Imprimir

A Moça do Cabelo Cacheado

Escrito por Cacá Smith Ligado . Publicado em A Moça do Cabelo Cacheado

É mais bem apreciada ao som de Pachelbel, Canon in D.

 

Pemberley não tinha mais o ar juvenil de alguns anos atrás. Os filhos do casal Darcy já crescidos e casados foram morar longe. Darcy ainda viajava a negócios e chegava a ficar muitos dias longe de casa. Para suprir os momentos de solidão, era comum Elizabeth elaborar reuniões na mansão, como grandes festas, piqueniques, jogos, cavalgadas pelos campos da propriedade. Ela gostava de reunir os jovens e também os amigos do casal. Para Lizzy, os jovens precisavam se divertir e essa era uma boa oportunidade para que alguns deles se conhecessem melhor e até mesmo se apaixonassem. A presença dos jovens trazia de volta o sabor da juventude que ficou para trás. Estar com eles era um exercício saudável para se manter atual.   

Em um fim de semana qualquer, Georgianna e sua família estiveram em Pemberley. Apesar disso ser raro, o marido dela, o Sr. Foster, estava com eles. O Sr. Foster era um homem de pouca fineza no trato com as pessoas, apesar de ser inteligente e ter recebido excelente educação. De família muito rica, a morte prematura do pai o fez assumir, desde muito cedo, o controle dos negócios da família. Assim como cuidar das duas irmãs até que estas se casassem e da mãe até a morte dela. Nunca falava em demasia e costumava dar respostas curtas a quase todas as perguntas. Visitava pouco a residência dos Darcys e Elizabeth não reclamava por sua ausência, era nítido que ela não fazia muita questão da presença do cunhado. Mesmo assim, o tratava bem nas remotas vezes em que se encontravam. Ora porque Darcy o admirava e eram bons amigos. Ora em respeito a Georgianna que era apaixonada pelo marido. O casal tinha apenas um filho, Henry, um rapaz de uns 25 anos. Eles desejaram ter outros filhos, mas depois de alguns abortos espontâneos Georgianna foi aconselhada pelo médico a não tentar mais engravidar. Esse fato fez com que ela desenvolvesse um zelo excessivo pelo filho, o que pode ter contribuído para que certo distanciamento entre ele e o pai ocorresse. Henry tinha uma relação tempestuosa com o pai, parte disso devido ao rapaz ter gosto pela música: era um violinista talentoso e o pai queria que ele cuidasse dos negócios da família, fosse um bom administrador e tivesse a música apenas como diversão. Nem o fato da esposa ser musicista conseguiu convencer o Sr. Foster da real paixão que o filho sentia pela música. Situações assim deixavam Georgianna dividida entre os dois homens que tanto amava. Muitas vezes, ela recorria ao irmão, pedia para que ele interviesse a seu favor, pois Darcy era uma das poucas pessoas que o marido permitia que lhe aconselhasse.

Já era metade da manhã de segunda-feira, quando o casal Foster deixou Pemberley e juntos deles foi Darcy que precisou resolver algumas pendências longe de casa. Henry não voltou com os pais, preferiu ficar por uns dias na casa dos tios e participar do baile que estava sendo preparado. Não é preciso dizer que foi necessária uma longa conversa até que o Sr. Foster aceitasse tal ideia.

***

No dia seguinte, pela manhã, Lizzy encontrou-se com o sobrinho na varanda, onde era servido o café da manhã nas épocas do ano em que não fazia tanto frio.

Bom dia, Henry!

– Bom dia, tia Lizzy. – Disse o rapaz vindo ao encontro dela para beijá-la. – Desculpe não esperar a senhora para o desjejum.

Ela fez uma cara de quem não dava importância para essas coisas.

– Acordou cedo. – Disse a seguir.

– É... – Resmungou ele. – Dormi pouco.

– Preocupado? Ansioso?

– Não sei. – Murmurou.

– Sua mãe deixou este envelope para você. – Entregou ao moço antes de tomar seu assento.

Ele tomou o envelope.

