, o que você ainda está fazendo aqui que não correu para ela!

- Sharon é apenas uma funcionária do escritório, já te falei isso mil vezes.

- Ah claro! Comparando com a forma como se cumprimentaram na festa, imagino o tipo de trabalho de vocês.

- Amor... Amor. – Darcy tentou fazê-la encará-lo, mas Lizzy foi mais rápida e se afastou.
- Não me venha com essa de amor. – sibilou furiosa.

- O que está havendo com você? – Darcy desabafou nervoso. E a julgar por sua expressão, o desabafo seria bem maior. – Até agora tentei entender, ser compreensivo, mas agora chega! Cansei Lizzy!

- Isso é tão típico seu não é? Agora vai se fazer de vítima e me transformar na bruxa malvada. Por favor, nos poupe disso.

- Viu?! É sobre isso que estou falando. Você anda diferente, estranha; sempre brava, triste e histérica, me culpa por tudo o que acontece de ruim no mundo.

- Você me chamou de histérica, foi isso? – perguntou incrédula.

- Chamei. Droga! Há semanas que você está assim.

- É tão fácil me culpar quando você não atenta para suas atitudes. – falou sarcasticamente.

- Minhas atitudes?!

- Sim, suas atitudes. Você é um insensível estúpido, incapaz de me entender ou me enxergar.

- A história do cabelo de novo não. Eu já me desculpei.

- Não é apenas o cabelo. É você! Somos nós! – ela gritou enquanto seus lábios verbalizavam o que seu coração ferido e confuso sentia.

Apreensivo, Darcy esperou ela completar a frase, mas seu coração dizia que seria doloroso. Ambos permaneceram se olhando fixamente, com turbilhões de pensamentos rodeando suas mentes.

- Preciso dar uma volta. – finalmente alguém quebrou o silêncio. Darcy vestiu novamente seu casaco sob o olhar atônito de Lizzy.

- Não pode sair assim – falou irritada – Sempre faz isso, não é? Prefere fugir a conversar.

Darcy não estava pronto para aquela conversa, não quando sentia que poderia com uma simples palavra, dita ou ouvida, ver seu casamento acabado. Mas porque ele não conseguia simplesmente silenciá-la com um beijo como das outras vezes? Talvez estivesse cansado e um pouco de ar puro lhe fizesse bem.

- Darcy! Volte aqui! – Lizzy ainda conseguiu pronunciar antes de a porta bater com força e Darcy sumir na noite fria de natal.

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- Obrigada por terem vindo – Lizzy choramingou enquanto sua irmã e sua melhor amiga entravam em sua casa.

- Uma briga em plena noite de natal é um código de emergência, amiga. Trouxe o kit fossa para nos ajudar. – Charlotte falou enquanto retirava salgadinhos, refrigerantes e um pote de sorvete das sacolas.

- Onde ele foi? – Jane perguntou se acomodando no sofá ao lado da irmã.

- Não sei. Provavelmente foi se encontrar com a Sharon.

- Não pode tirar conclusões precipitadas, Lizzy. – Jane tentou pacificar a situação.

- Concordo com a Jane, além do mais, trabalho com eles e já cansei de te falar que apesar dela querer, não há nada entre eles.

- Isso mesmo. – Jane ponderou – Agora nos conte o que aconteceu.

- Darcy é um insensível! – bradou.

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- Espero que alguém tenha morrido para me tirarem de casa em plena noite de natal – Richard resmungou enquanto batia a neve de suas roupas e se juntava aos amigos no velho pub.

- Não pedi para você vir – Darcy respondeu mal humorado em meio a um longo gole de sua bebida.

- Eu te chamei, Richard – Charles respondeu lançando um olhar reprovador para o amigo. – O assunto é sério.

- Desculpem. – pediu sinceramente. – Mas o que está havendo afinal?

- Lizzy enlouqueceu. – Darcy esbravejou.

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- Agora sei por que o papai nos deu aquele conselho antes de nos casarmos. – Lizzy falou enquanto tomava mais uma colherada de sorvete de chocolate. – Nunca deveria ter me casado com ele.

