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Namoro de Férias - Cap 22

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Em mais uma manhã bem fria de trabalho, Joana atendia uma pequena paciente que precisava de nebulização.  A mãe estava aflita com a falta de ar da filhinha provocada por uma crise alérgica, mas este costumava ser um problema corriqueiro e geralmente sem maior gravidade em Alta Serra devido ao clima úmido, especialmente naqueles dias, após chuvas constantes. A médica procurou tranquilizá-la ao mesmo tempo em que distraía a menininha com brincadeiras.

 

A médica se esforçava sempre para encarar cada um de seus pacientes como um ser humano em sua totalidade e não apenas meros corpos sem rosto. Isso a levava a demorar mais tempo do que o comum em uma consulta, observando e extraindo informações, algumas aparentemente desnecessárias, mas que lhe diziam muito sobre quem e o que ela precisava tratar. Pretendia nunca se deixar calejar pela profissão como vira acontecer em pouco tempo a alguns colegas. Por este motivo optara por ser uma simples médica de interior, exercendo clínica geral em uma cidadezinha como Alta Serra.

 

Contemplando a delicadeza de feições da garotinha de cerca de três anos, não pode conter uma grande onda de ternura invadi-la.  Se houvesse optado por outra especialidade certamente teria sido pediatra, pois adorava crianças.  Lidar com elas lhe despertava um profundo instinto de proteção e frequentemente fazia imaginar como seria ter seus próprios filhos, como acontecia agora.  O que lhe fez lembrar-se de Carlos. 

 

Tentava com muito esforço esquecê-lo completamente, mas algo ou alguém sempre parecia trazer à sua memória os sentimentos profundos que inegavelmente seu coração ainda alimentava por ele, mesmo contra sua vontade.   Seu temperamento tímido a fazia envergonhar-se de confessar isso a quem quer que fosse, porém mesmo tendo se relacionado por um período tão curto tinha certeza de que era o homem com quem desejava passar o resto de sua vida, mesmo depois dele magoá-la dolorosamente com sua indiferença. Se ao menos na despedida ele houvesse esclarecido que não poderiam continuar de forma clara, a dor das lembranças seria menor, pois era como se tudo houvesse ficado inacabado de alguma forma. 

 

Assim sendo, nada mais a fazer senão apagá-lo de sua mente, por mais difícil que fosse.  E mergulhar no trabalho era uma excelente forma de fazer isso.  Se Lizzy estivesse por perto também poderia desabafar com mais freqüência, o que certamente ajudaria. Sentia a ausência da irmã depois de anos morando juntas e pensou em telefonar-lhe naquela noite para conversarem. Ela não viera para casa naquela semana porque fora passar o fim de semana na casa de Guilherme Darcy e Joana estava ansiosa para saber de notícias. 

 

Retornando ao seu consultório, uma circular no quadro de avisos do corredor chamou sua atenção: era uma convocação para toda a comunidade participar da realização de uma audiência pública para aprovação do plano de um complexo hoteleiro da empresa De Bourgh na cidade. Este era o projeto no qual Collins trabalhara antes de partir. Avisaria Elisa, pois certamente ela gostaria de estar presente.

 

***

 

Carlos Bingley, mesmo a muitos quilômetros de distância, parecia estar sintonizado com as lembranças da jovem.  Fora um fraco, pensou, enquanto deletava mais algumas linhas do programa que estava editando no computador, incapaz de se concentrar.  Detestava reconhecer isso, mas muitas vezes se deixava levar pela opinião dos outros por pura insegurança, e depois ficava remoendo seu arrependimento sem conseguir consertar o erro cometido, como acontecera com Joana.

 

Depois de muito refletir chegara à conclusão que não importava se ela não sentisse o mesmo que ele, como sugeriram Darcy e sua irmã.  Deveria ter lutado pelo relacionamento dos dois, que estava apenas começando, mas ao invés disso se conformara em se afastar dela sem nenhuma palavra ou satisfação. Agora certamente qualquer emenda sairia pior que o soneto.

 

Fechou os olhos e sentiu o perfume suave dela como se estivesse ao seu lado de novo.  Os cabelos louros ondulados, os olhos claros, a expressão de seu sorriso, sua voz suave, todas as recordações pareciam se conjugar para torturá-lo mais uma vez.  Isto nunca acabaria, ao menos que ouvisse dela mesma que fora melhor assim. Não havia outro jeito senão procurá-la, por mais difícil que fosse.  E ele resolveu que não hesitaria em fazê-lo o mais rápido possível, mesmo que fosse irremediavelmente tarde para conseguir voltar atrás.

 

***

 

Darcy e Lizzy retornavam.  Ela se perguntava se todo o encanto do fim de semana se prolongaria agora que ambos iriam conviver em um ambiente de trabalho.   Ele continuava sendo carinhoso, mas os intervalos de silêncio entre eles voltavam a ser mais freqüentes.  Como proceder agora? Fingir que nada acontecera talvez fosse o mais sensato, apesar da idéia de mentir ou omitir em qualquer situação sempre incomodasse Elisa.

