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Conto : Presente de Ano Novo

Escrito por Carol Ligado . Publicado em Conto : Presente de Ano Novo

CONTO DE ANO-NOVO
- E é isso... – Disse Elisabeth terminando seu monólogo. Mas o homem já deixara a cabeça pender e agora roncava profundamente. Ela suspirou.
- Mais um bêbado para eu cuidar – Disse Joe, dono do bar.
Lizzy deu-lhe um sorriso forçado e se levantou, o bar já estava quase vazio e a banda tocava sua última música (Era o que Elisabeth desejava) Lizzy, sua irmã Jane e a amiga delas Charlotte estavam esperando a banda que tocava terminar o show. O guitarrista, Charles era o mais novo namorado de Jane e após o show de ano-novo comemorariam a data juntos.
As três dividiam um apartamento em Londres, e com o curto dinheiro não puderam viajar para o interior onde residiam seus pais. Por isso seria a primeira passagem de ano longe da família. Lizzy passara os últimos vinte minutos se lamentando com um bêbado que lhe puxara conversa, de nada adiantara. Este seria o pior ano-novo de sua vida, e nem podia demonstrar, pois Jane apaixonada só tinha olhos para a própria alegria.
- Oi amor – Disse Charles pulando do palco. – Só mais uma e nós já vamos, agora é a vez do acústico – Informou às três antes de beijar a namorada.
Eram quase dez horas, horário em que o bar fecharia, era estranho um bar funcionar nesta época do ano, mas seu dono não tinha família e há alguns anos fazia esta reunião para quem também não tinha. A banda de Charles, ainda no começo de carreira não poderia recusar um convite. 
Até que haviam ido mais pessoas do que Lizzy poderia supor. Quando chegou, as oito da noite cerca de cinqüenta solitários comemoravam juntos como melhores amigos.
Lizzy se preparou para fitar o teto, mas parou em meio movimento ao escutar a nova voz que cantava. Era linda, virou-se curiosa, só poderia ser o baixista, William, pelo que ela sabia era seu nome. E era ele mesmo quem cantava, e lindamente. 

 

If i fell in love with you, would you promise to be true, and help me understand. Cause 1’ve been in love before and I foud that love is more than just holding hands...E por aí se seguiu uma bela versão de Beatles. Lizzy não pôde parar de olhá-lo nem por um segundo, Richard, o baterista também se juntara ao grupo deles e só William e seu violão permaneciam no palco.Ao fim da canção os cinco aplaudiram, mas William não pareceu se importar, se levantou deu as costas ao grupo e começou a arrumar os instrumentos. Charles foi ajudá-lo e Richard também. As garotas aguardaram e logo se despediam de Joe.- Obrigado rapazes, ninguém parecia disposto a passar a noite de ano novo trabalhando, vocês caíram do céu e fizeram a alegria de algumas pessoas solitárias.Charles e Richard se declararam felizes em ajudar, mas William parado mais longe que os outros estava impassível e até parecia entediado. Lizzy viu, porque não conseguia parar de olhá-lo desde que o ouvira cantar.Entraram na vã dos garotos, Charles e Jane queriam ir atrás, para poderem ficar juntos, e Richard estava investindo na amiga de Jane de franjinha, Logo ele empurrou Lizzy para o banco da frente junto com o amigo carrancudo. - Ele não morde – Garantiu enquanto abria a porta para Elisabeth.Ela fitou a janela por um tempo, mas logo tornou a encará-lo. Ele era muito bonito, mas não havia dito uma só palavra desde que terminara de cantar. E Lizzy queria ouvir aquela voz novamente.Pensava em algo para dizer, mas ele foi mais rápido:- Algum problema?Ela se surpreendeu pelo tom.- Não. Por que haveria? 
- Por que não para de me encarar? – Perguntou encarando-a.
Ela não tinha resposta, mas precisava de uma e rápido.
- Pensava se tinha perdido a voz.
- Não perdi.
- Percebi.
- Certo.
E tornou a fitar a rua.
- Seria melhor se tivesse perdido... – Murmurou a garota.
Ele fingiu não ouvir.
- Ei Lizzy! – Chamou Charles.
- Sim?
- Liga o rádio, por favor?
- Tudo bem. Com licença – Acrescentou secamente para William.
Ele nada disse.
Deixou na estação que já estava, era uma especial de fim de ano, alguém pediu-lhe que mudasse. Encontrou uma estação que só tocava clássicos do rock inglês, alguém pediu que parasse, ela parou. A tal música falava para que a garota baixasse a guarda e Lizzy escutou Richard:
- Viu Char? Até David Beck quer que você me dê uma chance.