- Sabe que ele não falava sério. O papai não queria que nenhuma de nós casasse e seria capaz de falar qualquer coisa para impedir isso.

- Não, é sério. Darcy está muito diferente.

- Querida, todos os homens são como aquele filme: O doutor e o monstro. Iguais ao doutor no começo da relação, idênticos ao monstro alguns anos depois, inclusive a barriguinha de chop.

- Ai Char, que exagero! – Jane falou entre risadas.
- Ele não presta mais atenção em mim ou em qualquer coisa que eu faça, é como se eu fosse um dos moveis desta casa.

- Isso não pode ser verdade, minha irmã.

- Acreditam que semana passada, cortei quase dez centímetros do meu cabelo e ele nem percebeu? Dez centímetros! – falou mostrando os cabelos para as amigas.

- Isso é ruim mesmo. – Charlotte concordou com a boca cheia de salgadinhos.

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- Cara, eu te disse que isso iria acontecer. – Richard falou enquanto se servia de mais vodka. – É a crise dos sete anos.

- Cala a boca, Richard. – Charles o repreendeu – Esse lance de crise dos sete anos não existe. Eu e Jane estamos casados há quase nove anos e não passamos por isso.

- Claro. Vocês dois são o casal perfeito; a madre Tereza com o Dalai Lhama.

- Eu ainda estou aqui, pessoal. – Darcy falou de má vontade. – Esta discussão não está me ajudando.

- Isso mesmo. Estamos aqui para ajudar nosso amigo. – Charles concordou, encerrando de vez a discussão sobre a crise dos sete anos. – Desde quando ela está assim?

- Não sei. Semanas talvez. Eu juro que não consigo entendê-la; uma hora ela está radiante, feliz, mas de uma hora pra outra fica irritante e implicante.

- Crise dos sete anos, estou falando.

- Cala a boca, Richard! – Darcy e Charles falaram em uníssono.

- Ela vive reclamando de tudo. – Darcy continuou – Dá pra acreditar que ela ficou uma fera comigo porque não percebi que ela cortou o cabelo?

- Droga! Por que as mulheres acham que quando não percebemos um novo corte de cabelo não as amamos mais? – Charles questionou. – Isso é ilógico.

- Exatamente. – Darcy concordou.

- Não sei do que vocês estão reclamando. Charlotte quase me matou porque não percebi que ela tinha comprado um sapato novo. Sabem quantos sapatos aquela mulher tem em seu closet enquanto eu só tenho uns quatro pares?! – Richard finalizou servindo mais bebidas nos copos vazios.

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- Sabem o que mais me deixa irritada nele? – Lizzy perguntou enquanto abria o refrigerante. – Ele nunca acerta comprar algo pra mim. Se é uma roupa, o tamanho vem errado, se é um sapato eu nunca gosto. Droga! Estamos juntos há oito anos e ele ainda não sabe o que eu gosto?!

- Menina, Charles me comprou uma calça vermelha semana passada.

- Não acredito, Jane. – Lizzy se surpreendeu – Mas você sempre odiou vermelho.

- Homens! – Char concordou – Richard até tenta, mas de tanto eu viver trocando os presentes que ele me dava, agora eu mesma compro e ele paga.

- Não se case nunca, Char – Lizzy aconselhou enquanto tomava o refrigerante de uma só vez.

- Não pretendo amiga.

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- Elas são malucas mesmo. – Richard falou quando eles estavam no banheiro do pub – Nunca sabem o que querem comprar; não conseguem decidir entre plataforma ou salto agulha.

- Nem me fale. – Charles ponderou enquanto fechava o zíper e se dirigia a pia do banheiro – Recentemente ouvi Jane comentar com Caroline que havia visto uma calça linda em uma loja do shopping de uns amigos nosso. Decidi fazer uma surpresa comprando a calça para ela, mas não foi uma boa idéia.

- Por quê? – Darcy perguntou quando se juntou a ele na pia.

- Ela ficou muito brava dizendo que odiava roupa vermelha.

- Ih cara, você pisou feio na bola. – Richard foi o ultimo a se juntar a eles.