 

Quando chegaram ao hotel ele disse que estariam se despedindo porque ele precisaria ir para o Rio naquele dia e não sabia quando conseguiria voltar.  Deu-lhe mais um beijo ardente, sem se incomodar se alguém estivesse vendo.  Mas não disse nada sobre se comunicarem enquanto ele estivesse longe e Elisa achou por bem não perguntar.

 

Durante os dias que se seguiram o trabalho transcorreu sem maiores problemas a não ser pela investigação da existência de um sítio histórico nas dunas que poderia barrar o projeto, ao menos em parte.  Como precisariam aguardar as análises de laboratório para poderem tomar qualquer medida, prosseguiam nas atividades planejadas. 

 

A restinga possuía muitas espécies raras que Elisa e Fernando catalogavam para comprovar que esta área deveria ser obrigatoriamente resguardada dentro da concepção geral do resort de modo que houvesse o mínimo impacto ambiental possível.

Sentia-se mais sozinha do que antes, mesmo com a companhia dos companheiros de trabalho, inclusive de sua colega de quarto que se mostrava uma boa amiga agora que se conheciam melhor. Darcy não havia feito nenhum tipo de contato ainda. Será que ele não sentia a sua falta como ela a dele? Isso significaria que ela estava na lista das que ele descartaria após um único fim de semana? Estes pensamentos angustiavam Lizzy que chegou se recriminar por render-se a ele com tanta facilidade. Mas agira sob o comando de seu coração e não se arrependeria porque tudo que viveram havia sido absolutamente maravilhoso, e nada mais importava. Repetiria tudo do mesmo jeito, mas a angústia de não saber o que realmente se passara no coração dele a consumia.

 

Provavelmente fora isso que Joana sentira em relação a Carlos e ainda não havia conseguido superar após todo este tempo. A irmã havia ligado e lhe parecera um tanto triste, embora procurasse disfarçar. Avisara ainda da audiência pública em Alta Serra, o que interessou prontamente a Elisa, embora ela já planejasse passar o próximo fim de semana com sua família independentemente desta informação.

 

Estava não apenas curiosa sobre o projeto, mas desejava saber das suas reais dimensões e alcance, especialmente quanto à grande área de proteção verde que circundava a cidade.  Se fossem inteligentes o suficiente se esforçariam para preservá-la, pois era o principal atrativo turístico da localidade.  Porém se a visão fosse de curto prazo, como frequentemente acontecia, construiriam apenas pensando nos lucros imediatos.  Por isso desejava poder acompanhar e se necessário interferir naquele processo, se considerando pessoalmente responsável: afinal era a sua cidade e a sua família que poderiam ser afetadas.

 

Depois de intermináveis quatro dias, a quinta-feira chegou e só então Darcy deu sinal de vida em um rápido telefonema:

- Lizzy? Desculpe não ter ligado antes. É que pretendia encontrá-la pessoalmente e queria fazer uma surpresa.  Mas não deu pra ir, estive trabalhando demais estes dias , sinto muito.

 

Será que ele estava dizendo a verdade?

- Não tem problema, Darcy.

O que responder? Que havia pensado nele o tempo todo? Que seu corpo se remexia na cama à noite sentindo falta do dele? Que chegara a derramar algumas lágrimas pensando que ele nunca mais a procuraria? Tudo isso era verdade, mas ela não lhe diria:

- Também tivemos muito trabalho por aqui.

A frase soou mais fria e indiferente do que ela planejara, mas não queria dar espaço a ele depois de demorar tanto para voltar a falar com ela.

- Quero estar com você de novo.  O que vai fazer no fim de semana?

- Vou para Alta Serra como havia planejado antes. 

- Podemos nos encontrar. Posso ficar hospedado na pousada de seu pai.

- Claro. Mas entenda que eles não estão preparados para que nós fiquemos... juntos...

- Sim, Lizzy.  Mas com certeza conseguiremos dar um jeito.

Mais um silêncio em que ela não encontrou nada para dizer.

- Não imagina como senti sua falta durante estes dias. – ele prosseguiu.

Então porque não havia ligado antes?

- Eu... também queria estar com você. – balbuciou ela.

- Nos veremos amanhã à noite, está bem?

- Certo. Até amanhã, então.

- Até amanhã, Lizzy. E um beijo.

As últimas palavras foram pronunciadas em um tom sugestivo pela voz grave dele.

 

Elisa arrumou suas malas e partiu para Alta Serra, sentindo-se muito ansiosa. Por mais que não devesse esperar muito daquele relacionamento, havia esperado que os momentos passados juntos também tivessem sido especiais para ele, mesmo que em menor escala do que para ela. Mas talvez não fosse bem assim.