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Um bebê a caminho

Ligado . Publicado em Um bebê a caminho

“Kent, 1810

 

Querida Lizzie, venho-lhe informar as boas novas. Há cerca de um mês vinha me sentindo indisposta, com tonturas e náuseas. O Sr. Collins achou melhor que um doutor experiente me consultasse para saber de qual enfermidade sofria, mas eis a surpresa, não há doença alguma, e sim uma benção.

O doutor Gregor deu-me uma boa notícia, estou grávida. Finalmente estou realizada. Casada, com minha própria casa e tão logo encomendado um herdeiro. Lady Catherine de Bourgh me congratulou e pretende batizar a criança, seja menino ou menina.

Porém, minha querida amiga, sinto-me sozinha compartilhando desta dádiva. Meu marido se dedica totalmente a pequena paróquia, sempre incentivado por Lady Catherine, companhia dela não poderia pedir, pois uma senhora em seu status, não faria companhia a uma pobre mulher de um pastor. Muito menos a jovem Anne de Bourgh, que sofre de muitas enfermidades e dificilmente sairia de sua suntuosa mansão. No último inverno quase morreu, pobre alma.

Minha mãe está ocupada com os preparativos do casamento de minha irmã Maria, que irá se casar dentro de alguns meses e Maria é sua filha preferida, não poderia competir com ela a atenção e o amor de minha mãe neste momento. Meu pai e irmãos não entenderiam as minhas necessidades neste período, por isso Lizzie, peço que considere o meu convite e venha ficar comigo durante a minha gravidez. Gostaria de gozar de sua companhia e não me sentir sozinha, pois tenho medo de que algo aconteça comigo.

O doutor também me recomendou repouso absoluto, ou seja, não poderia cuidar dos pequenos afazeres de minha casa, não quero que se submeta a trabalhos domésticos, mas que me ajude administrá-la. E com poucos vizinhos, ele percebeu que não poderia ficar sozinha, pois prejudicaria o bebê.

Minha amiga aguardo sua resposta com muita estima.

 

Charlotte Collins”

 

Lizzie estava atônita ao ler a carta, não pelo convite feito por sua amiga, mas por sua mãe ralhando por toda a sala que Charlotte estava se aproveitando da situação, pois logo se tornaria senhora de Longbourn.

- Estão vendo como ela já se apossou de nossa propriedade? Praticamente obrigando nossa filha a servir de empregada, quem sabe até criar aquela criança. – Falava aos berros na pequena sala de desenho. – Oh, meus pobres nervos, meus nervos.

- Mamãe, não é uma obrigação, ela está pedindo para que eu passe uma temporada com ela, na qual eu acho plausível nas circunstâncias em que ela se encontra. – Tentou justificar Lizzie.

- Como ousa menina tola? Não vê que ela quer se aproveitar da nossa fragilidade e tentar a qualquer custo nos humilhar? – Ralhou novamente. – Pois ela sabe que estaremos desamparados quando seu pai morrer e jogará em nossa cara a caridade que fez.

- Mamãe, a senhora sabe que Charlotte seria incapaz de fazer tal crueldade. Talvez ela até coloque senso na cabeça de Collins se o papai morrer e ele quiser tomar a nossa propriedade. – Interveio novamente Lizzie. – Eu preciso ir e eu vou. Se eu não tiver o seu consentimento, papai o dará. – Saiu a passos largos da sala, enquanto sua mãe lamuriava novamente.

 

“Hertfordshire, 1810

 

Minha querida Charlotte estou muito feliz pela chegada de uma criança em sua vida. Aceitarei o seu convite de bom grado, ficarei feliz em passar alguns meses em sua companhia e lhe ajudarei com todos os afazeres.

É uma pena que sua mãe dê mais atenção a Maria do que a você, apesar de ter o mesmo exemplo clássico dentro de casa. Pois em sua situação, só teria a atenção completa de minha mãe se fosse casada com algum homem rico.

Espero me juntar a você daqui uma semana.

Muitas felicidades, minha amiga,

 

Elizabeth Bennet”

 

Na véspera de sua viagem, Jane e Lizzie estavam trocando confidências. Jane ainda tinha um ar de melancolia, pois mais uma vez ficaria sem sua irmã por perto.

- Jane, eu preciso lhe contar algo que há meses me aflige.

- O que é Lizzie? – Preocupou-se.

- Quando visitei Charlotte pela primeira vez em Kent, o Sr. Darcy estava hospedado em sua tia. E ele se declarou a mim. – Jane ia interrompê-la. – Mas eu o neguei, porque ele foi um dos que intercederam por seu rompimento com Bingley.

Jane estava surpresa com a revelação da irmã e Lizzie continuou:

- Eu sei que srta. Bingley também teve culpa, pois estava visível em sua visita a Londres a pouca vontade de recebê-la. Naquela noite ele me entregou esta carta. – Mostrou Lizzie ainda selada. – Eu não tive coragem de lê-la. – Confessou.

- E por que guardou por tanto tempo esse segredo? – Jane indagou levemente magoada. – Sei que não me ajudaria muito, mas reconfortaria meu coração. Isso mostra que Bingley é volúvel em seu caráter e vontades, mas porque guardou isso só para você?

- Eu tive medo de te magoar ainda mais. – Lamentou Lizzie. – Me perdoe?