Lizzy riu da cantada barata. William fitou-a, ela o ignorou. Continuaram por algum tempo em silêncio até que ele anunciou:
- Vou parar primeiro no depósito para deixar os instrumentos ok?
Como não ouve resposta, Lizzy fitou os amigos. Os quatro haviam se dividido em dois casais que estavam entrelaçados de forma assustadora.
- Eles não podem te responder – Falou Lizzy achando graça.
- Ora, mas é tão difícil falar... – Disse ele virando-se, mas se calou. Lizzy percebeu que ele ficou um tanto desconfortável com a situação. Estavam agora numa estrada, e William entrou numa via de terra.
- Onde fica seu depósito? – Quis saber Lizzy preocupada com o vazio do local.
- Numa velha casa de uma tia de Charles. É onde ensaiamos também. 
- Mas precisava ser tão escondida? – Observou a moça vendo que estavam cercados de mato.
- Reclame com a tia dele.
- Ela mora lá?
- Não, se mudou, mas nos deixou usar a casa.
Lizzy nada mais disse, mas não gostou nadinha daquilo. A estrada estava escorregadia, cheia de gelo, e sendo deserta, o caminhão que passava tirando a neve não entrava ali. Ela observava o tamanho do monte branco aumentar, com preocupação.
- Tem certeza que a vã conseguirá chegar? – Perguntou sem conseguir se conter.
- Ela nunca nos deixou na mão – Respondeu áspero.
- Não quis ofender – Ela se justificou.
- Ok.
- Você tem problemas de temperamento não? – Não se conteve.
- O que?
- Ou de convivência social, sei lá! Não consegue manter um diálogo sem ofender.
- Não tenho paciência para jogar conversa fora.
Algum casal riu lá atrás, William estava incomodado com a situação...
- Aparentemente não tem paciência para nada...
... Aquela garota estava irritando-o pelo que a presença dela sugeria. Charles estava de namorico com a tal Jane. Richard conhecera Charlotte por acaso, e pedira para que Charles falasse com Jane que a levasse, logo a presença da terceira só poderia significar algo: prêmio de consolação...
- Desde que saiu daquele palco – Continuava ela – Não abriu a boca uma vez para falar algo de agradável...
... Não que fosse feia, pelo contrário. Quando a viu entrar no bar com as amigas ele teria quase agradecido aos seus, se fosse só um pouquinho mais adepto a relações de uma noite. Mas a garota estava lá, vendo suas amigas se arranjando e isso cria certa expectativa, e William não gostava de criar expectativas em ninguém. 
-... Nem quando Joe o elogiou, não pôde nem agradecer, e ele não tinha obrigação alguma...
- Será pedir muito que você pare com a sessão de críticas?
Ela pareceu engasgar, e quando ia dizer algo o carro deu uma guinada brusca.
- Ai! 
- Ui.
- Jesus!
- Que foi isso?
Os casais haviam parado de se beijar.
- Você está bem? – Perguntou William preocupado. A vã fora pega pela neve, escorregara e batera numa árvore. Lizzy foi direto com a cabeça no painel.
- Estou ótima! – Disse.
Por sorte William dirigia em baixa velocidade, assim o impacto não foi tão grande, mas ela agora tinha um galo imenso na testa.
- Lizzy! – Chamou Jane com preocupação.
- Estou, bem, estou bem – Ela disse com energia.
- O que aconteceu? – Perguntou Richard.
- Derrapei com a neve – Informou William.
- Bem, vamos sair daqui antes que congelemos – Pediu Charles.
- Certo. – Disse o motorista. – Você está bem mesmo? Será melhor irmos ao hospital?
- Estou bem, já disse – Ela respondeu irritada pela preocupação dele. – Só preciso pôr um pouco de gelo.
- Então, melhor sairmos logo daqui – Falou Char.
- É. – Concordou William. E tentou ligar o carro. Uma, duas, três... Sete vezes. Nada.
- Ah meu Deus... – Disse Jane.
William desceu e foi verificar o motor. 
- A gasolina está vazando – Disse. – Aliás, acho que já vazou toda.
O grupo não pôde acreditar.
- Vamos. – Chamou – Vamos andando, não está longe. Amanhã chamamos o guincho. Charles, Richard, me ajudem com os instrumentos.
Eles foram pegar os equipamentos e deixaram as garotas no carro.
- Lizzy, como você está? - Quis saber Jane.
- Bem Jane.
- Oh tadinha – Disse Char passando os dedos sobre o galo da amiga.