– Deve ser dinheiro... Mamãe deve ter deixado escondido de meu pai. – Protestou.

– Não seja injusto, Henry. Seu pai estava junto quando ela me entregou o envelope. Não entregou diretamente a você porque estava cavalgando.

O moço nada disse. Apenas baixou a cabeça e guardou o material no bolso da casaca.

– Tente ser compreensivo com ele, Henry. – Ela continuou. – A rudeza do seu pai tem resposta no longo período difícil que ele passou após a morte do pai, quando teve que cuidar da família e depois com a demência da mãe até o final da vida dela. Não foi fácil para ele. Ele acabou projetando em você um modelo de vida que ele admira... Não o culpe por coisas que ele não pôde escolher ou se livrar. Seu pai o ama muito, mas talvez não saiba demonstrar.

– Se ele demorar muito poderá ser tarde demais. – Resmungou e baixou o olhar.

– Bem... – Iniciou ela, após longa respirada, procurando mudar de assunto. – Como você sabe, esta semana receberemos amigos aqui. – Disse alegremente. – Teremos uma reunião no próximo sábado, quando seu tio já tiver voltado.

O rapaz sorriu levemente.

– Eu sei e desde já me coloco à disposição para o que precisar. – Bebeu do chá. – Anthony virá?

– Obrigada. – Disse ela antes de beber o chá. – Ah sim, Anthony virá. Pelo menos foi o que me disse.

Anthony era o filho mais novo de Lydia e George Wickham, o único que ainda estava solteiro e que frequentava a residência dos tios com liberdade. Henry e ele eram amigos de longa data. Tratava-se de um rapaz divertido, inteligente e que herdou a beleza da juventude do pai. Foi com a ajuda financeira e influência dos tios que Anthony ingressou na faculdade de direito e se formou e, desde então, passou a fazer parte do grupo de advogados que cuidava dos negócios dos Darcys. Demorou um tempo até que Darcy começasse a gostar e ter confiança no rapaz, mas no momento já eram amigos e o rapaz tratava com diversão até os resmungos e exigências do velho Darcy.

A agitação durou a semana inteira e a presença de Henry foi de grande importância para a organização da festa, pois os filhos dos Darcys não estariam nesse evento por motivos que não se saberia dizer quais eram. No sábado, dia do baile, foi quando Anthony chegou. Ele estava um pouco zangado por não poder ter chegado antes, devido, segundo ele, a compromissos muito importantes que o seguraram na estrada por mais tempo.

***

O salão já contava com muitas pessoas e, mesmo assim, muitas ainda chegavam. Ao som da orquestra, alguns casais dançavam, outros conversavam, outros apenas bebiam em pequenos grupos de amigos. Os jovens Anthony e Henry andavam juntos pelo salão. Cumprimentavam algumas pessoas. Conversavam com outras.

– Diga-me Anthony, sabe quem é aquela moça?

– Quem? Há tantas aqui. – Brincou Anthony.

– Aquela de vestido lilás, no outro lado do salão.

Anthony se esticou na direção em que o amigo olhava.

– Ah sim, aquela é Dorothy Collins. – Pareceu confuso. – Pensei que você já a conhecia.

– Por quê?

– Ora, ela é filha de William Collins, o pároco de Hunsford, vizinho a Rosings Park.

– William Collins? – Pareceu buscar algo na memória. – Ah sim, sei quem ele é, mas não me lembro dela. Onde estão seus pais? – Olhou pelo salão.

– Não vieram. Ela está aqui sob os cuidados de nossos tios.

– E onde eu estava que não a vi chegar?

– Ah, meu caro, isso eu não sei dizer. – Riu e pegou uma taça com bebida.

Henry pareceu confuso.

– Os Bennets têm parentesco com o Sr. Collins, não têm?

– Sim, são primos de terceiro grau, se não me engano, e há pouco tempo as famílias se reaproximaram, pois minha tia Mary se casou com o Sr. Collins depois que ele enviuvou.

– Oh! Parece-me que o mundo é mesmo pequeno. – Surpreendeu–se.