- Claro, mas é bom você ler esta carta, pelo menos tira esta dúvida pesada que cai mais sobre você do que a mim. Eu já estou conformada sobre esta história e acredito não amo o Sr. Bingley, como achei no verão passado. – Falou Jane, mas Lizzie sabia que sua irmã ainda pensava no Sr. Bingley.

Após a conversa, Lizzie colocou a carta em um de seus baús, para assim que tiver coragem o suficiente, sanará suas dúvidas sobre Jane e Charles e também sobre Sr. Wickham, na qual foi o ápice de sua última discussão com Sr. Darcy. Pensava Lizzie o porquê da opinião de Darcy a atormentava e lhe dava curiosidade de saber, mesmo que o que ela esperava dele era apenas desprezo e mau julgamento para com ele. Com estes pensamentos, Lizzie dormiu.

 

 

Lizzie chegou na manhã do sábado em Kent, quando encontrou Charlotte viu que ela se encontrava mais bonita e o pequeno volume em seu vestido já começava aparecer.

- Lizzie, que felicidade em lhe rever. – Disse feliz.

- A minha também. Você está tão linda. – Respondeu Lizzie com um abraço.

Juntas, entraram na pequena casa.

- Lizzie, por hoje ficaremos sozinhas, Collins deverá chegar no início da noite. Está trabalhando muito. – Disse Charlotte sem expressão.

Lizzie sabia que não havia amor no casamento de Collins e Charlotte, algo que ela prezava, e muito, em um casamento. Mas sabia que sua amiga não tinha grandes considerações em relação a um casamento feliz e cheio de amor.

- Charlotte, como Collins reagiu à notícia? – Perguntou curiosa.

- Bom, ele está feliz. – Disse Charlotte. – Ele não esperava um filho tão cedo, mas espera que seja um menino.

- E se for uma menina?

- Ele foi bem claro que não está entusiasmado em ter uma menina, seu medo é que eu apenas lhe dê filhas a partir de então. Sempre que ele chega em casa, fala comigo como está o nosso filho, deixando claro sua preferência. – Disse com a voz entristecida.

- Não fique assim, Charlotte. – Lizzie aproximou-se ao perceber o abatimento. – Com certeza ele amará se for menino ou menina, e não se preocupe se só tiver meninas, não é um castigo. – Disse tentando animá-la.

- Não sei por que estamos tendo essa conversa boba. – Tentou disfarçar sua tristeza. – Venha, vou lhe mostrar os sapatinhos e algumas roupinhas que eu fiz. – Subiram as escadas.

 

O quartinho do bebê já tinha um pequeno berço e algumas roupinhas estavam dobradas em um armário. Lizzie olhava admirada o quanto de roupinhas que o bebê teria.

- Foi você quem fez tudo isso? – Perguntou Lizzie admirada.

- Boa parte. Algumas peças de roupa foram ganhas, mas como andei indisposta nas últimas semanas, consegui me distrair tricotando algumas roupinhas.

Lizzie só viu Collins quando estava anoitecendo. Cheio de mesuras e sem perder o seu jeito pomposo, Collins a tratou cordialmente.

- Minha querida prima, que prazer receber a sua visita. Creio que Charlotte estará em boas mãos nos próximos meses.

Collins sempre procurou dominar a conversa em todos os lugares que passasse e em sua própria casa não seria diferente. No jantar, ele enumerava as qualidades que seu filho poderia ter no futuro.

- Estou muito feliz que minha querida Charlotte carrega um filho no ventre. Tenho certeza de que ele será uma criança muito saudável, o incentivarei a ir sempre comigo a igreja e quem sabe se tornar um bom pastor como seu pai, ou melhor, um bom médico ou advogado – Dizia orgulhoso.

Charlotte e Lizzie trocavam sorrisos cúmplices diante do discurso de Collins.

- Meu querido, temos que fazer a vontade de nosso filho. Ele ainda mal abriu os olhos para o mundo e você já está traçando sua vida inteira. – Disse Charlotte compreensiva.

- Oh, sim minha Charlotte, mas é a partir de agora que tudo começa. Pois, do que seriam os filhos se não fossem os pais que os encaminhassem? – Indagou Collins.

- Você está certo, meu primo. Mas criar muitas expectativas podem ser decepcionante no futuro. Vide a minha mãe, tinha o sonho de ter um filho homem, que fosse soldado do exército, ou um bom advogado e foi agraciada com cinco belas meninas. – Observou Lizzie, Charlotte reprimiu um pequeno sorriso.

- Sem dúvida, minha prima. Porém, tenho certeza de que minha Charlotte me dará um herdeiro. – Disse-lhe. Collins era irredutível em suas conjecturas, se Charlotte não conseguia controlá-lo, Lizzie também não o faria.

Ao final do jantar, Lizzie declarou cansaço e junto de Charlotte subiu até seu aposento. Collins preferiu ficar na biblioteca analisando seu livro de sermões que o usaria no dia seguinte.

 

Darcy aproveitava o fim do outono e junto de sua irmã Georgiana resolveram passar uma temporada em Rosings com sua tia Lady Catherine de Bourgh. Seu primo Coronel Fitzwilliam estava afastado do exército naquele momento e também passava uma temporada junto com Darcy em Rosings.

Aproveitando que o dia estava ensolarado, os primos resolveram treinar tiro no campo aberto no fundo da propriedade. Desde que chegara, as lembranças da última vez que estivera ali assaltaram sua mente. A chuva, a discussão e a recusa, o desconcentrava cada vez mais. Percebendo que o primo estava pensativo, Fitzwilliam resolveu contar algo que soubera no dia anterior da chegada.