- Ai!
- Desculpa.
- Vem, vamos ajudá-los. – Chamou Jane. – Quando Lizzy fez menção de sair ela acrescentou – Você fica quietinha aí!
Por fim, as garotas carregaram uma guitarra e um baixo. Richard e Charles dividiram a bateria.
- Não vai levar nada? – Perguntou Lizzy quando William abriu sua porta e lhe ofereceu a mão, que ela recusou.
- Vou levar você.
- O-oque? – Ela perguntou constrangida pelo tom dele.
- Ordens da sua irmã.
- Eu não preciso!
- Vem!
E passou o braço dela sobre seu pescoço segurando-a firme pela cintura. Lizzy gostou daquilo mais do que poderia admitir.
- Não estou inválida – Lembrou-o.
- Mas, possivelmente tonta.
- Não mais que o normal.
E ele riu.
- Oh, o que temos aqui – Ela se admirou, ele nada disse.
Alcançaram os outros e seguiram caminhando, o frio estava muito forte, e Lizzy concluiu que estar abraçada a uma homem grande e forte não era nada ruim. Forte, e cheiroso – Por Deus, que perfume ele usa? – Ela se perguntou. Uma mistura de homem, amadeirado e acolhedor. 
Caminharam por cerca de vinte minutos, foi com alegria que entraram na pequena cabana. Era totalmente testosterona: pareces escuras, sofás de coro preto, uma bar e uma cozinha pequena.
- São as primeiras mulheres que entram aqui – Disse Charles.
- Espero que isso seja bom – Observou Jane.
- Nós também – Disse Richard agarrando Charlotte.
- Mais um momento não-estamos-aqui – Lizzy sussurrou no ouvido de Darcy.
Ela não percebeu, mas ele se arrepiou.
- Pois é – Disse antes de se afastar para pegar os instrumentos com as garotas.
- Obrigado – Disse a elas e começou a guardá-los.
- Vocês, por acaso, tem um banheiro aqui? – Perguntou Char.
- Ali – Falou Charles apontando um corredor estreito.
- Vou com você – Anunciou Lizzy – Quero ver o estrago – E apontou para a própria testa.
- Tudo bem – Concordou a outra.
Seguiram juntas pelo corredor escuro, uma portinha era a única opção, entraram. O banheiro era mais espaçoso do que imaginaram, assim Lizzy pôde se fitar tranqüilamente enquanto Char remexia sua bolsa.
- Nossa isso ta muito feio – Afirmou.
Charlotte levantou o olhar.
- Antes de casar sara.
Lizzy riu.
- Acho que você se casa antes.
Foi a vez da outra rir.
- Pelo amor de Deus – E continuou a remexer a bolsa.
- Você sua danadinha – Falou Lizzy dando as costas ao espelho e se apoiando na pia para fitar a amiga – Não perdeu tempo!
Charlotte parou de a procurar e lhe encarou sorrindo.
- E você? 
- O que tem eu? – Perguntou sem entender.
- Vai parar de discutir com o bonitão do William e se divertir, ou não?
Lizzy riu debochadamente.
- Pelo amor de Deus! Se visse como ele estava feliz com a minha companhia não diria uma bobagem destas.
- Quem se importa se ele está feliz? – Falou recomeçando a procura. – O que importa é que ele ficará feliz depois que aproveitarem a companhia um do outro.
Lizzy suspirou.
- O que você tanto procura?
- Achei! – Falou a amiga levantando o objeto como um troféu – Eu sabia que tinha...
- Camisinha? – Perguntou Lizzy surpresa.
- Segurança, em primeiro lugar – Disse a outra.
- Tudo bem, mas para quem estava fazendo jogo duro com Richard até que você está bem liberal hein?
- Aquilo era charme, querida. E a vida é curta demais para eu me reprimir. Devia fazer o mesmo!
E abriu a porta esperando a amiga ali. Lizzy fitou-se mais uma vez, e saiu.
Uma vez na sala ela encontrou Jane sentada num canto do sofá conversando aos cochichos com Charles, Char logo sentou-se no bar pegando uma bebida oferecida por Richard. Mas onde estava William?
- Bem, como faremos para dormir? – Quis saber Char.
- Temos um quarto – Disse Richard – Que, pelas minhas contas, hoje, é meu.
- Sim – Concordou Charles. – O sofá dá para mais dois e temos dois colchões de solteiro. Ta tudo certo.
- Ótimo. – Disse Char.
- Você fica no quarto comigo? – Convidou Richard.
- Sim. Sei me proteger de caras como você – Brincou.