– Ah, uma informação que pode ser relevante para você. Dorothy é pianista. E das boas, é o que mais se fala sobre ela.

– Pianista? – Sorriu. – Tem certeza que...

Anthony pareceu não dar muita importância ao que o amigo ia perguntar. Terminou de tomar a bebida em um único gole e soltou a taça sobre a mesa.

– Vou convidar alguma moça para a próxima dança. – Apenas disse antes de sair.

Henry pegou uma taça de bebida na mesa próxima, olhou na direção de Dorothy e a viu andar livremente entre algumas pessoas. Ele começou a andar no mesmo sentido, observando-a de longe. Logo, percebeu que ela sorriu e um jovem aproximou-se, falou alguma coisa rapidamente e seguiram juntos para outra direção. Henry Foster não conseguiu ouvir o que disseram, mas certamente o rapaz a convidou para dançar e ela aceitou. Essa cena fez com que o tímido e sem graça Henry baixasse o olhar e sorvesse de sua bebida, contentando-se apenas em vê-la desaparecer entre as pessoas.

 Aproximando–se da pista de dança, certificou–se de que ela estava dançando. Ele ficou ali por um tempo, com o olhar atento aos passos dela. Nas horas seguintes, Dorothy ainda dançou com o mesmo jovem algumas vezes, o que fez Henry desistir de observá-la e ir para a varanda tomar um pouco de ar.

Debruçou-se no parapeito da varanda e contemplava o horizonte escuro.

– Não está se divertindo? – Disse uma voz atrás dele.

Ele virou–se rapidamente. Era Elizabeth.

– Olá, tia. Estou sim, mas agora estou tomando um pouco de ar fresco.

Ela se aproximou, lançou o braço na cintura dele e juntos voltaram o olhar para o jardim.

– E Anthony? – Perguntou a tia.

– Está dançando, eu acho.

– Henry, gostaria que conhecesse uma jovem que ficará uns dias conosco. Seu nome é Dorothy Collins. Não sei se já a conhece...

Henry estremeceu por dentro, mas nada disse e a tia continuou.

– Ainda não houve tempo para as apresentações formais, pois ela chegou ao final da tarde, quando estávamos todos empenhados com a organização da festa...

– Eu acho que sei de quem se trata.

Elizabeth sorriu.

– Ela é musicista também. – Fez questão de salientar.

– É, ouvi falar... – Disse ele com pouco entusiasmo.

Lizzy pareceu não entender direito o que se passava. Chegou a pensar que talvez ele e Dorothy tivessem se desentendido ou que eles não simpatizaram um com o outro. Mesmo assim, preferiu não perguntar.

– Quer levar sua velha tia para dançar? – Disse após um breve silêncio.

– Velha? A senhora só pode estar brincando. – Riu divertido e ela riu a seguir.

– Seu tio disse que está cansado. – Fingiu uma expressão de descontentamento o que fez o moço arquear as sobrancelhas. – O ritmo moderno é a valsa, dificilmente seu tio gostaria de me ver dançando com outro homem senão ele. – Arqueou as sobrancelhas. – Mas há exceções, segundo ele, você ou Anthony não oferecem riscos nem o causam ciúmes.

Os dois riram divertidamente.

– A senhora e o tio formam o casal mais harmonioso que conheço.

– Seus pais também, Henry.

Darcy logo se aproximou dos dois.

– Oh, Henry, salve-me dessa mulher dançadeira, pois se eu continuar no ritmo dela terei que descansar toda semana.

Os três riram e o rapaz tocou levemente o ombro do tio piscando um dos olhos para ele.

– Então vamos lá, Sra. Darcy Dançadeira.

Quando chegaram à pista para a próxima dança, avistaram Anthony que sorriu ao ver o amigo e a tia se aproximarem. Próximo a eles estava Dorothy e dessa vez acompanhada por outro jovem. Elizabeth ao passar por ela tocou levemente sua mão e ambas sorriram uma para a outra. Henry olhou-a por um tempo, mas conseguiu desviar o olhar antes que ela o flagrasse em tal atividade.