- Mas eu sabia que ela nunca usava vermelho, mas como ouvi ela falando com tanto entusiasmo da calça, pensei que tinha mudado de idéia. Mas sabem o que ela disse? Que realmente tinha achado a calça linda e perfeita, mas não nela.

- Com a Lizzy é ainda pior. Quando penso em comprar algo que ela quer, ela tem mudado de idéia. Uma vez ela queria muito um sapato de uma marca famosa, dois dias depois quando comprei, ela disse que a marca já tinha lançado um mais bonito. Dá pra entender?

- Estou dizendo. Loucas! Ensandecidas! – Richard concordou.

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- Por que eles não gostam de discutir a relação, hein? – Jane lançou a pergunta quando voltou da cozinha com pipoca.

- Porque são uns covardes. – Charlotte respondeu – Eles sempre fogem quando o assunto são os sentimentos.

- Isso. Darcy é um covarde. – Lizzy concordou pensativa.

- Até que em relação a isso não posso reclamar. Charles e eu sempre conversamos sobre tudo, até DR é bem vinda.

- Claro, é muito fácil para vocês já que nunca brigam.

- Também não é assim, Char. Nós temos nossos problemas sim, mas muito raramente.

- Richard me deixa maluca. Sempre quando tento discutir a relação ou ele sai correndo, ou vem com aquele charme barato e me faz perder até o rumo do meu apartamento.

- Eles sempre acham que a melhor forma de acabar com uma briga é nos levando para a cama. – Lizzy acrescentou.

- Querida, para eles tudo termina na cama. – Charlotte brincou.

- Darcy sempre foi muito reservado, eu sempre soube disso; mas ultimamente ele não me ajudar a resolver nossos problemas. Nunca consigo saber o que ele está pensando.

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- Nem me fale nesta maldita DR. – Richard pediu impaciente quando voltaram para a mesa – Charlotte até tenta me meter nessa roubada, mas sempre consigo fugir.

- Eu e Jane não temos este problema.

- Charles, na boa. Vocês têm algum problema?! – Richard ironizou.

- É claro que temos, mas sempre conversamos sobre eles.

- Você não pode estar falando sério. Não é normal alguém gostar de ficar falando por horas quando o final é a cama; prefiro pular a parte chata.

- Richard, você é um cafajeste. – Darcy riu do jeito do primo.

- Sou prático, isso sim. Vejam só; elas sempre querem saber o que estamos pensando em uma DR, mas se somos sinceros e dizemos que queremos acabar com aquela conversa chata e ir logo para a parte boa, somos insensíveis.

- Talvez a Lizzy esteja certa sobre mim. – Darcy falou em voz baixa, quase inaudível.

- Em que sentido? – Richard quis saber.
- Tenho fugido das conversas sérias. – admitiu em meio a um longo suspiro.

- E por quê? – foi à vez de Charles perguntar.

- Tenho medo de perdê-la.

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- Por mais que o Richard me deixe maluca de raiva, não posso viver sem ele.

- Por isso estão noivos há cinco anos? – Jane brincou – Não pensa mesmo em se casar com ele?

- Às vezes sim, mas daí ele me faz raiva e desisto. Mas quem sabe um dia.

- Eu amo o Charles apesar do jeitão desligado dele. Sei que ele é minha alma gêmea.

- Não sei se acredito nesse negócio de alma gêmea, acho que o Richard está mais para meu carma, minha cruz. – Charlotte brincou fazendo todas rirem.

- Não quero perdê-lo. – Lizzy falou de repente, cessando as risadas.

- Mas você não vai perdê-lo, querida. – Jane se aproximou da irmã, abraçando-a.

- Se existe um casal perfeito nesse mundo todo, são vocês dois. – Char se juntou a elas no abraço.

- Só me digam que vai ficar tudo bem. – Lizzy pediu sentindo uma violenta onda de sentimentos a invadir e sair em lágrimas.

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- Não vai poder fugir disso para sempre. – Charles ponderou na tentativa de consolar o amigo – Precisa conversar com ela, Darcy.

- Acho que não posso fazer isso.

- Quanto tempo vai ficar sofrendo com a possibilidade? – Richard também tentava abrir os olhos do primo. – Isso só está te fazendo mal.