- Uh – Disse Charles. – Então vocês decidem se querem o sofá os colchões – Disse Charles – Supondo que vão dormir juntas.
- Sim – Disse Lizzy. 
- Depois decidimos – Falou Jane.
- Eu vou tomar um ar, se importam? – Falou ela vendo que estava sobrando.
- Lizzy, não saia por aí – Pediu Jane.
- Não vou. Só vou ao terraço.
- Certo.
E saiu. Estava bem escuro lá fora, e a pequena lua crescente não ajudava muito. O galo em sua testa pulava e ela sabia que não deveria dormir, embora sentisse um sono bem forte se aproximando. Não viu a sombra que estava lá fora também.
- Oi.
- AH!
- Ei, calma... É o William – Acalmou-a.
- AH, que susto!
- Desculpa.
- Ok. Caramba, eu não tinha visto que estava este frio, vou pegar meu casaco... – Falou querendo fugir de lá.
- Não precisa, toma o meu.
Ela não devia, mas aceitou. Ainda estava quente do corpo dele.
- Ai.
- Ainda com frio?
- Não é minha cabeça – Falou sentando-se num banco de madeira.
Ele se afastou descendo até a neve, fez uma bolinha.
- Isso pode arder um pouco – Avisou sentando-se ao lado dela.
- Ui.
- Ta doendo? – Perguntou afastando a bola.
- Não, pode continuar. É bom... – E riu.
Ele riu também.
Ficaram um tempo em silêncio, até que ela perguntou:
- Vocês não moram aqui, moram?
- AH não. Bom, Richard morou por um tempo quando veio para Londres, mas não. Charles e eu dividimos um apê no centro. Richard mora com outros três colegas de faculdade. 
- E seus pais?
- Bem, meus pais são de Liverpool. Moram lá.
- Liverpool – Repetiu – Legal, você gosta de beatles?
- Quem não gosta!
- Verdade. Cantou muito bem a música deles.
- Obrigado.
- Olha, eu sei que provavelmente você não é a fonte mais confiável, mas... Charles é um bom garoto?
Ele riu.
- Porque não sou uma fonte confiável?
- Porque é amigo dele.
- O que quer dizer por “bom garoto”?
- Você sabe... Pra Jane.
- Vocês são muito ligadas?
- Claro... Se você conhecesse minhas outras irmãs.
- São quantas?
- Com Jane e eu cinco.
Ele assoviou.
- É. – Disse ela.
- Bem... Charles é leal, é engraçado, é de bem com a vida. Seu maior defeito é ser altruísta.
- Chama isso de defeito? – Ela se surpreendeu.
- É que, às vezes, ele pensa tanto nos outros que deixa de usar a própria cabeça.
- Entendo...
- Mas sim, ele é um “bom garoto”, como você diz.
- Que bom – Ela sorriu. – Acho que está bom – Falou segurando a mão dele com o gelo em sua testa.
- Ok. – Ele respondeu lamentando quando ela retirou a mão.
Jogou o resto de neve no quintal e ficaram quietos observando a paisagem. Cerca de cinco minutos se passaram, aquela garota um tanto indiferente estava deixando William confuso. Ela não puxava papo, nem parecia uma boba levada pelas amigas para um encontro as escuras... Talvez ele tivesse se enganado. Só havia um meio de saber... Conversando com ela. 
- E os seus pais?
- O que tem eles?
- São de onde?
- Do interior.
- Também vieram para cá pela faculdade? – Ele perguntou.
- Sim.
- Que curso faz?
- Design gráfico.
- Uau.
- Obrigada. Você pretende seguir carreira na música, ou é só uma diversão?
- Uma diversão. Faço economia.
- Um garoto dos números.
- Uma garota das retas.
- Não só delas, mas sim.
- Então sim.
- Tocam sempre no Joe?
- Não. Foi a primeira vez.
-Você não parecia muito feliz por estar lá.
- Olha, sei que não fui muito legal...
- Não, não foi.
- É que eu não queria criar aquele clima de encontro. – Admitiu.
- Nunca pensei dessa forma.
- Não?
- Não. Por mim estaria em casa com uma xícara de chocolate e um edredom. Mas minha irmã queria porque queria ir ver Charles. Aceitei por ela, só.
- Nossa, desculpe. Pensei que fosse ser aquilo... Sua irmã e Charles. Richard e Charlotte, logo você pensaria...
- Não vejo cada cara que conheço como um possível pretendente.
- Claro, eu...
- Eu me valorizo mais do que você pensa.
Aquela declaração o deixou com cara de idiota.