A música iniciou e no rodopio pelo salão o jovem rapaz olhava para Dorothy de todas as maneiras possíveis. Sendo ele muito mais alto que Elizabeth, conseguia visualizar a moça por cima do próprio ombro e percebia como sua fina cintura bem marcada pelo vestido acompanhava com leveza o ritmo imposto por seu par. A moça chegou a olhá-lo em alguns momentos, mas não saberia dizer se foi um olhar intencional ou se foi a esmo.

Quando a dança acabou, alguns amigos mais próximos aplaudiram o desempenho de Henry junto da tia. Esse burburinho fez com que Dorothy, que se retirava da pista indo na outra direção, olhasse para trás com curiosidade. Foi nesse momento que os olhos deles se cruzaram fazendo o jovem rapaz sentir imenso prazer. O que durou pouco, pois logo a perdeu de vista.  

Henry ainda dançou algumas vezes com outras jovens e nesse exercício tentava acumular coragem para convidar Dorothy para uma dança assim que a visse novamente.

***

Pouco depois, estava ele andando pelo salão a esmo quando olhou a varanda e avistou Dorothy na companhia de duas amigas. As moças pareciam conversar alegremente. Henry tomou coragem de ir até onde elas estavam. Diminuiu a velocidade enquanto se aproximava e, quando já estava bem próximo, Dorothy o viu e olhou-o por um tempo. A seguir sorriu levemente o que fez seu coração encher–se de esperança.

Quando ele se uniu ao grupo, apresentou-se formalmente a elas com gentileza e educação. Elas fizeram o mesmo e logo ficaram em absoluto silêncio e ele, tímido demais para fazer um convite, ficou em silêncio também. Não demorou e então dois jovens se aproximaram e um deles pediu a próxima dança com Dorothy e o outro com uma das amigas dela. Dorothy recusou educadamente e o rapaz convidou a outra moça. Logo, os quatro rumaram para o centro do salão.

– E então, está se divertindo Srta. Collins?

– Sim, muito. – Disse de imediato. – E o senhor?

– Também. – Baixou o olhar. – Quer dançar comigo? – Disse de supetão, num único fôlego, para que não pensasse em desistir.

– Quero. – Respondeu espontaneamente.

Ele sorriu por dentro e por fora. Não pensou que seria tão simples.

Na pista de dança, os casais se aprontavam para o início da valsa. Aproveitando um momento de distração dela, ele pôde olhá-la de cima a baixo discretamente. Aproximou-se. Deslizou, delicadamente, a mão até o meio das costas dela e sentiu alguns cachos de cabelo pousarem sobre sua mão. Ela pousou a mão esquerda sobre o ombro dele e, quando a música iniciou, deslizaram juntos pelo salão com legítima leveza. Conversaram pouco enquanto dançavam e não se saberia dizer sobre o que falaram, mas pela expressão dos seus rostos pareciam estar simpatizando um com o outro.

Ao final da dança, seguiram juntos para um dos lados do salão.

– Minha tia disse-me que a senhorita ficará em Pemberley por alguns dias.

A moça fez uma expressão de surpresa, mas respondeu a seguir de maneira natural.

– Sim. Fui convidada pelos Darcys, eles se responsabilizaram por mim. Mas não ficarei muito tempo, apenas poucos dias.

Ele sorriu.

Breve silêncio.

– E quanto ao senhor?

– Ficarei por uns dias também. – Breve silêncio. – Quer beber alguma coisa?

Ela não falou, apenas consentiu com a cabeça.

– Vou buscar algo para bebermos, com licença.

Logo mais ele voltou e entregou a ela uma taça.

– Obrigada.

– Soube que a senhorita é pianista.

Ela olhou-o com surpresa.

– Sim, sou. – Franziu a testa. – Mas como soube?

– Ah, me contaram. – Sorriu levemente. – Tomou aulas de música?

– Sim, por muito tempo e com os melhores professores. – Bebeu. – Tudo graças a Sra. Anne de Bourgh, sua prima, que foi minha grande incentivadora e mantenedora.

