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Conto - A Visita

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“Querido sobrinho,

Envio esta carta para informar-lhe da visita que farei à sua casa. Espero permanecer uns dias aí em Pemberley para vê-lo e verificar se sua esposa está exercendo bem seus deveres.

Sua tia, Lady Catherine de Bourgh.”

Essa, na verdade, não era uma carta, mas sim um bilhete. Mas esse era o estilo de Lady Catherine. Ela não precisava falar muito para dizer o que queria. E Elizabeth sabia que essa sua visita, como a carta minúscula dizia, não seria nada amistosa.

Fazia dez meses que estava casada com Darcy. Eles viviam em um clima de lua-de-mel, cheio de amor e mimos. Ele conseguia conciliar o trabalho e sua vida de casado, Lizzie desempenhava muito bem seu papel de senhora de Pemberley, e Georgiana, que há alguns meses havia sido apresentada à sociedade e estava noiva, morava com eles.

- Bom dia, meu amor – falou Darcy, espalhando beijos em seu rosto e fazendo-a sorrir docemente. - Está tão distraída, o que houve?

- Hoje é o dia que sua tia chega, e...

- E...?

- E que estou pensando no que farei para impressionar a minha estimada Lady Catherine. – sorriu maliciosa.

- Não acredito que está armando alguma coisa contra minha tia, sra. Darcy! – replicou ele, com a cabeça apoiada em uma das mãos. Durante o tempo em que conviveram juntos, desde o noivado ao casamento, ele aprendera muito sobre o humor sarcástico de sua esposa; às vezes até punha-o em prática.

- Não, sr. Darcy. Quem sou eu para fazer algo contra sua tia? O senhor acaba de ferir meu orgulho...

- E o que terei de fazer para curá-lo?

- Sinto informar, mas o senhor terá que recuperá-lo com milhões de beijos... – sorriu matreira para o marido e os dois tiveram um belo motivo para atrasar-se para o café da manhã.

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Quase à hora do almoço, Lizzie, que estava em seu quarto lendo, ouviu o som de uma carruagem que se aproximava. Ela, então, desceu até o hall de entrada e mandou que uma criada chamasse Darcy e Georgiana, que estavam no escritório e no próprio quarto, respectivamente. Assim, os três poderiam dar as boas-vindas à visita.

Darcy entrou apressado na sala, estava um pouco nervoso. Não sabia o que sua tia desejava fazer na sua casa, ela quase nunca ia a Pemberley. Ele foi até onde a carruagem de Lady Catherine estava parada enquanto Elizabeth e Georgiana o esperavam na entrada principal.

Ajudou sua tia a sair da carruagem, fez uma mesura e a cumprimentou. Ambos se dirigiram à entrada principal e Lady Catherine saudou Lizzie e Georgiana fria e formalmente.

O grupo se dirigiu até a sala de estar e após uma pequena e cerimonial conversa, a visitante se retirou para descansar em seu quarto.

Lizzie voltou preocupada para o seu aposento. Ela conhecia bem o temperamento de Lady Catherine e sabia que ela não os visitaria por educação ou por saudades de seus sobrinhos. Na verdade, ela viera visitá-los para tentar persuadir Georgiana a não casar, já que seu noivo era filho de um ex-comerciante enriquecido e sua família não tinha status algum.

Elizabeth já havia passado pela mesma situação e sabia o quanto era difícil ultrapassar as barreiras do preconceito da sociedade. Mas o que lhe tranquilizava era o amor que unia Georgiana e seu noivo, o sr. James.

Os dois se conheceram em um baile em Londres, quando Georgiana foi apresentada à sociedade, e se apaixonaram desde o primeiro olhar. Dançaram boa parte da noite juntos e no fim da temporada já estavam noivos.

Darcy, apesar de um pouco enciumado no começo, gostou muito da escolha que sua irmã fizera.

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À noite, preparou-se um jantar em honra à visitante. O noivo de Georgiana também fora convidado, já que vivia perto dali, em uma bela propriedade que seu pai adquirira perto do Derbyshire.

O jantar fluiu bem, apesar das incessantes perguntas feitas por Lady Catherine ao sr. James. Ela o questionara sobre tudo: sua família, negócios, educação, posses... – o que constrangeu aos demais presentes.

Quando já se fazia tarde, o sr. James cumprimentou os presentes e despediu-se. Sua noiva foi consigo até a porta, e ali puderam, enfim, conversar a sós.

- Philliphe, desculpe-me por minha tia.

Ele, tomando as mãos dela para si, falou:

- Meu amor, não há o que se desculpar. É normal que sua tia se preocupe com o seu futuro. Ela quer ter certeza de que casará com o homem certo.

Ela, ao ouvir aquelas palavras doces que acabavam de sair da boca do seu noivo - um lindo homem loiro, alto, com profundos e doces olhos verdes -, soube por que o amava tão intensamente. Ele não só era belo fisicamente, seu coração era-o ainda mais.

- Mal posso esperar pelo nosso casamento – disse ela sorrindo.

- Nem eu. – sorriu para ela, dando-lhe um beijo na testa. Logo entrou na carruagem e foi embora.

Quando retornava à sala de visitas, Georgie ouviu uma discussão que acabara de começar e resolveu ficar atrás da porta para saber do que se tratava.

- Darcy, você não vê? Ele não é o homem certo para ela! Filho de um ex-comerciante! Vocês querem é arruinar o nome da família Darcy! Um nome que seus pais e tantos antepassados lutaram para conquistar! Primeiro foi você, que se casou com essa senhorita que não tinha onde cair morta, além de não ter educação alguma!

- Eu não admito que fale assim com minha esposa, minha tia! – disse Darcy muito alterado. – A única pessoa que não consegue ver aqui é a senhora, que só pensa em dinheiro! O dinheiro pode sim, comprar muita coisa, mas há uma que ele não compra: o amor. A senhora não vê que sem amor somos medíocres, não temos nada? Não vê também o quanto sua sobrinha está feliz e o quanto meus pais ficariam, se estivessem vivos?

- Você não pode falar assim comigo, William. Onde está o seu respeito por sua tia? Retire o que disse!

- Não retiro – falou ele, com a voz um pouco menos alterada. – A senhora não tem o direito de querer estragar a felicidade de todos dessa casa.

- Nunca fui tão insultada na minha vida! Amanhã, ao nascer do sol, irei embora! E vocês, façam o que quiserem com suas vidas e com o nome da família! Depois não digam que eu não avisei!

Lady Catherine saiu da sala tão exasperada que não viu Georgiana, que estava atrás da porta, chorando. Ela entrou na sala, e Darcy, ao vê-la naquele estado, perguntou:

- Georgiana? Você ouviu tudo?

- Sim, meu irmão. Ouvi tudo. Obrigada por me defender.

- Eu só quero que você seja feliz. Além do mais, eu não defendi apenas a você, defendi também a mim, e a Lizzie.

Elizabeth não conseguia falar mais nada. Nunca tinha visto seu marido daquele jeito. Mas, apesar da surpresa, estava feliz. Finalmente Lady Catherine não iria mais se intrometer nas suas vidas.

- Oh, meu irmão... – Georgiana correu para Darcy e Lizzie, que estavam lado a lado, e deu-lhes um abraço. Nada os faria estragar a felicidade e a união que reinava naquela família.



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