- Precisa considerar também que nem todas as garotas caiam de amores por você... Embora Jane tenha me contado que seu fã clube é grande. 
- O da banda.
- O seu também.
E ela se levantou.
- Vou entrar. Obrigada pelo casaco. – E devolveu-o.
Ele a observou entrar na casa, aparentemente cometera um erro. Aquela garota tinha mais cabeça do que as que ele conhecera até agora, mas como ele poderia ter sabido?
- William, você vai congelar aí, vamos comemorar o ano novo! – Ouviu Richard chamá-lo.
Levantou-se e entrou na casa. Todos os móveis haviam sido empurrados para dar espaço à sala, Richard estava no bar separando bebidas.
- Onde estão as garotas? – Perguntou.
- Tentando arrumar algo para comer – Disse Charles.
Eram onze horas. E William foi ver se elas estavam obtendo sucesso.
- Se não tiverem problemas em passar o ano comendo barras de cereal e hambúrgueres. – Informou Jane.
- Por mim tudo bem – Disse Richard entrando no cômodo – O que realmente importa, está comigo. – Falou trazendo a cerveja que estava no bar.
- Bom, temos também alguns ovos e bacon.
- Uau – Brincou Lizzy.
- Não planejávamos passar aqui – Disse William – Aliás, é uma sorte termos algo para comer. Se não fosse nós termos tocado hoje, não teríamos passado os últimos dois dias ensaiando e conseqüentemente não teríamos enchido a geladeira.
- E quase esvaziado – Disse Lizzy.
- Sim – Ele concordou.
- Bom, o que mais precisamos? – Disse o otimista Richard – Temos bebida, boa música e belas mulheres...
As três riram.
- Aquecedor? – Sugeriu Lizzy.
- Uma refeição decente? – Acrescentou Char.
- Há outras formas de se aquecer – Disse Richard olhando Lizzy e agarrando Char. – E podemos sobreviver uma noite sem comida, mas não sem amor! – Dramatizou dando-lhe um beijo. Char o empurrou e riu. 
- Você é muito falso!
Ele a puxou de lá.
Lizzy observou Jane que olhava para a sala com cobiça.
- Pode ir Jane – Tranqüilizou-a – Eu cuido da comida.
Jane sorriu e lhe deu um beijo antes de sair.
Lizzy se virou para a pia tentando ignorar a presença de William. Ouviu música alta começar a tocar na sala... Rolling Stones. Começou a quebrar os ovos para fazê-los mexidos. Parou um instante pensando em onde estaria o óleo quando uma figura postou-se ao seu lado, encarou-o.
William havia tirado o casaco e arregaçado as mangas de seu suéter azul que deixava os olhos muito bonitos.
Ele a fitava como que perguntando porque parara.
- Óleo – Ela respondeu à pergunta silenciosa.
- Ah, aqui – Disse pegando-o sob a pia. – Vou fazendo os hambúrgueres enquanto você faz os ovos, ok?
- Por mim, tudo bem.
Trabalharam em silêncio, até que William não se conteve.
- Me desculpe pelo que pensei de você antes, Elisabeth.
E ela sentiu a sinceridade dele.
- Tudo bem.
- Realmente não foi por mal.
- Ok. Eu também pensava assim antes, você amadurece. – E riu.
Ele riu também.
- Você é bem afiada, hein?
- Cresci ouvindo reclamações sobre isso.
- Que bom que não deu ouvidos.
- Acha bonito minha falta de modos? – Sorriu.
- Gosto da sua personalidade forte.
- Hum... – Fez encarando-o, por fim não pôde mais olhar aquelas piscinas azuis – Já que estamos nos desculpando... Me desculpe por tê-lo achado um babaca.
Ele riu.
- Isso realmente é um pedido de desculpas?
Ela riu também.
- Não resisti.
- Tudo bem.
- Ei vocês dois! – Disse Richard metendo a cara na cozinha – Querem parar de jogar papo fora e vir curtir? AH, e também tragam a comida!
William fez-lhe sinal que fosse na frente. Cada um se arrumou como pôde e aproveitaram aquela ceia um tanto alternativa 
- Quer beber algo Elisa...
- Lizzy. Só Lizzy – Ela consertou-o.
- Ok. Quer beber algo Lizzy?
- Vocês só têm wisky, vodka e cerveja? – Perguntou desanimada.
- Hum... – Ele pensou – Acho que eu trouxe um vinho há algum tempo.
- Seria perfeito!