– Sim. – Pensou um pouco. Bebeu. – Eu conheço seu pai, estive com ele em algumas ocasiões em Rosings Park. – Sorriram. – Lembro-me de ele ter sido muito elogioso com relação à senhorita.

A moça enrubesceu rapidamente.

– Imagino como deve ter sido. Meu pai costuma exagerar...

– Bem, não posso tecer qualquer comentário sobre isso, ainda não a vi tocar. Mas asseguro de que tem muita sorte por seu pai lhe incentivar tanto...

Ela bebericou um pouco.

– É engraçado tudo isso, não acha?

Ele quase riu.

– Engraçado? O quê?

– O senhor é parente dos de Bourghs, já esteve em Rosings Park, conhece meu pai... Mas nós ainda não nos conhecíamos e viemos a nos conhecer aqui, em Pemberley.

Ele se impressionou com a observação dela.  Degustou mais um pouco da bebida.

– É, acho que já estivemos mais perto um do outro antes. – Sorriu.

– Certamente. – Disse antes de soltar o copo ainda servido pela metade.

A seguir, eles foram para a varanda de onde podiam admirar o esplendoroso jardim e conversar com mais calma. Eles permaneceram o restante do tempo ali conversando, não voltando mais a dançar. Pareciam ter o mundo todo para descreverem um ao outro.

O sol começava a despontar quando olharam para o salão e o viram quase vazio. Em um dos lados, o casal Darcy se despedia de algumas pessoas.

– Já está amanhecendo... Preciso me deitar. – Ela disse após depositar a taça sobre a uma mesa.

– A senhorita gosta mais de quando amanhece ou de quando anoitece? – Perguntou antes de tomar um pequeno gole.

Ela sorriu. Achou a pergunta engraçada.

– Gosto mais de quando anoitece. Mas também gosto do dia, se eu tiver muitas coisas para fazer. – Sorriu.

Ele nada disse, apenas acompanhou a resposta dela com a taça nos lábios.

– Queridos, vocês estão aqui. – Disse Elizabeth se aproximando deles. – Que bom ver que estão se dando bem. – Sorriu deixando os jovens levemente envergonhados.

– Onde está Anthony, tia? – Perguntou para desviar o assunto.

– Já foi deitar. Acredita? Estava exausto... Pudera, não parou de dançar um só instante. Coitadinho, ainda não havia se recuperado da viagem para cá. – Olhou para a moça. – Você chegou a ver Anthony, Dorothy?

– Apenas nos cumprimentamos de longe.

– Bem, como veem, os últimos convidados estão se despedindo... – Olhou para Dorothy. – Querida, vou me recolher... Agora sim, estou exausta. – Riu de si mesma.

– Subirei com a senhora. – Consentiu a moça rapidamente, antes de olhar para Henry e dizer um divertido “até mais”.

Henry respondeu da mesma forma, depois de rir largamente da atitude jovial dela que o fez, por alguns instantes, abandonar as formalidades.

– Ficarei um pouco mais com o tio Darcy, ajudando–o no que for preciso e depois subirei também. – Disse ele para a tia.

– Isso é bom Henry, mas diga para seu tio não se demorar. Os criados já estão orientados sobre o que fazer. Ele pode ficar despreocupado.

– Eu o avisarei, tia. – Sorriu. – Descansem.  

As damas saíram de braços dados com os vestidos rodando conforme o balanço dos seus caminhares. Foram em direção da escada. No ponto da escadaria que virava para o corredor e onde se perdia a visão da grande sala, Dorothy olhou para onde estava antes e viu o jovem rapaz estático, com um copo de bebida inerte em uma das mãos olhando até que elas desaparecerem de sua visão.

***

Mais tarde, o sol já estava alto no céu quando Elizabeth entrou na varanda para o desjejum. Henry já a esperava.

– Bom dia, Henry, ou boa tarde, já nem sei mais.

Riram e ele olhou o relógio do bolso.

