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A Moça do Cabelo Cacheado - Parte II

Escrito por Cacá Smith Ligado . Publicado em A Moça do Cabelo Cacheado

Enquanto o som da orquestra levava tantos casais para o centro do salão, Henry Foster olhava ansiosamente para todas as entradas da enorme mansão em Rosings Park.

A festa havia começado há pouco e o jovem dançava em sequência com Lady  Suzanne Buckley. Apesar da amizade que tinha por ela, era comum se cansar dos assuntos desinteressantes e até mesmo da companhia, um tanto fútil, que aquela moça proporcionava. Em poucos minutos de dança, ele já não ouvia e nem entendia o que ela falava. Lady Buckler tinha o estranho costume de conversar sem parar enquanto dançava. Cabia a paciência de Henry de apenas sorrir quando ela repetia a pergunta ou algum comentário. Foram tantas vezes agindo assim, que a moça percebeu o descontentamento de seu par e cessou a conversa.

Mas não por muito tempo...

– Parece ansioso, Sr. Foster.

Silêncio. Ela repetiu a pergunta e ele a olhou.

– Hum? – Pareceu confuso.

Ela sorriu a contragosto.

– Ah, não. – Gaguejou, parecendo não saber o que dizer.

– Parece que espera a chegada de alguém... Alguém especial.

– Não. Ninguém. – Disse quase a seco.

Quando estavam saindo do centro do salão, o rapaz avistou o casal Darcy chegando e na companhia deles estava a Srta.. Collins.

– Meus tios chegaram. – Disse ele com um entusiasmo reprimido. – Vou cumprimentá-los. – Tentou se desvencilhar da jovem.

Lady Suzanne Buckley, ou apenas Suzan como ela gostava de ser chamada, olhou na mesma direção que ele e se certificou da chegada dos Darcy.

– Irei com você.

Henry pesou as palavras dela em total silêncio, ofereceu o braço para que ela se apoiasse e se aproximaram.

– Henry! – Elizabeth o viu primeiro e em seguida o marido. Ela beijou delicadamente o rosto do rapaz enquanto Darcy estendeu a mão ao sobrinho e perguntou como estava, depois olhou para Lady Buckley e a cumprimentou sem nenhum sorriso.

Após cumprimentar os tios, Henry olhou para Dorothy e viu que esta baixou o olhar ao mesmo tempo e só voltou a olhá-lo quando ele a cumprimentou formalmente.

– Como está Srta.. Collins?

– Estou bem, obrigada. E quanto ao Senhor?

– Estou bem também. Obrigado.

Um breve silêncio se fez e Elizabeth olhava para Henry e depois para Lady Buckley, como quem espera alguma explicação.

– Ah, esta é Lady Suzanne Buckley, filha do Conde e da Condessa Buckley... Amigos da família. – Disse ele para Dorothy. – E esta é a Srta. Dorothy Collins... Uma amiga. – Deixou as palavras morrerem.

As duas moças se cumprimentaram. É certo que a beleza e soberania de Lady Buckley não passaram despercebidas aos olhos de Dorothy, assim como, após os cumprimentos, ela voltou a repousar seu braço no de Henry.

– Não sabia que estaria nesta festa, Lady Buckley. – Disse Lizzy sem se preocupar se pareceria desagradável.

– Somos convidadas aqui, Sra. Darcy. Convidadas da família Foster.

– Hum. – Resmungou Elizabeth. – E vossa mãe? – Iniciou outra fala.

– Está em algum canto do salão. – Quase riu. – Ah! Lá está ela. – Olhou na direção em que a Condessa Buckley vinha. Os demais também olharam e Lizzy revirou os olhos discretamente, o que fez Henry sorrir levemente.

Darcy estampou no rosto uma expressão de desgosto quando viu que a Condessa se juntaria a eles. Já bastava a filha dela, ter que suportar a mãe parecia uma tarefa terrível para ele. Antes mesmo que a Condessa chegasse ao grupo, o tio, com um ar ainda mais sisudo que o normal, pediu licença e foi em outra direção para se juntar ao cunhado que conversava com amigos no outro lado da sala.