- Eu sei. Mas não é fácil saber que sua mulher não te ama mais e que a qualquer momento vai te mandar embora.

- Não tem certeza de que é isso o que ela realmente quer.

- Agora tenho que concordar com o Richard. Está se martirizando por algo que talvez só exista na sua cabeça. Tem que conversar com ela.

- Hoje mesmo eu pude ver nos olhos dela, será que não entendem? – Darcy se angustiou – Saí correndo antes que ela dissesse que acabou. Sou um covarde mesmo.

- Não é um covarde, só está com medo de encarar uma difícil realidade. – Charles falou quando viu o amigo afundar o rosto nas mãos.
- Vocês têm razão. – Darcy falou enquanto levantava subitamente, tirava dinheiro da carteira e jogava no balcão.

- Aonde você vai? – Richard perguntou confuso.

- Não posso mais fugir – ele respondeu já vestindo o casaco – Preciso falar com ela, e se por acaso ela disser que não me ama mais e que acabou, vou ao menos lutar por ela, pelo nosso amor.

- Tem certeza que está pronto para isso? – Charles questionou preocupado.

- Nunca estarei pronto para isso. – Darcy respondeu em um sorriso cansado. – Obrigado por tudo, pessoal.

- Amigos e primos são para essas coisas. – Richard tentou brincar – Boa sorte e estaremos aqui se precisar.

- Obrigado. Feliz natal pra vocês.

- Feliz natal, Darcy. – eles responderam ao mesmo tempo enquanto viam o amigo saindo pela porta do pub sob a fina neve que caía.

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- Droga! Ando muito sentimental ultimamente. – Lizzy observou enquanto enxugava as lágrimas.

- Você está legal? – Jane se preocupou.

- Vou tentar. Amo meu marido desesperadamente e quero descobrir uma forma de resolver tudo.

- Tenho certeza de que vai encontrar uma forma. – Charlotte a encorajou.

- Vou lavar o rosto, já volto. – Lizzy falou enquanto levantava, mas ao ficar de pé sentiu uma forte tontura que a fez se segurar na parede para não cair.

- Lizzy! O que você está sentindo? – Jane correu até a irmã.

- Foi apenas uma tontura, mas já está passando. – respondeu com dificuldade.

- Senta aqui um pouco. – Charlotte sugeriu.

- Acho que realmente preciso ir ao banheiro. – Lizzy falou enquanto colocava a mão na boca e corria para o banheiro.

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And so it's
E então é isso
Just like you said it would be
como você disse que seria
Life goes easy on me
A vida corre fácil pra mim
Most of the time
A maioria das vezes

And so it's
E então é isso
The shorter story
A história mais curta
No love, no glory
Sem amor, sem glória
No hero in her Sky
Sem herói no céu dela
Dirigindo pelas ruas quase desertas de Londres, Darcy cantarolava a música que tocava no rádio; por uma coincidência feliz ou infeliz, era exatamente a música que sempre embalou o seu romance com Elizabeth, principalmente após as brigas. Não sabia se isso era positivo ou negativo, mas seu coração estava como uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes...
Não consigo tirar meus olhos...

Parado em um sinal, ficou observando uma pequena família que atravessava a rua. A mãe seguia na frente segurando a mão de uma linda menina enquanto o pai carregava um garoto menor nas costas. Eles eram o retrato da família feliz; a família que ele e Lizzy tanto sonharam.

And so it's
E então é isso
Just like you said it should be
Como você falou que deveria ser
We'll both forget the breeze
Nós dois esqueceremos a brisa
Most of the time
A maioria das vezes

And so it's
E então é isso
The colder water
A água gelada
The blower's daughter
A filha do vento

The pupil in denial
A aluna rejeitada.

Talvez se eles tivessem uma família às coisas fossem diferentes agora, pensou. As buzinas dos carros atrás do seu lhe fizeram acordar de seus pensamentos e perceber que o sinal já estava aberto e a família continuava sua caminhada feliz pela calçada.