– São onze horas, acho que ainda é “bom dia”. – Riram. – Esperava a senhora para o café. – Disse ele aproximando–se para puxar a cadeira para a tia se sentar. Elizabeth fez um leve afago no rosto dele.

– Obrigada, querido. Já percebei que hoje ficarei a maior parte do dia sozinha...

– Mas estamos aqui com a senhora, tia.

– Ah, mas vocês são jovens, tem outras coisas para conversar. Sinto falta mesmo é da presença do seu tio, pois ele jurou me aturar até o fim dos nossos dias. Essa saída do seu tio me pegou de surpresa, ele não havia dito nada sobre isso antes.

Riram.

– E Anthony? – Perguntou ele a seguir.

– Saiu com Darcy.

– O tio e Anthony saíram? Por que não me chamaram?

– Ah, porque você havia acabado de se deitar, Anthony deitou-se mais cedo e seu tio você sabe, é madrugador, dorme pouco. – Olhou para ele sorrindo. – Não tome como ofensa.

O jovem sorriu, mas pareceu contrariado.

Permaneceram em silêncio por um tempo, serviram suas xícaras com chá. Logo, a criada entrou na sala e avisou que Dorothy já estaria descendo para se unir a eles para o desjejum.

– Ah sim. Obrigada, Sophia. Estaremos aqui esperando por ela. – Respondeu Elizabeth.

Quando a serviçal deixou a sala, Lizzy olhou para o sobrinho e disse num tom debochado:

– Você sabia Henry, que o pai de Dorothy é muito ciumento e zeloso com ela?

Ele evitou olhá-la, sentiu um leve estremecer. E disse após breve silêncio, meio atrapalhado:

– Mais zeloso do que minha mãe é comigo?

Riram.

– Ah, tinha esquecido. Bem, nesse caso o páreo será duro.

Riram e beberam do chá.

– Mas não há com que se preocupar, tia Lizzy. – Disse ele após breve silêncio. – Dorothy e eu estamos nos tornando bons amigos. – Degustou do chá. – É isso.

– Amigos? Sim, acredito que sejam mesmo, passaram a maior parte do tempo conversando na varanda – Disse a experiente mulher. – Mas ainda duvido que seus olhos brilhem com tanta facilidade para alguma de suas amigas como brilhavam ontem com Dorothy por perto.

Ele apenas respirou fundo e nada disse.

– Ai, a juventude... Como experimentamos tantas emoções, tantos medos de errar, acertar... Escolhemos as palavras certas para conquistar alguém que amamos... – Sorriu. – Para depois, o marido sair cedo e me deixar tomando chá, sozinha.

Os dois riram da situação.

– Bom dia, Sra. Darcy. – Disse a voz de Dorothy adentrando a sala e aproximando–se de Elizabeth para dar–lhe um beijo. – Bom dia, Sr. Foster? – Fez uma mesura de longe.

– Bom dia. – Ambos responderam e Henry rapidamente levantou–se e puxou a cadeira para que ela se sentasse.

– Obrigada. – Disse assim que se sentou.

– Dormiu bem? – Perguntou Lizzy.

– Sim, muitíssimo bem, obrigada. – Olhou para os dois. – Desculpem meu atraso para o desjejum, precisei da ajuda de Sophia para arrumar meu cabelo. – Riu.

Elizabeth apenas consentiu e olhou discretamente para o sobrinho. Henry olhava atentamente para Dorothy enquanto sorvia sua bebida e viu alguns cachos do seu longo cabelo que se desprendiam do penteado e caiam pelos ombros e costas. Ele admirou profundamente a maneira delicada e feminina com que ela colocava os cachos para trás dos ombros.

Elizabeth percebeu a troca de olhares entre eles. Viu na forma com que o sobrinho olhava para a moça o quanto ele estava encantado por ela. Dorothy olhava-o também, mas com menor frequência e maior discrição. Elizabeth sorriu discretamente e nada disse. Era fato que o tempo passava, mas a forma com que a paixão se manifestava nas pessoas continuava a mesma.