– Elizabeth Darcy, que honra você por aqui. – Disse a Condessa usando um tom muito próximo do sarcasmo.

– Como está, Milady? – Disse Elizabeth com pouca vontade.

– Muito bem, obrigada. – Olhou para todos. – E quem é essa mocinha? – Se referiu a Dorothy.

– Ah, desculpe, esta é...

– Deixe que o Sr. Foster a apresente, Sra. Darcy... Ele parece estar bastante familiarizado com ela. – Retrucou Suzan com indícios de ciúme.

– Todos nós estamos, Milady. – Respondeu Lizzy antes de voltar o olhar para a condessa Buckley. – Esta é a Srta.. Dorothy Collins, filha de uma grande amiga minha e hoje na condição de enteada de minha irmã.

– Sua irmã? Qual delas? São tantas? – Quase riu.

– Minha irmã Mary, hoje Mary Collins.

– Que susto Elizabeth, pensei que fosse aquela sua irmã mais nova que se casou com o militar... Ela sempre foi meio cabeça de vento não é? – Riu e olhou para Lizzy que continuou séria e aparentemente ofendida. – Mas sim, sei de quem se trata. Mary foi a que se casou com o clérigo viúvo. – Baixou a cabeça tentando esconder um sorriso de deboche.

– Essa mesma. – Disse firme. – Você está muito bem informada, Condessa Caroline Buckley.

– Às vezes, quando tenho tempo, procuro saber como estão as pessoas mais conhecidas, mas isso nem é sempre possível... Estamos sempre com a agenda cheia, muitas viagens, festas... – Sorriu. – Mas quanto a sua irmã... É muito bom, pois mostra que nunca é tarde para se encontrar um marido, não é mesmo? – Disse fazendo a filha rir.

Elizabeth olhou para as duas, depois olhou para Dorothy.

– Nunca é tarde para encontrar o amor. Embora muitas pessoas passem a vida toda sem nunca conhece-lo.  – Replicou Elizabeth deixando a ruiva com os lábios cerrados.

Um breve silêncio ocorreu.

– É, talvez tenha razão. – Concordou a Condessa a contragosto apenas para encerrar aquele assunto.

– Sr. Foster, estou sedenta. – Resmungou Suzan como se fosse uma criança mimada. – Traga algo para eu beber, por favor.

O jovem, visivelmente constrangido com a situação que presenciou há pouco, apenas consentiu com um leve menear de cabeça e, antes de satisfazer a vontade de Suzan, olhou para Dorothy e perguntou se ela gostaria que lhe trouxesse algo para beber também. Antes mesmo da natural recusa de Dorothy, Suzan disse:

– Ora, Sr. Foster, que bobagem que o senhor pergunta. É claro que ela não está sedenta, pois recém chegou. Sedenta estou eu de tanto dançar e nada beber. – Sorriu.

Quando Henry voltou com a bebida em mãos, a Sra. Foster tinha se juntado ao grupo. Ele entregou a bebida a Suzan e, se sentindo por fora das conversas tipicamente femininas, pediu licença alegando que as deixaria mais a vontade.

– Sr. Foster, terá coragem de deixar o grupo? Não teme que falemos mal do senhor às suas costas? – Disse Suzan com ironia.

– Se desejam falar mal de mim, pouco posso fazer para impedir, apesar de estar certo que se falassem na minha presença contribuiria muito mais.

– Mas o que teriam para falar mal do meu Henry? – Brincou a Sra. Foster. – Moço melhor que ele não há...

Henry não ouviu como aquele assunto continuou, pois pediu licença e foi unir-se ao grupo que o tio Darcy havia se juntado há pouco. Os homens discutiam euforicamente sobre negócios, política e a origem do tabaco cubano que tragavam. Henry gostava de política, embora discordasse do ponto de vista da maioria e, por isso, preferia abster-se de comentar.