Foram juntos até o bar e ele abriu a garrafa, serviu em dois copos, mas antes de beberem os amigos gritaram:
- Três... Dois... Um... FELIZ ANO NOVO!
E logo todos estavam entrelaçados num abraço de muitos braços. Depois, se dividiram e as amigas se abraçaram e os amigos se cumprimentaram. Lizzy sentiu os olhos marejarem, era estranho estar longe da família, após muitos desejos de felicidade Jane foi abraçar o namorado e Char o atual rolo. William e Lizzy se encararam sem graça.
- Bem... – Ela começou.
- Feliz ano-novo para você! – Ele terminou constrangido.
- Para você também. – E uma lágrima rolou.
- Ei, tudo bem?
- Sim, é só que... É o primeiro ano longe da família, você sabe...
- Sei, não fica assim...
E ele surpreendeu a ambos abraçando-a. Os dois estavam surpresos, mas não lamentavam. Lizzy se sentia segura entre os braços dele e ele se sentia feliz, como se pudesse proteger aquela garota das tristezas rotineiras, sentia-se poderoso, como se fizesse a diferença naquele momento para aquela pessoa.
Nenhum deles queria interromper o abraço, mas o fizeram, por aqueles motivos bobos e humanos, a velha história das aparências, da não-fraqueza.
- Obrigada. – Ela agradeceu. 

Ele apenas fez um movimento de cabeça. Sem graça, Lizzy falou que iria pegar uma barra de cereal.
Será que ela me achou abusado? – Pensou William confuso. Não houvera nenhuma malícia naquele abraço. Nenhuma segunda intenção... Ou será que houvera?
De alguma forma, ele não sabia como nem quando, aquela garota começara a exercer uma enorme atração sobre ele.
Foi até a janela fingindo observar a paisagem. Será que era o clima de romance naquela casa? Ou o clima de final de ano, renovação, novas experiências? Talvez aquele jeito sossegado dela de quem está aqui por acaso? Ou a segurança e autoconfiança, ou...
Ele pensou em mil e um motivos para sentir-se assim, menos no mais óbvio: William Darcy havia sido fisgado.
Elisabeth fugira daquela atmosfera estranha. O que aquilo significaria? Aquele garoto a deixava sem saber o que queria, fora de si. Sentia-se totalmente sem defesas, justo depois de ter decidido provocá-lo e jamais ser simpática com ele, no carro. Depois foram acontecendo coisas atrás de coisas e, provavelmente, inspirados pelos casais sob o mesmo teto seus sentimentos a estavam traindo e fazendo pensar estar atraída por ele.
Ele era lindo, claro. Mas no começo se mostrara tão antipático, taciturno, arrogante e irritante. Faria errado em se deixar levar pelo momento?
Decidida a não se deixar levar, voltou para a sala e se sentou no bar, longe de William que estava em pé observando a janela. No que será que pensava?
Eles passaram um bom tempo assim, até que ele se cansou de ficar de pé, e olhou para o ambiente. Jane e Charles estavam namorando num canto do sofá. Richard e Char estavam entrelaçados encostados numa parede e Lizzy com uma expressão cansada tinha a cabeça apoiada numa mão, sentada junto ao bar.

William sentia o sono chegar e bocejou. O som alto começava a incomodar os ouvidos, olhou para o relógio de pulso. Uma e meia. Tudo que queria era um bom banho e cama! Passou por Lizzy e seguiu até o pequeno quarto
Pegou uma muda de roupas que sempre deixava lá e entrou no banheiro.
Elisabeth estava dormindo de pé, depois de sentir a cabeça pender e acordar com o movimento ela abriu os olhos, assustada. William não estava mais na janela, não estava em lugar algum. Mas os outros casais... Esses pareciam alegres em seus respectivos namoros, decidida a não dormir seguiu em direção ao banheiro para lavar o rosto, foi só quando abriu a porta, sentiu o vapor, e viu a silhueta de um homem forte, descobriu aonde William fora.
Fechou a porta com força antes de escutar:
- Fuja mesmo, Richard!
Voltou um tanto tremula para a sala. Só em se imaginar no mesmo ambiente com William nu seus pelos da nuca se arrepiavam. Pelo que vira através do vidro embaçado William não era nada de se jogar fora.
- Lizzy!
- Oi?
- Oi tudo bem? – Zombou Richard.
- Desculpe – Falou voltando à Terra.
- Sabe onde está Will?
- Suponho que tomando banho...
- Que bom, pensei que tinha ido se deitar no quarto. Vamos Charlotte?
- Por mim, tudo bem – Disse a amiga piscando para Lizzy ao passar por esta.