***

Naquela tarde, depois que Anthony retornou, ele e Henry foram cavalgar. Andaram por algum tempo, apostaram corrida, até que precisaram apear para que os animais descansassem por um tempo e também bebessem água em um lago.

– Soube que vocês amanheceram no salão. – Disse Anthony.

– Sim, é verdade, fomos deitar quando o sol começou a despontar.

– Perdi muita coisa? – Perguntou rindo.

– A que se refere?

– Bem, vi que dançou com a Srta. Collins... Mais de uma vez.

– Sim. – Disse cabisbaixo com as bochechas avermelhadas. – É verdade.

– Agora gostei de ver. – Bateu nas costas do amigo.

Anthony amarrou o cavalo no tronco de uma árvore e atirou–se no gramado. Henry fez o mesmo, mas sentou–se mais distante.

– Depois... Nós conversamos por um tempo.

– É um bom começo. E o que achou dela?

– Agradável, simpática, inteligente.

Anthony olhou–o com surpresa. Franziu a testa.

– Só isso?

– Não... – Sorriu. – Ela é maravilhosa. É linda. – Disse com certo constrangimento.

– Disse isso a ela?

– Claro que não! – Falou com energia. – Ela me acharia um louco.

Anthony riu.

– Você é o que chamam de um bom rapaz, Henry. É um sujeito diferenciado, não sei como as mulheres ainda não perceberam isso. Elas querem tanto o romantismo, a arte, homens sensíveis e gentis... Você é tudo isso. – Quase riu. – Você praticamente já borda almofadas. – Riu ainda mais.

– Ah, pare, seu idiota. – Brincou. Pensou um pouco. – Mas como você pode ver, nem sempre dá certo.

Riram.

Breve silêncio.

– Acho que enfrentaria resistência em casa, caso eu manifestasse interesse pela Srta. Collins, principalmente por parte do meu pai.

Anthony olhou–o com gravidade.

– Mas VOCÊ é um Foster e não o contrário. E a Srta. Collins, apesar de não ser rica e não ter nome importante, é filha de um cavalheiro respeitável. E você também teria sua prima, a Sra. Anne de Bourgh a seu favor.

– É, espero que sim. – Disse um pouco incrédulo. Logo mudou de assunto. – Mas quanto a você, divertiu-se?

– Ah sim, dancei, bebi, conversei com amigos... Até que me rendi ao cansaço e fui me deitar. – Riu.

– Alguém em especial?

– Não. – Disse secamente.

– Mas com tantas belas jovens no salão...

– Caro Henry, esqueceu que não sou um Darcy, nem um Foster? Sou um Wickham... Não sou grande coisa para aquelas jovens que lá estavam.

– Mas você é protegido pelos seus tios.

– Mas não sou um deles. – Virou o rosto para o lago. – E eu já tenho um amor... – Disse deixando as últimas palavras morrerem.

Henry olhou–o e permaneceu em silêncio, esperando que o amigo continuasse.

– Mas é um caso delicado... Nem sei como vou desenrolar isso. Seria um escândalo se meus tios soubessem...

– É uma mulher casada?

– Oh, não. Isso não.

– E quanto aos seus pais? Eles sabem?

– Não ainda, mas com eles seria mais fácil. – Olhou–o. – Já com meus tios você imagina como será.

– Parece que a situação é mesmo séria. – Baixou o olhar e a seguir voltou a olhá-lo. – Se precisar de minha ajuda... Sou seu amigo.

Anthony olhou para Henry, levantou–se e aproximou–se do amigo. Bateu levemente no ombro dele e riu.

– Eu também sou seu amigo, e tanto que hoje fiz questão de sair com o tio bem cedo e nem o convidei. Isso tudo para que você pudesse tomar café, conversar e olhar um pouco mais para sua preferida.

– Bem que achei essa saída de vocês, sem me convidarem, muito estranha.

Riram.

– Mas foi bom você não ter ido, Henry, pois no caminho...