- Ontem nossa tia recebeu a visita do Sr. Collins. – Começou.

- Collins sempre visita nossa tia. – Darcy respondeu sério.

- Ele trouxe uma novidade e acredito que irá gostar. A senhorita Elizabeth Bennet está o ajudando a cuidar de Charlotte. – Disse o primo, captando total atenção do primo.

- Ela está aqui? – Ele tentou se controlar.

- Sim, a Sra. Collins está grávida e a Srta. Bennet veio-lhe fazer companhia. Creio que ficará até a criança nascer.

Darcy não disse mais uma palavra, lançou um disco no ar e o acertou em cheio com um tiro.

- O que aconteceu quando esta moça veio para Kent? – Indagou Coronel Fitzwilliam.

- Isso é passado agora. – Ele jogou o disco e errou o tiro, pois não queria ter essa discussão com o primo.

- Ora, Darcy, não me diga que era apaixonado por esta moça? – Gracejou. – Pelo visto, ainda é.

- Isso não importa agora, Fitzwilliam. – Respondeu Darcy irritado. – Estava enganado quanto aos sentimentos dela. – Encerrou a conversa.

 

Darcy não conseguiu conciliar o sono naquela noite. Todo o jantar foi monopolizado pela visita inesperada de Elizabeth Bennet. Sua tia considerava-a uma moça inteligente, porém que precisasse ser mais controlada com a sua opinião e criticou Charlotte pela ousadia de convidar uma mulher totalmente despreparada para fins domésticos e que pouco entendia de maternidade.

Ainda estava amanhecendo, quando saiu para cavalgar entre a floresta fechada de Rosings. Queria esquecer de tudo, queria estar neste momento desfrutando de suas terras em Pemberley, longe de toda essa dor, mas ao mesmo tempo queria ver aquele rosto e aqueles olhos que tanto o hipnotizou enquanto esteve em Netherfield, em Hertfordshire.

Cavalgou sem destino, até chegar em um pequeno lago. Percebendo que o cavalo estava cansado, levou-o a margem, e sentou-se em uma pedra e se distraiu jogando pequenas pedras no rio.

 

Há uma semana hospedada na casa da família Collins, Lizzie percebeu que Charlotte acordava muito mais tarde e assim resolveu guardar suas manhãs para caminhadas entre o bosque próximo a Rosings Park.

Naquela manhã, após o desjejum, partiu para mais uma caminhada e consigo levou um livro que trouxera na viagem. Enquanto caminhava, Lizzie lembrou-se da primeira vez em que esteve Kent, e quando se encontrou com o Sr. Darcy. Tentando esquecer essas lembranças, caminhou mais rápido, chegando ao lago próximo casa dos Collins.

Sentou-se em uma pedra, e voltou a ler o livro. Absorta na leitura, Lizzie não percebeu que um cavalo se aproximara, com o susto, gritou e foi para a água, molhando as barras de seu vestido.

Com o grito, Darcy despertou de seus pensamentos e viu que seu cavalo não estava mais próximo dele, o viu ainda próximo e uma moça gritando. Correu até o local onde estava o animal e o segurou, olhando para a moça.

- Srta. Bennet.

- Sr... Darcy. – Disse ainda assustada.

- Perdoe-me, eu me distrai e perdi o cavalo de vista. – Darcy afastou o animal e percebeu que Lizzie estava nas margens do rio. – Perdoe-me mais uma vez. – Estendeu a mão para ajudá-la a sair da água.

Lizzie saiu com certa dificuldade, pois a lama prendia seus pés na margem do lago. No último passo, foi preciso que Darcy segurasse a sua cintura para que ela conseguisse sair sem se sujar mais.

- A senhorita está bem? – Indagou, após soltá-la.

- Sim. – Ela percebeu que o havia sujado com a lama de sua bota e ficou envergonhada por estar naquele estado.

Darcy a analisava e percebia que ela se sentia pouco a vontade naquele momento, mas a atração por ela ainda era forte.

- O senhor veio passar uma temporada com sua tia? – Indagou Lizzie, pois na última vez ele confessara que estivera ali por causa dela.

- Sim, minha irmã Georgiana pediu-me para que a trouxesse para visitar minha tia. E a senhorita?

- Eu vim fazer companhia a Charlotte. Sr. Darcy, foi bom reencontrá-lo, devo ir agora, pois Charlotte já deve ter acordado e esperando meu retorno. – Despediu-se com uma mesura.

- Deixe-me acompanhá-la. – Pediu.

- Não será necessário, Sr. Darcy, tenha um bom dia. – E deu-lhe as costas.

 

- Lizzie, o que aconteceu com você? – Indagou Charlotte, assim que a viu.

- Eu me assustei com um animal. – Contou Lizzie. – Vou me trocar. – Subiu rapidamente para seu aposento.

Após se limpar e se arrumar, Lizzie abriu seu baú e encontrou a carta amassada. Pegou-a e fez menção de abri-la, mas perdeu a coragem. Deixou-a no criado-mudo e desceu para fazer companhia a Charlotte.

 

Charlotte e Lizzie tomavam chá em sua sala particular e percebeu que a amiga estava inquieta.

- Lizzie, aconteceu mais alguma coisa essa manhã?

- Nada de importante. – Charlotte desconfiou.

- É algo sério? Você quer voltar para sua casa?