I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes off you
Não consigo tirar meus olhos de você
I can't take my eyes...
Não consigo tirar meus olhos...
Parado distante de sua casa rodeada e coberta pela neve segurou firme a direção do carro buscando forças para enfrentar o que estava por vir. Viu sua aliança no dedo anelar esquerdo e não conseguiu evitar algumas lágrimas enquanto a música dava seus últimos acordes.

Did I say that I loathe you?
Eu disse que te detesto?
Did I say that I want to
Eu disse que quero deixar
Leave it all behind?
Tudo para trás?

I can't take my mind off you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind off you
Não consigo parar de pensar em você
I can't take my mind...
Não consigo parar de pensar...
My mind...my mind...
Meus pensamentos...Meus pensamentos...
Until I find somebody new
Até conhecer uma nova pessoa.
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- Lizzy, está tudo bem? – Jane perguntou em frente à porta do banheiro.

- Estou. – ela respondeu pálida após abrir a porta.

- Acho que você comeu muita porcaria. – Charlotte falou enquanto a ajudava a sentar na cama.

- Acho que não foi isso. Há alguns dias tenho estado indisposta. Meu organismo está muito intolerante ultimamente.

- Há quantos dias? – Jane perguntou desconfiada enquanto trocava olhares com Charlotte.

- Duas semanas ou três. – respondeu enquanto deitava na cama.

- Qual foi a ultima vez que menstruou? – Charlotte perguntou se aproximando da cama.

- Eu nem sei o que comi ontem à noite, Char. Não sei, é muito irregular, às vezes passo meses sem menstruar.

- Lizzy, você está grávida? – Jane perguntou sem rodeios.

- O que?! – Lizzy que tinha os olhos fechados, abriu-os abruptamente sentando na cama. – Não! Impossível – falou com convicção – Será? – começou a pensar na possibilidade.

- Raciocina conosco. – Charlotte falou – Enjôos, tontura, sono, irritação fácil, atraso menstrual...
- Há dois meses. – ela falou boquiaberta. – Faz dois meses que estou atrasada.

- Então não temos dúvidas, mas mesmo assim, vamos fazer um exame de farmácia já.

Sem esperar pela resposta de Lizzy, Charlotte correu para a sala e em minutos atravessava a rua rumo à farmácia que ficava do outro lado da rua.
**********************
Darcy que se preparava para sair do carro que estava estacionado há alguns metros da sua casa, viu Charlotte saindo apressadamente e entrando na farmácia.

- Será que Lizzy está doente? – se preocupou.

Não demorou muito para que mais apressadamente ainda, Charlotte saísse da farmácia entrando na casa novamente. Não poderia ficar esperando mais dentro daquele carro; nem se preocupou em levar o carro até sua garagem.

Quando entrou em casa, não havia ninguém na sala; apreensivo, correu até o quarto encontrando Jane e Charlotte sentadas na cama.

- Onde ela está? – perguntou aflito, sem nem ao menos se dar conta da forma que estava agindo.

- No banheiro. – Jane respondeu sem entender a reação do cunhado.

- Ela está bem? Vi quando Charlotte foi até a farmácia. Aconteceu alguma coisa?

- Ah! – finalmente Jane entendeu o motivo de tanta aflição. – Ela está bem sim. É só que... Bem, acho melhor vocês conversarem.

- É. – Charlotte concordou. – Vamos deixar vocês sozinhos.

- Lizzy, querida. – Jane chamou sobre a porta, mas não obteve resposta. – Estamos indo, mas nos ligue assim que for possível.

- Feliz natal, Darcy. – desejou ao cunhado enquanto o abraçava, sendo seguida por Charlotte.

Com os olhos fixos na pequena e não confiável paleta do exame imersa no liquido amarelo, Lizzy ouvia claramente tudo o que estava se passando em seu quarto, mas não sabia se ainda estava pronta para sair de sua fortaleza, não até saber se estava sozinha ou se alguém mais estaria com ela...
Os minutos eram enlouquecedores; ao som de seus próprios passos, Darcy olhava para a porta do quarto. Sua vontade era de entrar lá de qualquer forma, mas daria esse tempo a ela, o tempo que fosse necessário. Alguns minutos depois, ela finalmente abriu a porta.

- Oi – Lizzy falou timidamente quando encontrou o olhar angustiado dele.