Enquanto todos no grupo conversavam, Henry aproveitava-se do fato de que, no ponto em que estava, conseguia ver a Srta.. Collins e algumas vezes era visto por ela também.

–...Depois que Henry se casar ficará mais fácil. – Disse o Sr. Foster captando imediatamente a atenção de Henry.

Todos olharam para o jovem como se esperassem alguma resposta. O moço franziu a testa pois não tinha ouvido a frase toda.

– Eu disse. – Esbravejou o Sr. Foster. – Apenas um filho e ainda com a maldição de se interessar apenas por violinos.

– Pior seria se ele se interessasse por francesas. – Brincou um dos amigos.

Darcy olhou para o sobrinho e depois para o cunhado.

– Ele ainda é muito jovem, Sr. Foster, terá tempo para decidir.

Enquanto os homens discutiam a vida de Henry como se ele não estivesse por perto, o rapaz viu quando a anfitriã Anne de Bourgh se aproximou do grupo feminino e levou consigo a Condessa e sua filha. Henry acompanhou os passos delas e notou que foram cumprimentar uma nova família que havia chegado. Isso representou um legítimo alívio para Henry que rapidamente pediu licença aos homens e foi até Dorothy convidá–la para dançar.

***

– Preciso falar com a Senhorita... – Disse rapidamente enquanto passaram perto um do outro durante a dança. Afastaram-se. – A senhorita recebeu minha carta? – Afastaram-se. Uniram-se – Sim. – Respondeu ela rapidamente.  

Ao término da longa dança, Henry conduziu Dorothy para um dos lados da orquestra, um local onde estavam poucas pessoas por não se ter a visão clara de todo salão.

– É... É muito bom estar com a senhorita outra vez. – Disse parecendo encabulado.

– Obrigada. Também gostei de reencontrá-lo e saber que está bem.

– Como está sua família?

– Estão todos bem, obrigada.

– A senhorita disse que recebeu minha carta. – Gaguejou.

– Sim e gostei da composição. É linda e muito complexa, uma legítima obra de arte. – Sorriu. – Obrigada por dividi-la primeiramente comigo. – Disse apenas.

Ele sorriu. Pensou. E, aos poucos pegou na mão dela. Dorothy acompanhou tudo com o olhar e, ao levantar a cabeça para olhá-lo nos olhos, percebeu o quão próximos estavam um do outro. Alguns cachos de seu cabelo que se soltavam livremente tocaram o casaco dele.

– Dorothy...

– Henry? – Disse a voz de Lady Buckley o que fez Dorothy recolher rapidamente a mão e dar um passo para trás. – Escondidos aqui? – Riu para disfarçar sua ira. – Perguntei por todos e ninguém sabia onde o senhor estava.

Henry e Dorothy se olharam com cumplicidade e ela, com o rosto enrubescido, baixou o olhar por algum tempo. Lady Buckley parecia feliz por estar perto de Henry novamente, mas trazia no fundo dos olhos um tanto de tristeza.

Durante todo o tempo que ficaram na presença de Suzan, Henry e Dorothy a ouviram falar sem parar, além de rir e envolver Henry nos assuntos deixando–o, muitas vezes, constrangido. Contou histórias sobre viagens que fez junto da família Foster e também sobre festas na qual fez questão de elogiar o quanto Henry dançava bem.

– ... Precisava ver Srta.. Collins, o Sr. Foster é quietinho assim, mas dança muito bem.

Dorothy olhou para Suzan e viu quando esta segurou a ponta da manga do casaco de Henry e sorriu na direção dele. Lady Buckley era bonita, mas fingia uma delicadeza que a deixava artificial, gostava de falar como se fosse uma criança. Conhecê-la por mais de cinco minutos já a deixava desinteressante.

A Srta.. Collins também era muito bonita, mas Lady Buckley ainda tinha a seu favor a linhagem e o fato de ser filha única do Conde Buckley.