- Não, está sendo muito bom ficar aqui com você. É que, hoje, eu me assustei com um animal.

- Ah, sim, você já disse mais cedo. – Charlotte inclinou-se para ficar mais próximo de Lizzie. – Olhe, eu a conheço muito bem e sei que há mais alguma coisa nessa história. Por que não quer me dizer?

- Tudo bem, eu lhe contarei. – Charlotte sorriu. – Eu estava andando no bosque e me encontrei com o Sr. Darcy. Ele me ajudou a sair do rio. – Ruborizou.

- E o que há de mal nisso?

- Foi constrangedor reencontrá-lo naquele estado. – Lizzie tentou encontrar uma resposta plausível.

Um mensageiro bateu a porta e Lizzie o atendeu. Era um convite de Rosings, neste momento, Lizzie sentiu-se nervosa ao pegar o envelope endereçado a Charlotte. Charlotte abriu o envelope e sorriu.

- Que amável! Lady Catherine nos convidou para um jantar esta noite.

- Eu também estou convidada?

- Sim. – Mostrou-lhe o bilhete. – Ela também a chamou. Collins deve ter dito que você estaria nos visitando, deve ter gostado de você. – Declarou Charlotte.

Lizzie sabia muito bem que Lady Catherine não simpatizara com ela, mas mesmo relutante, aceitou o convite de Charlotte de acompanhá-la ao jantar.

 

Rosings Parks ainda conseguia impressionar Lizzie por sua bela construção. Lady Catherine soube conservá-la com o tempo, tornando-a umas das mais belas propriedades da Inglaterra. Com uma escadaria de pedra, enormes vidraças, impecavelmente limpas, Lizzie, Charlotte e Collins passaram pelo hall principal da mansão.

Ao entrar na sala principal, percebeu que haviam outros convidados, reconheceu Coronel Fitzwilliam, Anne de Bourgh, Darcy e viu um rosto novo. Uma moça loira e jovem vestia um vestido claro e levemente tímida, sorriu ao vê-la. A observação de Lizzie foi interrompida pela forte voz de Lady Catherine.

- Srta. Elizabeth quero que conheça minha sobrinha Georgiana Darcy. – Apontando para a moça loira sentada ao lado de Anne.

As duas se cumprimentaram.

- Georgiana é uma grande musicista, srta. Bennet tem um talento nato no piano e na harpa. – Elogiou orgulhosamente. – Espero que se junte a ela após o jantar no piano. – Convocou Lady Catherine.

- Muito obrigada, Lady Catherine, mas creio que Georgiana o fará melhor sozinha. – Recusou Lizzie.

- Eu agradeceria e muito se me acompanhasse Srta. Bennet.  – Manifestou-se Georgiana.

Lizzie pensou em negar mais uma vez, mas aceitou o pedido em respeito a Srta. Darcy, que aparentou ser muito tímida e não arrogante ou orgulhosa, como Wickham uma vez a classificara.

O jantar foi servido entre os convidados, Lizzie sentou-se perto de Charlotte, Collins e o Coronel Fitzwilliam, a sua frente estavam Georgiana, Darcy e Anne. O primeiro prato foi servido, quando Lady Catherine começou o seu interrogatório a Lizzie:

- Srta. Bennet, da última vez que esteve aqui, você falou de suas irmãs, alguma delas casaram?

- Não, milady.

- Isso é estranho, pela idade de suas irmãs e da senhorita, já deveriam ter encontrado algum pretendente. – Criticou Lady Catherine.

- Pretendentes não são o problema, pelo menos eu e minha irmã mais velha nos importamos com o sentimento para firmar um compromisso. – Respondeu Lizzie demonstrando certa irritação.

- Casar-se por amor? – Indagou Lady Catherine irônica. – Só uma garota tola como você para pensar em sentimento em um casamento.

“Com um coração de pedra como o seu, Lady Catherine, duvido que tenha se apaixonado uma vez na vida”, pensou Lizzie, mas Darcy, que até então observava a conversa, manifestou-se:

- O amor no casamento impõe respeito entre o casal, concordo com a srta. Bennet que só se é feliz no casamento com sentimento. – Lady Catherine olhou-o incrédula com tal pensamento.

Darcy falou suas palavras olhando diretamente e Lizzie, o que não passou despercebido pelos convidados mais próximos. Instintivamente, Lizzie sorveu o líquido da sopa sem esfriá-lo e tossiu chamando a atenção.

- Perdoe-me. – Disse envergonhada.

- Impressiona-me, Sra. Collins, o quanto anda disposta na gravidez. – Lady Catherine mudou o foco.

- Sim, milady. Tive alguns dias de indisposição, mas minha amiga Lizzie tem me ajudado bastante, o que tem feito a minha gravidez ser muito mais prazerosa. – Disse Charlotte com um leve sorriso.

- A senhorita tem noção de quantos meses está? – Indagou Lady Catherine.

- Creio que pouco mais de dois meses, o bebê deverá nascer no meio do inverno.

- Isso é muito mal, Sra. Collins. Essa criança deverá ser muito forte para nascer em tempo tão ruim e no meio de um inverno tão rigoroso. – Ponderou Lady Catherine. – Gostaria que passasse os últimos meses em minha residência. – Convidou-a.

- Não gostaria de incomodá-la, afinal estou com Lizzie para me fazer companhia, e não seria justo deixá-la sozinha.