- Oi – Darcy sussurrou de volta. – Você... Você está bem?

- Estou. – respondeu em meio a um sorriso fraco.

- As meninas foram embora.

- Eu ouvi.

O clima de constrangimento estava matando os dois; eles queriam falar alguma coisa, qualquer coisa, mas nada parecia se estruturar em suas cabeças.

Darcy sabia que não podia mais adiar aquela conversa. Aproximou-se da esposa em silêncio e a tomou pela mão enquanto caminhavam até a cama. Sentaram próximos, um de frente para o outro.

- Darcy... Preciso te falar uma coisa... – Lizzy começou a falar, mas ele a impediu.

- Por favor, deixe-me falar primeiro. – ela assentiu então ele continuou – Sei que tenho agido como um idiota covarde ultimamente; admito que tenho fugido de você quando começamos a brigar, mas quero que saiba que não vou mais fugir e que seja o que for que você queira me dizer, vou ouvir. – ele fez uma pausa enquanto tentava desesperadamente se manter calmo. – Mas preciso te dizer apenas uma coisa...

- Sim?

- Eu te amo, Lizzy. Sei que tenho trabalhado muito e passado pouco tempo com você; que não tenho notado seu corte de cabelo ou as roupas novas, mas preciso que acredite que nada disso mede o grande amor que sinto por você. E mesmo que você queira me deixar...

- O que?! – Lizzy perguntou atônita. De onde ele tinha tirado aquela idéia? Tentou explicar, mas mais uma vez ele não permitiu.

- Mesmo que você me queira fora da sua vida, eu vou lutar por você até meus últimos dias... E...

- Darcy! – ela elevou um pouco a voz fazendo com que ele parasse de falar. – Eu estou grávida. – falou por fim, esperando a reação dele enquanto suprimira sua ansiedade e alegria.
- Grávida?! – Darcy parecia em choque, mas seu cérebro ainda processava aquela informação inesperada.

- Acabei de descobrir.

- Grávida?! – ele repetiu a pergunta.

- É. – ela respondeu não mais contendo o riso – E pelo amor de Deus, para de fazer esta pergunta e fala alguma coisa que faça sentido.

Esperando pela resposta, Lizzy viu sua boca ser tomada em um beijo longo e apaixonado enquanto seu corpo pequeno se perdia nos braços fortes de seu esposo...
****************************

- Céus! Eu pensando que iria te perder e agora vamos ter um filho. – Darcy comentou enquanto acariciava a barriga da esposa, deitados no tapete sobre macias almofadas, sentindo o calor da lareira alguns minutos depois do anúncio da gravidez.

- O que te fez pensar que eu não te amava mais? – perguntou segurando o riso devido às cócegas que sentia enquanto Darcy acariciava sua barriga.

- Não sei... Você foi ficando distante, irritada; dormia o dia inteiro e quando eu te procurava estava sempre indisposta. Então pensei que...

- Meu amor, não sei como me desculpar por isso. Eu não sabia o que estava havendo comigo; não conseguia controlar meu humor e muitas vezes descontava em você sem saber o porquê.

- Mas agora isso acabou. – Darcy a abraçou mais forte enquanto beijava ternamente seus lábios.

- Você andou bebendo. Onde esteve?

- No pub com Charles e Richard.

- Seu conselho sentimental. – ela brincou recebendo beijos pelo pescoço fazendo-a gargalhar. – Imagino o tipo de conselho que o Richard te deu; ainda bem que tenho o Charles por mim.

- Richard não existe; Charlotte é realmente uma santa agüentando ele. Não sei do que você está rindo, suas amigas também estavam aqui quando cheguei.

- É verdade. – ela concordou enquanto o olhava carinhosamente e acariciava seus cabelos. – Eu te amo.
- Eu também te amo. Feliz natal, Sra. Darcy.

- Feliz natal, papai. Mas agora eu preciso desesperadamente de um pedaço da coxa de um suculento peru de natal. – falou sentindo sua boca encher de água devido ao desejo.

- A uma e vinte da manhã?

- Hunrum.

- Não temos peru em casa?

- Não.

- Tudo bem. Vamos resolver este problema agora

***Fim***