A Srta.. Collins pareceu ouvir até quando pôde e quando se inclinava para dizer alguma coisa, Lady Buckley foi mais rápida:

– Ah Srta. Collins, venha comigo! Quero lhe apresentar a algumas amigas, pois tenho certeza que adorará conhece-las. – Estendeu a mão parecendo haver imensa intimidade entre elas. E ainda olhou para Henry e disse num tom infantil. – Henry fique aqui, pois não quero enjoar de você. – Riu.

Dorothy não achou o comentário engraçado. Ela olhou para Henry, depois olhou para Suzan e, mesmo não tomando a mão que a outra ofereceu, a contragosto pediu licença ao jovem e saiu com Suzan.

Henry Foster ficou observando as moças se afastarem e, quando se recompunha da verborragia de Suzan, ouviu sem querer, sua tia Elizabeth Darcy e a Condessa Caroline Buckley conversando na sala ao lado.

 

 

– Parece que Henry puxou ao tio... Tem gosto pela pobreza. – Disse Caroline num tom desafiador.– Eu o vi dançando com a tal Srta. Collins.

– Henry herdou do tio o gosto pela educação, pelo bom senso... Além, claro, da gentileza e da elegância que somente os homens bem educados podem ostentar. – Disse Elizabeth de forma branda.

Caroline resmungou alguma coisa inaudível e Lizzy continuou.

– Por falar em elegância Caroline, li em algum lugar que não são as pessoas que se repetem, mas sim as situações... Faltou você instruir melhor sua filha, não fica bem para uma moça do porte social dela cortejar descaradamente um rapaz que não está interessado.

– Suzanne não está cortejando Henry como você sugere. Ela nem precisaria disso, pois conseguiria um casamento vantajoso com muita facilidade. – Disse com certa raiva. – Esses jovens se conhecem há muito tempo e por isso parece haver maior intimidade entre eles... É claro que se houver um enlace entre eles não seria nenhuma surpresa para nós. – Disse em tom murmurante.

– Você não desistiu de querer unir as duas famílias, não é mesmo?

– Isso teria ocorrido muito antes... Se você não tivesse tomado Darcy de mim. – Admitiu.

– Caroline, não seja boba. – Quase riu. – Eu não tomei o Darcy de você, ele nunca foi seu. Quando o conheci, ele era solteiro e eu só aceitei a proposta de casamento que ele me fez quando percebi que seu caráter estava muito acima do que eu julgava adequado...

– Pode não ter tomado, mas se intrometeu entre nós. – Replicou.

– Nada disso. – Disse calmamente. – Talvez, na melhor das hipóteses então, Darcy tenha comparado nós duas e feito a escolha que julgou adequada.

A ruiva nada disse.

– Caroline. – Lizzy tentou amenizar. – Isso já faz muito tempo. Você está casada, tem a vida que sempre sonhou e mereceu. Somos adultas, temos filhos, eu já tenho netos... Parece que a vida não ensinou nada a você... Nada a respeito dos sentimentos. – Pausou. – Se Henry se apaixonar por Suzanne, tenha certeza que Dorothy, educada como sei que é, saberá entender. Mas do contrário, deixe-o decidir. – Respirou fundo. – Você nem sabe o quanto é louvável se casar por amor. – E Elizabeth pareceu deixar o recinto.

 

 

Após ouvir o diálogo, Henry arqueou as sobrancelhas, incrédulo e decepcionado ao perceber que a Condessa Buckley almejava, por meio do casamento da filha, um somatório de bens e fortuna.

Temendo ser apanhado ouvindo conversas alheias, Henry Foster caminhou em outra direção. E, olhando para as pessoas que lá estavam, sentiu imensa tristeza ao imaginar que nem todas elas podiam ou puderam decidir por suas vidas. Para muitas dessas pessoas, rir e dançar em bailes, que ele fazia por ser livre, jovem e gostar de danças, poderia ser apenas uma válvula de escape para uma vida enfadonha e medíocre.

