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Namoro de Férias - Cap 26

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

Após o final da conversa com Elisa, Darcy levantou-se desnorteado diante de sua reação. Imaginava encontrar alguma resistência acompanhada da clássica predisposição feminina em discutir relacionamentos, mas não aquela barreira de hostilidade.  Se ela desejava puni-lo, havia conseguido. Suas palavras tiveram o efeito de um soco e se sentia tonto como se houvesse batido de frente com um muro.  Ela fora solidária com a irmã, o que era compreensível, embora seu papel houvesse sido absolutamente secundário.  Mas a menção ao nome de Wickham o desestabilizara, principalmente da forma como Lizzy o fizera.  O ciúme o consumia como nunca ocorrera antes. Só Deus saberia as mentiras contadas por George para que ela pensasse que ele era o vilão da história, mas o fato dela ter acreditado no cafajeste era o que mais o incomodava.  Nada mais restava a fazer exceto partir. 

 

Alcançou o hotel, subiu ao seu quarto e arrumou rapidamente sua pequena bagagem.   Carlos não estava e ele resolveu procurá-lo.  Quando desceu, avistou Joana vindo da direção da casa dos Bennet e decidiu cumprir seu propósito de esclarecer sua participação no rompimento entre ela e Bingley, mesmo que isto não fizesse mais diferença agora. 

 

- Joana! – ele a chamou acelerando os passos em seu encalço. – Poderíamos conversar por alguns minutos?

 

Ela não pareceu muito receptiva, mas mesmo assim assentiu positivamente indicando duas cadeiras na varanda onde poderiam se sentar. Ele sentou-se após ela, cavalheirescamente, e respirou fundo antes de começar.

 

- Acho que não adianta começar com rodeios.  Vou tentar ser o mais objetivo possível. Quando você e Bingley se envolveram no último verão, achei que não iriam passar disso.   Ele sempre foi volúvel e nunca havia se prendido a ninguém.  Mas ultimamente parecia decidido a buscar um relacionamento mais definitivo. O problema é que os sentimentos dele não aparentavam ser correspondidos com a mesma intensidade por você. 

 

Joana não dizia nada e seu rosto permanecia impassível.  Mas quem olhasse com mais atenção perceberia em seus olhos o turbilhão de emoções que aquelas recordações ainda lhe despertavam.

 

- A princípio estas foram apenas impressões pessoais que reservei para mim, sem revelar nada a ninguém.   Mas quando ele me procurou para se abrir sobre a insegurança que sentia sobre o relacionamento de vocês, fui sincero, embora sempre frisasse que somente ele e mais ninguém poderia avaliar de fato a situação para decidir o melhor para os dois.  Infelizmente, como sabemos agora, ele optou por se afastar.   Elisa me contou como você sofreu por causa disso e eu lamento muito.   Nunca sabemos de verdade o que alguém está sentindo e este tipo de suposição fatalmente nos leva a erros graves. – ele completou lembrando-se de Lizzy novamente.  

 

Joana continuava em silêncio, esperando que ele acabasse para dizer alguma coisa.

 

- Sei que não adianta muito depois de tudo isso, mas realmente lamento muito por vocês dois.  Eu estava enganado. Conheço Carlos e ele esteve apaixonado por você, desde o início.  Gostaria de pedir que o perdoe por nos ter dado ouvidos ao invés de lutar por seus próprios sentimentos.

 

A Drª Bennet achou que era hora de responder, mesmo que ele não houvesse terminado.

 

- Ele pediu que você me procurasse?

- De modo algum.  Ele nem imagina que estamos tendo esta conversa agora.

-Infelizmente não posso dizer que sinto muito por Carlos, pois independentemente do que qualquer um tenha dito ou deixado de dizer foi dele a responsabilidade pelo que resolveu fazer, como você mesmo disse.   Lamento pelos meus próprios sentimentos, mas também sou a única responsável por eles e é exatamente por isso que pretendo esquecê-lo.  Aliás, Sr. Darcy, acho que este conselho também servirá para minha irmã, que está chorando no quarto provavelmente por algo que aconteceu entre vocês.  Não há mais nada para dizer. 

 

Neste momento Carlos se aproximava a tempo de ouvir as últimas frases dos dois.   Percebendo a presença dele, Joana levantou-se e despediu-se de ambos.