***

No dia seguinte, pela manhã, Henry estava sozinho na sala de música quando olhou pela janela e avistou o casal Darcy caminhando pelos jardins de braços dados. A cumplicidade que tinham um com o outro, o amor que perdurava por décadas, a falta que sentiam dos filhos... Tudo era motivo para que os dois ficassem ainda mais próximos. Aquela cena o fez pegar o violino e distrair–se com a música.

Na medida em que tocava, o som do instrumento saia da sala e espalhava-se pelo corredor e demais dependências onde pudesse ser ouvido.  O rapaz, de frente para a janela e totalmente absorto ao som do instrumento, nem percebeu quando seus olhos se fecharam e o corpo começou a balançar ao som que as notas produziam.

– Pachelbel, Cannon in D. – Disse uma voz feminina vindo da porta.

Henry imediatamente afastou o arco do violino e virou-se para a entrada da sala.

– Srta. Collins. – Disse surpreso. – Espero não tê-la acordado.

– Ser acordada ao som do violino é motivo de alegria, Sr. Foster.

Ele pareceu relaxar com o comentário dela.

– Gosta de composições no estilo barroco?

– Sim, muito. Pachelbel é um dos meus preferidos.

– Subentendo então que deve gostar de Bach, também?

Ela consentiu com um menear de cabeça.

– Mas, o que tocava antes de Pachelbel? Não reconheci. – Perguntou ela.

Ele sentiu uma leve vergonha de si mesmo.

– Deve estar me ouvindo tocar há algum tempo. – Sorriu. – O que toquei antes é uma composição minha que ainda não terminei... Nem sequer tem nome... Há tempos executo-a com a intenção de conseguir concluí-la... – Pareceu inconformado.

– É bonita. – Disse ela, aproximando–se da janela e fazendo–o sentir um leve estremecer.

– Obrigado.

– Incomodar-se-ia de tocar mais uma parte para mim?

Ele não hesitou, tomou o instrumento e iniciou a tocar sob o olhar atento dela que acompanhava cada nota.

***

Os dois dias seguintes foram de muita chuva, o que impediu qualquer atividade ao ar livre. Tudo que se pôde fazer foi executar peças musicais, conversar e jogar cartas. Quando a tempestade passou, no dia seguinte, Anthony se despediu de todos e partiu. Segundo ele, tinha assuntos para resolver na casa dos pais e algumas viagens de negócios. Darcy não demonstrava com facilidade, mas sentia muita falta do rapaz. Anthony era como um filho para eles e conquistou um lugar ainda mais especial depois que os filhos do casal se casaram e foram morar longe. E, para tristeza de Elizabeth, tudo voltaria ao normal no dia seguinte, quando Henry e Dorothy também deixariam Pemberley.

***

Três semanas depois... Hunsford

Seria um dia como qualquer outro se não fosse a chegada de uma carta endereçada a Dorothy. A empregada recebeu o envelope e entregou a destinatária. A moça pegou o envelope, olhou o remetente e sorriu levemente: Henry Foster.

Rapidamente foi para o quarto, sentou–se na banqueta e abriu o envelope. Tirou de dentro deste uma folha escrita em ambos os lados e uma partitura. Ela sorriu consigo mesma e iniciou a leitura.

Depois das formalidades iniciais, comentários sobre como tinha passado os últimos dias, perguntas de como ela e a família estavam, ele comentou sobre a partitura que havia colocado no envelope.

“Estou me sentindo muito feliz. Consegui terminar aquela música que a senhorita me presenciou tocando naquela manhã em Pemberley. Como me disse ter gostado da melodia, decidi dividir primeiramente com a senhorita a composição na íntegra, por isso enviei junto a partitura. Desculpe se pareço presunçoso, mas pensei que, caso ficasse curiosa poderia tocá-la ao piano. Mas, se sentir interesse em ouvi-la ao som do violino, estarei com meus pais em Rosings Park para um passeio de alguns dias no final do mês. Ah, a música em questão chama–se "A Moça do Cabelo Cacheado" – Do seu amigo e admirador, H.F”.

Dorothy sorriu. Dobrou novamente o papel. Guardou-o dentro da gaveta. Começou a contar os dias.