Olhando em outra direção, viu seus pais conversando com Lady Buckley e com a Srta. Collins. A conversa parecia divertida, exceto para Dorothy que mantinha o semblante firme e olhava para os lados com freqüência.

Depois de descobrir a real intenção da Condessa Buckley, Henry sentiu medo de que a proximidade entre Suzanne e Dorothy tivesse apenas a intenção de magoar a segunda.

***

No decorrer da noite era possível ver Lady Buckley muito próxima da Srta. Collins. Em alguns momentos andaram de braços dados pelo salão, indo e voltando da ala de danças juntas.

– Henry, a Srta. Collins é a moça mais solicitada desta noite. Acho que já dançou com uns quatro pares diferentes. Não é mesmo, Dorothy?

Henry sabia que Suzan detestava ter o brilho ofuscado, se fosse mesmo verdade o que dizia, jamais ela estaria tão próxima de Dorothy como estava.

Dorothy nada disse, apenas esticou os lábios e baixou o olhar.

– E isso lhe desperta ciúme, Lady Buckley? – Disse ele com deboche.

– É claro que não. Dorothy e eu somos amigas e amigas de verdade não têm ciúme, nem tentam espantar os apaixonados da outra.

– Amigas? – Disse ele com as sobrancelhas arqueadas. – Que rápido, pensei que amizades nasciam a partir de uma maior convivência. – Olhou para Dorothy e viu que ela olhava em outra direção.

Suzanne deu de ombros e se posicionou ao lado de Henry repousando seu braço no dele.

– Como nós dois, não é? Que somos amigos, muito amigos. – Disse para Dorothy, mas olhou para ele como se pedisse confirmação. – Isso significa que já temos convivência e intimidade suficiente, não é Henry?

Ele nada disse, voltou a olhar para Dorothy e viu que a expressão dela era de cansaço. E quando Lady Buckley decidiu calar–se por um instante, Dorothy aproveitou para pedir licença a eles e dizer que ia ao encontro da Sra Darcy.

Assim que a moça saiu, Suzanne indagou:

– De onde você conhece a Srta. Collins?

– De um baile.

– Baile? – Pareceu incrédula. – Ela não tem jeito de quem frequenta os mesmos bailes que você.

– Talvez seja eu quem freqüenta os mesmos bailes que ela. – Replicou.

– Fazendo amizades com as classes mais baixas, Henry Foster?

Ele nada disse, mas sentiu raiva pelo comentário dela.

– Mas sei que é bobagem o que digo, coitada, ela mesma disse que tem apenas três vestidos de festa, que seus pais não tem carruagem própria e que ela nunca esteve em Londres. Estou pasma, ela nunca foi a um baile em Londres. Pobre menina! – Torceu os lábios. – Ofereci minha amizade muito mais por pena que por vontade, ela quase não fala, não temos muito assunto. Ao contrário de nós dois que sempre teremos o que falar, pois pertencemos à mesma classe social... Não é mesmo?

Henry pensou em dizer alguma coisa, mas precisaria de muita energia para alongar uma conversa com Suzan e ele já estava bastante cansado da companhia dela.

Enquanto ela continuava seu discurso interminável, ele avistou seu tio Darcy degustando seu charuto na entrada da mansão.  O jovem se desvencilhou aos poucos do braço de Suzanne e avisou que iria falar com o tio. Certamente Suzan gostaria de ir junto, mas ela tinha medo de Darcy. Muitas vezes comentou com Henry que achava seu tio muito sisudo, antipático e até mesmo grosso.

E foi assim que ele conseguiu se desvencilhar dela.

– Tio Darcy. – Disse quando já estava bem próximo.

– Henry? – Virou–se para o sobrinho. – Está tudo bem?

– Sim.

– Charuto? – Ofereceu.

– Não, obrigado.

