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Namoro de Férias - Cap 23

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

 

Tudo parecia estar em paz quando chegou à Fazenda Inglesa.  Maria, feliz por ter passado no vestibular, se preparava para morar no mesmo apartamento antes dividido por Elisa e Joana.   Catarina e Lídia continuavam as mesmas cabeças de vento de sempre e sua mãe andava mais falante ainda que o normal. Darcy ainda não havia chegado assim ela pôde prevenir pessoalmente seus pais quanto ao convidado inesperado.

 

- Este Darcy com quem você está trabalhando é o mesmo que nocauteou o George na festa? – Fanny Bennet reagiu com incredulidade à notícia dada por Elisa.

- Ele mesmo.

- E foi você quem o convidou, Lizzy?

- Mais ou menos. – como explicar à sua mãe... - Eu disse que vinha para cá e ele me perguntou se poderia vir também.

- Sei... – assentiu distraidamente Fanny enquanto dava os últimos retoques nos pratos que preparava para o jantar. - Está havendo alguma coisa entre vocês, não é? Por isso passou o fim de semana na casa dele.

- Não sei se posso dizer exatamente isso.  Estamos nos conhecendo ainda.

- Seus olhos estão brilhando.  Não pense que vai conseguir me enganar, menina!

 

A Srª. Bennet interrompeu seus afazeres e colocou sua mão direita no ombro de Lizzy usando um tom grave que ela não se lembrava de ouvir desde sua adolescência:

 - Só espero que esteja fazendo a escolha certa, minha filha. Ele me pareceu um tanto agressivo e autoritário.

Elisa não costumava conversar muito com a mãe sobre assuntos desta natureza e se surpreendeu diante da rápida percepção dela sobre os seus sentimentos.

- Não é nada sério, mãe. Fique tranqüila.

- Filhos criados, trabalho dobrado. Só vou sossegar quando estiver feliz ao lado de alguém que a ame.  O mesmo quanto a suas irmãs. 

 

Dizendo isso se afastou e foi tratar de outras providências para o jantar. As coisas que sua mãe dizia às vezes a faziam parecer uma personagem saída de um romance do século dezoito.

 

Quando Elisa foi falar com seu pai que estava com um funcionário na recepção surgiu um carro no caminho ladeado por hortênsias que dava na entrada da pousada.  Era um jipe importado preto no qual ela conseguiu vislumbrar um rosto à meia luz. Era Darcy. E não vinha sozinho, logo atrás em um carro esportivo havia outro hóspede: Carlos Bingley!  Ambos saltaram de seus carros e retiravam suas bagagens, enquanto Elisa meditava nas possíveis conseqüências desta segunda chegada imprevista.  O que Bingley pretenderia depois de todo este tempo? Como Joana reagiria? Não era possível que fosse apenas uma visita turística. Darcy foi o primeiro a se aproximar, dando um abraço e um beijo discretos em Lizzy e logo a seguir cumprimentando seu pai que assistia ao encontro dos dois com um olhar curioso e atento. 

 

Como era difícil para um pai aceitar os fatos da vida, pensou.  Sua menina se tornara uma mulher. Desejaria que ela nunca crescesse, para que sempre pudesse colocá-la em seu colo e ler histórias como quando era pequenina, mas o tempo era implacável.  Esperava que ela encontrasse a pessoa certa para ser feliz ao seu lado. Seria este?  As moças hoje em dia costumavam experimentar bastante antes de fazer uma opção definitiva.   Mas seria bom ficar de olho.  Não seria qualquer um que lhe tiraria as suas filhinhas.

 

Depois de acomodados, os dois visitantes juntaram-se à família Bennet para o jantar. Joana estava ausente por estar de plantão, o que era bem conveniente para que fosse avisada antes que visse Bingley novamente.  A Sra. Bennet, mesmo se surpreendendo com a presença dele, preferiu não demonstrar nenhuma contrariedade, afinal ele sempre lhe parecera um bom rapaz. Mas pensou consigo mesma que faria tudo que estivesse ao seu alcance para impedir que ele ou qualquer outra pessoa ferisse uma de suas filhas novamente.   

 

- Este jantar está delicioso, Sra. Bennet. – disse Carlos, como se ouvisse os pensamentos de Fanny Bennet a seu respeito.

- Boa parte do que servimos é preparado no fogão à lenha, que é a razão desse gostinho especial. – ela respondeu.