 

Bingley sentou-se desanimado na cadeira onde ela estava antes.

 

- E agora, Will? Deu tudo errado para nós dois pelo que estou vendo.

- Nem me fale.   Eu estava procurando você para irmos embora.

- Parece que não temos outra escolha.

 

Ambos se levantaram e buscaram sua bagagem após fecharem a conta na recepção, na qual se despediram do Sr. Bennet que ficou a meditar sobre a saída tão precipitada dos dois.   Encontrou a resposta nos olhos vermelhos das duas filhas mais velhas, porém achou melhor não inquirir nada, esperando que elas mesmas lhe contassem quando quisessem.    A Srª.  Bennet, ao contrário do marido, despejou perguntas tanto sobre Joana como sobre Elisa a respeito da rapidez dos dois em partirem, mas as respostas lacônicas delas esclareceram muito pouco, por mais que ela insistisse. 

 

No caminho para casa, não muito distante ainda de Alta Serra, o tempo que era de sol brilhante transformou-se rapidamente em grossas nuvens que despejaram copiosa chuva, impedindo Carlos e Guilherme de seguir viagem. Eles pararam em uma loja de conveniência de um posto de gasolina:

 

- Darcy, daria qualquer coisa para não ter ouvido Joana dizendo que vai me esquecer.  Essas palavras não saem da minha cabeça. 

- Pois eu estou não tenho apenas algumas frases, mas um discurso inteiro ressoando nos meus ouvidos.  Você acredita que ela pensa que George Wickham foi injustamente prejudicado por mim?  Só pode ser porque ela ainda gosta dele.  

- Estamos mal, companheiro.  As mulheres estão acabando conosco. 

- O que você pretende fazer, Charles?

- Não sei exatamente.  Só tenho certeza de uma coisa: não pretendo me render sem luta.   Ainda vou tornar a procurá-la.  E você?

- Acho que tenho menos esperanças ainda que você.   Ela foi bem clara ao dizer que eu seria o último homem do mundo pelo qual ela deveria se apaixonar.  

 

Assim, com os olhos perdidos na estrada os dois permaneceram mais algum tempo até que a chuva arrefecesse e eles pudessem seguir viagem.  

 

***

 

Na manhã seguinte, Elisa encontrou no seu espírito os mesmos problemas e meditações que, na véspera, o sono acabara por vencer. Ainda não se recompusera da surpresa. Era-lhe impossível pensar em outra coisa e incapaz de encontrar uma ocupação que a distraísse, resolveu, logo após o café da manhã, trabalhar em sua monografia que estava atrasada diante da carga de trabalho que vinha cumprindo ultimamente.

 

Antes de qualquer coisa abriu sua caixa postal onde teve a surpresa de encontrar um e-mail de Darcy.   Pensou em não abrir, mas a curiosidade foi mais forte.   Eis o que dizia:

 

Não se preocupe.  Não vou insistir em nenhum assunto que tenha provocado  nossa discussão de ontem, exceto me defender de uma acusação que me fez.  Não sei o que George Wickham  disse, mas certamente não foi a verdade. Ele seduziu minha irmã quando ela era apenas uma adolescente, esperando dar um golpe ao se casar com ela.  Quando descobriu que ela não poderia dispor de nenhum de seus bens por estar sob tutela, abandonou-a grávida.  Ela perdeu o bebê e passou por um longo processo de depressão do qual custou a sair.  Felizmente agora retomou sua vida normal.  Mas eu não posso perdoá-lo por tê-la ferido. E também agora por ter contribuído para que nós nos separássemos.   Talvez se surpreenda por eu não lhe ter contado tudo isso ontem, mas naquele momento não tinha suficiente domínio sobre mim mesmo para tanto.  Se não acreditar apenas por mim que tudo isso é verdade, entre em contato com Fitzwilliam, que além de ser amigo da família também é executor do testamento de meu pai e ele vai confirmar tudo o que eu disse. Assinado: Guilherme Darcy.