– O que houve, rapaz? Parece aborrecido.

– Nada não, está tudo bem. – Fingiu um sorriso.

– E o violino?

– Afino sempre que posso. – Brincou.

– Sua mãe me disse que tem intenção de estudar música em Berlim. Acho uma excelente idéia. – Olhou–o de lado. – Mas Georgianna demoraria a se acostumar.

– Ela tem ao papai.

– É, ao final, o casal sempre terá de ter um ao outro.

Breve silêncio.

– Tio... – Respirou fundo. – Acho que precisarei de coragem. – Darcy o olhou de lado, sério e esperou que o jovem falasse. – Acredito que vou quebrar as expectativas de meus pais.

– Acho que sei a que se refere. – Apagou o restante do charuto. – Está apaixonado por uma moça de classe inferior e teme que seus pais não aprovem.

– É. Mas como o senhor sabe?

– É o mal que os jovens mais sofrem. – Riram. – Sua tia já havia comentado esse assunto comigo, mas não me disse de quem se trata. – Breve silêncio. – Mas Henry, pense que os tempos mudaram, hoje em dia as pessoas constituem família com quem elas amam de verdade. Na minha juventude ainda existiam muitos protocolos, alguns até difíceis de serem quebrados. Mesmo assim conheci pessoas que quebraram essas regras.

– É, mas não sei se meus pais pensam assim.

– Está me contando isso porque busca meu apoio? Quer que eu convença seu pai a aceitar essa união?

O moço ficou em silêncio e o tio continuou.

 – Henry, detesto sermões, mas preciso lembrar que você já é um homem, você é o herdeiro de tudo que seus pais têm. – Pausou. – Até quando vai precisar que alguém intervenha por você?

O moço nada disse, apenas ouvia o tio com os olhos voltados para o horizonte.

– De um lado, sua mãe que o protegeu demais, do outro lado, seu pai que cobra demais... O ponto de equilíbrio deve ser você. Você deve decidir por si e esta situação que se instalou está provando que chegou o momento de você se posicionar.

– Devo admitir que o senhor tem razão, tio. Sou um covarde.

– Mas não é tão simples assim, Henry, seus pais seriam apenas uma barreira, essa moça, sendo quem eu suponho que seja, não tem a desenvoltura nem a malícia das pessoas criadas na cidade e você, de linhagem nobre, está acostumado a freqüentar os lugares mais ilustres do país.

– Eu sei, mas a Srta. Collins pertence a uma família decente e muito respeitada aqui da região. – Disse o moço.

– Quanto a isso não há dúvida. Seu pai William Collins, dentro de suas possibilidades, deu a filha uma educação muito superior comparado ao que se espera encontrar em situações semelhantes.  

Ficaram em silêncio por um tempo.

– E você sabe quais são os sentimentos dessa jovem por você?

– Não tenho certeza, tio, mas sei que ela não se deixaria levar apenas por minha posição social.

– Disse a ela o que sente?

– Não. Quero dizer, não exatamente. – Respirou fundo. – A verdade é que quando estou perto dela não tenho coragem de falar dos meus sentimentos.

– Entendo suas razões. – Pausou. – Certa vez eu estava muito apaixonado por uma moça, e no auge da coragem e da petulância, devo admitir, abri meu coração para ela...

O jovem estalou os olhos de surpresa.

– Não consigo imaginar tal situação vinda do senhor, tio. E como foi?

– Ela me recusou duramente e ainda me disse todas as verdades infames que ninguém jamais desejaria ouvir.

– Que experiência ruim. – Disse o moço antes de baixar o olhar.

– Mas quer saber mesmo? Valeu a pena, Henry... Hoje ela é minha esposa e eu aprendi muito com ela.

Henry sorriu.

– Não sou um bom entendedor desses assuntos, mas sei que é preciso ter coragem para amar. Coragem e mestria. – Bateu levemente no ombro do sobrinho e deixou o local.