- Sem dúvida, porém aqui a senhora teria a disposição empregados que têm conhecimentos de parto e sabe de todas as necessidades de uma mulher grávida. Apesar de ter tantas irmãs, creio que a srta. Elizabeth não tenha talento de parteira. – Criticou Lady Catherine.

- Engana-se, minha senhora. – Interveio Charlotte antes de Lizzie. – Minha amiga já ajudou em dois partos, inclusive eu estive presente em um deles. E Lizzie foi uma pessoa muito forte, creio que estou em boas mãos.

O silenciou reinou ao longo do jantar. Após o jantar, os convidados se dirigiram para a sala de música. Georgiana tocou uma música alegre para os convidados, a desenvoltura e a velocidade precisa nas teclas do piano foi muito bem elogiada pelos convidados. Lizzie ficou cada vez mais apreensiva de fazer um dueto com ela.

- Mas a senhorita toca tão bem? – Insistiu Georgiana, após a desculpa de Lizzie de se envergonhar e errar perto de Georgiana.

- Quem lhe disse que eu toco tão bem? – Indagou Lizzie divertida.

- Meu irmão. – Disse inocente.

Lizzie olhou assustada para Darcy.

- Eu disse que ela toca bem, não tão bem. – Corrigiu Darcy com um olhar divertido para Georgiana.

- O elogio foi que eu toco bem, eu fico satisfeita. – Sorriu Lizzie para Georgiana, evitando olhar para Darcy, que a observava.

- Venha, ou então eu terei que forçá-la a tocar comigo. – Puxou Lizzie pelo braço.

As duas se sentaram no banco em frente ao piano, Georgiana começou a tocar e Lizzie a acompanhou na voz. Em alguns momentos, Georgiana calava-se para que a voz fina de Lizzie se destacasse. Ao final da pequena apresentação, Lizzie percebeu que todos a observava.

- Srta. Bennet, não sabia que cantava. – Lady Catherine se manifestou um pouco incrédula daquilo que acabara de ouvir.

- É apenas uma simples voz, milady. – Replicou Lizzie levemente encabulada.

- É uma das vozes mais belas de toda a Inglaterra. A senhorita tem um talento como grandes cantoras de ópera. Deveria cantar mais vezes. – Sorriu Lady Catherine.

- Obrigada, milady.

Charlotte alegou cansaço, mobilizando Lizzie e Collins a partirem de Rosings.

 

“Senhorita Elizabeth Bennet, sua companhia me fez muito bem na noite anterior em Rosings. Como já ouvi falar muito bem de você, sinto que posso confiar em você e a considero uma verdadeira amiga.”

Perdoe-me a ousadia, mas gostaria de lhe convidar para um chá aqui em Rosings hoje à tarde. Espero que atenda meu pedido.

Georgiana Darcy

 

O bilhete pegara Lizzie de surpresa, a srta. Darcy de longe parecia uma pessoa orgulhosa como o irmão, que na noite anterior parecia mais calado que o habitual, porém, Lizzie sabia que havia diversos motivos para que o Sr. Darcy não conversasse tanto com ela.

Charlotte também se surpreendeu com o convite, devido a tudo que Lizzie compartilhou com ela sobre a história de vida de George Wickham, porém tinha a mesma impressão que Lizzie sobre o real caráter da jovem.

- Sem dúvida que a Srta. Darcy é uma pessoa muito meiga. – Ponderou Charlotte. – Já lhe passou pela cabeça que tudo o que o Sr. Wickham lhe falou poderia ser mentira?

- Antes eu me negava a pensar nisso, Charlotte, mas depois da noite de ontem, ouso dizer que sim. Pois, ele havia me falado com tanta convicção sobre a srta. Darcy, crente de que eu nunca a conheceria. – Desconfiou Lizzie. – Talvez ele não tenha errado com o caráter de Darcy, mas possa ter mentido toda a sua história de vida. – Concluiu.

- Isso seria muito grave.

Lizzie aceitou o convite de tomar um chá com a srta. Darcy naquela tarde em Rosings. Assim que chegou na mansão, Lizzie se sentiu mais à vontade ao perceber que teria companhia apenas de Georgiana. Aparentemente, Lady Catherine estava na cidade, a srta. Anne de Bourgh estava indisposta e o Sr. Darcy e o Coronel Fitzwilliam estavam tratando de negócios.

Georgiana a recebeu na sala de músicas, onde após alguns minutos de conversas amenas sobre festas, tocaram piano. Por estarem a sós, Lizzie se arriscou em uma ópera, mas desculpou-se por errar algumas notas.

- Perdoe-me, não tenho o costume de tocar piano. Mary monopoliza o instrumento em casa.

- A senhorita toca muito bem, Srta. Bennet, minha tia Lady Catherine sempre nos disse para praticar. Assim que a senhorita tiver uma oportunidade pratique.

- Bom, teria que acordar a minha família no meio da noite. – As duas trocaram uma risada cúmplice.

- Quando meu irmão estava em Hertfordshire, ele me falou muito da senhorita. – Georgiana falou timidamente.

- O Sr. Darcy?

- Sim, ele disse que a senhorita era uma moça inteligente, talvez a mais astuta que já tenha conhecido.

- Isso me surpreende. – Respondeu Lizzie sentando-se em poltrona de frente a Georgiana. – Troquei poucas palavras com o Sr. Darcy.

- E uma ótima dançarina. – Sorriu Georgiana, deixando Lizzie mais desconfortável. – Você fez algo que nenhuma outra dama fez com o meu irmão. – Disse enigmática.

