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Namoro de Férias - Cap 17

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

A construção do complexo hoteleiro era um projeto direcionado a um público restrito que envolvia milhões e nem o grupo Darcy nem o De Bourgh poderiam encará-lo por si sós.  Além da associação entre os dois grupos nacionais, havia a participação de um grupo estrangeiro que entraria com parte do capital e com a promoção do empreendimento no exterior.  Darcy pediu à equipe agilidade nos trabalhos em função dos prazos apertados e ouviu de cada especialista um relatório sobre o andamento de suas atividades enquanto ele se ausentara.

 

Durante a reunião, Lizzy conheceu uma face de Guilherme Darcy com a qual não tivera contato até então: o profissional competente.  Ele era engenheiro por formação e pelo visto não costumava comandar seus empreendimentos apenas detrás de uma mesa de escritório, parecia preferir verificar pessoalmente todos os detalhes, como naquele caso. Informou a Fernando que desejava acompanhar mais de perto a pesquisa dele, principalmente quanto à possível existência de um sambaqui próximo ao local previsto para a sede do hotel, o que seria um sério obstáculo às plantas atuais.

 

Elisa se impressionou com a liderança e eficiência dele.  Estava explicado porque estava habituado a estar no controle das situações.  Mas também se lembrou do que Wickham havia contado e perguntou-se qual seria a atitude dele se o projeto fosse declarado inviável: insistiria assim mesmo, apelando para meios obscuros para que ele fosse aprovado?  Ela não se omitiria frente a semelhante atitude e estava em guarda contra o surgimento dessa possibilidade.

 

Ainda distraída com estas divagações, ela nem havia percebido que Darcy a chamava enquanto todos se levantavam, uma vez encerrada a reunião. 

 

- Elisa?

- Sim.

- Gostaria que ficasse mais um pouco.  Precisamos conversar em particular.

- Certo.

 

Qual era o problema? Ela seria dispensada? Tomara que não, estava apreciando demais a oportunidade de aprender e isto interferiria com a sua monografia já em andamento.  Mas não conseguia imaginar outros motivos pelos quais ele quisesse conversar com ela a sós. Aguardou pacientemente que ninguém mais estivesse presente e sentou-se mais próximo a ela, agora.

- Está gostando de estar aqui?

- Muito.

- Fico satisfeito. Seu trabalho foi elogiado pelo Fernando e ele é excelente no que faz.

- Eu também fico feliz.

Era só isso que ele queria dizer?

- Há outra coisa que eu gostaria de dizer. – Ele agora parecia reticente. – Gostaria que o que aconteceu em Alta Serra não interferisse em nossa convivência profissional, pois precisaremos estar juntos trabalhando por um bom tempo.

- De modo algum. Este é um assunto encerrado.

 

Ele a olhou enigmaticamente agora e Elisa especulou mentalmente qual parte do que acontecera em Alta Serra ele preferia que fosse esquecida. O beijo entre eles? Provavelmente.  Mas isso era impossível agora que o sentia fisicamente tão próximo.  Apenas reprimiria e controlaria a atração que sentia, decidiu.

- Então estamos resolvidos.  Boa noite, Elisa.

- Boa noite, Sr. Darcy.

 

***

 

No dia seguinte ele os acompanhou em uma incursão pelas dunas. Tinha fôlego de gato, assim como Fernando, e Elisa por vezes ficava um pouco para trás, precisando de uma boa dose de esforço para alcançá-los. O geógrafo também os acompanhou para averiguar o suposto sambaqui.

- Achamos que está por aqui, Darcy.

- Há alguma pesquisa prévia sobre o assunto?

- Que tenhamos descoberto, não.

- E vocês fizeram alguma escavação?

- Superficial, apenas o suficiente para encontrar indícios. Enviamos o material para o Museu Nacional para análise.

- E quando teremos a resposta?

- Daqui a quinze dias.

- Enquanto isso...

- Se fosse você, Darcy – disse Fernando – iria preparando a adequação do projeto para ganhar tempo.

- Você não imagina o quanto isso será trabalhoso.

- Há outra alternativa?

 

Darcy calou-se.  Elisa encarou o silêncio dele como uma resposta negativa.  Mas também poderia ser um risco de que buscasse outros caminhos menos éticos.  Esperava que não, todavia mais uma vez lembrou-se de que estaria alerta para protestar caso isso ocorresse.

 

Mais a frente, precisaram escalar outra grande duna.  Era cansativo, mas não havia outro meio de explorar a região. Por ser uma área de proteção ambiental, a circulação de qualquer tipo de veículo automotor era proibida. Num dado momento ela ficou para trás deles, e Darcy que estava por último, estendeu a mão para ajudá-la.   Apesar do calor, mesmo com o dia nublado, Elisa se arrepiou.  O simples toque físico da mão dele tinha o poder de lhe transmitir uma corrente elétrica. Ele teria percebido o que ela sentira? Não parecia, pois agora caminhava impassível ao lado de Fernando.