Henry ficou parado naquele local mais um tempo, quando olhou para a avenida de entrada e viu Dorothy se despedindo de Elizabeth Darcy e entrando na carruagem que a levaria para casa. Ele olhou mais um pouco, foi em direção da escada e desceu alguns degraus. Olhou novamente e lembrou–se das palavras do tio. Apressou o passo ao ver que o cocheiro já se aprontava para sair e fez sinal para que esperasse por ele. O homem assentiu mesmo parecendo confuso.

– Não vou demorar. – Disse ao homem antes de circundar o veículo e chegar à janela. Deu uma leve batida no vidro e viu que Dorothy olhou rapidamente em sua direção. – Posso entrar? – Disse por gestos.

A moça fez uma expressão de quem achava aquela situação inconveniente e, antes de consentir com a entrada dele, puxou o xale para cobrir seu colo desnudo.

– Sr. Foster? O que faz aqui? – Parecia assustada.

Ele tirou a cartola e entrou, sentou–se em frente a ela e tomou suas mãos.

– Dorothy, não sei o que você pensa ou o que lhe contaram a respeito de mim e de Lady Buckley. Mas sinto necessidade de explicar que somos apenas amigos e nada mais que isso e que nunca eu e Suzanne seremos algo além de amigos. – Respirou fundo. – Não estou iludindo Suzanne, não estou tentando iludir a senhorita... A senhorita é minha inspiração para compor, a inspiração que faltava na minha vida...

– Henry, calma. – Disse ela trazendo de volta as mãos para perto de si. – O que Lady Buckley ou qualquer outra pessoa tenha dito não anula o que sei sobre seus sentimentos. É claro que me impressionei com sua carta. Nenhum rapaz na sua condição, podendo propor casamento a tantas jovens, comporia uma obra prima como aquela e dedicaria a mim só para iludir. O senhor vive a música, sente a música, a tem entranhada nos sentidos e como parte de sua alma... Eu sei como é se sentir assim em um mundo tão superficial. O senhor jamais usaria da música para ferir, tenho certeza e é por isso que o respeito e admiro profundamente.

 

Enquanto conversavam, era possível ouvir a orquestra executar “Serenade” de Franz Schubert.

– É um grande alívio ouvir isso. – Sorriu largamente. – Eu sou um completo tolo e só sei me portar feito um bobo diante da senhorita, mas me perdoe, alguém menos apaixonado agiria mais racionalmente, tenho certeza.

– Henry, a questão é mais delicada, acredito. – Pausou. Respirou fundo. – Sim, ouvi muitas coisas esta noite e algumas nada agradáveis. – Pausou. Olhou para fora. – Lady Buckley o ama. Ela não está apenas interessada em um casamento para somar riquezas, ela pode estar com o coração ferido. Ela e todas aquelas pessoas amigas, incluindo seus pais, só esperam que o senhor lhe proponha casamento.

– Mas como esperam uma proposta minha sem que eu tenha deixado isso claro?

– Porque, de certa forma, o senhor também não deixa claro que essa não é sua intenção.

Ele nada disse, mas por dentro se mortificava por não ter tido a coragem suficiente de desatar tantos mal-entendidos.

– Lady Buckley contou sobre uma viagem que fez com sua família a Berlim... – Agora ela demonstrava tristeza, fazendo Henry olhá-la com atenção. – Ela... Ela me contou sobre vocês terem sido namorados, foi esse o termo que ela usou... Que guarda um pingente que o senhor deu a ela e que tem suas iniciais... E que se casariam quando fossem adultos. – Baixou o olhar.

– Meu Deus! – Soltou a respiração com força. – Ela contou tudo isso?

– Sim. – Voltou a olhar para fora. – E com muito entusiasmo entre as amigas, nos contou que vocês já haviam se beijado algumas vezes em um piquenique na residência de seus pais.

Ele corou o rosto rapidamente e seus olhos pareciam querer saltar das cavidades oculares.