- O que eu fiz? – Lizzie não pode esconder o espanto.

- Dançar. Meu irmão raramente dança, e se dança é com pessoas conhecidas e primas. Nos poucos bailes que eu o acompanhei, meu irmão dançou comigo e com uma conhecida da família e passou o resto da noite rodeado por senhores falando de negócios. O que a senhorita fez com ele?

- Olha, eu não sei.

- Ele ainda fala de você com um tom que eu nunca o ouvi falando de outra pessoa. Ele fala de você com carinho.

Lizzie sentiu perder um pouco do ar.

- Srta. Darcy, não quero ser indelicada, mas não conheci seu irmão em boas circunstâncias.

- De maneira alguma. Meu irmão causa isto, já o alertei sobre o comportamento dele, mas é um jeito em que eu não posso corrigir.

Um criado chegou com o chá interrompendo a conversa entre as duas.

- Srta. Bennet me conte como é Hertfordshire? Meu irmão me contou tão pouco sobre lá.

- Bom, lá é uma cidade pacata, longe de ser movimentada como grandes centros. As nossas distrações são pequenos recitais e chás da tarde. Os bailes raramente acontecem. – Os olhos de Georgiana brilhavam à medida que falavam. – Ultimamente o que vem animando a cidade é o exército.

- O exército? – Georgiana empalideceu.

- Sim. Algum problema Srta. Darcy?

- É que meu irmão não contou esse detalhe. – Ela disse tentando disfarçar as lágrimas. –

A senhorita conheceu o Sr. Wickham? – Lizzie confirmou.

- Wickham falou de quando cresceu com seu irmão. – Disse Lizzie, vendo que os olhos de Georgiana ficavam cada vez mais opacos.

- Independente do que ele tenha contado, há algo terrível sobre ele que eu devo lhe falar. – Lizzie arregalou os olhos.

Lizzie andava atônita de volta para a casa dos Collins, como ele pode fazer aquilo com a pobre Georgiana? Assim que chegou, correu para o seu quarto e vasculhou a carta que havia trazido. Encontrou-o dentro de um livro que havia trazido. A elegante letra de Darcy quase a fez desistir mais uma vez. Respirou fundo e abriu a carta.

A carta que Darcy havia lhe mandado naquela tarde fatídica confirmou as suspeitas do mau caráter que era George Wickham. Precisou lê-la diversas vezes a longa carta. Ela se acalmou, as folhas e a tinta estavam próximas, ela precisava avisar Jane que ela e suas irmãs corriam perigo da sedução de George Wickham.

 

A gravidez de Charlotte seguia normal, ao passar dos meses sua barriga ficava mais evidente sob o vestido. Collins aprendeu a ser mais amoroso, o amor paterno devia ter aflorado no coração do pároco. Às vezes, Lizzie se sentia uma intrusa no meio do casal. Georgiana voltou para Londres com seu irmão e Jane lhe mandava cartas frequentemente, contando as mesmas novidades.

Numa manhã, Charlotte ficou de cama, ela sentia algumas dores. Por segurança, Lizzie achou melhor avisar o médico de Kent sobre o possível nascimento de Charlotte e ficou com ela a manhã inteira. Collins, relutante, teve que ir cuidar de sua pequena igreja e prometera voltar antes do anoitecer.

- Por favor, meu amor, faça com que o nosso bebê espere o papai para nascer. – Essas foram as palavras amorosas de Collins ao se despedir de Charlotte, deixando claro que pouco lhe importava se fosse menino ou menina.

No meio da manhã, Charlotte arriscou-se a sair do quarto, mesmo com Lizzie insistindo que ficasse na cama, a teimosia de sua amiga foi maior e resolveu ir à sala de visitas para tomar chá e escrever para seus parentes informando sobre o bebê. Lizzie também aproveitou e lia a carta de Jane, que havia recebido naquela manhã.

 

"Hertfordshire, 1810

 

Lizzie,

Venho lhe dizer más notícias, mas pela graça de Deus e a intervenção de um cavalheiro, a honra de nossa família por pouco não foi destruída.

Lydia e George Wickham quase fugiram. O plano foi descoberto no dia da suposta fuga de nossa irmã.

Na verdade, Lydia andava muito quieta e distante nos últimos dias. Ela não contava a ninguém o que acontecia com ela, nem mesmo para Kitty. Há duas semanas, papai flagrou-a indo em direção à estrada no amanhecer e ele a seguiu e a viu com George Wickham. Papai quase se descontrolou, mas no meio do caminho encontrou o Sr. Darcy, que cavalgava.

George se descontrolou e ameaçou sequestrar nossa irmã, quando o Sr. Darcy interviu e ofereceu dinheiro a George para que sumisse de nossas vidas e ele prontamente aceitou.

Apesar de ter sido um ato de coragem do Sr. Darcy, papai disse que eles lutaram e que o Sr. Darcy disse-lhes algumas coisas infames que Wickham fez a ele, Lydia ficou muito abalada pelo comportamento de Wickham.

Passado o susto, minha irmã, finalmente eu tenho uma boa notícia a você, Sr. Darcy veio acompanhado do Sr. Bingley e jantou conosco na noite de ontem. O Sr. Bingley voltou diferente e conversou comigo a noite inteira e esta tarde veio me fazer companhia. Não sei o que se passa na cabeça dele, mas creio eu que ele está tentando se aproximar de mim. Só tenho medo que ele vá embora repentinamente como da outra vez. O que faço?"

