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Namoro de Férias - Cap 27

Escrito por Luciana Viter Ligado . Publicado em Namoro de Férias

O que estaria fazendo ali? Paralisada pela surpresa, Lizzy não conseguiu tirar os olhos dele por alguns instantes, até que recobrando-se da surpresa se deu conta de que provavelmente ele teria vindo por razões profissionais e baixou seu olhar. Mas seu coração disparado parecia não acreditar nisso.  Permaneceu de pé, aguardando que Collins viesse se encontrar com Charlotte e com os Lucas que haviam chegado depois de iniciada a reunião para ir embora com o pai.   Eles conversavam, mas Elisa não conseguia prestar atenção, pois quando levantou seus olhos outra vez encontrou os de Darcy que a fitavam atentamente. Ele deu um primeiro passo em sua direção, mas foi interceptado pela filha de Catherine De Bourgh que o abraçou afetuosamente, de forma íntima demais na opinião de Elisa, mas ela se lembrou de que não tinha nada a ver com isso, ainda mais depois da discussão que tiveram.  A voz de Charlotte a despertou de seu devaneio:

 

- Observe, Lizzy.  Catherine sempre sonhou com uma união entre a filha e Darcy para selar a fusão entre as duas empresas.  Na verdade o parentesco entre eles é bem distante, são primos em segundo ou terceiro grau.

 

- E ele? – Ela não devia se importar com isso, mas não conseguiu reprimir sua curiosidade e ciúme.

 

- Não sei dizer.  Mas olhando daqui eu diria que ele não parece muito entusiasmado com a idéia porque de dois em dois segundos olha para você.

 

- Houve uma discussão terrível, Charlotte. Não acho que seja possível retomarmos um relacionamento que na verdade nem havia começado de verdade.  – respondeu Lizzy pensativa.  – Sem contar que ele não parece querer nenhum tipo de compromisso com ninguém.

 

Agora Collins acabara de chegar e era tempo de partir.  Darcy ainda estava bem próximo da porta principal conversando com Anne quando Catherine De Bourgh se juntou a eles.   Lizzy preferia não se sentir como uma garotinha prestes a passar perto de seu primeiro amor no pátio da escola, mas era exatamente isso que acontecia.  Mesmo assim, encaminhou-se resolutamente para a saída, não sabendo ainda se tomaria a iniciativa de cumprimentá-lo ou se esperaria que ele lhe dirigisse a palavra.    Ele agora dizia algo a Catherine De Bourgh que lhe respondeu gesticulando bastante.  Quem sabe ele nem a visse passar?  Entretanto, quando Elisa ainda se aproximava deles, quem a chamou com um tom autoritário foi Catherine.

 

- Elisa, venha cá.  Gostaríamos de trocar algumas idéias antes que fosse embora.

 

Mesmo contrariada, ela não se sentiu com outra escolha a não ser atender ao pedido da empresária e lhe apresentou seu pai.

 

- Srª De Bourgh, este é meu pai, Thomas Bennet.

 

- Muito prazer, Sr. Bennet.  Soube que possui um charmoso hotel na cidade. Acho que o movimento trazido por nosso empreendimento só vai ajudá-lo.

 

- Gostaria de estar tão certo disso como a senhora. – respondeu ele com sua costumeira e fina ironia, que não passou despercebida a ela.

 

- Por favor, me chamem de Catherine.  Esta é minha filha Anne e acho que já conhecem meu sobrinho, Guilherme Darcy.

 

A filha inclinou-se gentilmente com um sorriso.  Apesar de sua figura acabar sendo apagada pela força inegável da presença de sua mãe, ela tinha um rosto delicado como porcelana, realçado por olhos cor de mel emoldurados por cabelos castanhos escuros.  Usava óculos o que lhe dava um ar ainda mais tímido, mas era alta e esguia como a mãe.

Darcy parecia intimidado e ao mesmo tempo aborrecido pela presença da tia e apenas inclinou-se em direção ao Sr. Bennet em aquiescência.