– Mas por que ela contaria coisas que poderiam destruir sua própria reputação?

A moça deu de ombros.

– Me perdoe por fazê-la passar por isso, Srta. Collins. Nunca pensei que eventos do passado pudessem voltar e causar danos...

– Os assuntos mal resolvidos sempre voltam, Sr. Foster. – Disse com firmeza.

– Sim, a senhorita tem razão, mas tudo isso foi há muito tempo, eu nem lembrava mais de tanto detalhes. Foi tudo pelo impulso da juventude, eu era muito imaturo, com baixa auto-estima ,pensava que nunca seria amado, que jamais alguma moça gostaria de mim... E fiz essas bobagens...

– Sr. Foster, não precisa se explicar, eu acredito no senhor. A mim, o senhor não deve explicações, mas sim a Lady Buckley. Afinal ela parece ter esperanças com relação ao senhor e ficou o tempo todo tentando me convencer de que vocês têm um compromisso sério. – Pausou. – Por favor, esclareça tudo com ela. Não quero que me julguem ou me acusem de ter sido a culpada pelo desenlace de vocês.

Ele passou as mãos por todo o rosto e depois por entre os fios do grosso e negro cabelo.

– Quanta confusão. Pensei que todas essas coisas fossem para ela bobagens, como são para mim, e que toda atenção que ela me exige seria apenas carência e mimos de moça rica... Eu juro para a senhorita que soube há poucos dias que Suzanne estaria aqui e que a vejo esporadicamente, em torno de 2 ou 3 vezes ao ano... Ela só pode estar querendo afastar a senhorita de mim. – Esbravejou.

Dorothy ouviu tudo em silêncio e respirou fundo.

– Agora eu preciso ir, Sr. Foster. – Baixou o olhar.

Ele, muito envergonhado, baixou o olhar e, novamente vieram as palavras do tio a sua mente.

– Dorothy, só mais uma coisa. – Olhou–a diretamente nos olhos e largou–se das formalidades. – Só me diga o que sente por mim realmente. Não consegui captar nenhum traço de esperança em seu olhar durante essa noite. – Respirou fundo parecendo buscar o máximo de coragem que tinha. – Se disser que tem, ao menos, metade dos sentimentos que trago por você, falarei com seu pai assim que tudo se resolver. Diga-me se nossa despedida em Pemberley doeu em você como doeu em mim, se desejou me ver durante esse tempo todo, se pensou em mim depois que recebeu minha carta...

Ela colocou a ponta dos dedos sobre os lábios dele pedindo que se calasse.

– Se eu não o amasse, nada do que eu ouvi esta noite teria me causado tristeza, pois não haveria em mim o medo de perder você. Se eu não o amasse, Henry, eu nem teria lutado para convencer meus pais a permitirem que eu participasse de uma festa que pouca relação tem com minha família. – Baixou o olhar. – Agora, me deixe ir embora. – Repetiu. – Chega de mágoas por hoje. – Disse quando os olhos carregaram-se de lágrimas.

Henry olhou-a por um tempo e levou a mão até a ponta de uma mecha de cabelo que se soltava do penteado. Nessa atividade, tocou levemente a pele desnuda de seu colo e percebeu que ela respirou fundo ao seu toque. Olhou para a boca pequena e sentiu que deveria beijá-la. Ele queria isso, ansiava por isso... Mas não seria o momento adequado.  

Tomado pela tristeza e com raiva de sua própria covardia desceu da carruagem, fechou a porta e se afastou. Sinalizou ao cocheiro e logo o viu sair de Rosings Park levando Dorothy consigo.

Ficou parado na rua de entrada, com a cartola na mão olhando o carro se afastar. Depois girou e olhou para o vasto parque às escuras e depois para dentro do salão onde via as tantas silhuetas emolduradas pela sombra das velas dançando ao som de Schubert e nem sabiam que em meio a tanta pompa e riqueza o coração dele doía tanto.

 

“A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor.“ – Lord Byron