 

Lizzie leu a carta e lhe respondeu prontamente e pensou o que aquele cavalheiros estavam fazendo de volta a Netherfield, principalmente o Sr. Darcy, que acima de tudo salvou sua irmã de se envolver com um homem perigoso feito Wickham.

Um estrondo de um trovão chamou tirou Lizzie de seu devaneio. O céu estava nublado e logo anunciaria uma forte tempestade. Não demorou muito para a chuva anunciar sua chegada, aos poucos escurecendo o céu e com fortes trovoadas que iluminavam o céu.

- Lizzie! – Charlotte gritou. – O bebê. Dói. – Disse com dificuldade.

- Clarice. – Lizzie chamou e a jovem criada foi até a sala. – Chame o doutor Gregor, Charlotte está passando mal. – A jovem sumiu em instantes da sala.

Charlotte fez uma cara de dor mais uma vez e Lizzie a ajudou a ir no quarto. Já na cama, acomodou-a e preparou a amiga para o parto, tirando o vestido e a anágua, deixando apenas um lençol cobrindo suas pernas.

- Como estão as dores? – Indagou Lizzie.

- Cada vez mais forte. Eu vou morrer? – Charlotte chorava.

- Não. Não. – Lizzie resolveu acalmá-la, mas percebeu que o lençol já estava úmido, ela entraria em trabalho de parto em breve.

Foi próximo à janela preparar a água e outros materiais para poder ajudar no parto quando reparou a casa de caça de Rosings, que conseguia ver dali. A chuva havia diminuído consideravelmente e percebeu que havia luz ali, com certeza haveria alguém. Olhou para a amiga e viu que o estado dela não era dos melhores e não teria condições de fazer o parto sozinha.

- Charlotte, você me espera por alguns minutos?

- Aonde você vai? – Indagou com dificuldade.

- Vou procurar ajuda. Eu vi uma luz naquela casa de caça, pode nos ajudar. Fique bem. – Lizzie se aproximou e estendeu um pano. – Tome isto, se as dores insistirem, morde, mas use-a na hora de empurrar o bebê. – A amiga consentiu e saiu dali.

Lizzie desceu rapidamente, colocou uma capa e seguiu até a casa de caça de Lady Catherine, a chuva já estava enfraquecendo, mesmo assim acabou ficando molhada. Estava rezando para que houvesse uma alma boa para que ajudasse no parto de sua amiga. Bateu na porta fortemente, esperou alguns segundos, bateu novamente. A porta destrancou revelando um cavalheiro.

- Sr. Darcy! – Lizzie ficou boquiaberta. Ele estava sem a gravata e o colete, estava molhado e o camisão com alguns botões abertos.

- Srta. Bennet, entre, está chovendo.

- Não. Não. – Ela piscou algumas vezes. – O senhor tem que me ajudar, Charlotte vai ter o bebê e o médico ainda não chegou.

Darcy entrou na cabana pegou o casaco e saiu do casebre seguido por Lizzie. Em minutos eles já estavam no aposento de Charlotte, que estava muito pálida. Lizzie lavou sua mãos e deixou uma bacia com água morna para Darcy fazer compressas em Charlotte.

- Muito bem, Char, preciso que você faça força. – A amiga maneou, mordeu o pano e empurrou.

Lizzie ajudava à amiga, suspendendo a sua perna e em alguns momentos ajudando-a empurrar o bebê pressionando a sua barriga. Charlotte gritava alto, a dor era imensa. Darcy segurou o corpo de Charlotte, para que ela pudesse se inclinar mais, ajudando na hora de empurrar o bebê. Um ruído no andar de baixo acalmou Lizzie, logo o doutor Gregor junto a uma enfermeira entrou no quarto.

- Doutor, o bebê já está nascendo. – Disse Lizzie.

- Acalme-se minha querida, Charlotte está um pouco enfraquecida, mas vamos usar a medicina em favor a ela e ao bebê.

Por precaução, o médico pediu para ficar somente ele e a enfermeira no quarto, para evitar algum tipo de contaminação com muitas pessoas no quarto. Lizzie pediu para que Clarice acompanhasse Darcy até a sala e pediu que preparasse um chá. Foi até o seu quarto e se recompôs para lhe fazer companhia.

 

O estado de espírito de Lizzie estava agitado, sentada ali na sala tentava não trocar olhares com ele, muitas coisas haviam acontecido nos últimos tempos que fizeram Lizzie perceber os seus reais sentimentos. A última carta de Jane contando que Darcy havia ajudado a sua família e, segundo suas próprias conclusões, também interviu para que Bingley voltasse a Hertfordshire.

- Quando o senhor chegou? – Lizzie perguntou.

- Hoje de manhã, tinha que resolver alguns assuntos em Kent.

- Muito obrigado por ter vindo e perdoe-me a indiscrição, mas por que estava na casa de caças?

- Eu estava vindo até aqui, quando fui surpreendido pela chuva. Eu precisava conversar com a senhorita.

- Eu também. – Ele a olhou profundamente. – O que o senhor fez pela minha família e creio pela minha irmã Jane é imensurável, não sei como posso agradecê-lo.