Durante alguns instantes só se ouviam os ruídos dos talheres.

- Resolveram não ficar no Castelinho desta vez? – indagou Lídia, quebrando o silêncio.

- Viemos apenas para o fim de semana. – disse Guilherme. – E está sendo um prazer conhecer a pousada, é muito agradável aqui.

-E saibam que esta é a opinião de um profissional do ramo.  Darcy é um especialista em construir hotéis. – acrescentou Carlos ajustando os óculos por cima do nariz.  Sempre fazia isso quando estava nervoso e mal podia se segurar de ansiedade antes de rever a filha mais velha dos Bennet.

 

O resto da refeição transcorreu em silêncio, quebrado apenas por comentários ocasionais de Bingley e do Sr. Bennet. Quando terminaram, foram para a ampla sala de estar dos hóspedes para tomar chá perto da lareira, pois o frio era intenso naquele final de inverno.  Carlos ardia de curiosidade em saber do paradeiro de Joana, mas não o fez, esperando apenas poder observar o mais rápido possível como ela reagiria à sua presença.  

 

Darcy aproximou-se de Elisa sentada em uma poltrona e abaixou-se para sussurrar ao seu ouvido:

- Alguma idéia de quando vamos poder ficar sozinhos?

Ela riu-se intimamente da imagem mental que fez dele se esgueirando pelos corredores do hotel para se encontrar com ela escondido de seus pais. De qualquer modo isto não funcionaria, pois a ala dos hóspedes era isolada da casa dos Bennet, para que eles tivessem mais privacidade.

- Nenhuma, por enquanto.

- Não estou conseguindo suportar olhar para você e não tocá-la.

Ele acompanhou estas palavras de um carinho suave no braço dela. Seu gesto chamou a atenção de sua mãe que passou a observá-los detidamente.  Lizzy admitiu para si que sentia o mesmo por ele, apesar de todas as incertezas que pairavam entre os dois.

- Depois combinaremos alguma coisa. - Na verdade ela preferia esperar para ver como as coisas correriam para só então de se entregar a ele de novo. - Mudando de assunto, o que Bingley veio fazer aqui?

- Quando disse que estava vindo ele me perguntou se poderíamos seguir juntos na estrada. Não sei de mais nada.

- Espero que não faça minha irmã sofrer novamente.

Darcy pareceu estranhar esta afirmativa de Elisa:

- Não sabia que o relacionamento entre eles havia sido tão sério. 

- Por favor, não comente nada disso com ele. Não quero complicar mais as coisas para Joana.

- Não desejo me ocupar de outro assunto que não seja você este fim de semana. Que tal irmos embora juntos no domingo?

- Sinto muito. Pretendo ficar para a audiência pública na segunda.

Neste momento, sua mãe caminhou em sua direção.

- Sr. Darcy, soube que minha filha passou o último fim de semana em sua casa.

Se Lizzy pudesse se esconderia debaixo do sofá depois deste comentário indiscreto de sua mãe. Mas Guilherme Darcy não pareceu perder a linha, respondendo concisamente:

- Sim, Sr.ª Bennet.  Minha irmã gostou muito dela.

- Então não estavam sós...

- Não, senhora.  Além de nós havia outros convidados.

Se queria saber destes detalhes porque não havia lhe perguntado antes?

- Lizzy foi criada à moda antiga, se é que me entende. Nada dessas loucuras que muitas jovens de hoje fazem.

- Compreendo perfeitamente, Srª. Bennet.

O que sua mãe estaria imaginando para dizer estas coisas a ele?

- Mãe, não sou mais criança há bastante tempo. – Atalhou ela, antes que a mãe dissesse mais alguma bobagem.

- Este é exatamente o problema. Na infância os filhos nos obedecem e nós podemos controlar aonde vão e com quem andam.  Mas depois que crescem...

 

Esta pareceu ser uma indireta demonstrando que ela desaprovava o relacionamento entre ela e Darcy, que se mostrava impassível, mas não devia ter ignorado a intenção da Srª. Bennet. Possivelmente a má impressão da mãe sobre ele surgira do incidente com George, mas nada justificava que ela a colocasse nessa situação embaraçosa.  