 

Apesar de sua prevenção contra qualquer coisa que ele dissesse, Elisa lembrou-se de pequenos detalhes que corroboravam o que ele afirmava. George o evitara da primeira vez em que se encontraram e não havia se explicado convincentemente depois do soco que levara na festa.  Dispensaria qualquer confirmação de Fitzwilliam, pois se Darcy tinha defeitos, certamente não poderia ser acusado de mentiroso.   Sentiu-se envergonhada e confusa por ter sido injusta com ele neste particular.  Mas quanto ao restante, estaria errada?  Resolveu deixar suas preocupações pessoais de lado e mergulhar em seu trabalho.   Assim o domingo transcorreu celeremente e logo a segunda-feira chegou.

A audiência pública estava marcada para a tarde no salão do Clube Municipal, uma construção histórica dos tempos da ferrovia pioneira que havia originado a cidade.    Como a vila era inicialmente apenas um acampamento de operários, depois da inauguração da estrada de ferro houve a necessidade de se fixar parte deles no local para cuidar da manutenção do sistema. Assim, construiu-se a Estação Alto da Serra, que acabou sendo também o nome dado ao lugar.

A pequena estrutura efetivamente urbana se organizara em torno das casas de operários que circundavam a praça principal, divididas em ala dos solteiros e ala dos casados.  Os ferroviários que possuíam família, com esposas e filhos, habitavam casas com maior número de cômodos enquanto os solteiros moravam em casas mais simples compostas apenas por dormitórios, pequenas cozinhas e banheiros.   Era tal o rigor que se um funcionário solteiro fosse visto vagando pela ala dos casados era sumariamente demitido.

As casas habitadas pelos engenheiros e suas famílias eram de alto padrão. Grandes e avarandadas, foram construídas em madeira, com plantas baixas individualizadas, a maior parte localizada na rua central do lugar, chamada de rua dos ingleses.  No alto de uma colina, foi construída a casa do engenheiro-chefe, mais tarde apelidada de Castelinho, de onde toda a movimentação no pátio ferroviário poderia ser observada.  Os moradores viviam ali como uma grande família. A vila era bem cuidada, com ruas arborizadas e casas pintadas e muitos dos descendentes dos operários ainda moravam nas mesmas casas até os dias atuais.

Havia também um campo de futebol novidade no país para a época e nele um funcionário da companhia ferroviária inglesa havia jogado a primeira partida do esporte no Brasil. O centro de recreação onde eram exibidos filmes e realizados bailes temáticos transformou-se no Clube Municipal onde Lizzy havia chegado cedo para a reunião e se sentado em uma das primeiras cadeiras.

Os representantes da Incorporadora De Bourgh e algumas lideranças locais já se encontravam lá.  Collins chegou logo depois acompanhado de Charlotte que lhe fazia companhia.

- Lizzy! Tudo bem? Está sozinha?

- Papai foi ao posto bancário e já vem.

- E como foi o fim de semana com Darcy?

- Não foi, Char. - O olhar de Elisa para a amiga foi tão expressivo que dispensou mais palavras.

- Você quer me contar o que aconteceu?

- Outra hora, amiga.   Olhe só quem está chegando...

Catherine De Bourgh em pessoa, cercada por assessores, adentrava o salão neste momento. 

- O interesse dela deve ser grande mesmo para estar aqui hoje.

- Bill me disse que ele não concorda com a ampliação da área do projeto e defendeu este ponto de vista junto à diretoria, mas ela não costuma ouvir nada e ninguém quando decide alguma coisa.

- Também podemos ser bem teimosos se for preciso.   Quem é aquela moça de cabelos escuros e pele bem clara que está ao seu lado?

- A filha que trabalha na empresa com ela.  Mas infelizmente a mãe a anula completamente, ela é só uma figura decorativa apesar de ser uma profissional muito competente.

Thomas Bennet se juntou a elas neste momento.

- Quem é a rainha da Inglaterra?

- Esta é Catherine De Bourgh em carne e osso, pai.

Neste momento ela pareceu ouvir o que diziam sobre ela e dirigiu-se para onde estavam juntamente com a filha e o séquito de assessores.

- Como vai, Charlotte? Senhorita Bennet?  Não esperava encontrá-la por aqui.  Hoje não haveria trabalho para você?

O tom de voz glacial de Catherine era completamente diferente do tom amistoso que ela havia usado da primeira vez em que se encontraram.