- Não há necessidade, senhorita. – Levantou-se e se aproximou dela. – Tudo o que fiz, no caso de sua irmã caçula foi mero destino, mas eu pude evitar, porém foi por você. – Lizzie ficou a mesma altura de Darcy. – Sei que os seus sentimentos não são os mesmos, mas não consigo não pensar em você, não deixar de amar você. – Ficou a centímetros perto dela. – Aos poucos estou mudando os meus erros que cometi a sua família porque eu te amo, gostaria que você correspondesse aos meus sentimentos na mesma intensidade, você me fez um ser humano melhor. – Lizzie começou a chorar e se afastou dele, aproximando-se da janela. – Srta. Bennet, falei algo errado?

- Não. – Ela se virou. – Eu fui tão cega. O tempo todo. – Limpou uma lágrima. – Eu não percebi os meus sentimentos por você. – Sorriu e ele sorriu de volta.

- Quando?

- Não sei ao certo, mas desde sempre pensei em você e então percebi que estava apaixonada.

- Não sejamos mais tolos, meu amor. Se pudesse, hoje mesmo falaria com seu pai. – Aproximou-se e a abraçou.

- Eu sou a mulher mais feliz do mundo. – Ela o encarou.

Darcy limpou as lágrimas no rosto e acariciou o rosto, Lizzie fechou os olhos e deixou os lábios entreabertos esperando para ser preenchido e Darcy logo o fez, beijando-a uma, duas, três, até perder a conta e o ar.

- Hmrum. – Pigarreou Collins.

- Collins! Que bom que veio. – Lizzie afastou-se de Darcy, mortificando-se por ter sido flagrada pelo primo, clérigo, já pensava no sermão que ouviria dele e até nos capítulos e versículos bíblicos que ele se basearia. – Charlotte entrou em trabalho de parto e o Sr. Darcy veio me ajudar.

- Charlotte, minha Charlotte? – Collins empalideceu. – Céus, preciso vê-la.

- Não, Sr. Collins. – Foi a vez de Darcy intervir. – Ela está aos cuidados do médico e de uma enfermeira.

Lizzie ofereceu-lhe uma xícara de chá e contou a ele tudo o que havia acontecido e a ajuda de Darcy nos primeiros minutos. Era possível ouvir alguns gritos de Charlotte, deixando Collins apreensivo, mas Lizzie tentava acalmá-lo. Passado algumas horas foi possível ouvir o choro do bebê.

A enfermeira os chamou e os três foram até o quarto em que Charlotte estava acamada. A pele pálida e suada demonstrava serenidade. Um pouco sonolenta Charlotte segurava seu bebê no colo.

- Collins. – Ela disse com a voz fraca.

- Shh, meu amor. – Ele se aproximou. – É o bebê mais lindo que já vi.

- É uma menina. – Ela disse em lágrimas.

- É a nossa filha. – ele disse emocionado. – A menina mais linda que temos.

- Você não está triste?

- Triste? Eu sou o homem mais feliz desse mundo. – Beijou-a nos lábios, surpreendendo todos os presentes no quarto.

Após alguns minutos e os agradecimentos de Charlotte, o bebê foi colocado em um pequeno berço próximo a cama da mãe.

- Lizzie, quero homenageá-la, quero que a nossa menina se chame Elizabeth, o que acha?

- Minha amiga, isso é gratificante, não sei como agradecer.

- Ora, aceite ser madrinha de Elizabeth. E o senhor Darcy também. – Charlotte deu uma piscadela a Lizzie.

- Sra. Collins, é uma honra aceitar o seu convite, principalmente nesse momento. Eu e a Srta. Bennet estamos noivos. – Ele disse sorridente.

- Noivos? – Lizzie, Collins e Charlotte disseram ao mesmo tempo.

 

TRÊS MESES DEPOIS

Era gostoso acordar com aquela sensação, pensava Lizzie. O sol entrando em seu quarto lentamente e sentia iluminar seu corpo. Abriu os olhos e viu seu marido dormindo serenamente.

Tudo estava completo em sua vida. Há um mês ela havia se tornado Sra. Darcy e tudo estava encaminhando bem em sua vida. Darcy revelara-se um marido maravilhoso, aos poucos ganhou respeito e admiração de sua família, principalmente de seu pai, que sentia que tinha uma dívida com ele pelo que fez com sua caçula.

Sua irmã Jane também se casara com Bingley e viviam a poucos quilômetros dali, logo descartaram a ideia de morar próximo a Longbourn.

- Um beijo pelos seus pensamentos. – Disse Darcy fitando-a. – No que pensas meu amor? – O romantismo de Darcy encantou Lizzie desde a primeira noite de amor, desde então, ele tem se revelado cada dia mais romântico para com ela.

- Estava pensando o quão bom está as nossas vidas. E a felicidade que temos proporcionado para os nossos amigos.

- Claro, porque se não fosse por mim, Elizabeth não teria nascido e Charles não teria se casado. – Darcy gracejou.

- Darcy, quem o ensinou a falar assim? Saiba que eu tenho créditos nisso também.

- Ora, com a senhora, meu amor. Como eu disse você me tornou melhor.

Lizzie se aproximou de Darcy, e deitou em cima dele, ficando próxima do rosto dele.

- É por isso que te amo mais. – Ela o beijou.

- Sabe Sra. Darcy, acho que já está na hora de termos um filho, ou uma filha.

- Concordo Sr. Darcy, aliás, depois do que passamos juntos de Charlotte, também acredito que está na hora de termos os nossos filhos.

Darcy capturou os lábios de Lizzie deixando claro as suas intenções de que a manhã seria longa para o mais jovem casal. O sol foi testemunha de mais um ato de amor.

 

 

FIM