Respirando fundo, ele procurou esquecer aquela silhueta... Provavelmente brilhante pela água quente que caía relaxando os músculos fortes...
- Pára! – Falou alto.
- Nem fiz nada! – Ouviu A voz dele.
Virou-se já envergonhada imaginando-o nu. Surpreendeu-se ao vê-lo de moletom grosso.
- Não era você – Tentou explicar, mas não fez sentido, ele observava-a confuso. Os cabelos molhados grudados na testa pingando, Lizzy teve vontade de pô-los para trás. – Nada – Desistiu.

Ele fez cara de resignado.
- Então, quem vai interromper os pombinhos?
- Por que? – Perguntou ela observando Jane e Charles.
- Porque pelo que me informaram ele e eu dormiremos nos colchões e você e sua irmã no sofá-cama. Se não fosse muito eu gostaria de me deitar... Já são duas da manhã.
- Já? – Ela perguntou olhando o próprio relógio – Meu Deus – Murmurou...
- Pois é... – Ele fez cara de moleque.
Pensando em Jane ela soltou:
- Podemos dormir os dois nos colchões.
Ele a encarou. Sua expressão indecifrável. Ela percebeu a burrada assim que se imaginou dormindo perto daquele homem.
- Q-quero dizer... Você em um e eu em outro...
- Claro – Ele sorriu malandramente – De que outro modo poderia ser?
- Pois é. – Ela mordeu o lábio inferior.
Observou enquanto ele colocava os colchões no lugar, um ao lado do outro.
Charles e Jane se separaram.
- Vocês já pretendem dormir? – Disse em tom lamentoso.
- Me faça um favor, meu amigo – Disse William – Aproveitem, e quando quiserem se deitar podem me acordar para trocarmos os lugares.
Charles sorriu, mas Jane ainda ficou sem jeito, querendo acompanhar a irmã, só desistiu quando esta lhe disse para curtir o namorado. 
- Bem, está tudo pronto – Disse ele apontando um colchão, obviamente mais novo para Lizzy.
- Obrigada - disse ela. E se deitou encolhida sob um edredom.
A luz ficou mais fraca, quando se virou viu que Darcy havia mexido num interruptor, um pouco de luz realmente a deixaria mais tranqüila... Não agora... Sentindo os movimentos dele sobre o colchão que estava às costas dela, achou que fosse ser difícil dormir. Principalmente depois de sentir uma pontada na cabeça... Já dolorida, Lizzy estava se acostumando com a dor, mas essa pontada foi cruel... 
Ouviu a respiração de William, aos poucos, aprofundar-se. Sua cabeça estava ficando pesada, mas sempre que estava quase dormindo vinha uma fincada como se uma agulha fosse enfiada em seu cérebro. Por fim, não suportou e se levantou e saiu. Estava um gelo lá fora, mas ela não queria voltar e pegar o casaco, fez uma bolinha de neve e apertou-a contra a cabeça.
- Ah – Soltou com o alívio que aquilo lhe causou.
Sentou-se no banco, onde mais cedo conversara com William. Abraçou as pernas com um braço e manteve o outro segurando sua bolinha salvadora. Entre um pensamento e outro tinha alguns minutos de sono. Pensou ter ouvido a porta bater e abriu os olhos, nada. Não podia dizer quanto tempo ficou assim até escutar:
- Você não bate bem!
Mal teve tempo de abrir os olhos sentiu algo pesado sendo jogado sobre si, um edredom. Ele se sentou ao lado passando um braço sobre os ombros.
- Você está congelando! – Atestou com preocupação. – Beba isso. – E estendeu-lhe uma xícara de algo fumegante.
O chocolate esquentou-a por dentro, só então ela percebeu que tremia.
- Vem cá – Disse ele puxando-a para si. Ela poderia reclamar, mas sabia não haver maldade ali. Ele se encostou no braço do banco e a fez ficar de costas para ele abraçando-a. Aos poucos, a tremedeira parou.
- O que fazia aqui? – Ele perguntou.
- Minha cabeça estava estourando...
- Usou uma bolinha?
- Sim.
- Porque não me acordou?
- Que direito eu tinha de fazê-lo?
- E que direito tem de virar picolé?
Ela não agüentou e riu.
- É uma sorte a situação permitir risadas – Disse ele com ironia.
- Por favor, não fique bravo – Pediu ela encarando-o. – Se sentisse a dor que eu estava sentindo também esqueceria de calcular os riscos.
- Era tanto assim? – Disse preocupado.
- Era.
- Está melhor? 