- Na verdade sim.  Mas já o adiantei na semana passada para que pudesse estar aqui hoje.  Não perderia esta reunião por nada.

- Por Deus - disse Lady Catherine com um meio sorriso irônico. - Você exprime a sua opinião muito decididamente para uma pessoa tão jovem.

- Quando temos certeza do que estamos fazendo, somos capazes de ir às últimas conseqüências.  Concorda, Srª De Bourgh?

- Sem dúvida. Mas é importante estarmos certos de persistir na direção correta. Caso contrário, nossos esforços são inúteis.  – disse acompanhando suas palavras de uma expressão que não deixava dúvida de sua capacidade de esmagar qualquer inimigo. - Com licença, precisamos iniciar a programação.

Elas estavam dizendo muito mais nas entrelinhas do que qualquer um pudesse perceber prestando atenção apenas à parte verbal do diálogo. A postura altiva de Catherine De Bourgh tinha a intenção deliberada de intimidar não só Elisa como os demais presentes.  Mas ela não deixaria de protestar assim que chegasse a hora.

A audiência se iniciou com uma apresentação de slides muito bem produzidos sobre o projeto e sobre as empresas envolvidas.  Baseados apenas no que se assistia ao projetor, tudo parecia estar às mil maravilhas.  Mas quando começou a segunda parte da reunião, com a exposição detalhada dos planos que incluíam a expansão para a área de reserva, pontos obscuros propositalmente omitidos na explanação inicial vieram à tona.    Não havia um grande número de pessoas presentes além dos que compunham a mesa que presidia os trabalhos. A maioria da população parecia crer que não tinha com que se preocupar. 

Elisa mal podia esperar que fosse franqueada a participação aos presentes para poder se manifestar.   Inicialmente foram permitidas apenas perguntas, quando ela aproveitou para questionar sobre a legalidade de se dispor de áreas protegidas para implantação de loteamentos.  A resposta de um dos engenheiros da De Bourgh afirmando que isso seria inevitável a médio prazo e que portanto seria melhor que essa ocupação se desse de forma organizada, não a convenceu em nada.  Mas precisaria esperar o momento certo para apresentar suas contestações.

Após a etapa das perguntas, Catherine De Bourgh pessoalmente incumbiu-se de defender o projeto salientando que o mesmo fora integralmente concebido visando o progresso da cidade.  Quando ela terminou, os presentes puderam se inscrever para falar.  Lizzy foi uma das primeiras.

- Com todo o respeito a vocês, todos nós sabemos que usar parte da área do Parque das Nascentes é ilegal e vamos lutar por todos os meios para que isto não aconteça. 

Ela sabia que ainda havia tempo para isso, pois o projeto só poderia ser aprovado após esta consulta pública.  Mas também tinha consciência de que tudo estaria nas mãos das autoridades que dariam a última palavra. 

- Imagino que represente algum grupo organizado, Srta. Bennet. – tomou a palavra Catherine De Bourgh.

- Na verdade, sou apenas uma simples moradora da cidade.   Mas estou certa de que a maioria da população estará de acordo em entrar com uma ação junto ao Ministério Público assim que tiverem ciência da íntegra deste plano.

- Estamos e sempre estivemos abertos a qualquer pessoa que desejar conhecer detalhes de nosso projeto.   Mas esclarecemos desde já que todos os aspectos jurídicos foram previamente analisados por nossa equipe e nada está fora do rigor da Lei. – continuou a presidente do grupo De Bourgh.  Quem a ouvisse dificilmente duvidaria de suas palavras.  Ela era muito convincente, pensou Lizzy. 

- Aguardaremos que isso seja decidido pelas autoridades, concordam?

- O único efeito disso seria atrasar o início das obras, o que impediria que abríssemos oportunidade para muitos trabalharem.   Mas caso desejem fazê-lo mesmo assim, estamos preparados para o que for necessário.

 

Algumas outras pessoas se pronunciaram, tirando dúvidas ou expondo seus pontos de vista, nem todos em unidade com o que Lizzy dissera, mas quase todos reivindicando que fosse feita uma análise mais detalhada antes de uma última decisão.  Quando tudo terminou e foram embora, Lizzy se surpreendeu ao encontrar uma presença inesperada que assistia a tudo em silêncio no fundo da sala.  Era Darcy.