 

Catherine agora parecia voltar a desempenhar o personagem em que a conhecera em seu primeiro contato: segura e sofisticada, porém solícita e acessível. 

 

- Elisa, confesso que não estou habituada a ser confrontada desta maneira. Mas sei reconhecer uma oponente de respeito quando a encontro.  Espero que você entenda tudo que está em jogo aqui. Vamos nos reunir para conversarmos e evitar transtornos que não servirão a ninguém. 

 

Ela tentava claramente cooptá-la, mas Lizzy não poderia se negar a uma tentativa de diálogo. Sem dar-lhe tempo para responder, Catherine prosseguiu:

 

- Pode ser esta semana ?

 

Parecia que ela não havia sido demitida, pelo menos.

- Por mim está tudo bem. – respondeu Lizzy ainda reticente.

 

Todos acompanhavam com atenção o quase monólogo de Catherine De Bourgh que aparentava estar habituada a não dar espaço para ninguém responder ao que dizia.  Mas a expressão atenta e enigmática no rosto de Darcy era única.  O que ele estaria pensando disso tudo?

 

- Bem, ainda temos muitos compromissos hoje.  Vamos, Anne? – A grande dama despediu-se deles com uma quase imperceptível inclinação de cabeça, exceto para Darcy a quem saudou com um abraço maternal.   A filha que estava muda, apenas deu um sorriso educado e embaraçado e saiu calada.

 

- Nos vemos nos escritório esta semana, Guilherme. – Arrematou Catherine virando-se pela última vez antes de sair ladeada pelos seus assessores.

 

Lizzy e seu pai também fizeram menção de partir, quando a voz de grave de Darcy a interrompeu:

- Lizzy, espere.

 

Ela olhou para a mão dele que instintivamente segurava seu braço enquanto ele lentamente a retirava.

- Me desculpe. É que voltei só para falar com você de novo.

 

O Sr. Bennet que assistia a tudo intrigado resolveu deixá-los a sós, mas não sem uma advertência ao pretendente em potencial de sua filha.

 

- Elisa, se precisar de mim, vou esperá-la no saguão enquanto converso com Lucas.

- Está tudo bem, pai.

 

Thomas havia seguido sua fala de um olhar muito sério de alto a baixo para Darcy, que achou por bem apaziguar as coisas.

- Não se preocupe, Sr. Bennet.  

 

Depois que ele saiu, um breve silêncio caiu entre os dois, em que Darcy parecia tomar coragem para dizer alguma coisa a ela.

 

- Vamos sentar? – começou ele meio nervoso.

Acomodaram-se nas últimas cadeiras próximas à grande porta principal onde estavam antes. Ele torcia as mãos como alguém que não sabia onde colocá-las.  Desde que o conhecera, Elisa nunca o vira tão inseguro. Repentinamente ele saiu-se com este comentário inusitado:

 

- Este clube tem uma arquitetura muito bonita, tipicamente inglesa. 

- Sim, é um monumento histórico da cidade.

 

Mais algum tempo em silêncio e Lizzy não sabia mais o que esperar de Darcy que deu um longo suspiro e finalmente entrou direto ao assunto que queria tratar:

 

- Eu não fui embora, na verdade.  Paramos no caminho por causa da chuva por um bom tempo.  Foi quando mandei o e-mail para você.

 

Ele encarou Lizzy novamente e ela conseguiu ler um misto de tristeza e decepção em seus olhos que a fez sentir vontade de chorar.   

 

- Depois concluí que precisava esclarecer mais uma coisa pessoalmente. Carlos foi embora e eu resolvi ficar.  Aproveitei para caminhar e pensar bastante.  Andei pelos mesmos lugares onde nos encontramos, sabia?

 

Ele deu um meio sorriso melancólico e olhou para o nada antes de encará-la e prosseguir:

 

- A questão é que eu realmente não tinha conhecimento da extensão deste projeto, Elisa, e queria que você soubesse disso. A nossa participação se restringia à construção do resort.   Como não pretendo compactuar com a falta de limites de Catherine, acabei de desistir dela.