 

Ele deveria ter uma grande vivência com mulheres, pensou. Ela é que era uma boba inexperiente, se comportando como uma adolescente apaixonada, mesmo já tendo passado dessa fase.  Mas como dizia Charlotte, todos eram bobos quando realmente estavam amando. Amando?  Elisa estacou e resolveu consigo mesma que esta palavra não podia se aplicar este caso.  Quando deu por si, eles caminhavam novamente a frente e ela precisou quase correr pra chegar onde estavam.

 

Mais tarde retornaram ao hotel exaustos, especialmente Elisa, que se enfiou diretamente no chuveiro antes que sua colega de quarto chegasse e colocou um roupão leve bem confortável.  Depois disso colocou as pernas para cima e deixou-se ficar embaixo do ventilador de teto.  Alguém bateu à porta.  Quem seria a esta hora?

 

- Gostaria de sair para tomar um sorvete? Há uma sorveteria excelente aqui perto. – Era Darcy.  Mas com aquele calor depois de caminhar o dia inteiro por uma região parecida com um deserto o convite era irresistível.  

 

Elisa não titubeou.

- Vou me arrumar.

- Espero lá embaixo.

 

Seu coração estava batendo mais forte, Elisa constatou.  Coração tolo, pare com isso! Sentiu um frio no estômago ao pensar em ficar sozinha com ele de novo.  Todo o seu corpo estava consciente do risco que corria e o cérebro apenas registrava confusamente estas sensações. Ela se vestiu rapidamente, escolhendo um vestido de alças bem leve. Depois do dia inteiro andando de bermudas e camiseta, sentia vontade de trajar-se de forma mais feminina. Completou o conjunto com uma sandália de salto médio. 

 

Ao descer constatou surpresa que Paula e o casal de engenheiros também os acompanhariam. Não era propriamente um encontro romântico como chegara a imaginar. Não pode evitar uma leve decepção.  Mas afinal não era isso que queria: evitar problemas com Darcy? Preferiu deixar para pensar nisso depois, agora apenas aproveitaria a noite fresca para descansar.

 

Os sorvetes feitos de frutas naturais eram mesmo ótimos. Sentaram-se em uma mesa redonda, com Darcy ladeado por Paula e Elisa e a sua frente o casal de engenheiros.  Lizzy percebeu que Paula se insinuava sutilmente para Darcy e não conseguiu deixar de se incomodar com isso, embora ele parecesse ignorar as investidas dela.  Meu Deus, as mulheres pareciam se jogar aos pés dele o tempo todo.  Prometeu a si mesma que não seria mais uma vítima.  Lembrou-se das discussões que tiveram e do gênio difícil que conhecera dele. Isso serviu para aplacar o ciúme injustificável que sentia, porque afinal não havia nada de concreto entre eles. Retornaram ao hotel e ele se despediu normalmente de todos sem nenhuma atenção especial para ninguém.  Pelo visto, se dependesse dele ela estaria a salvo, pensou ironicamente.

 

O dia seguinte era sexta-feira, último dia de trabalho da semana, e Lizzy não viu Darcy pois ficou no quarto do hotel organizando os dados coletados no dia anterior.  Arrumou suas malas no fim do dia enquanto Fernando e os outros já haviam se despedido para ir embora.  Ela ficou por último.  Quando ela desceu para avisar de sua partida na portaria Darcy estava no saguão e levantou-se.

 

- Não gostaria de passar o fim de semana aqui, Elisa?

- Confesso que estou meio cansada para horas extras.

- Não é um convite de trabalho.

 

Ele a encarou firmemente. Perigo, perigo, perigo.  Percebeu o redemoinho de emoções que iria tragá-la.  Não conseguiu articular uma resposta.  Ele a encarava.

 

- Aposto que você só trabalhou e não teve tempo para se divertir. Eu ficarei perto daqui, em Búzios, onde tenho uma casa de praia.

 

Esse convite significava o que ela estava pensando? Ele continuou como se houvesse escutado seu pensamento:

- Não ficaremos sozinhos, não se preocupe, Fitzwilliam e minha irmã estarão lá, além de outros amigos.

 

Bem, isso parecia aliviar um pouco a impressão que tivera.  Embora não mudasse totalmente as coisas.  Mas e daí? Talvez estivesse na hora de correr mais riscos.  A vida passava e ela não sabia se divertir, como diziam suas irmãs mais novas.

- Eu não vou atrapalhar?

- Claro que não.  Gostaria muito que conhecesse Georgiana, minha irmã.

Ela não conhecia o famoso balneário internacional e sentiu muita vontade de ir. Atualmente suas condições financeiras não lhe permitiriam estes luxos, sabia que os pais estavam bastante sacrificados em função da baixa temporada, e a bolsa de estágio que recebia era suficiente apenas para suas despesas básicas. 

- Está bem. Já estou pronta pois ia tomar o ônibus para ir embora.

- Eu levo você em meu carro.  Vamos sair daqui a pouco para não ficar muito tarde.

Ai, ai, ai. Ainda bem que o trajeto não era longo!