 

Neste momento, Joana chegou e todos os olhares pousaram nela, especialmente o de Bingley, Elisa sempre observara sem inveja que a irmã possuía o dom de estar bonita em qualquer situação, mesmo quando acordava com o rosto amassado após uma noite mal dormida.  E agora, quando usava apenas um jaleco branco com seu nome bordado sobre uma camiseta e um jeans não era diferente.  Seus cabelos louros caiam displicentemente em cachos suaves sobre seus ombros. Seus olhos claros estacaram ao ver Bingley e seu rosto empalideceu. Lizzy foi abraçá-la para que tivesse tempo de recobrar suas emoções.  Todos pareceram silenciar bruscamente diante da cena, o que só contribuiu para aumentar a angústia de Carlos, que levantou-se e tomou a iniciativa de cumprimentar a recém-chegada com um forte aperto de mão acompanhado de hesitantes beijos nas faces agora enrubescidas da jovem médica.  Que ela houvesse respondido positivamente a essa primeira abordagem era motivo bastante de alegria para ele, que sorriu aliviado sem conseguir tirar mais os olhos dela pelo resto da noite.

 

Aproveitando-se da comoção criada pelo reencontro de Joana e Bingley, Darcy tomou Elisa pela mão e levou-a para a varanda, onde a beijou ardentemente.  Oh, Deus, por que ela se sentia tão frágil nos braços dele? Se ele estivesse apenas brincando com ela desde o início, pouco conseguiria fazer ou dizer agora, pois a presença tão próxima dele entorpecia seu raciocínio.

 

- Lizzy... Está me ouvindo?

- O que foi? –  Ele dissera alguma coisa antes que ela não havia conseguido ouvir.

- Precisamos conversar. – Ele segurava seu rosto entre suas mãos e olhava bem dentro de seus olhos. O que teria a dizer?

- Pode falar.

- Desculpe não ter ligado logo para você.

 

Elisa ficou em silêncio e uma lágrima correu pelo seu rosto. Só agora se dava conta do quanto isso a havia magoado. Ele a aconchegou em seus braços beijando várias vezes seus olhos fechados.  Novamente por mais que quisesse ponderar sobre as possíveis causas da demora dele em procurá-la, tudo que conseguia pensar era que ele estava ao seu lado de novo e nada mais importava.   A custo se separaram, mas Elisa não se sentia à vontade para mostrar-se mais íntima dele do que já fizera em público e na casa de seus pais.

 

Na sala, Bingley esperou em vão pela oportunidade de conversar com Joana, que alegando cansaço recolheu-se logo para dormir, deixando-o na incerteza de como de fato reagiria quando conseguisse se aproximar mais dela.  Bem feito, ele mesmo era o culpado, de nada adiantava reclamar agora. De qualquer modo dormiria feliz com o simples fato de que ela não o houvesse rechaçado de primeira, o que o enchia de esperanças para o dia seguinte.

 

Quando Elisa subiu para dormir no mesmo quarto em que Joana, a encontrou em prantos com o rosto mergulhado no travesseiro.

- O que está acontecendo, minha irmã! Não fique assim! – disse ela sentando-se ao seu lado e afagando seus cabelos.

- Não consigo entender direito o que estou sentindo, Lizzy. Acho que ainda estou apaixonada por ele, isso é que é o pior.

Temperamentos como o de sua irmã, costumavam reprimir tanto os próprios sentimentos que quando eles irrompiam não eram capazes de compreendê-los, tal a força com que brotavam. 

- Darcy comentou alguma coisa sobre a vinda dele? – continuou entre soluços.

- Disse que ele pediu para acompanhá-lo quando soube que viria para cá.

- Ah, Lizzy, o que será que ele está querendo...  Eu estava fazendo tanta força para esquecê-lo e ele aparece assim do nada.  

 

Novamente Joana caiu em pranto convulso.  Ela realmente estava sofrendo e Lizzy sentiu-se ainda mais tocada por sua dor ao lembrar-se da depressão em ela entrara logo depois dele ter ido embora e nunca mais tê-la procurado.

- Só coloque pra fora o que está em seu coração, Joana.  E escute o que ele vai lhe dizer depois.  Agora vamos tentar dormir.

 

Mais pelo cansaço que por qualquer outro motivo, Joana não custou tanto a adormecer como Lizzy que rolou boa parte da noite na cama analisando os últimos acontecimentos, especialmente as desculpas que Darcy havia apresentado para não ter ligado.  O que estaria havendo com ele? Precisava despertar da letargia em que se encontrava e tomar uma posição mais decidida em relação ao relacionamento dos dois e decidiu que faria isso dali por diante.