 

Elisa observou que ele não a chamava de tia.

 

- Mas é exatamente por conhecê-la que devo avisá-la que não será fácil enfrentá-la.

 

Ele voltara a ser o executivo eficiente que conhecera antes e o clima de intimidade entre eles não existia mais de novo.

 

- O que fazer então? – Ela retorquiu, sem compreender onde ele queria chegar.

 

- Agir com estratégia.  Comece reconhecendo o terreno: pesquise tudo sobre o projeto, agora que ele se tornou público. Além disso, busque aliados e se organize com eles, começando pela própria comunidade que você conhece bem por ter crescido aqui. Há uma outra pessoa que pode ajudá-la, se você quiser, é claro.

- De quem você está falando?

- De mim, Elisa.  Me sinto responsável de certa forma. – continuou ele. – Minha experiência no assunto pode ser útil a você.

- Muito obrigada, toda ajuda será bem-vinda. – ela tentou dar um ar natural ao que disse, mas sentiu as palavras saírem um pouco forçadas.  

 

Um outro intervalo de silêncio se fez e ela achou que não havia mais nada a ser dito. Quando levantou-se para ir a embora, quando Darcy a deteve colocando a mão dele sobre a sua que estava no braço da cadeira:

 

- Só mais uma coisa, Elisa.  Precisei juntar muita coragem para dizer o que vou falar agora: Perdoe-me, de verdade.  Não queria que tivesse sido assim entre nós dois.

 

Ele parecia realmente triste e Lizzy tentou segurar algumas lágrimas que teimavam em querer rolar pelo seu próprio rosto.

 

- Eu também não. Desculpe-me por tê-lo julgado mal em relação à Wickham.

 

Ele se aproximou suavemente dela para beijá-la, e estava tão perto que Elisa podia sentir o perfume cítrico que ele usava e o cheiro de sua pele quente.  Mas ela se afastou antes que o seu corpo assumisse o controle de sua mente mais uma vez.

 

- Mas isso que não quer dizer que seja é possível tentarmos retomarmos alguma coisa. – complementou enxugando discretamente o choro contido.  - Em algo você acertou: temos visões do mundo e da via bem diferentes um do outro. Acho que não daria certo mesmo.  De qualquer maneira agradeço por ter vindo e espero que possamos manter um bom relacionamento profissional. 

 

Como doía dizer isso! Mas era preciso.

 

Ele a olhou desconsolado.  A última ficha em que apostara fora derrotada.

 

- Entendo – disse sem muita convicção.. 

- Agora eu preciso ir. – levantou-se Lizzy, antes que fraquejasse. - Agradeço novamente por ter voltado e por tudo o que disse. 

 

- Por nada.  – ele levantou-se e Elisa mais uma vez notou como o porte dele era imponente como o da tia. - Gostaria de uma carona para ir embora? – Ele sentia muita vontade de estar ao lado dela, mesmo que ela não o aceitasse mais.

 

- Não, obrigada – mentiu ela. – Estou com passagem comprada. 

 

Era melhor evitar ficar a sós com ele ou acabaria cedendo aos apelos daqueles olhos azuis e sabia que não devia fazer isso.

 

- Está bem.  Acho que nos vemos no trabalho, então.  Até logo, Lizzy.

 

Ele se despediu apertando sua mão com firmeza e demorando alguns segundos a mais do que seria necessário, sempre sem deixar de olhar para ela e Lizzy sentiu seu rosto enrubescer.   Não ia ser fácil continuar trabalhando com ele mantendo distanciamento profissional depois de tudo que havia acontecido.

 

Ela foi embora, deixando-o sentado e abatido por trás de si.  Mas sabia em seu íntimo que embora não aparentasse, ela se sentia ainda muito mais entristecida que ele.  Por que o amor precisava ser complicado daquele jeito?