- Sim. – Respondeu se aconchegando nele novamente. William sorriu com a proximidade. – Obrigada pela preocupação.
- Reconheço que não sou tão bom assim.
- Que quer dizer?
- A situação não está desagradável para mim – Falou.
Foi a vez de Lizzy sorrir.
- Você me disse que por si estaria em casa com um edredom e chocolate. Bom, não é sua casa e estou de brinde, mas espero ter ajudado.
Ela riu.
- Assim está melhor.
- Mesmo?
- A-hãm. – Falou fazendo charme.
- Me desculpe pela grosseria.
Ela se afastou para poder se virar e encará-lo.
- Não estrague o momento com desculpas. – Pediu prendendo a respiração.
Ele desencostou do braço do banco e se aproximou sentindo a respiração dela, segurou-lhe a nuca. Ela fechou os olhos.
- Que bom que não ficou em casa – Disse antes de beijá-la.
O beijo dele... Era tudo que Lizzy imaginara e muito mais... Tinha uma malandragem de moleque, uma seriedade de homem, uma possessividade arrebatadora e uma proteção tranqüilizadora, Lizzy se perguntava como nunca havia estado entre aqueles braços com aqueles lábios colados aos seus antes.
Já William sentia naquela pequena um mar de contrastes, sentia-se forte tendo-a entre seus braços como se pudesse protegê-la de tudo. Sentia-se fraco diante daquela mulher tão segura e sentia que não havia calor que desejasse tanto quanto o do corpo dela.
Ficaram juntos por algum tempo, depois separaram as bocas ficando apenas abraçados. William acariciava os cabelos dela e ela acariciava o braço dele que se apoiava sobre sua barriga acariciando-a.
- É melhor entrarmos – Disse ele. 
- Antes que viremos picolé.
- Você seria um picolé delicioso – Disse ele fazendo-a rir.
Ela o encarou.
- Você precisa expressar mais esse seu lado bem-humorado.
- Acha mesmo?
- Com certeza!
Ele riu e se aproximou para beijá-la.
- Ai! 
- Desculpe... – Pediu. Havia esbarrado no galo.
- Tudo bem – Ela falou sorrindo.
- Assim que amanhecer vamos ao hospital dar uma olhada nisso. – Ele disse antes de beijar-lhe o machucado.
E Lizzy sentiu uma ternura naquele simples ato que aqueceu-lhe o coração e marejou os olhos.
- E pode me dizer de que forma iremos? – Disfarçou em tom de brincadeira.
- Ligarei para minha irmã.
- Sua irmã? – Perguntou assustada pela possibilidade de conhecer alguém da família dele.
- Ela é legal.
- Hum... – Fez insegura.
- Que isso Lizzy! – Ele riu.
- Nada William, só que não quero incomodá-la em pleno primeiro de janeiro.
- Will. Só Will – Corrigiu-a – E ela não se importará. Tirou a carta há pouco tempo e cada vez que dirige se sente dona do mundo.
- Recentemente é? – Ela perguntou zombeteira.
- Preocupante, eu sei – Ele admitiu – Mas assim que chegar aqui eu assumo.
- Isso é mais preocupante ainda!
- Ei!
- Observe-o – Falou apontando para o galo.
- Isso foi um acidente!
- Deixe sua irmã dirigir – Continuou zombando.
E eles riram. Até que a risada foi cessando e eles apenas se encaravam em silêncio. Os olhos dele brilhavam, e ela percebeu que aquela noite fora especial em sua vida.
- Você foi meu presente de ano-novo Will.- Disse corando, em seguida.
- Quem sabe de outras datas também – Ele disse acariciando as maçãs do rosto dela.
- Quem sabe... – Ela repetiu antes de ser beijada.
Após o beijo eles entraram e dormiram abraçados. Jane e Charles respiravam profundamente dormindo em posição semelhante.
Algumas horas depois William ligou para a irmã que não ficou muito feliz em ser acordada, mas contente por ter de dirigir e por seu irmão, aparentemente, estar começando um relacionamento.
William foi com Lizzy até o hospital e aos outros coube resgatar a vã. 
Lizzy, felizmente não sofrera nada grave e após alguns dias estava pronta para outra. Se sua cabeça estava ótima, seu coração já não era o mesmo. E aquele ano-novo trouxe o presente mais especial de todos: o companheiro de sua vida.
Amor, brigas, paixão, alegrias, lágrimas... Ela ganhou muita coisa por desistir de seu edredom e chocolate quente. Um pequeno brinde, como dissera uma vez seu namorado, marido, amante, amigo e parceiro.

FIM